• Sonuç bulunamadı

2.4. Yeni Medya

2.4.2. Okul Ortamında BİT Kullanımı

A narrativa anônima e multitemporal de que é feita a cidade passa a responder por essa história, a partir do que as grades atualmente nos revelam. Grades anônimas dispostas na cidade, a nos contar histórias de cronologia voluptuosa: de seus desenhos, suas cores, seu entorno, suas combinações, sua degradação e transformação. Grades como fonte primária de pesquisa, a reafirmar e a negar o que li nos livros sobre elas, e a acrescentar coisas que só as daqui poderiam dizer. Grades a oferecer possibilidades estatísticas que poderíamos dizer mais científicas, que se deixam ou não ser abraçadas. Grades que nos convidam a buscar os lugares onde são fabricadas e revendidas, a conversar com seus donos e usuários, ou simplesmente a lê-las, ouvi-las – seríamos capazes ainda hoje de contemplá-las? Grades que não se deixam fotografar, que nos obrigam a guardá-las de outro modo, presente aqui de alguma maneira. Grades como documentos... é preciso reinventar seus lugares reflexivos.

Traduzir a experiência do trabalho de campo – realizado ao longo do ano de 2011 por mim e três estudantes – é o objetivo deste capítulo. Apresentar não apenas um cenário físico, concreto e metodologicamente delimitado, mas um sentido de cidade, uma certa paisagem, transitória, apreendida a partir de uma experiência corporal pelos 94 caminhos percorridos, através do filtro das grades que buscávamos. Caminhos traçados por uma metodologia de captura detentora de certa cientificidade (tarefa necessária a ser descrita adiante) mas, concomitantemente, cartografados, o que foi diferente de segui-los com um mapa em mãos. Não se trata de traduzir, mas de “fazer mapa”, de acordo com Ludmila Brandão, que afirma ainda:

Se distanciando dos modelos, explora sem constituir limites definitivos nem grades interpretativas. Não há entradas ou saídas exclusivas. Pode-se entrar ou sair por todos os lados. O percurso escolhido é apenas uma possibilidade, não há sequência necessária e o resultado será sempre diferente porque não se trata de decalcar, e sim de construir. (BRANDÃO, 2002, p. 36)

Trata-se, também, de escavar. Gosto das expressões utilizadas por Cristina Freire, a possibilidade da realização de uma “topografia de metáforas” ou “arqueologia poética” (FREIRE, 1997, p. 109), na esteira benjaminiana. Para a autora, investigar a cidade a partir dessa metodologia é desfazer a ênfase em sua dimensão de artefato (sua topografia e geografia), ou como campo de forças (ligado às interações sociais, sob um ponto de vista sociológico), e tentar enxergá-la (ou imaginá-la) como um conjunto de imagens, “idéias,

expectativas e valores que constituem o imaginário urbano” (FREIRE, 1997, p. 108). Arqueologia também nos termos de Didi-Huberman (2010), uma forma de embaralhar tempo histórico e cronologia (ensaiada na primeira parte deste capítulo), enredados nas tramas da cidade. “O ponto de vista arqueológico desmonta as certezas cronológicas”, afirma o autor. Por isso cartografia porque nela imagem e conhecimento estão intrincados1.

Quando me pus a refletir sobre a metodologia que me permitiria “recortar” a cidade, devaneei sobre a possibilidade de desenhar ornamentos de grades sobre o mapa de Belo Horizonte. Eles criariam “percursos ornamentais”, uma cartografia gráfica e ornamentada, perfeitamente arbitrária. Recuperada a lucidez, tracei estratégias, elegi regiões e percursos, busquei ao mesmo tempo o que fosse factível – ou seja, o que quatro pessoas dariam conta de percorrer e conhecer – e o que seria capaz de imprimir a história (e a presença) desses bens integrados em Belo Horizonte, respeitados os limites temporais e práticos da pesquisa de campo. Após um grande esforço de delimitação desses lugares de “captura” (de grades e de experiências), o que vivenciamos estava naturalmente ancorado menos às grades em si que em sua existência no espaço cotidiano. Se o trabalho de campo comprovou que a cidade é inesgotável, cada lugar que visitamos nos mostrou que deveríamos conhecê-la com o corpo, ziguezagueante ao perseguir os ângulos para as fotos, para equilibrar distância e proximidade. Começando por obedecer a um mapa planejado por um método científico, terminamos por tecer, como resultado, uma cartografia afetiva. A cada caminhada pela cidade, um pouquinho dela se revelava para nós, quando tentávamos apreender os espíritos de cada lugar, as diferenças entre as caminhadas de fim de semana e em horários comerciais, os graus de degradação e preservação de cada bairro. A cidade lembrava-nos de que era preciso afinar a percepção das permanências no espaço urbano de hoje, ou seja, perceber – antes de rememorar pistas históricas – de que modo o outrora se anuncia como componente urbano atual, vivenciar a penetração (fundamentadora, mas esmaecida) do passado no presente, bem como capturar sua transformação.

