2. KURAMSAL BĠLGĠLER VE ĠLGĠLĠ ARAġTIRMALAR
2.1. Okuma ve Anlama
2.1.3. Okuma YaklaĢım ve Modelleri
transformar outros ao seu redor.
Como já vimos acima, a metamorfose está presente na maior parte do mito (o uso do termo “homem‐gavião” já deixa isso explicito). Porém a transformação dos parentes tenetehara se deu, não na presença da música, mas na ausência dela – ou da sua execução – pois eles não acompanharam o homem‐ gavião nas cantigas quando lhes foi pedido isso, por esse motivo foram transformados em alimentos de gavião. Neste caso a musica tem implicações punitivas, porém continua sendo origem, mesmo que indireta, da metamorfose.
MÚSICA COMO LINGUAGEM DOS MITOS
Para esta reflexão tomamos a premissa de que a música é a linguagem por excelência usada no mito. Fica claro que nos mitos os seres se comunicam cantando. Tentarei explicar esta idéia nas linhas a seguir.
Tanto música e mito são tidos por Lévi‐Strauss como linguagem que operam, entretanto, acima da linguagem. Ambos são linguagem porque transmitem uma mensagem, contudo são linguagens que estão acima do código lingüístico. Segundo suas palavras “... o caráter comum do mito e da obra musical, [se encontra] no fato de serem linguagens que transcendem, cada um ao seu modo, o plano da linguagem articulada, embora requeiram, como esta [...], uma dimensão temporal para se manifestarem.” (LÉVI‐STRAUSS, 2004, p. 35). No que diz
respeito à música ele diz que é uma linguagem de características contraditórias que pode ser entendida por muitos, mas expressada por poucos. “O fato de a música ser uma linguagem – por meio da qual são elaboradas mensagens das quais pelo menos algumas são compreendidas pela imensa maioria, ao passo que apenas uma ínfima minoria é capaz de emiti‐las, e de, entre todas as linguagens, ser esta a única que reúne as características contraditórias de ser ao mesmo tempo inteligível e intraduzível – faz do criado de música um ser igual aos deuses” (LÉVI‐STRAUSS, 2004, p. 37). Ela transcende ao código lingüístico porque para ser transmitida, apesar de ser linguagem, ela tem um veículo próprio.
Alem de Lévi‐Strauss outros autores consideram a música como linguagem usada nos tempos míticos. Anthony Seeger (1987) diz que “a música transcende tempo, espaço e outros níveis existenciais da realidade” (SEEGER, 1987, p. 7)46, características estas que podemos perfeitamente conceber como mito. Em todo o território das Terras Baixas da América do Sul “se emprega a música para representar e criar uma transcendência de tempo e substância [mito]: pretérito e presente se unem, e humanos e não‐humanos se comunicam e comungam.” (SEEGER, 1987, p. 7)47. No mito não há tempo percorrido, ali os personagens míticos se comunicam através da música. Daí a união do passado e do presente. Outra evidência deste fato se dá entre os Wakuénai do Alto Rio Negro, estudados por Jonathan Hill (1997). A narração mítica sobre a criação do mundo é 46 “Music transcends time, spaces and existential levels of reality.” 47 “ ... throughout the lowland South American music is used to represent and create a transcendence of time and substance: past and present are linked and human and non‐human communicate and become comingled.”
clara quando mostra que através da música o herói cultural (Kuwai) criou todos os seres e o mundo, em seguida, depois de sua morte e de sua transformação em árvores, seu corpo (que foi transformado em instrumentos sagrados) continuou criando outros seres e mundos quando era tocado pelos humanos. Num primeiro olhar fica mais evidente que a música é um meio de criação e não um meio de comunicação no mito. Mas podemos confirmar nossa hipótese na fala do autor quando diz que “a primeira criação do mundo por Kuwai é essencialmente a transformação de sons musicais em linguagem mítica na qual as diferentes variações do significado musical agem sobre o som musical” (HILL, 1997, p. 146)48. Ou seja, enquanto criava o mundo através de seu canto, ele criava também uma sociedade que se utilizaria de seu próprio canto para se comunicar.
