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1. BÖLÜM

3.4. SİVİL İKTİDARA GEÇİŞ SÜRECİNDE ASKERİ VE SİYASAL

3.4.2. Koalisyonlar Dönemi Askerin Siyasi Etkinliği

3.4.2.1. Doğru Yol Partisinde Tansu Çiller Dönemi

Consideramos as dificuldades encontradas pelo papado na construção de sua hegemonia sobre os assuntos eclesiásticos. Não é de surpreender os obstáculos postos à pretensão de tomar em suas mãos tanto o gládio espiritual quanto o temporal. A historiografia salientou os problemas do papado em exercer o controle sobre as investiduras dos bispos ou mesmo a proteção de sua própria eleição contra os humores e vicissitudes da nobreza laica. O controle imperial sobre a eleição episcopal e papal, além da iniciativa de moralização do clero partindo do Imperador, principalmente dos antecessores de Henrique IV (PACAUT, 1989: 55-61), deixavam evidente a situação incômoda do Papado no século XI. A justificativa da intervenção temporal assentava-se sobre uma convicção do poder Imperial enquanto protetor e promotor maior do cristianismo, um pouco em detrimento do Papa.

Além dessa convicção do poder Imperial, salientamos que a Igreja, ao enfatizar o dever régio de corrigir os homens e a si próprio enquanto atividade exercida com humildade, piedade e misericórdia, realizara um deslocamento das regras de governo. Não se tratava mais do rei simplesmente assegurar funções de disciplina e controle dos cristãos, mas, através da humildade exercida pelo justo e correto exercício seria capaz de alcançar uma alta virtude (SENELLART. 2006: 97). Ao intentar “humilhar” ou subordinar o poder régio, a Igreja proporcionou a abertura de um caminho para a ascensão daquele poder em termos sagrados. Além dessa promoção do poder régio, a unção conferida pela Igreja e que o tornava legítimo, proporcionou aos reis e imperadores um contato mais estreito com o sagrado.

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Em linhas gerais, podemos identificar dois aspectos das relações entre os poderes secular e eclesiástico que conduziram a uma sacralização do primeiro: o caráter humilde e subordinado, além de sua sacralidade proporcionada pela unção eclesiástica. A partir disso, o governo secular, que consistia para reis e imperadores em corrigir, julgar e proteger, vai implicar, para certos “monarquistas”, a tarefa de conduzir e dirigir o povo em igualdade com os eclesiásticos (SENNELLART, 2006: 106). Um ano após a segunda sentença contra o Imperador Henrique IV, em 1081, o jurista Pedro Crasso iniciou uma obra em defesa do Imperador e assim se referiu aos atos de Gregório VII e a pessoa de Henrique IV:

Na ofensa infligida ao rei Henrique, a insolência do Papa golpeou o autor da paz, os pregadores da paz, os protetores da paz (...). Defender uma tal culpa pela causa de Deus, não é outra coisa, a meu senso, senão que ofender a Deus para amor de Deus (...) Após ter reunido sobre a Sé Romana a licenciosidade e a concupiscência (...), ele tem mais menosprezado os decretos dos santos Padres, tido por nulas as leis e criado novas [leis] contrárias em tudo ao direito divino. (PEDRO CRASSO. Em defesa do rei Henrique. Apud: PACAUT, 1989: 80).

As palavras de Pedro Crasso levaram a mais uma indagação relevante: assim como o Papa, o Imperador era uma figura sagrada? Por volta do ano de 1100, um clérigo desconhecido que Kantarowickz chamou de o “Anônimo Normando”, escreveu alguns tratados que deixavam entrever a opinião do autor quanto às relações dos poderes estabelecidos e a imagem que ele elaborara sobre o poder secular. A opinião do Anônimo, revestida de um caráter antigregoriano e fortemente monarquista, mantinham-se em sintonia com os problemas das investiduras eclesiásticas e das querelas entre o Imperador Henrique IV e o Papa Gregório VII (KANTAROWICZ, 1998: 48).

Para efeito desta análise, o que importa reter do Anônimo e do estudo de Kantarowicz é a idéia através da qual a imagem do soberano, representada e traduzida na esfera político-religiosa enquanto a mescla de duas naturezas – uma divina e outra humana, uma sagrada e outra terrena – tornava-se similar a Cristo, que é uma pessoa, mas apresenta duas naturezas:

Assim, temos de reconhecer (no rei) uma pessoa gêmea, descendendo uma, da natureza, e a outra, da graça... Por intermédio de uma, pela condição natural, conformou-se com os outros homens; por meio da outra, pela eminência de (sua) deificação e pelo sacramento (da consagração), excedeu a todos os outros. Em relação a uma personalidade, ele era, por natureza, um homem individual; em relação à sua outra

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personalidade, era, pela graça, um Cristo, isto é, um Deus-homem. (ANONONIMO

NORMANDO. Tratados. Apud: KANTAROWICZ, 1998: 50).

