2.4. Yeni Medya
3.1.3. Davranışsal Gelişim ve Medya
As numerosas caminhadas por Belo Horizonte transformaram de modo definitivo a coleção em um inventário, conciliando uma memória de caráter mais afetivo com outra, mais crítica, consciente de seu potencial preservacionista e reflexivo. Por isso, foi necessário encontrar uma equação possível, um modo satisfatório e científico para catalogar, sem que se precisasse investir tempo na produção de fichas para cada uma dessas casas, que conteriam detalhes de menor interesse para a pesquisa.
Situação de ocupação, análise de entorno/situação e ambiência, uso atual e anteriores, descrição, proteção legal, estado de conservação, análise do estado de conservação, fatores de degradação, medidas de conservação: esse apanhado de terminologias pode ser visto em fichas de variados modelos de inventários, realizados por programas públicos de proteção do patrimônio, nas quais é raro encontrar campos que possam ser preenchidos com grades ornamentais. A seguir, expomos a metodologia que nos guiou na captura fotográfica de mais de 4.000 fachadas. Como é possível apreender do que foi relatado até aqui, o método permitiu alcançar os dois eixos norteadores presentes desde o projeto, um de natureza formal e outro sociocultural, que merecem ser reproduzidos aqui: 1) as artes gráficas como instrumento de preservação do patrimônio cultural representado pela diversidade estilística das grades ornamentais e 2) o intercâmbio entre os campos de saber da Arquitetura e das Artes, para que, dessa perspectiva interdisciplinar, possa construir-se uma memória crítica – amparada na linguagem das artes visuais e em reflexão teórica e histórica – da presença polissêmica do ornamento no espaço da cidade, hoje.
3.3.1 Delimitação de lugares, trajetos e errâncias
A escolha das regiões a serem percorridas na cidade respondeu ao seu primeiro traçado, a partir da crença de que ali, nas áreas mais antigas, estaria concentrada a maior quantidade e variedade dessas estruturas. O anel da avenida do Contorno marcou, assim, um limite onde procuramos por elas, tanto em suas fronteiras interiores quanto exteriores. De maneira concomitante, outro recorte foi realizado, tomando como base os graus de proteção do patrimônio histórico de Belo Horizonte, estabelecidos pela Diretoria de Patrimônio Cultural da Prefeitura. As chamadas “Áreas de Interesse Cultural”, em seu âmbito mais alargado, de certa forma coincidem com as fronteiras da Contorno referidas, e a partir dessas duas delimitações espaço-temporais, procuramos pelas grades nos seguintes bairros:
- Aeroporto - Colégio Batista - Orla Pampulha
- Anchieta - Concórdia - Padre Eustáquio
- Bairro da Graça - Coração de Jesus - Prado
- Barro Preto - Cruzeiro - Renascença
- Barroca - Floresta - Sagrada Família
- Cachoeirinha - Grajaú - Santo Agostinho
- Calafate - Gutierrez - Santo Antônio
- Carlos Prates - Horto - São Lucas
- Carmo-Sion - Jaraguá - São Luís
- Centro - Lagoinha - São Pedro
- Cidade Jardim - Lourdes - Serra
Definidas as regiões, foi preciso inventar uma maneira de percorrê-las. A ideia foi conhecer cada região através de duas “camadas”, realizando dois tipos de percurso em cada uma: o primeiro, “EIXOS”, preciso e direto; o segundo, “PASSEIOS”, livre e errante. Cada “EIXO” ou
“PASSEIO” foi armazenado em uma pasta distinta, com o nome da via ou bairro contemplado,
sempre organizados pelas regiões da cidade às quais pertencem.
“EIXOS” constitui-se de ruas e avenidas de maior extensão e circulação, que frequentemente
conectam bairros vizinhos. Esse foi um modo de abordar diferentes AIC em uma só caminhada, além de ser um eficiente exercício de “reconhecimento de terreno”, uma primeira visita, mais objetiva, que evita a dispersão – começando em um ponto pré- determinado e terminando em outro. Muitas dessas ruas e avenidas maiores são antigas – dentro do contexto de cada bairro, já que eles têm idades às vezes distantes em 40, 50 anos – , tendo adquirido a função de conexão entre bairros, com a expansão da cidade. Mesmo quando não são os mais antigos, tais eixos firmaram-se como pontos de referência cultural e do imaginário da cidade, se pensarmos que a malha urbana também se formata espontaneamente. Havia o risco de que, apesar de antigas, essas vias estivessem mais devastadas pela verticalização, por serem mais movimentadas, cenário que na maior parte delas não se confirmou. Nas proximidades de avenidas onde as casas com grades
ornamentais eram raras, também nas ruas de menor movimento elas eram encontradas em pequeno número, o que nos levou a formular hipóteses sobre bairros mais e menos preservados na cidade.
A vizinhança desses eixos também foi comtemplada: registramos as grades que estavam ao alcance do olhar, situadas em ruas perpendiculares aos eixos.
