1. BÖLÜM
2.4. OSMANLI İMPARATORLUĞUNDAN ULUS DEVLETE GEÇİŞ
2.4.1. Ulus Devletin Ortaya Çıkış Süreci
Concebemos as relações de poder entre Igreja e cavalaria pelo prisma do diálogo entre São Bernardo e Hugo de Payns. Logo, é necessário indagar a historiografia a respeito daquelas relações. Nessa parte, mobilizamos a leitura de três historiadores: Marc Bloch, Ivan Lins e Alain Demurger. Bloch é considerado uma das matrizes do estudo da sociedade medieval e da cavalaria (DUBY, 1989: 3-21). Lins é um intelectual brasileiro, já falecido, cuja obra de referência para os estudos cavaleirescos foi publicada em 1958. Demurger é um medievalista francês que atualmente publica seus estudos a respeito das Ordens Militares e Religiosas. Tomamos, portanto, opiniões sobre a cavalaria oriundas de pessoas diferentes, com formações diferentes, publicando em lugares e momentos diferentes.
Bloch em seu livro A Sociedade Feudal – publicado pela primeira vez em 1939 – apresentou, em determinado ponto da obra, aquilo que podemos definir como práticas culturais cavaleirescas – a relação da cavalaria com a guerra, a imagem do cavaleiro, o hábito da caça e dos torneios, as habitações etc. Se referindo aos torneios cavaleirescos, estes “simulacros de combate” nos quais os cavaleiros encontravam ocasião de se exercitar, o autor se referiu a eles como “festas mais cristianizadas do que cristãs” (BLOCH, 1982: 336). Esta observação é importante, na medida em que supõe a distância entre as determinações eclesiásticas e as práticas cavaleirescas. Aquelas seriam apropriadas e interpretadas de acordo com as posições e representações assumidas pela cavalaria. Bloch nos sugere, portanto, um cristianismo militar, ou seja que tem suas origens nos milites.
Demurger (2002: 15-24) identificou um longo processo de cristianização da cavalaria, no qual a Igreja se esforçou por sacralizar e integrar o cavaleiro na sociedade. O mesmo autor também demonstrou como essa sacralização não foi um termo sinônimo de justificação de toda militia, mas que a salvação do cavaleiro passaria por sua “conversão, por uma renúncia da secularidade” (DEMURGER, 2002: 24). A criação das Ordens Militares – como os Templários – seria o ponto final desse processo, “arrematando o trabalho de sacralização, bem como de integração dos cavaleiros à sociedade cristã”.
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Já Ivan Lins (1958: 94) destacou o esforço da Igreja em regulamentar a cavalaria, “associando a idéia de obrigações morais à de deveres militares”. Lins, baseado, sobretudo, na obra La Chevalerie, de Leon Gautier (1884) – um historiador do século XIX – acreditava que a Igreja elevara a cavalaria a uma espécie de “oitavo sacramento”, não sendo uma tarefa fácil “plasmar em cavaleiro cristão o rude homem feudal” (LINS, 1958: 94). Um pouco mais adiante, o autor associara a figura do índio Pele Vermelha ao cavaleiro, a quem apenas faltariam “as faces tatuadas e uma coroa de penas na cabeça” (LINS, 1958: 94). É notório o fato de Lins se basear em autores franceses do final do século XIX e não mencionar autores como Bloch ou Guilhiermoz (1902).
Seja Demurger, enfatizando o esforço do clero em disciplinar a cavalaria, ou Lins, na evidência de seu preconceito e ingenuidade na leitura das fontes eclesiásticas, ambos atribuem aos religiosos e à religião um papel determinante, senão impositor. Uma imposição, cuja observação de Bloch quanto às festas cavaleirescas nos fez duvidar do sucesso. Uma linha de tempo – na qual a cavalaria seria direcionada rumo aos caminhos considerados cristãos – foi insinuada por Demurger e por Lins. Há a valorização do longo processo de arregimentação e disciplinarização da cavalaria. Todas as ações e moções seriam estruturadas nesse viés. Lins (1958: 95) consegue mesmo identificar o ponto inicial e final desse longo processo.
Pensando nessa duração, que pressupõe uma progressiva extensão do ideal eclesiástico às camadas sociais, em particular à militia, São Bernardo, através do De
Laude Novae Militiae, seria um de seus componentes e expoentes. A própria carta de
Hugo de Payns aos Templários e sua iniciativa em 1120 – fundando uma confraria militar piedosa – demonstrariam a relativa eficácia daquele processo. Afinal, os próprios cavaleiros estavam se colocando à disposição da cristandade. Assim, segundo alguns eclesiásticos, que legaram uma imagem de barbárie para a militia, o ideal de cristianizar a cavalaria era pouco a pouco concluído.
A leitura de Lins acerca das relações entre cavalaria e Igreja atribui uma ênfase, até certo ponto exagerada, aos componentes de uma cultura clerical, ou seja, praticados pelos religiosos e tidos como corretos e incontestáveis. A sensação de imposição e determinação por parte da Igreja, que estende sua influência sobre a cavalaria em uma evolução linear, é bem clara nos nossos dois interlocutores – Demurger e Lins. Além disso, há uma discutível noção de sucesso associado às iniciativas da Igreja.