Citando Lux Vidal, Montardo menciona que a arte é um meio de comunicação em tribos indígenas. Levando em consideração que existe a possibilidade de a música não ser tida como arte ela continua dizendo que tanto música quanto dança e poesia são linguagens artísticas. No entanto ela atribui à arte não somente o fato de ser linguagem, como também o centro da estética indígena. “No contexto tribal, mais que em qualquer outro, a arte funciona como um meio de comunicação. Disso emana a força, autenticidade e o valor da estética tribal.” (MONTARDO, 2002, p. 21)
No mito de Wiraí vemos em dois momentos que o sapo canta para o menino dando‐lhe uma orientação quanto à maneira de dormir. O menino havia
48 “Kuwai´s first creation of the world is essentially a transformation of musical sound into mythic speech in which the nuances of mythic meaning act upon and constrain musical sound.”
usado o que julgava ser uma pedra como travesseiro, porém a pedra, na verdade, era um sapo. Na primeira vez que isso aconteceu ele disse para o menino sair de cima dele, e o garoto, assustado, foi embora. “Porém, o que Wiraí julgava ser uma pedra era um gigantesco sapo‐cururu que logo de manhãzinha começou a cantar: ‘sai debaixo de mim, eu não sou pedra.’” (WAGLEY & GALVÃO, 1955, p. 145) Na outra vez que isso aconteceu ele disse para o menino deitar para o outro lado. O mito deixa bem claro que a maneira que o sapo se comunicou com o garoto foi através do canto. Podemos então substituir o termo “disse” por “cantou”. O sapo cantou para o menino, e o menino obedeceu ao que a cantiga dizia. (WAGLEY & GALVÃO, 1955, p. 146)
No mito da origem dos milhos e das favas essa linguagem cantada fica evidente quando a menina ouve o canto do gavião e começa a travar um diálogo com ele chamando‐o para comer com ela. “Estava a assar batatas quando ouviu o canto de um gavião. Em resposta ela convidou: ‘se é um Tenetehara vem aqui comer comigo. ’” (WAGLEY & GALVÃO, 1955, p. 149). Ora, se houve uma resposta para o canto que ela ouviu e um convite em decorrência desta resposta então podemos supor que houve comunicação entre o gavião e a menina. Ele cantando e ela respondendo usando a música.
No mito do grande incêndio um jovem guariba conversa com outros animais perguntando‐lhes sobre a música de seus pais e eles lhe respondem cantando. O conteúdo das conversas é música. Ele procura entre vários bichos algum que saiba cantar a música dos guaribas, porém nenhum deles canta a música
certa. O guariba volta pra casa das preguiças e elas cantam para ele a música dos guaribas, então ele passa a morar com elas. Nesse mito vários animais perderam suas casas por causa do incêndio. O guariba foi buscar refúgio na casa das preguiças, mas depois foi procurar entre outros bichos alguém com quem pudesse se identificar através da música de seus pais. Como somente as preguiças cantaram a música dos guaribas ele passou a morar com elas por ter encontrado afinidade em seu meio. No mito da filha do gambá também encontramos a música como meio de comunicação. Logo no início o pica‐pau, um dos pretendentes a noivo da filha do gambá, “canta como os Tenetehara de antigamente para anunciar o seu amor.” (WAGLEY & GALVÃO, 1955, p. 155). Se o objetivo do canto do pica‐pau era comunicar seu amor à pretensa noiva então podemos considerar a sua música como uma linguagem que transmite uma mensagem de um personagem para o outro. SENTIMENTOS QUE ENGENDRAM MÚSICA Levanto a partir de agora uma reflexão sobre a relação existente entre música e sentimento que, embora apareçam ocasionalmente juntos nos mitos tenetehara, é suficientemente significativo para constar nesta pesquisa. Para isso, lanço mão do trabalho de Steven Feld Sound and Sentiment (1990) para nortear as reflexões aqui elaboradas.
O trabalho etnográfico de Feld foi realizado em Papua Nova Guiné entre o povo Kaluli. Ele trata do som enquanto sistema cultural do povo. O que torna esta obra especialmente importante para esta discussão é o fato de ser baseada em um mito dos Kaluli que demonstra como o sentimento gera a música e como as relações sociais do povo estão firmadas nesta relação.
Nesta discussão poderemos abordar dois temas, ambos presentes no mito dos Kaluli e dos Tenetehara. O primeiro deles fala dos sentimentos e de como deles decorre a música. O outro tema trata da relação “ter x não‐ter”, como isso ocorre na relação social e finalmente como também resulta em música.