1 As reflexões de Didi-Huberman sobre o tempo histórico e cronológico serão importantes no

desenvolvimento da tese, e serão aprofundadas no capítulo 4. Os trechos citados desse autor (2009 e 2010), que estão em português, são de livre tradução minha, dos originais em espanhol.

ARQUEOLOGIA

Nosso olhar para a cidade não raramente é utilitário. Concentramo-nos no caminho como se seu significado único fosse “destino”, e buscamos alcançá-lo a partir de uma mirada fixa e horizontal, que tantas vezes ignora o céu e o chão.

As grades ornamentais têm órbitas plurais. Para além de uma gramática de estilos que nos permite reconhecer suas referências estéticas, sua presença na paisagem urbana convida a conhecer o labor que as origina, os usos que as mantêm, as suas destinações. Orbitas que nos revelam histórias escondidas, não oficiais, marginais e aparentemente triviais, que podemos encontrar também sob nossos pés.

São surpresas guardadas pelo chão, essas miudezas. Discretas padronagens incrustadas no cimento, salpicadas em várias calçadas da cidade, sobretudo nos lugares onde alguma escassez dá lugar a apropriações singulares, criativas, sutis, valiosas. São filigranas de concreto, marcas d’água opacas a indicar propriedade afetiva do espaço público, a promover alianças entre domesticidades e urbanidades. São rastros, pegadas, vestígios de um módulo que se fez matriz, familiarizados que estavam com a natureza proliferante do ornamento. Algumas são mais nítidas e alastram-se comportadamente, regidas por regras bastante evidentes. Outras são ralas e desobedientes, carregam consigo, de modo eloquente, o tempo, bem como os lodos verdinhos que se acumularam em suas veias, estampando hoje o irremediável das queloides.

Quando a casa vai embora, as grades ornamentadas costumam se despedir primeiro. Por algum tempo essas calçadas devem guardar um secreto testemunho, até que, ao fim da empreitada, sejam recobertas por pisos que exalam outro tipo de dignidade. Nessa breve passagem, sentirão saudade das sombras rendilhadas projetadas pelo portão de ferro, que lhes permitiam, a cada manhã, desfrutar de certa extravagância.

Pois tratava-se de inventariar o quê?

1. modelos de grades;

2. casas patchwork, colcha imaginária;

3. histórias que os moradores têm para contar;

4. imagens e vestígios que nos dizem algo, em outra língua, sobre ornamento, memória e inventariar;

5. outras belezas…

Essa coleção de grades, uma vez compilada e organizada na forma de inventário, poderia dar origem a outras coleções. A semente de cada novo achado guarda em si um devir coleção, possivelmente de outra coisa, dependendo da nova associação que convida a fazer. Comecei a inventariar interfaces possíveis, a elocubrar sobre o modo pelo qual elas poderiam ressoar no objeto, a perceber que seus novos sentidos eram acumuladores de novas possibilidades de entendimento do que estava a buscar.

Poderíamos ainda registrar:

6. palavras, letras e números que, como as grades, eram confeccionados em ferro, marcando identidades e propriedades, como o “Edifício Dalva” e seus segredos;

7. outras manifestações ornamentais na fachada, e seu estado anacrônico, bem-vindo ou praguejado;

8. as cores com que eram pintadas as grades, desafiando sua transparência, ou a predominância de seus cinzas, camuflados;

9. módulos de grades que carimbam o cimento molhado;

10. sombras ornamentais das grades nas calçadas, belezas efêmeras e variáveis, diariamente; 11. “desornamentações” de barras verticais, arames galvanizados e cercas elétricas;

12. muros de blindex (chamados por alguns de “gradis de vidro”), também sob as grades ornamentais dos edifícios tombados, conflitos sociais e políticos opacos, transparências que hoje “estão na moda”, criando novas e geladas ilusões de passagem;

