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Küreselleşme Sürecinde Ulus Devlet Anlayışı ve Orduyla İlişkisi

1. BÖLÜM

3.5. ULUSLAR ARASI SİSTEM AÇISINDAN TÜRKİYE

3.5.2. Küreselleşme Sürecinde Ulus Devlet Anlayışı ve Orduyla İlişkisi

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04. A relação entre práticas monásticas e práticas senhoriais na representação de São Geraldo de Aurillac

Evidenciadas as características fundamentais do discurso bernadino quanto à

militia, voltemos então nosso olhar novamente para a Vida de São Geraldo de Aurilac.

O que destacamos na Vita Geraldi, por hora, não é tanto a conduta laica bondosa apresentada por Odon no século X, a qual nós tivemos a oportunidade de explicitar nos dois primeiros capítulos. O ponto principal é verificar a maneira como práticas monásticas e militares foram abordadas e relacionadas na representação que Odon construiu em sua hagiografia. Ressaltamos que, assim como São Bernardo, Santo Odon também era um abade, conhecedor da regra monástica de São Bento. Além disso, o abade cluniacense também problematizara a cavalaria. Trata-se, portanto, de uma comparação possível e justificada.

Segundo Duby (1989: 202), a Vita Geraldi foi uma inovação na medida em que o tema principal residia na vida de um conde, não de um rei ou prelado. Para Duby, este texto apresenta-se como reflexo do “mutacionismo” político que teria atingido as “estruturas de poder carolíngias” em benefício da descentralização feudal. Ou seja, o enfraquecimento dos últimos reis carolíngios e seus oficiais diretos seria acompanhado por um fortalecimento de seus vassalos, refletido no tema e na personagem escolhidos por Odon. Qualificado na hagiografia como miles, ou cavaleiro, Duby supôs uma mudança de atitude do clero quanto à cavalaria, cuja relação com a nobreza ou a

nobilitas se tornaria mais estreita.

De forma sucinta, como destacou Barthélemy (1994: 18-35), certos historiadores, como Duby (1989), afirmaram ter havido uma mutação nas estruturas políticas e sociais por volta dos séculos IX e X: a ascensão de novos indivíduos, beneficiados pelo enfraquecimento da antiga aristocracia, contribuiria para a associação estreita entre o direito de fazer guerra e a nobreza. Segundo os mutacionistas, antes dessa mutação, a noção de nobreza se associaria à consciência do sangue familiar de antiga origem e não ao direito de portar armas ou realizar guerras.

A despeito dos limites e das contribuições do que se chamou “a escola mutacionista”, a historiografia tem percebido o texto de Odon enquanto expoente de uma filosofia política (PACAUT, 1986: 86-87). Além de demonstrar o fortalecimento e o enobrecimento da cavalaria, Duby (1994: 119) afirmou que tal texto era um

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reconhecimento das virtudes laicas, pois Geraldo alcançava a santidade sem ter que abandonar seu estado. Mesmo que Geraldo, como será demonstrado, apresentasse uma ligação com práticas monásticas e se visse tentado a abandonar a vida secular, ele permanecia na condição de conde que exercia, de uma forma curiosa, o ius militiae – o direito da cavalaria.

Todavia, Barthélemy (1994: 40) discorda de Duby na proporção em que propôs que aos milites, antes de Odon, jamais faltou certa honorabilidade. Além disso, ele observa que o personagem da Vita alcançara a santidade por se manter afastado de uma cavalaria, cujo exercício seria exercido a contragosto. Barthélemy enxerga na Vita

Geraldi uma recusa das práticas cavaleirescas, pois Geraldo, como será demonstrado,

era muito pacífico, se recusava a derramar sangue e repudiava o luxo e, de certa forma, o exercício do poder. Ao discordar das proposições de Duby com relação à Vita Geraldi, Barthélemy apresentou observações consistentes.

Este historiador, por outro lado, pretende ligar Odon a São Bernardo enquanto vitupérios da antiga cavalaria: “a duzentos anos de distância, dois grandes monges guardam o século com o mesmo horror”! (BARTHÉLEMY, 1994: 40). Odon e Bernardo teriam a mesma perspectiva social e política quanto à cavalaria? Se Odon e Bernardo, em seus escritos representavam a recusa da cavalaria, então seu estudo seria restrito às canções de gesta ou a literatura cavaleiresca, tal como a Canção de Rolando, nas quais haveria um reconhecimento do luxo, do orgulho e do esplendor cavaleirescos? O estudo das representações políticas e sociais esboçadas pelos e para os milites seria interditado àqueles dois autores?

O problema que se evidenciou naquela observação de Barthélemy quanto ao De

Laude Novae Militiae dizia respeito à especificidade da representação militar construída

por São Bernardo. Em uma posição que difere daquele historiador, esta análise parte do pressuposto que Odon e Bernardo tinham diferentes perspectivas com relação à cavalaria. Da mesma forma, pelo menos no caso de Bernardo, é infundado falar em um “horror ao século”, sobretudo se consideramos os percalços de sua trajetória e de seu posicionamento quanto à cavalaria. Deve-se lembrar que o De Laude Novae Militiae foi também uma resposta ao miles Hugo de Payns, às suas inquietações e necessidades. Portanto, a comparação entre Odon e Bernardo justifica-se não somente pelos dois religiosos construírem uma representação sobre a cavalaria, ou pelos dois serem abades.

