1. BÖLÜM
3.4. SİVİL İKTİDARA GEÇİŞ SÜRECİNDE ASKERİ VE SİYASAL
3.4.1.1. ANAP Hükümeti Politikaları
3.4.1.1.2. Ordu ve Siyaset Arasında Yaşanan Çözülmeler
As relações entre São Bernardo e Hugo de Payns, entre o Santo e a cavalaria trouxeram o problema da cristianização da militia e da militarização do cristianismo. Nesse sentido, antes de se converter em etapa de um processo, as origens do Novum
Militiae Genus e das Ordens Militares e Religiosas estão no ponto de tensão entre Igreja
e cavalaria. Considerar esta tensão nos levou a questionar a tranqüilidade e a positividade das tradições eclesiásticas, de suas práticas e ações que tinham como foco os milites. Como apontou Barthélemy (1994: 22), certas interpretações apresentam duas “idades” para a cavalaria: a primeira seria a ascensão e o destaque do miles na sociedade, marcada pela belicosidade, violência e excessos, e a segunda a pacificação ou moralização do miles sob influência eclesiástica.
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O esforço de Hugo em criar uma confraria, conscientizar seus pares e convencer São Bernardo a apoiá-lo constituíam indícios dessa relação, dessa política, que rediscutia e reconstruía o papel e as representações tradicionais da cavalaria na sociedade. Na medida em que Hugo Peccator enfatizava o merecimento de sua recompensa e afirmava a legitimidade do portar armas em defesa da sociedade, ele reforçara diante de seu tempo que a cavalaria era um ofício legítimo, sobre o qual não deveria pesar dúvidas ou receios. O que estava em jogo, tanto na carta de Hugo, quanto na exortação de São Bernardo era a identidade e a legitimidade dos membros da militia em um contexto cuja necessidade de seus esforços se fazia premente: as Cruzadas.
Assumindo que não fosse fácil responder se guerrear era ou não um pecado – ou como Hugo Peccator disse em sua carta: “um impedimento ao progresso maior” – e que os milites – nas palavras do bispo Gerardo de Cambrai: “essa gente ruim” – não tivessem uma posição unanimemente reconhecida ou bem vista na sociedade ou nas suas representações, a relação entre Hugo e São Bernardo foi também um evento. Todavia, esse evento não deve ser reduzido a uma decisão, uma guerra ou outro fato pontual, mas trata-se de uma “relação de forças que se inverte, um poder confiscado, um vocabulário retomado e voltado contra seus utilizadores, uma dominação que se enfraquece, se distende...” (FOUCAULT, 1979: 28). Hugo pretendeu convencer São Bernardo de que seus esforços militares não guardavam qualquer mácula ou pecado.
A apropriação que Hugo fez de elementos religiosos e a representação que São Bernardo realizou acerca do Novum Militiae Genus expuseram a dimensão da importância da cavalaria naquele período. Afinal, tratava-se de um miles que interpretava e utilizava os símbolos da tradição cristã e de um monge que louvava a tenacidade militar na Palestina e pretendia estender seu modo de vida ao miles, sem que este abandonasse as práticas de seu ofício. Não podemos esquecer a linguagem militar que São Bernardo mobilizara para definir o esforço monástico. Ao recortarmos as especificidades das relações sociais no seio da militia, as idéias de um miles e os símbolos militares formalizando práticas monásticas, não propomos inverter a afirmação de Lins (1958: 94) 62 e assinalar uma influência determinante da cavalaria e
de elementos militares frente aos eclesiásticos e suas práticas culturais e sociais. Propusemos acentuar o aspecto da relação entre Igreja e cavalaria, da interação e da
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influência mútua entre São Bernardo e Hugo de Payns como um problema político no qual era discutida e construída uma solução possível para as dificuldades da função e da conduta social da cavalaria.
Negar simplesmente o esforço de cristianização da cavalaria implicaria em negar a apropriação que São Bernardo fez da incitativa de Hugo de Payns e encobrir os interesses e as necessidades que moveriam o Santo a escrever seu tratado. Bernardo atendeu aos pedidos insistentes daquele miles, mas apresentou uma leitura própria não só da cavalaria, mas também das práticas militares relatadas por Hugo de Payns. Este
miles reivindicou a inserção e a justificação cavaleiresca frente à sociedade lembrando a
utilidade dos misteres mais humildes. São Bernardo exortou a militia estreitando os laços entre monasticismo e guerra, radicalizando a união entre as práticas monásticas e guerreiras. Há, no abade de Claraval, uma decisão tomada no sentido de justificar as práticas cavaleirescas de Hugo e de seus companheiros, mas também há a proposição de um comportamento mais cristão e santo aos milites em geral.