13. casas que a câmera fotográfica não alcança, mas o olhar sim;

14. volutas, doces agentes (motivos) de desorientação, e suas quase imperceptíveis mudanças de curvaturas;

16. as tantas vezes que recebemos a inevitável pergunta – ora com desdém, ora com empatia, conquistada! – quando alguém tentava entender o interesse por aquelas casas velhas;

17. o número de vezes em que fomos confundidos (e tantas vezes mal recebidos) com um representante do poder público;

18. pedestres que pediram para ser fotografados;

19. aqueles que fazem vigília conosco das casas que estavam prestes a ser derrubadas;

20. o número de vezes em que recebemos a surpresa acerca de nosso objeto de investigação, supostamente indigno de atenção patrimonial;

21. aqueles que, com agressividade ou indiferença, não nos deixaram fotografar; 22. qualquer comentário sobre grade ornamental;

23. modos de aferir e perceber interfaces...

A experiência com a cidade fez oscilar as estatísticas, que poderiam gerar quadros de visibilidade numérica, linear, mas não “paisageira”2, ou ainda artística, apesar de que ambos os enfoques talvez expressem, por ângulos distintos, algum caráter de vaguidão.

Experimentemos o primeiro. As grades de Belo Horizonte são em sua grande maioria planas e forjadas, fabricadas a partir de barras retangulares de 10mm – as de seção quadrada são raras e as cilíndricas, poucas – predominantemente pintadas em cores neutras, branco, cinza, marrom, preto. A parte mais antiga da cidade possui poucos exemplares de grades totalmente feitas em ferro fundido, sendo que as peças produzidas nessa técnica respondem, em maioria, por pontas de lança mais recentes e rosetas que cobrem encaixes ou enfeitam portões. Mesmo os balaústres fundidos – tão comuns nas fachadas reformadas no século XIX em Ouro Preto – são e parecem ter sido minoria na área contemplada pelo trabalho de campo. A arquitetura institucional e os exemplares tombados, estes independentemente do uso, como costuma ocorrer, possuem instalados os mais nobres e imponentes exemplares da cidade, divididos em grande medida entre a iconografia neoclássica e art déco. A maior parte das grades figurativas mapeadas estava na região Oeste da cidade. A maioria dos portõezinhos, na Lagoinha, onde também nos deparamos com as grades mais deterioradas.

Na região Sul há uma enorme quantidade de grades-muro com poucos detalhes. A maior parte das casas que conjugam azulejos e grades, por sua vez, está na região Leste.

Poderíamos seguir listando outros dados: a relação entre os estilos das fachadas e os modelos de grades contidas no enquadramento do olhar, com o renovar das arquiteturas; suas distintas manifestações nas arquiteturas doméstica, religiosa, oficial, tombada; a relação entre todos os elementos de ferro da fachada; a recorrência de determinados modelos de grades em certas regiões, atestando algum tipo de influência ou contaminação; essa mesma recorrência em relação ao “genius loci” de cada região, capaz de esboçar alguma noção de estilo. Tais possibilidades analíticas gerariam um mapa adequado às exigências científicas da historiografia da arquitetura e, de fato, tornariam visível uma certa história das grades de Belo Horizonte, não fosse nossa preferência por negar essa estratégia em proveito da escritura, fruto da própria cidade e de nosso olhar para ela.

O crescente desinteresse pelas estatísticas fez nascer outras listas – livres, virtuais, imaginadas –, a serem guardadas em um novo compartimento, “ÍMPAR”. Pasta subjetiva, portadora de ‘antimonumentos’ particulares, belezas que eram por vezes divertidas, emocionadas, melancólicas, singulares. Interruptores de fluxos, presentes miúdos, modos singulares de utilização e apropriação da arquitetura e da cidade, através das grades mas também de outros elementos. Novas interfaces que aglutinaram os variados modos com que as grades participam das apropriações criativas na arquitetura e, consequentemente, no cenário urbano.

Por fim, havia a pasta “VENDE-SE”, um repositório de casas à espera, a fornecer um registro

efêmero da possibilidade da demolição. Ela abriga também fotos de tapumes, cercando casas recentemente demolidas, avisando-nos que suas fisionomias não mais habitavam nossa lembrança, e dos buracos igualmente cobertos, deixados na memória por essas ausências.