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Tal comparação mostrou-se como um instrumento útil para se apreciar a especificidade do Novum Militiae Genus e explicitar a singularidade do como e dos porquês daquela representação.

Em um trabalho recente, Barthélemy (2007: 132-141) demonstrou as possibilidades de análise da Vida de São Geraldo para pensar as relações dos monges com os milites daquela época. Ele se refere especificamente aos conflitos pelas posses e à proteção das propriedades eclesiásticas. Além disso, o mesmo autor observa que “Santo Odon não parece mentir ousadamente, simplesmente ele escolhe, embeleza e generaliza certos traços de seu personagem” (BARTHÉLEMY, 2007: 134). Observação pertinente que leva em conta o ponto de vista, a perspectiva de apropriação de Santo Odon e sua tradução da vida de Geraldo. Escolhas, embelezamentos e generalizações que se ligam intimamente à posição assumida por Odon perante a sociedade e as relações de poder de seu tempo e aos referentes culturais disponíveis e selecionados por ele. Se consideramos a existência de um habitus bernardino, evidentemente deve-se supor um habitus odoniano.

Texto rico em possibilidades de considerações sobre a sociedade dos séculos IX e X e suas relações de poder, dentro desse universo, serão analisadas a representação das práticas militares de Geraldo e a relação destas com as práticas de cunho monástico. Os trechos selecionados da Vita Geraldi dizem respeito à passagem de Geraldo da adolescência para a idade adulta, além de seus primeiros atos e problemas militares. Já foi mencionado o vigor físico de Geraldo e sua vontade de armar-se como miles. O personagem de Odon mostrava-se apto ao exercício militar. Contudo, o mesmo Geraldo apresentava qualidades, talvez vocações, que se distinguiam do ofício das armas. Habilidades para leitura, especificamente a leitura religiosa, aportavam a Geraldo outras virtudes além daquelas ligadas à prática da militia:

Mas o espírito do adolescente já passeara pela doçura das Escrituras, junto das quais respirava o zelo afetuozíssimo. Por causa disto, ainda que se destacasse nos ofícios militares, porém, era seduzido pelo deleite das escrituras, livremente vagaroso nelas pelo lazer e habituado na observância deste. Acredito nisso, pois ele já percebia que, do lado do testemunho da Escritura, “melhor é a sabedoria que a força”, nada é mais rico. Pois é facilmente visto a partir destes que a amam: ocupava a mente desse mesmo adolescente que se apresentasse primeiro diante dela e tivesse o doce consolo de sua meditação. Nesse sentido, por nenhum impedimento que não fosse voltado para a paixão de instruir-se pudera Geraldo ser apoderado. Daí é fato que conhecesse quase

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plenamente o encadeamento das escrituras e tanto mais quanto muitos clérigos sapientes no conhecimento delas 103. (VG: 69, trad nossa).

São Geraldo, assim como certos duques normandos e como certos condes de Carlos Magno, era um leitor. Alguém que se dedicava ao ócio do estudo bíblico. Este estudo fizera Geraldo chegar à conclusão de que valia mais “a sabedoria que a força”. Barthélemy (2007: 135), se baseando em outra passagem da Vita, observa que tal costume do estudo das letras foi oferecido a Geraldo, pois se evidentemente fosse menos

apto aos usos seculares, junto aos eclesiásticos seria entregue 104(VG: 69). Ou seja, a

Igreja recrutava, em parte, os “rejeitados da cavalaria” – aqueles fisicamente debilitados – como discutimos no exemplo de São Bernardo.

Para Geraldo, nas palavras de Odon, então, era mais importante a sabedoria que a força. Referência que sugere ou prediz a conduta posterior do Santo e a sua inquietação. Melior est sapientia/quam uires poderia representar o estabelecimento de uma oposição de práticas, ou de ofícios? Conhecedor das escrituras, o jovem miles Geraldo encontrava na sua meditação e reflexão conforto e consolação. Santo Odon foi enfático quando afirmara que, apesar das habilidades militares, Geraldo era seduzido pelo deleite das escrituras. Nesta passagem (Ob hoc licet militarib. emineret officiis,

delectatione tamen litterarum illectus), a palavra licet – que significa algo próximo de

“apesar de”, “embora”, “ainda que” (FARIA, 2003: 563) – em conjunto com o verbo no subjuntivo imperfeito – emineret – “se destacasse” – marcou no trecho uma distinção entre atividade militar e atividade religiosa. Distinção que se mostra clara na medida em que Odon dizia que Geraldo conhecia melhor as escrituras do que muitos clérigos sapientes.

103 Sed iam dulce scripturarum adolescentis animum subarrauerat, ad cuius studium affectuosius

anhelabat. Ob hoc licet militarib. emineret officiis, delectatione tamen litterarum illectus, in illis voluntaria pigritia lentulus, in huius sedulitate erat assuetus. Credo iam sentiscebat quia iuxta Scrpiturae testimonium, melior est sapientia quam vires, & nihil est locupletius illa. Et quoniam facile videtur ab his qui diligunt eam, mentem eiusdem adolescentis praeoccupabat, ut ei se prior ostenderet, ut esset dulcis alloquutio cogitationis eius. Nullo igitur impedimeto Geraldus poterat occupari, quin ad amorem discendi recurreret. Vnde factum est, ut propemodum pleniter scripturarum seriem disceret, atque multos clericorum quantumlibet sciolos in eius cognitione praeiret.

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