1. BÖLÜM
3.4. SİVİL İKTİDARA GEÇİŞ SÜRECİNDE ASKERİ VE SİYASAL
3.4.1.1. ANAP Hükümeti Politikaları
3.4.1.1.3. Körfez Savaşı Süreci ve Askerlerin Tutumu
O Papa Gelásio, em 494, apresentou ao Imperador Anastácio uma idéia que organizava ou pretendia organizar as relações de poder na sociedade. Deixando implícita uma alegoria comum para os poderes secular e eclesiástico, a alegoria da “espada”, o Papa manifestou que no mundo havia dois poderes – “duas espadas” 114: a
“espada secular”, dos soberanos leigos e a “espada espiritual”, dos sacerdotes:
Suplico à Vossa Piedade que não considere arrogância a obediência aos princípios divinos. Que esteja longe, vos suplico, de um imperador romano considerar injúria a verdade comunicada à sua consciência, pois existem dois organismos, augusto imperador, pelos quais este mundo é soberanamente governado: a autoridade sagrada dos pontífices e o poder real, e desses dois poderes é mais importante o dos sacerdotes, pois têm de prestar contas, também, diante do divino juiz dos governantes dos homens.
(GELÁSIO I. Carta ao Imperador Anastásio. Apud: PACAUT, 1989: 20).
Quem deveria estar à frente da cristandade? Qual “espada” era mais importante, a do século ou a da religião? Quem deve “soberanamente reger este mundo”? As imagens construídas acerca das componentes daquela “Casa de Deus”, de suas relações e suas funções evidenciam certos problemas e certas nuances nas respostas dadas a estas três perguntas. Esta passagem estabelecia uma comparação que subordinava o poder secular ao poder espiritual. O Papa se dizia investido de um poder superior, pois teria de prestar contas a Deus pelas almas dos homens.
Como observou Senellart (2006: 41), “até o século XII, segundo a concepção ministerial do poder secular – o rei, ministro da Igreja – o regimen precede o regnum”. A definição de regimen liga-se, naquele período, ao regimen animarum, ou seja, ao governo, direção, orientação e condução das almas dos cristãos. Já o regnum, enquanto regime monárquico, dignidade real e reino, se constituía como instrumento do regimen. A Igreja, encarregava-se do cuidado das almas e o Estado (potestas imperial ou real), responsabilizava-se pelo controle dos corpos e pela disciplina.
Cinco séculos após Gelásio I, o Papa Gregório VII não lembrou ao Imperador quais poderes deviam governar soberanamente o mundo e não discorreu acerca das responsabilidades de cada um. Frente ao costume dos Imperadores germânicos de interferir nos assuntos eclesiásticos, tanto na nomeação dos bispos quanto na eleição do
114 Essa alegoria, presente também em alguns escritos de São Bernardo, representava os poderes secular e
eclesiástico como detentores, cada um, de uma espada. Em uma organização harmônica e ideal do mundo, o poder secular, ao empregar a força das armas e dos exércitos contra os inimigos da cristandade, teria como instrumento a espada secular. Já o clero, utilizando contra seus inimigos, sanções religiosas e divinas, seria detentor da espada espiritual.
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próprio Papa, de forma categórica, aquele Papa assim se pronunciou em 1075 no seu
Dictatus Papae:
II – Só o pontífice romano é dito, a justo título, universal. III – Só ele pode depor ou absolver os bispos.
V – O papa pode depor os ausentes.
VII – Só ele pode, segundo a oportunidade, estabelecer novas leis, reunir novos povos, transformar um colégio em abadia, dividir um episcopado rico e unir episcopados pobres.
VIII – Só ele pode usar as insígnias imperiais.
IX – O Papa é o único homem cujo todos os príncipes beijam os pés. XII – Lhe é permitido depor os Imperadores.
XIII – Lhe é permitido transferir os bispos de uma sé a outra, segundo a necessidade. XIX – Ele não deve ser julgado por ninguém.
XXI – As causa maiores de todas as igrejas devem ser levadas diante ele.
XXII – A Igreja romana jamais errou e segundo o testemunho da Escritura jamais errará.
XXVII – O Papa pode desligar os sujeitos do juramento de fidelidade feito aos injustos.
(GREGÓRIO VII. Dictatus Papae. Apud: PACAUT, 1989: 66-67).
Gregório VII afirmava categoricamente o poder pontifício alicerçado, sobretudo naquela passagem evangélica na qual o Cristo atribui a Pedro, considerado primeiro Papa, o poder de ligar e desligar (Mt. 16, 17-19) 115. Mais do que assegurar a
exclusividade de seu poder sobre o clero e afastar a intervenção laica nos assuntos religiosos, principalmente na investidura dos bispos, aquele Papa, que fora monge da Ordem Monástica de Cluny, atribuía a si uma imagem imperial, ativo tanto nos assuntos espirituais quanto temporais. Gregório VII no seu atrito com o Imperador Henrique IV afirmara sua convicção da superioridade do poder papal sobre qualquer outro poder na face da terra (BARRACLOUCH, 1970: 78-93). Essa observação ganha plausibilidade na proporção em que consideramos a passagem da segunda sentença emitida por Gregório VII contra o Imperador Henrique IV em 1080:
É porque, confiando no julgamento e na misericórdia de Deus e de Maria, sua muito santa Mãe, sempre virgem, eu excomungo e ligo nos laços do anátema a Henrique, que se chama rei, e todas suas faltas: da parte de Deus todo poderoso e da vossa, eu lhe interdito dirigir o reino dos Germanos e da Itália e lhe corto todo poder e dignidade real; eu proíbo qualquer cristão de lhe obedecer como ao seu rei e desligo os juramentos passados e futuros daqueles que lhe prestaram ou lhe prestarão como a um soberano. Que este Henrique, com suas faltas, não tenha alguma força nos combates, que ele não alcance alguma vitória em sua vida! (PAPA GREGÓRIO VII. Carta ao Imperador Henrique IV. Apud: PACAUT, 1989: 68).
115 Pois também eu te digo que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do
inferno não prevalecerão contra ela; eu te darei as chaves do reino dos céus, e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus.
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No campo da prática política do Papa, este evento celebrara a capacidade papal de intervir nos assuntos que não faziam parte da esfera exclusivamente espiritual ou de cunho estritamente eclesiástico. A imagem do Pontífice, tomando de empréstimo atribuições e funções dos poderes seculares e tornada mais vigorosa na segunda metade do século XI, apontava para uma característica marcante no jogo político daquele período: a troca de atribuições de poder e a relação entre o secular e o sagrado. Como veremos adiante, tão importante quanto às discussões sobre a soberania na cristandade, a discussão dessa dualidade foi um ponto importante para examinar a imagem do miles apropriada por São Bernardo.