Tais pastas, aventuras, listas, achados eram luminosidades possíveis em meio a um extenso e arranjado álbum de modelos, constituído pelos mais de 4.000 arquivos reunidos ao final do trabalho de campo. Antecipando-se ao inventário gráfico, esse acervo fotográfico das grades em seu habitat guarda registros preciosos de ocupações e apropriações realizadas na cidade, tendo as grades como filtro. É capaz de figurar e preservar singularidades, presentificações,

territorialidades, modos de ser e estar das grades na cidade, que se perderão com a vetorização dos modelos no inventário gráfico. Tarefa e desafios: capturar modelos sem deixar escapar subjetividades; recolher e resgatar imagens e imaginários da metrópole – ofertadas por seus objetos e habitantes, mas também pelo olhar do pesquisador – que se encontram à espera de novas leituras (sempre passíveis de ser re-examinadas) e de (novas) cristalizações; encontrar as manifestações das “altas taxas de condensação de imaginários” (SANTOS, 1999, p. 57), voltando ao Saber de Pedra de Luis Alberto, ou percebê-las em segredo – “admirar a banalidade, cultivar o dom do olhar desarmado” (SANTOS, 1999, p. 68) – e fazer o exercício de concretizá-las aqui, tanto em palavras que geram imagens, quanto em imagens geradoras de pensamento. Não sem antes escutar uma das personagens de pedra...

Vá com calma, não crie grandes expectativas. Certo, há uma espécie de alegria em não sentir obrigação de ter todas as respostas. Em perceber que as coisas nos escapam. Acho melhor você não mergulhar totalmente. Assim você olha a cidade e não se reconhece nela, ou, caso isso ocorra, sabe que o reconhecimento é provisório. Desse jeito você não se ilude com as promessas do tempo. A cidade só existe agora. A gente só sabe mesmo que as coisas existem durante o intervalo efêmero em que duram para nós. É gostoso olhar a cidade e sentir que de certa maneira ela não está lá, é um espectro de formas que variam segundo o ângulo em que a gente observa. (SANTOS, 1999, p. 50)

O EDIFÍCIO DALVA E OUTROS NOMES

Não se percorre a rua Silvestre Ferraz mantendo-se indiferente ao prédio que não estampa apenas o nome forjado com flores, mas a pergunta.

Dalva era a boneca que Maria Cecília levava para brincar na calçada. Foi também uma doceira húngara que se mudou para a cidade em 1920. Trabalhava como doméstica para uma tradicional família belo-horizontina. Dizem que cozinhava maravilhosamente bem, e que cheirava a malva. Uma senhora de cabelos negros, volumosos, um pouco acima dos ombros, olhos expressivos, óculos redondos. Sempre comprava pão na mesma padaria, dava “bom dia” a quem passasse, sabia de todo mundo. Cada conto que ouvia, quando repassava aumentava um ponto. Gostava de ouvir as mesmas histórias das bocas dos outros, ver quão longe tinham ido. Gostava da música da estrela dalva que no céu desponta, considerava

exagerado achar que a lua poderia estar tonta. Em passeios de verão, também gostava de imaginar pequenas ficções sobre as pessoas que cruzavam seu caminho.

Dalva era uma bela morena de olhos verdes, por quem Otacílio, serralheiro, era apaixonado. Chegaram a flertar por um tempo, mas acabou topando com um playboy carioca e foi morar em Copacabana. Otacílio também se casou, com Ceiça, filha da dona da padaria, mas sonhou com Dalva pelo resto da vida.

Livre do que a aprisionava, Dalva foi finalmente habitar as calçadas da fama no baixo Centro. Ela jamais soube que, em Belo Horizonte, há um pequeno prédio com seu nome em todas as janelas. Era sozinha por opção. Carregava um currículo gordo de amores e afetos, dos mais variados: azedos, intensos, cheirosos, sem compromisso, temperados, ferrados. Então, cansou se. Foi morar numa casa, depois demolida para dar lugar a um pequeno prédio de apartamentos. Onde agora existe o predinho, era também a casa de José Augusto, um homem de corpo franzino e olhar perdido. Foi dos primeiros moradores do quarteirão e ali viveu com Dalva, por quem se apaixonou perdidamente quando a viu pela primeira vez, em Araxá.