Em outra passagem, o Anônimo Normando enfatizou:

O poder do rei é o poder de Deus. Esse poder, especificamente, é de Deus, por natureza, e do rei, pela graça. Donde, o rei, também, é Deus e Cristo, mas pela graça; e o que quer que ele faça, ele o faz não simplesmente como homem, mas como alguém que se tornou Deus e Cristo pela graça (AÔNIMO NORMANDO. Tratados. Apud:

KANTAROWICZ, 1998: 52).

Então, o poder do soberano, imaginado pelo Anônimo Normando, era constituído ou interpretado sobre a dualidade da própria natureza de Cristo, ou seja, o homem se tornava divino ou sagrado por sua unção e por sua sagração. Mas, diferente de Cristo, o rei ou o imperador não eram divinos desde o início, eles alcançavam a divindade posteriormente pelo rito em que eram elevados como soberanos legítimos. “Pessoa Gêmea”, a definição da pessoa e das naturezas de Cristo, associada com o rito da unção, fornecia subsídios para o entendimento das naturezas imperial e real.

Pouco mais de 120 anos antes do Anônimo, o poder soberano já era apresentado enquanto algo partilhado com a divindade. Uma representação pictórica do Imperador Oto II (fig. 03) o apresentava sentado em seu trono, com o escabelo de seus pés sustentado por uma figura antropomórfica que simbolizava a terra. Em baixo, são percebidas quatro figuras, que representavam altas personagens clericais (à direita) e leigas (à esquerda). Oto II tem tanto à sua direita, quanto à sua esquerda, outras duas figuras importantes, aparentemente reis ou príncipes. É verossímil supor que o artista pretendesse que o poder Imperial fosse o maior, tanto na esfera secular quanto na esfera eclesiástica.

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FIGURA 03. Oto II em majestade (Evangelhos de Aachen, c. 975). (Extraído de: KANTAROWICZ, 1998).

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Outro ponto relevante da imagem é o véu que passa no peito de Oto II e é sustentado pelas figuras que representam os quatro evangelistas. Esse véu pode ser entendido como o firmamento, que separa o céu da terra. Em outras palavras, fazendo uma alusão àquilo que Kantarowickz se refere enquanto cristomimetes – semelhança com a natureza de Cristo – o véu pode ser compreendido enquanto o símbolo que afirmava a dualidade do poder secular: com os pés na terra, mas ligado e ascendente aos céus (KANTAROWICZ, 1998: 61-63). Além disso, a mão de Cristo desce a cabeça de Oto II, seja como um sinal para abençoá-lo ou para diretamente colocar-lhe a coroa na cabeça. O Imperador, naquela figura, mantinha uma relação direta com o próprio Deus.

Não nos esqueçamos também do poder curativo dos reis franceses, que, a crer em Bloch (1998), a partir da segunda metade do século XI, livravam seus súditos do mal das escrófulas. Este poder ficou bem evidente em um relato do abade Guibert de Nogent-Sous-Coucy, que nos mostrara uma representação santificada do poder real de Luis VI – cujo reinado vai de 1108 a 1137 – a qual parece assegurar, ou contribuir para justificar a dinastia no reinado:

Que digo eu?! Não temos visto nosso senhor, o rei Luis [Luis VI], usar um prodígio costumário? Com meus próprios olhos, vi doentes que sofriam de escrófulas no pescoço ou em outras partes do corpo ocorrer em profusão, a fim de ser tocados pelo rei – toque a que ele ajuntava um sinal da cruz. Eu estava lá, bem perto dele, e até o defendia contra a importunação. O rei, entretanto, mostrava para com eles uma generosidade inata; afastando-os de sua mão serena, fazia humildemente o sinal da cruz sobre eles. Seu pai, Filipe, também exercera, com ardor esse mesmo poder miraculoso e glorioso. Não sei que erros cometidos por ele fizeram que o perdesse.

(GUIBERT DE NOGENT-SOUS-COUCY. Relato dos poderes do rei Luis VI. Apud: BLOCH, 1998: 53).

Nesse sentido, encontramos, no período que Kantarowicz destacou como cristocêntrico, o entendimento, pelo menos em determinados círculos ligados diretamente ao Imperador, do poder secular enquanto algo divino, sagrado. Além daquela cristomimetes do poder imperial, o poder real ganhava colorações santas, postando-se enquanto agente de curas miraculosas. Se o Papado afirmava sua esfera de influência, não só dentro do clero, mas nos assuntos seculares também, o poder secular absorvia um caráter sagrado e não só legitimava sua existência enquanto agente a serviço direto de Deus, como concorria com as pretensões pontifícias. Senellart (2006) chama nossa atenção para o fato de que a apropriação, por parte da realeza, de um

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discursso sagrado eclesiástico proporcionou um dos fundamentos para as monarquias nacionais a partir do século XIII.

04. São Bernardo nas relações entre os poderes secular e eclesiástico na primeira