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ENGELLİ KAVRAMININ TANIMI, TESPİTİ VE GRUPLANDIRILMAS

8. BEDENSEL ENGELLİLERİN TANIMI VE GRUPLANDIRILMAS

8.4. Ortopedik Engell

De acordo com Le Blanc (1998, p. 14), construir um problema é crê-lo. Segundo esse autor, o objetivo da reflexão não deve ser inventar um problema novo ou uma nova solução, mas retomar um antigo problema “resolvido” e passar do questionado ao não questionado, do pensado ao não pensado, disponibilizando sua própria contribuição.

A Medicina contemporânea vive a época de ouro da automação, da teleassistência, das videoconferências, do compartilhamento de dados e informações on-line. Se o reconhecimento dos benefícios advindos dessa evolução é inegável, também essa frenética tendência normalizadora não deixa de preocupar. Na atualidade a Medicina empenhou-se em se tornar uma ciência das doenças e o doente foi colocado entre parênteses.

Apesar dos programas preventivos, da vasta diversidade de medicamentos eficazes disponíveis e dos grandes benefícios já obtidos, a asma ainda é a doença crônica mais comum da infância e seu controle continua representando um desafio.

Desviando-se da identificação de um psicologismo, como técnica auxiliar dos tratamentos, ao mesmo tempo em que se manteve a devida e necessária distinção entre as duas epistemes, Psicanálise e Medicina, procurou-se nesta tese identificar e discutir outra perspectiva dentro do que poderia vir a se constituir em uma prática médica que escape tanto dos limites da normatização científica quanto do empirismo.

A crítica à prática reducionista da Medicina, centrada apenas nos aspectos biológicos, não é novidade. Entretanto, ocupar o lugar de quem escuta, conforme advertem Ferreira e Fontes (2010), não significa sair distribuindo conselhos. Observe-se que um acosso interpretativo ou um aconselhamento pode ser tão danoso quanto uma mestria iatrogênica, que atropela valores subjetivos do indivíduo e rotula seus sintomas.

Procurando trilhar um caminho diverso, este trabalho resultou da apropriação, por um médico com formação em Psicanálise, de suas questões em relação à padronização de sua prática pelos protocolos e das dificuldades advindas dessa orientação tecnicista que não

prioriza os aspectos éticos da saúde. Ao deslocar-se de seu lugar de saber, foi possível “abrir uma janela de escuta” (FERREIRA; FONTES, 2010, p. 26) e privilegiar em ato, o silêncio e a fala de crianças e adolescentes portadores de asma não controlada.

Em decorrência desse deslocamento, abriu-se espaço para o inesperado, para o contingente, para aquilo que realmente tinha importância na fala de um paciente “não controlado”. Na posição de um profissional que não se restringe às orientações dos protocolos, foi possível ocupar o lugar do “não saber”, ou seja, buscar o saber que está com o paciente sobre ele próprio.

A sustentação dessa proposta apoia-se na demonstração de que a linguagem, via significantes, se inscreve como uma rede simbólica com efeitos constitutivos sobre o sintoma do sujeito e que a partir do manejo transferencial e do deslocamento nas posições constitutivas do discurso é possível ressignificá-lo. Nesse sentido, tomei duas operações lógicas propostas por Lacan (1998b, p. 194), alienação e separação, como constitutivas do ser falante frente ao Outro da linguagem. Os efeitos advindos dessa intervenção clínica, que pressupõe um sujeito estruturado a partir da linguagem, puderam ser observados nos fragmentos dos casos clínicos relatados, em que cada paciente, à sua maneira, passou a lidar melhor com suas questões. Evidências foram mostradas, especialmente no recorte do caso JB, em que uma criança de oito anos fortemente identificada ao significante “meu ursinho”, forjado pela mãe, pôde deslocar-se do lugar de objeto e localizar questões sobre si e sobre sua doença a partir de deslocamentos no discurso realizados no cenário de seu atendimento.