Dalva foi professora, e amava rosas. Quando faleceu, seu viúvo, um oficial, decidiu forjar seu nome acompanhado de flores. Seu Antônio, exímio serralheiro, após ganhar uma pequena fortuna num jogo de azar, mandou construir o prédio onde antes funcionava sua pequena oficina, e homenageou a sua amada Dalva, batizando o condomínio com seu nome de estrela.

Dalva era a neta que estava por vir. José, apesar de não ser engenheiro ou arquiteto, sempre se aventurou em construir pequenos prédios, e esse começou quando veio a notícia de que seria avô pela primeira vez. Ela foi uma menina muito egocêntrica e habilíssima em serralheria. Em uma tarde, gastou todo o ferro que sobrara para forjar seu nome. Ele, para não cerrar as portas de seu ganha-pão, incorporou o trabalho da menina em seu projeto da ocasião.

Dalva foi uma homenagem à cantora Dalva de Oliveira, de quem o dono do terreno era fã. Mas pode ter sido uma velhinha que morou numa casa naquele terreno, antes da construção do prédio, e que era conhecida no bairro por ter sido uma moça bonita, vistosa e misteriosa. Acabou envelhecendo lá, muito reclusa.

sempre se lembraria dela por qualquer janela que olhasse. Tem orelhas ardentes, a não ser que a “avaliação pós-ocupação” do Ed. Dalva tenha sido irrepreensível e que morar lá seja o sonho de consumo de nove entre dez!

Cada um constrói a Dalva que habita dentro de si.

O passeio por Belo Horizonte que se encontra em curso é, desta vez, na companhia das tantas imagens que, terminado o trabalho de campo, ainda assombram a memória e a imaginação e, junto a elas, vozes/subjetividades que ajudaram a habitar os trajetos que cumprimos, e solicitam aqui seu lugar, antes que passemos ao inventário gráfico.

Participando, de modo circular, do que poderíamos chamar de um ciclo de vida das grades, três agentes/subjetividades a princípio despertam especial atenção: o serralheiro, o morador e o comerciante de “ferro-velho”, três vértices capazes de versar sobre a temporalidade fascinante de nosso objeto. O primeiro interage com ele antes de ser instalado na casa, e convida-nos a refletir sobre um “saber-fazer” quase em extinção, ensinando-nos algo sobre técnicas, materiais e instrumentos úteis à forja – o que também fomos buscar nos manuais de forja, escritos por eles ao longo da história – e ainda sobre desenhos, modelos, transmissibilidade, criação, improvisação. O segundo é aquele que o deseja, elege-o, encomenda-o, utiliza-o, subverte-o com novos dispositivos de segurança e outras pontas, amparando-nos com a dimensão subjetiva do habitar, onde os objetos ganham e fazem sentido, dentro e fora de casa. O terceiro, por fim, é o receptor de sua eventual inutilização, mas também aquele que, com sorte, conferirá à peça novo destino, recomeçando a história de cada uma dessas grades-documentos, de quase mudo testemunho.

Mas o seu habitat revelou outros atravessamentos, subjetividades atuantes em maior ou menor medida: passantes (aquele que olha, que pode nos fornecer alguma medida da expressão pública do ornamento, e aquele para quem, além dos ladrões, são feitas as grades); ladrões (para quem a palavra “delimitar” ganha altura e formas pontiagudas, lanceoladas); demolidoras (quem se ocupa da atividade que, a despeito de sua subjetividade brutal, muitas vezes está conjugada à venda, envolta em aura de exclusividade, das peças que podem ser aproveitadas nas edificações, como louças, lustres, madeiras, ferros); agentes

imobiliários (a fazer circular o mercado que coloca o preço das casas nas alturas dos prédios que vão nascer em seu lugar); mineradoras (o primeiro agente, hoje em suspeita condição, quando arquitetura e matéria já não são apenas um problema estético); novos usuários (a adquirir as grades “de segunda mão”, a escolher entre a urbanidade e a domesticidade de seu novo lugar, bem como seu novo fulgor e dignidade); catadores (encontrando e destinando peças, reconhecendo ou não o circuito valorativo da mercadoria que transportam); colecionadores (de lembranças de grades, de fotos de grades e de grades, instaladas ou não); apreciadores (que não guardam grades, mas têm simpatia por elas, e a compartilham); arquitetos e decoradores (que antigamente costumavam assiná-las e hoje ajudam a escolhê-