Encontramos um hiato entre São Bernardo e Hugo, uma distância que marca a especificidade de cada um. Os interesses e necessidades de São Bernardo – preocupação com a fragilidade militar do reino de Jerusalém, necessidade de mobilizar e cristianizar a cavalaria, problemas entre a autoridade do clero e o poder dos laicos, preocupação com o monasticismo etc. – sua perspectiva social e política forneceram elementos para explicar sua resposta àquele cavaleiro, a representação do Novum Militae Genus e a forma que assumiram. Confrontado com os interesses de Hugo de Payns, hesitando a princípio em responder a ele, São Bernardo assumiu uma posição particular frente às relações de poder entre Igreja e militia. O Santo acolheu e relacionou a cavalaria com a luta metafórica de Cristo. Ele reconheceu a sua dignidade e importância, mas pretendia estender a ela o modo de vida dos monges, intentando unir os dois tipos de miles Christi em um só – o do claustro e o da caserna.
Porém, se São Bernardo intentou cristianizar a cavalaria, não se deve obliterar que o próprio Santo, na época de seu tratado, tinha uma leitura militar de seu monasticismo. Da mesma forma, a própria cavalaria apresentava uma leitura particular do cristianismo. A carta de Hugo Peccator pode ser considerada como um exemplo importante disso que definimos enquanto um cristianismo militar. Perceber esses diversos elementos, expressões e contatos entre a cristianização da militia e a
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militarização do cristianismo nos conduziu a uma apreciação verossímil de parte das relações de poder entre Igreja e cavalaria durante o período feudal. São Bernardo e os Templários, nesse sentido, fizeram parte de um importante momento das relações de poder durante o século XII.
Intentamos fazer um aporte ao estudo da sociedade dos séculos XI e XII: a
militia e suas relações de poder. Em outras palavras, aquele período foi palco de
expressão da militia – dos dependentes militares e dos nobres que identificavam na guerra um dos pontos de apoio para sua nobilitas. A militia encontrou tensões com os poderes estabelecidos, sobretudo com a Igreja, gerando uma série de problemas e representações sociais que problematizavam e davam um lugar, legítimo ou não a cavalaria. Objetivamos abordar aquelas relações de poder analisando o exemplo de Hugo de Payns e São Bernardo. Entendemos que a concepção de guerra exposta pelo Santo no De Laude Novae Militiae não era meramente mais um esforço estruturado do clero para impor um modo de vida à nobreza secular. Aquela concepção foi, em princípio, o equilíbrio tênue, pois poderia ser contestado pelo seu interlocutor, que São Bernardo encontrara após ser interpelado por Hugo de Payns a respeito dos seus problemas e de seus companheiros. Um equilíbrio tênue e constituído com dificuldade na medida em que recordamos os posicionamentos cavaleirescos de São Bernardo perante sua família e seu titubeio diante do pedido daquele cavaleiro.
Em suma, o problema político que se colocava no encontro das necessidades daquele grupo de milites e da posição assumida por São Bernardo era exatamente o de constituir ou conceber a inserção, o dever, as representações e a participação da cavalaria no meio social. Ao pensar e problematizar esses três aspectos, em conjunto – inserção, dever e representações – Hugo de Payns e São Bernardo – na idéia de Novum
Militiae Genus – estavam discutindo ou rediscutindo a identidade sócio-política da militia. Logo, a afetuosidade bernardina perante o pedido de Hugo de Payns não pode
fazer esquecer a recalcitrância de São Bernardo diante da militia. Hugo e os Templários marcaram, portanto, uma virada significativa na postura bernardina diante da cavalaria.
Frente à importância social dos símbolos e do ofício cavaleirescos na sociedade dos séculos XI e primeira metade do século XII – como demonstramos – não são de estranhar o esforço de um de seus membros e a adesão de um abade no sentido de reconhecer e firmar um lugar social para a cavalaria. Além disso, o Santo, em seu
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diálogo com Hugo de Payns, foi capaz de reconhecer na militia uma sacralidade que adviria, não de uma unção – como no caso dos bispos e reis – mas da praxis militar e monástica. Se Hugo foi um móvel para as representações bernardinas, estas foram constituídas de um lugar específico e correspondendo a interesses específicos. Em outras palavras, se Hugo convenceu e ofereceu para São Bernardo uma segurança quanto às práticas cavaleirescas, estas foram confrontadas com o monasticismo cisterciense do abade de Claraval e traduzidas de acordo com a sua perspectiva.
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