O teor dessa qualidade de escuta, que leva em conta aquilo que foi dito e o que foi silenciado, uma atitude que procura deslocar-se do cogito cartesiano, dá a exata dimensão do sentido e dos desafios estabelecidos por esse autor, que se propôs, especialmente nos casos “não controlados”, a permitir aos pacientes adentrarem sua história como sujeitos e se implicarem em suas queixas.

Supõe-se que no momento em que o paciente relata sua queixa, o fato de poder operar como quem o trata, como quem o medica, não impede que se possa aí também permitir um processo de subjetivação do próprio efeito da doença sobre ele. Não impede que se possa escutar do paciente o sentido que ele próprio dá a seu sofrimento. Dessa forma, concordo

que não é possível ser médico-psicanalista “ao mesmo tempo”, mas para um médico, depois da experiência com a Psicanálise, é também impossível deixar de sê-lo, desde a queda de sua percepção dicotômica do ser. Sim, aparentemente um paradoxo100 com o qual se opera101, ao considerar-se o fato de que em seu ato clínico o médico não é psicanalista, porém se ele passou pela experiência do inconsciente, não há como não se levar em conta essa advertência em seu saber-fazer clínico cotidiano, uma renúncia ao sentido que não exclui o conhecimento, tampouco sua condição enquanto sujeito.

Faz-se mister pontuar que, nessa disponibilidade de escuta, não se trata de psicologizar ou interpretar os ditos do paciente, mas de deslocar-se nos lugares do discurso conforme a sua demanda, considerando que, muitas vezes, o que está o incomodando não é dito a principio. Para Lacan (2001, p. 10), em sua Conferência no Hospital Salpetrière, em 1966, “é no registro do modo de resposta à demanda do doente que está a chance de sobrevivência da posição propriamente médica”. Sua afirmação permite pressupor que a escuta do paciente, o manejo da transferência e sua sustentação a partir de posições discursivas outras que não apenas o lugar do saber podem possibilitar o surgimento de um doente por trás da doença. E de um clínico no lugar de um médico que se emancipa das restrições da Medicina do olhar e também leva em conta em sua prática a dimensão fundamental da linguagem.

Nesse sentido, não se pode deixar de afirmar, com Del Volgo (2003, p. 18), que a Psicanálise não seja um discurso que favoreça o reencontro da Medicina com sua dimensão clínica. E do lado do médico, não é utópico pensar-se que não haja uma única saída digna senão aquela em que ele consente em dizer de sua prática, “em ser e tornar-se o sujeito de seus atos”, levar em conta o discurso e a linguagem no qual se dá a dor.

Na perspectiva de um mundo onde cada vez mais o progresso técnico-científico não se acompanha da reafirmação de valores humanos, sem respostas prontas, procurou-se abrir com esta discussão, uma outra frente na abordagem clínica aos pacientes crônicos, especialmente dos portadores de asma “não controlada”.

100 “Da mesma forma que o fenômeno da luz não pode ser descrita ao mesmo tempo como onda e corpúsculo,

não significa que não seja constituída ao mesmo tempo por uma e por outro” (GORI, 1998b, p. 171).

101 Essa questão remete ao manejo da transferência, considerando a transferência, ela própria, também

paradoxal, já que possibilita ao mesmo tempo a abertura ao trabalho e também fechamento, resistência (ROSA, M. Comunicação pessoal, janeiro de 2012).

Considerando-se a hibridez constitutiva do sujeito, as evidências deste, e de vários outros estudos, que salientam a associação de fatores psicoafetivos no desencadeamento e manutenção da asma, supõe-se que esses aspectos não devem ser excluídos do processo de elaboração de planos gestores do cuidado, e não apenas do bem-estar do indivíduo.

Neste momento em que o médico se vê inserido em um modo de ser totalmente subvertido e comprometido com o exterior, angustiado pelos limites da tecnocracia, espera-se que o trabalho produzido venha contribuir para a reinvenção da arte médica e para a modificação dessa situação demasiado insatisfatória para todas as partes, salvo para as indústrias que vivem dessa superoferta tecnológica.