ENGELLİ KAVRAMININ TANIMI, TESPİTİ VE GRUPLANDIRILMAS
8. BEDENSEL ENGELLİLERİN TANIMI VE GRUPLANDIRILMAS
8.3. Konuşma Engelli (Dilsiz)
–Mas você não é médica?
– Também! Marcamos novamente semana que vem? Surpresa, ela respondeu: – Sim!
Existe a tendência a se pensar que a posição médica e a escuta sejam inconciliáveis, exclusivas. Seja porque o médico que faz a escuta destitui-se de seus atos médicos ou
99 Complementar de um conjunto: a teoria avançada dos conjuntos foi desenvolvida por volta do ano 1872
pelo matemático alemão Georg Cantor (1845-1918) e aperfeiçoada no início do século XX por outros matemáticos, entre eles Ernst Zermelo (alemão – 1871-1956), Kurt Gödel (austríaco – 1906-1978), entre outros. Trata-se de um caso particular da diferença entre dois conjuntos. Assim é que dados dois conjuntos, A e B, com a condição de que B esteja contido em A, a diferença A - B chama-se, neste caso, complementar de B em relação a A. Simbologia: CAB = A - B. Caso particular: o complementar de B em relação ao conjunto
universo U, ou seja, U - B, é indicado pelo símbolo B'. Observe que o conjunto B' é formado por todos os elementos que não pertencem ao conjunto B (WIKILIVROS, 2011).
porque o profissional, como apenas “engenheiro da saúde”, privilegia sua técnica e negligencia a escuta. Ou, na contramão desse dualismo coagulado, não importaria mais discutir por que o médico se sentiria impedido e despreparado para assumir sua prática e seus atos, sua posição essencialmente clínica de escuta das palavras de sofrimento dos pacientes?
Isso não foi sempre assim, a Medicina em seus primórdios até o Renascimento era praticada como uma arte, em que se considerava o doente em sua totalidade. Na contemporaneidade, o médico buscou cada vez mais delegar a relação com o paciente a outros profissionais, agravando com isso a tendência à redução tecnicista de sua prática. Na atualidade, não é raro observar-se a dificuldade do médico em escutar a queixa do paciente, seu sofrimento que lhe é inerente pelo fato de ser humano (FERREIRA; FONTES, 2010, p. 19).
Nesse sentido, de que forma a Psicanálise (e não só a Psicanálise), uma prática clínica nascida de um impasse, de uma limitação terapêutica da Medicina, poderia ser de algum valor para o médico?
Considera-se que a distinção entre os dois métodos é necessária a fim de que um diálogo possa advir entre elas, não obstante a sua heterogeneidade. Assim, enquanto a primeira clínica, baseada no olhar, apreende o objeto por meio da observação e da descrição, a segunda baseia-se na escuta, cujo caminho do sintoma indica o sujeito, sua relação com seu próprio desejo.
Há uma passagem de Freud da clínica médica à clínica psicanalítica, caminho aberto por sua decisão em não recuar diante de casos de pacientes cujos sintomas não encontravam correspondência em uma alteração orgânica. Talvez não existisse a clínica psicanalítica se Freud não tivesse experimentado antes a clínica médica. É verdade que elas, em essência, são distintas, mas, inconciliáveis? Como práticas clínicas, que experimentam ambas a transferência, em algum ponto se tocam, se resvalam, o que lhes permite existir disjuntas e, ao mesmo tempo, inseparáveis.
Lacan, em seu texto de 1966, “O lugar da psicanálise na Medicina” (2001, p. 14), adverte os médicos do risco que correm ao abdicar de sua função clínica em prol dos avanços
tecnobiocientíficos. Para ele (2001, p. 10), nessa mesma conferência, “é no registro do modo de resposta à demanda do doente que está a chance de sobrevivência da posição propriamente médica”. Procura-se, com a recuperação dessa frase, identificar, mais uma vez, a possibilidade de fazer-se uso da palavra e da linguagem no âmbito da clínica, momento único, em que não se deve desconsiderar a aposta na eficácia de um dizer, da emissão de palavras, de uma verdade tal como ela se estabelece no reconhecimento de um sujeito pelo outro (LACAN, 1986, p. 129).
Considera-se que a prática médica sem a racionalidade de seu exercício pode ser tão cega, vazia e danosa quanto uma investigação científica sem o exercício da sua prática clínica. Tratando-se da clínica, Ferreira e Fontes (2010, p. 20) advertem que a relação médico- paciente deve ser construída uma a uma, caso a caso, como uma experiência que não pode ser aprendida passivamente, em transmissão vertical, mas desenvolvida no aprender a fazer, sem a exclusão dos fundamentos ou princípios teóricos. Um erro habitual, afirmam os autores, consiste em acreditar que esse aprendizado resulte de um processo pedagógico espontâneo, expondo médicos e pacientes a riscos.
Neste trabalho, onde busco compreender os limites do médico tanto quanto da ciência, apesar de ter me servido de minha experiência com a Psicanálise, não considero que este constitua um caminho único na busca de um “não saber”. Trata-se aqui muito mais do relato de uma experiência contingente.
Não constitui a proposta deste trabalho transmitir verticalmente ou pedagogizar algo do ensino de Lacan ou da obra de Freud. Mas, de expor publicamente algo da minha experiência clínica com o caso a caso no âmbito do atendimento ambulatorial a pacientes portadores de “asma não controlada”, momento em que, muitas vezes, pude fazer advir, com o meu deslocamento do lugar de “quem sabe”, o que pode haver de mais singular no sujeito: a palavra que dá sentido ao seu sofrimento.
Sobre esse lugar atópico e único, de um médico advertido pela Psicanálise, as críticas surgiram de ambos os lados, tanto dos “psis” como dos médicos. Assim, não somente decidi sustentá-lo, mas, também, testemunhá-lo, considerando a transformação que essa experiência determinou tanto em minha prática médica quanto na construção sintomática dos pacientes. “É preciso resistir” – exortou-me Del Volgo certa tarde em um café da
estação central de Marselha, onde, em decorrência de uma greve geral das universidades na França, em 2009, discutimos os casos aqui apresentados.