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De acordo com os autores, esse processo não foi tranqüilo. Posteriormente, Demurger (2005: 19) afirmou e retificou que o primeiro passo para a criação das Ordens Militares partiu de elementos da cavalaria, respondendo a suas demandas e seus anseios. Para Lins, as ações da militia vêem no sentido de brutalidade e barbárie pura e simples, como uma criança que precisa de seu tutor para amadurecer. Lins parece desconsiderar as especificidades das interações sociais nas quais os milites estavam inseridos e a influência ou a contribuição desses para as outras configurações sociais. Além disso, na relação entre Igreja e cavalaria, o autor atribuiu um caráter discutível às iniciativas e práticas cavaleirescas, sendo essas uma espécie de reflexo distorcido ou realização imperfeita da vontade eclesiástica, senão uma brutalidade pura e simples (LINS, 1958: 92-123).
Esse processo que intentou colocar os cavaleiros no rumo certo para o Paraíso, não pode, entretanto, encobrir a dimensão do conflito, da incerteza, das pressões e dos confrontos de interesses entre a nobreza guerreira e a nobreza eclesiástica. Logo, discutir a cristianização da cavalaria pela iniciativa de São Bernardo no início do século XII não deve obliterar a militarização do cristianismo e a experiência que o abade teve com a militia. É preciso pensar essa militarização no sentido de considerar as apropriações feitas pela cavalaria, bem como as apropriações que os clérigos faziam dela e de suas práticas. Como foi demonstrado anteriormente, São Bernardo, na sua juventude, teve uma experiência com a cavalaria cujas conseqüências ou frutos diferem de seus contatos e relações posteriores com os milites.
Falamos então, como Elias (1987), em uma teia de relações de poder na qual a um movimento segue outro, tal como no xadrez. Nesses diversos movimentos, a cultura sai de seu imobilismo estrutural ou de sua lenta caminhada e ganha uma fluidez que a transforma, modela, fortalece ou destrói alguns de seus elementos. É necessário, então, interrogar os milites e problematizar as relações sociais nas quais estavam inseridos, utilizando o longo processo exposto por Demurger (2002) e Lins (1958) como ponto de partida para o complexo jogo das relações de poder entre Igreja e cavalaria. Além disso – partindo de uma leitura crítica da obra de Lins – é necessário recuperar a cavalaria como sujeito histórico ativo, complexo e interativo e não como uma “criança mal criada” ou um “pele vermelha” – de acordo com uma leitura questionável dos ameríndios.
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Conceber a política enquanto relações de poder (FOUCAULT, 2002: 03-26) entre os diferentes sujeitos ou configurações sociais pressupõe a possibilidade de ação, capacidade de convencimento e mobilização por parte de dois sujeitos históricos, sejam indivíduos ou grupos. Colocando em questão a idéia de um processo de cristianização simples da cavalaria e de sua resistência pautada apenas em uma violência “indígena ou pueril”, considerada de forma negativa, trazemos o problema da militia, de sua “força” ou poder na sociedade de seu tempo. A idéia de militarização do cristianismo coloca em questão e faz repensar o processo de cristianização da cavalaria. Se o clero pensava a cavalaria, a cavalaria pensava o cristianismo.
O pressuposto da militarização do cristianismo nos ofereceu uma chave de análise para uma carta atribuída ao miles Hugo de Payns. Este miles se dirigiria aos seus companheiros cavaleiros. Examinaremos esta carta, mais adiante, enquanto vontade de inserção e de justificativa do oficio militar na sociedade. Inserção, justificação e também resistência. O miles, cujo labor era desqualificado e mal visto, tendo em vista um possível comportamento turbulento, indisciplinado, além da relação próxima com a morte violenta, utilizava os símbolos correntes no círculo eclesiástico para reivindicar sua posição no corpo social. O que Bloch chamou de festas “mais cristianizadas do que cristãs” alerta para as apropriações e adaptações que a tradição cristã eclesiástica sofria no cotidiano da nobreza guerreira.
Chamamos a atenção para a militia enquanto configuração social e ator político relevante, cujas pressões sobre a sociedade não incidiram apenas no que autores mais tradicionais chamariam de violência gratuita e selvagem. Mesmo quando essa ocorria, evidenciava algo mais do que barbaridade ou brutalidade. A violência cavaleiresca traz à tona as disputas pelas oportunidades de expansão e “sobrevivência” em uma teia intrincada e particular de relações de poder.
Ao aprofundarmos nosso enfoque sobre o miles Hugo de Payens, verificaremos a apropriação que um miles fez da tradicional organização social, intentando mobilizar seus pares e reivindicando reconhecimento. Essa apropriação, em conjunto com a linguagem militar que São Bernardo aplicou ao seu monastiticismo, evidenciam a força e a influência da militia ou da apropriação de uma cultura militar naquele período. Todavia, não foi suficiente deduzir essa força seja pela demanda de Hugo ou pelos escritos bernardinos. Assumindo a militarização do cristianismo como um fenômeno
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real – cujas evidências serão apresentadas adiante – verifica-se que ele se relaciona com a militarização das relações sociais ou de parte significativa de seus componentes, tal como auferimos anteriormente.
Deve-se ressaltar que não é necessário, para efeito de nossa análise, buscar a gênese desse fenômeno ou fazer um levantamento minucioso de suas causas, evidenciando uma preocupação exagerada quanto a questão das “origens” dos fenômenos históricos (BLOCH, 2002: 56-60). É suficiente identificar a sua existência e a sua expressão no final do século XI e início do século XII, ou seja, aproximadamente uma geração anterior a Hugo de Payns e São Bernardo. Identificar esse fenômeno nos deixa em condição de questionar o determinismo das decisões e da influência da cultura clerical e reforçar o caráter incerto e delicado dos posicionamentos bernardinos expostos no De Laude Novae Militiae. Movemo-nos, então, entre as interações e as representações sociais, sendo ambas palco das relações de poder.
03. A polissemia da palavra miles enquanto índice de militarização social: