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1. BÖLÜM

3.4. SİVİL İKTİDARA GEÇİŞ SÜRECİNDE ASKERİ VE SİYASAL

3.4.2. Koalisyonlar Dönemi Askerin Siyasi Etkinliği

3.4.2.2. ANA-YOL Dönemi

Identificamos, nos séculos XI e XII, pelo menos duas matrizes de pensamento político/religioso: a Teocracia e “Os Dois Corpos do Rei”. Cada uma, a seu modo, logrou êxitos ou sucessos no esquema do jogo político, mas também, tanto uma quanto outra, gerou acalorados debates, páginas e páginas de tratados legitimadores e polêmicas acirradas. Por se tratar de matrizes que buscam fundamentos e referentes, em grande parte, na tradição religiosa do cristianismo, será mais apropriado mencioná-las enquanto “doutrinas políticas” (CÂNDIDO DA SILVA, 2003: 244), sem, é claro, reduzir seu alcance ou seu interesse por causa de algum preconceito gerado pela palavra “doutrina”.

Evidenciar essas matrizes de pensamento e realizar considerações acerca da relação entre elas, sobretudo na exposição do regimen e do regnum, foi um trabalho relevante não apenas para caracterizá-las, mas também para examinar a apropriação que delas fizeram os sujeitos históricos. Voltaremos nosso olhar agora para a matriz Teocrática, examinando, especificamente, a apropriação que São Bernardo de Claraval fez de suas componentes, em particular da representação das relações entre os poderes secular e eclesiástico, dos próprios poderes e, mais adiante, dos milites. Como destacou Pacaut (1989: 85), o pensamento político de São Bernardo estava exposto em fórmulas um pouco rápidas e dispersas no conjunto de sua obra.

São Bernardo foi uma personagem bem ativa nos problemas enfrentados pelo clero, sobretudo pelo Papado, na primeira metade do século XII. Entre os anos de 1130 e 1138 a Sé Romana era balançada por um novo problema: um cisma. De um lado, Inocêncio II, o Papa considerado legítimo por São Bernardo e apoiado pelo Imperador germânico Lotário, de outro, Anacleto, Papa cismático, sustentado por poderosos nobres da Península Itálica.

A intervenção de São Bernardo nos assuntos gerados pelo cisma foi algo bem reconhecido. Além de interferir junto aos nobres influentes da Península Itálica, o abade de Claraval desempenhou um papel capital diante do povo da cidade de Milão em prol de Inocêncio II. Este Papa, após afastar e destituir o arcebispo milanês, temendo uma

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sublevação popular naquela cidade, enviou emissários a ela, dentre os quais figurava São Bernardo. Segundo Pacaut, baseado nos hagiógrafos do Santo, sua “reputação de santidade o precedeu na cidade” (PACAUT, 1993: 104). Aparentemente, Bernardo foi recebido com entusiasmo e logrou êxito na missão confiada por Inocêncio II. Um registro dessa passagem de Bernardo por Milão é uma carta escrita pelo Santo a seus cidadãos, provavelmente em 1136, na qual ele se posicionava quanto ao Papado e sua autoridade frente ao clero:

A plenitude do poder sobre as igrejas do universo foi dada à Sé apostólica por uma prerrogativa especial. Por consequência, quem resiste a este poder, resiste à ordem querida por Deus [Rom. 13,12]. Ela pode, se julgar útil, estabelecer novos bispados onde não existam ainda. Ela pode, entre aqueles [bispados] existentes, rebaixar uns e elevar outros, se a razão lhe dita, e é permitido a ela transformar os bispos em arcebispos (e o inverso também) se isto é necessário. Ela pode evocar e chamar junto à sua presença qualquer qual pessoa eclesiástica, não uma ou duas vezes, mas sempre que parecer conveniente 116. (BERNARDO DE CLARAVAL. Carta aos cidadãos milaneses. In: ARAGUREN & BALANO, v. 07, 1983: 492, trad. nossa).

Assim como Gregório VII, São Bernardo afirmara e reafirmara a autoridade e o poder do Papa, pelo menos daquele que era considerado “canonicamente entrante”, ou seja, legítimo. A figura papal tinha seu poder recebido direto de Deus e a extensão desse poder é algo legítimo, contra o qual ninguém pode se insurgir, sob pena de se insurgir contra o próprio Deus. Será que a consciência do poder papal de Inocêncio II estava seriamente ameaçada? Será que a autoridade de alguns bispos representava formas de resistência “à plenitude do poder da Sé Apostólica”? Considerando as palavras do Santo, podemos inferir que a imagem de Inocêncio II, frente ao clero e ao povo milanês, apresentava certa fragilidade. Com muitas dificuldades São Bernardo conseguiu assegurar o apoio de Milão à causa de seu Papa (PACAUT, 1993: 104).

Devemos destacar que, na passagem citada, a plenitude do poder do Papa, ao contrário dos Dictatus Papae e das sentenças contra Henrique IV, não ultrapassava a hierarquia eclesiástica. Segundo São Bernardo, aquela plenitude não se aplicaria, pelo menos em um primeiro momento, ao rei, ao Imperador ou a qualquer alta figura da nobreza leiga. Claro, a preocupação de São Bernardo naquela carta era exclusiva com o

116 Plenitudo siquidem potestatis super universas orbis ecclesias, singulari praerogativa Apostolicae Sedi

donata est. Qui igitu huic potestati resitit, Dei ordinationi resistit. Potest, si utile iudicaverit, novos ordinare episcopatus, ubi hactenus non fuerunt. Potest eos qui sunt, alios deprimere, alios sublimare, prout ratio sibi dictaverit, ita ut de episcopis creare archiepiscopos liceat, et e converso, si necesse visum fuerit. Potest a finibus terrae sublimes quascumque personas eccleiasticas evocare et cogere ad suam praesentiam, non semel aut bis, sed quoties expedire videbit.

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episcopado. Esta preocupação não o permitira realizar outras reflexões a respeito dos poderes seculares. Contudo, ao proferir todas aquelas palavras, São Bernardo não estaria salvaguardando ou reafirmando a exclusividade pontifícia frente aos assuntos eclesiásticos, contra, talvez, alguma ingerência secular?

O papel dos poderes leigos no mundo é um ponto relevante no pensamento bernardino. Alguns anos antes do Cisma, entre os anos de 1127 e 1129, um problema opôs o Santo ao rei francês Luis VI. Certo Estefano, que outrora havia sido chanceler do reino francês, quando fora eleito bispo de Paris, “se retirou da corte e procurou restringir os excessos do deão e do arquidiácono daquela sua igreja sobre o clero” (GIOVANDO, 1944, v. 12, t. 01: 316-317). Aqueles procuraram o rei Luis VI, o qual confiscou os bens de Estefano e de seus partidários. Tendo instituído um interdito nos domínios do rei, o bispo se retirou para a arquidiocese de Sens. Após um capítulo geral da Ordem monástica de Cister, São Bernardo e outras personagens eminentes tomaram partido pelo bispo de Paris e intervieram junto ao rei Luis VI:

O Rei do céu e da terra vos tem dado um reino aqui embaixo, e vos dará no céu se vos esmerais em administrar justa e prudentemente o que haveis recebido. Isto é o que desejamos e pedimos para vós, para que reineis aqui com fidelidade e lá com gozo. Porém, o que tem passado em vosso interior para que agora resistais tão duramente a essas orações que, se recordais, nos solicitavas antes com tanta humildade? Com que ânimo nós podemos nos atrever a levantar nossas mãos ao Esposo da Igreja, a quem assim contristais, como julgamos, sem alguma razão e com uma ousadia desconhecida? Visto que, ela mesma depõe contra vós sua queixa ante seu Esposo e Senhor, enquanto quem aceitara ser defensor, mantém-se agressor. Vós vos dirigis a este que vós levastes a ofensa? Não se trata do bispo parisiense, mas do Senhor do paraíso que é verdadeiramente terrível, e dos príncipes furta o alento [Sl. 75,12-13]. O Próprio disse aos bispos: Quem vos despreza, despreza a mim [Lc. 10, 16] 117. (OS RELIGIOSOS DE CISTER. Carta a Luis VI, rei dos Francos. In: GIOVANDO, v. 12, t. 01, 1944: 317- 319).

São Bernardo e outros religiosos cistercienses interpelavam o rei Luis VI lembrando os dons que Deus lhe teria dado e aqueles que lhe daria no céu. Os partidários de Estefano tentavam convencer o rei da injustiça de seu ato, destacando as orações que haviam feito em sua intenção e de sua família. Além disso, os religiosos

117 Rex coeli et terae regum vobis in terra donavit, donaturus et in coelo, si id quod accepistis, iuste et

sapienter administrare studueritis. Hoc est quod vobis optamus et pro vobis oramus, ut et hic fideliter, et illic feliciter regnetis. Caeterum vos quonam consilio eisdem nostris pro vobis orationibus (quas, si recolitis, olim tam humiliter requisistis) modo tam acriter repugnatis? Qua enim iam fiducia manus pro vobis levare praesumimus ad Sponsum Ecclesiae, quam ita, et sine causa (ut putamus) ausu inconsulto contristatis? Gravem siquidem adversum vos apud eumdem Sponsum et Dominum suum querimoniam deponit, dum quem acceperat defensorem, sustinet oppugnatorem. Attenditis iam cui ex hoc infensum vos redditis? Non utique episcopo Parisiensi, se Domino paradisi, et quidem terribili, et ei qui aufert spiritum principum. Ipse quippe est qui ad episcopos dicit: Qui vos spernit me spernit.

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destacaram a contradição entre o dever régio de defender a Igreja e o ataque contra o bispo de Paris. O objetivo da missiva era, por uma admoestação amigável e fraterna, segundo os próprios religiosos, demover Luis VI de sua obstinação contra aquele bispo. Contudo, os cistercienses, avisavam que, caso não fossem atendidos em seus apelos, recorreriam ao Papa com a pobreza característica de seu estado monástico:

Por outro lado, se nós, irmãos e amigos vossos, que cotidianamente oramos por vós, vossos filhos e reino, não somos dignos para nos receber, porém desdenhados, tenhais consciência que, a partir desta nossa pobreza, a qual em nós tem sido forte, não podemos abandonar à Igreja de Deus e aos seus ministros e certamente ao nosso pai e amigo venerável o bispo parisiense: o qual requisitou, contra vós, nossa humildade interpelante e nossas cartas ao senhor Papa, pelo direito da fraternidade e em seu benefício 118. (CLVIRF, v. 12, t. 01: 319-321).

Este episódio é particularmente importante por apresentar um ponto de contato entre o poder secular e o poder eclesiástico, ou melhor, um ponto de conflito entre esses dois poderes. A questão era primordialmente da esfera clerical, um problema entre o bispo, o deão e o arquidiácono. Por outro lado, os dois últimos recorreram ao rei Luis VI que não se constrangeu em intervir contra o bispo Estefano. São Bernardo e os outros abades, para socorrer Estefano, cumpriram o aviso expresso na carta a Luis VI e, através de suas cartas ao Papa, censuraram a conduta régia e demandaram uma solução para o problema. Esta carta, datada de cerca de 1129, é um exemplo da tenacidade bernardina em prol do clero e contra os “excessos” dos seculares:

Ao Soberano Pontífice Honório, os servos e se tal nome nos seja concedido, os seus filhos, Estefano de Cister, Hugo de Pontigne e Bernardo de Claraval, quanto é urgente apresentar-se ao seu reverendíssimo senhor e pai boníssimo.

Do fundo dos monastérios, onde nos tem conduzido nossas culpas, não esquecemos de pregar por vós e pela Igreja de Deus a vós confiada, enquanto apenas nos felicitamos com a Esposa de Cristo [a Igreja] por haver conseguido um [sim] fiel guardião, e como o amigo do Esposo pela sua fadiga despendida, mas de forma frutuosa. Deste lugar, é que com zelo e fidelidade viemos a informar a Vossa Paternidade dos males que com dores vemos nesse nosso reino cair sobre nossa Mãe [a Igreja].

Por aquilo que podemos julgar, nós que dele somos vizinhos, o Rei Luis persegue, não tanto os episcopais, quanto o zelo da justiça, o culto da piedade, e o hábito da religião dos bispos 119. (OS RELIGIOSOS DE CISTER. Carta ao Papa Honório. In: GIOVANDO, v. 12, t. 01, 1944: 339-341, trad. nossa).

118 Alioquin, si non meremur exaudiri, sed contemnimur, et nos fratres, et amici vestri, et qui quotidie

oramus pro vobis et filiis vestris et regno; ex hoc iam noveritis parvitatem nostram, in quibus valuerit, non posse deesse Ecclesiae Dei, et ministro eius, venerabili videlicet patri et amico nostro episcopo Parisiensi: qui nostram adversus vos humilitatem interpellans, nostras pro se ad dominum Papam iure fraternitatis litteras requisivit.

119 Summo Pontifici Honório, servi et (si digni iudicamur) filii, Stephanus Cisterciensis, Hugo

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A querela foi solucionada no concílio de Troyes em 1129, graças à autoridade do Papa Honório II e às pressões de São Bernardo, o qual conseguiu livrar o bispo de Paris das pressões do rei Luis VI. A interiorização ou a interpretação de problemas tais como o do Cisma de Anacleto e do bispo de Paris, aliada à bagagem ou ao capital cultural de São Bernardo, serviram para fornecer ao santo, já no final de sua vida, uma imagem segura, não só dos “poderes que soberanamente regem o mundo”, mas das articulações que deviam ser estabelecidas entre eles.

Nesse sentido, nos debruçaremos sobre o tratado intitulado De Consideratione, que provavelmente é a última obra realizada por São Bernardo. Escrevendo a pedido do Papa Eugênio III, que fora seu pupilo em Claraval, o Santo expressara nele toda a sua concepção acerca dos poderes estabelecidos e das funções que cada um deve assumir. Porém, o foco central do texto é a atividade papal, tratando de forma secundária e até mesmo rápida o poder secular:

Por mim, não reputo por justo apreciador das coisas a quem pareça indigno dos apóstolos ou dos homens apostólicos não julgar tais coisas, sendo certo que tem recebido o poder de julgar os maiores. Que muito tenham a menos o julgar das terras e ínfimas possessões dos homens os que no céu hão de julgar aos mesmos anjos? Logo, vosso poder se deve exercer sobre os crimes, não sobre as possessões, posto que para aqueles, não por estas, recebestes as chaves do reino de Deus, a fim de excluir os prevaricadores, não aos possuidores. Para que saibais, diz que o Filho do homem tem poder na terra de perdoar os pecados [Mt. 16, 19], etc. Que dignidade e poder vos parece maior: a de perdoar os pecados [Mt. 09, 16] ou a de dividir as heranças? Porém, não tem comparação. Estas coisas ínfimas e terrenas têm seus juízes, que são os reis e os príncipes da terra. A que fim vos introduzís nos termos de outros?120

(BERNARDO DE CLARAVAL. De Consideratione. In: LOS MONJES CISTERCIENSES DE ESPAÑA, v. 01, 1983-1990: 66-68, trad. nossa).

Refletindo sobre o papado e para o papado, São Bernardo conclui que não é uma atribuição digna do pontífice intervir em assuntos como divisões de terras ou de

in monasteriis, ad quae nos nostra peccata compulerunt, non cessamus orare pro vobis, et pro commissa vobis Dei Ecclesia: congaudentes et sponsae Domini super tam fido custode, et sponsi amico super labore tam fructuoso. Fidenter proinde atque fideliter vestrae Paternitati suggerimus, quae in regno nostro eidem matri nostrae dolentes cernimus adversari. Quantum quidem nos sentimus qui vicini sumus, rex Ludovicus non tam Episcopos, quam in Episcopis iustitiae persequitur zelum, pietatis cultum, habitumque ipsum religionis.

120 Mihi tamen non videtur bonus aestimator rerum, qui indignum putat Apostolis seu apostolicis viris non

iudicare de talibus, quibus datum est iudicium in maiorca. Quidini contemnant iudicare de terrenis possessiunculis hominum, qui in caelestibus et angelos iudicabunt? Ergo in criminibus, non in possessionibus potestas vestra, quoniam propter illa, et non propter has, accepistis claves regni caelorum, praevaricatores utique exclusuri, non possessores. Ut sciatis, ait, quia filius hominis habet potestatem in terra dimittendi peccata, etc. Quaenam tibi maior videtur et dignitas et potestas, dimittendi peccata an praedia dividendi? Sec non est comparatio. Habent haec infima et terrena iudices suos, reges et principes terrae. Qui fines alienos invaditis?

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heranças. Estes assuntos, considerados menores, teriam seus próprios juízes: príncipes e reis. São Bernardo, ao longo do De Consideratione diz o que é e o que não é lícito ao Papa, atribuindo ao mesmo uma certa aura monástica. Entretanto, em passagens como a que foi citada, ele faz alguns apontamentos quanto aos reis e imperadores. Assim, encontramos a relação entre o Papa e os soberanos leigos expressada em uma fórmula significativa, através da qual, hierarquicamente, são apresentados os poderes secular e eclesiástico:

Porque havias de empunhar de novo a espada que vos mandaram voltar à bainha? [Jo.

10, 12] A qual, sem dúvida, se alguém nega que é vossa, não me parece que entenda

bem as palavras do Senhor, que diz assim: “volta tua espada para a bainha” [Jo. 18,

11]. Vossa é, pois, ela também, devendo desembainhar-se quiçá a vossa insinuação,

não com vossa mão. De outra sorte, se não pertenceria a vós quando disseram os discípulos: “eis aqui duas espadas” [Lc. 22, 38], não tivera respondido o senhor: “bastante é”, sem demasia. Uma e outra espada, é a saber, a espiritual e a material, são da Igreja; porém esta certamente se deve esgrimir a favor da Igreja, e aquela pela mesma Igreja; aquela pela mão do sacerdote, esta pela do cavaleiro, porém, pela ordem do sacerdote e ao comando do imperador 121. (DC, v. 01: 160-162, trad. nossa).

Mais do que esboçar uma representação acerca do jogo político ou das relações de poder, São Bernardo pensou em uma guerra legítima. Ele atribuiu ao clero o papel de chefe militar supremo da Cristandade. Sob as ordens do clero, especificamente do Papa, os cavaleiros desembainhariam suas espadas sob o comando dos imperadores. Esvaziado de sua imagem sagrada, o poder secular é então ofuscado pelo brilho pontifício. Logo, o Papa, por sua legítima sacralidade, torna-se maior que o imperador, relegado a meras funções de comandante de tropas da Igreja (PACAUT, 1989: 86). Destaca-se que, nesta passagem, o papel do Imperador é meramente técnico. Ele decide a melhor maneira de se alcançar o objetivo proposto pelos “Pais da Igreja”, mas o Imperador não tem autonomia ou discernimento para escolher ou decidir guerrear por sua própria vontade. Ao clero era reservada a direção da Cristandade (SENELLART, 2002: 102-103).

Mas, não só na organização das relações de poder ou na construção da imagem papal, o que está em discussão também é a identidade e o papel específico que cada

121 Quid tu denuo usurpare gladium tentes, quem semel iussus es reponere in vaginam? Quem tamem qui

tuum negat, non satis mihi videtur attendere verbum Domini dicentis sic: converte gladium tuum in vaginam. Tuus ergo te ipse, tuo forsitan nutu, etsi non tua manu, evaginandus. Alioquin, si nullo modo ad te pertineret et is, dicentibus Apostolis: Ecce gladii duo hic, non respondisset Dominus: satis est, sed: Nimis est. Uterque ergo Ecclesiae, et spiritualis scilicet gladius, et materialis, sed is quidem pro Eccleisa, ille vero et ab Ecclesia exserendus: ille sacerdotis, is militis manu, sed sane ad nutum sacerdotis et iussum imperatoris.

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categoria deve assumir no mundo. De acordo com sua carta ao rei Luis VI 122, o papel

desse nobre subordinava-se ao que era considerado salutar para os cristãos. Evidentemente, segundo a perspectiva teocrática de São Bernardo, os seculares deveriam executar o que era útil à cristandade, mas a escolha e a resolução dessa ação cabiam ao clero.