Todos os bairros foram revisitados na estratégia dos “PASSEIOS”, desta vez praticando certa “errância” – a possibilidade de ser conduzido pelo acaso, por eventuais focos de interesse, ou mesmo de perder-se – limitada, no entanto, pelos eixos e adjacências mencionados, e pela agregação de algumas ruas pertencentes ao primeiro traçado da cidade.
Além dos “EIXOS” e “PASSEIOS”, foram realizadas caminhadas em áreas de maior
concentração de imóveis tombados, os chamados Conjuntos Urbanos, contudo sem obrigação de registrá-los na totalidade.
Uma última pasta, “DISPERSOS”, faz parte do inventário gráfico, na qual foram guardadas as
grades recolhidas de modo aleatório pela cidade, também nos primeiros anos da coleção, ou a partir das imagens que foram presenteadas por aqueles que, sabendo da pesquisa, passaram a registrar algumas grades.
Todas essas camadas/pastas estão listados na tabela do ANEXO 1. O mapa constante do ANEXO
2 oferece um panorama gráfico dos trajetos contemplados.
Configura-se, portanto, da seguinte maneira a “arquitetura” da coleta, realizada entre março e dezembro de 2011, ou nos tempos da coleção:
• Eixos (ruas e avenidas: percursos objetivos) • Passeios (bairros: errância)
• Conjuntos Urbanos (agrupamentos de imóveis tombados)
• Dispersos (imagens de grades presenteadas e registradas aleatoriamente)
3.3.2 Registro fotográfico
O registro das casas foi feito assim: todas as casas detentoras de grades ornamentadas (independentemente da técnica, fossem de forja ou fundição), situadas ao longo dos caminhos, foram contempladas, recebendo um registro que enquadrasse não apenas sua fachada frontal, mas cada modelo de grade que estivesse ao alcance dos olhos, mesmo nas
fachadas laterais, obtendo-se tantas fotografias quantas fossem necessárias para registrá-las.
Não foram registrados mãos francesas e outros acabamentos em ferro, cuja função não fosse a de cercar, bem como portas e janelas tipo vitral, que possuem vidros entre os ferros.
3.3.3. Arquivamento
Cada um dos mais de 4.000 arquivos recebeu um número, precedido de uma legenda que identifica sua localização original, exibida também na tabela do ANEXO 1. Eles foram
guardados em pastas com os nomes de ruas e bairros (eixos ou passeios), até que fosse o momento de migrar para uma outra arquitetura, desterritorializada, e uma outra paisagem, gráfica, formal.
3.3.4 Casas patchwork
A princípio foram registradas 178 casas a que chamamos “patchwork”, ou seja, que possuíam algum azulejo ou grade na fachada. Todas as casas e prédios de apartamentos que ostentavam azulejos e grades ornamentadas foram contemplados, ainda que a grade fosse combinada com muro, ou seja, participasse da fachada apenas sobreposta ao campo de visão, em função de sua transparência.
Para a realização das entrevistas, foram feitas algumas filtragens, com o objetivo de uma tipificação mais afinada dessa tipologia, preservando aquelas cujas características mais lembrassem essa “colcha imaginária”. Optamos por não enviar o convite para a entrevista: as casas cujo muro de alvenaria obstruía mais de dois terços de sua visibilidade para a rua; as grades que não se situavam no mesmo plano da parede de azulejos; as casas com grades apenas nos postigos; as que possuíam azulejos confeccionados no século XXI; as que exibiam apenas uma faixa de azulejos, e não toda a extensão da parede azulejada; por fim, os prédios de apartamentos.
Os moradores das 142 casas que, após a filtragem, atendiam aos requisitos procurados, foram convidados para a entrevista e, quando não se encontravam em casa, receberam uma carta- convite. Conseguimos realizar a entrevista em 33 casas, todas a partir de uma abordagem pessoal. Nenhuma das que receberam apenas a carta, sem o trabalho de convencimento, atendeu-nos.
3.3.5 onde, quando, quantos, como
Nosso objetivo era inventariar, a partir da fotografia e posteriormente do desenho vetorial, no período da realização do trabalho de campo, quantas grades ornamentais – independentemente de sua idade e da idade da edificação – estivessem instaladas nas fachadas frontais das casas situadas nos trajetos, escolhidas dentro das fronteiras internas e externas do primeiro traçado de Belo Horizonte. Assim definido e delimitado, o inventário demandou uma abordagem metodológica que respondesse a critérios tipicamente científicos, tal como se expressam no intertítulo acima, que pode ser verificada ao longo deste capítulo. Acumular, somar, classificar, desenhar, desterritorializar, são objetivos relacionados que, no entanto, não impossibilitaram o estabelecimento de uma metodologia também artística, capaz de contemplar errâncias, escolhas e devaneios inerentes à prática de uma escritura livre e criativa, tal como a própria cidade. Se o resultado que se apresenta até agora representa, seguramente, uma opção por destacar uma certa dimensão popular – seja porque ela é a que menos transparece no inventário gráfico, porque foge à norma, por ser afinada com a marginalidade do objeto ou por responder por “normas” muito próprias e, ambiguamente, universalizantes – ao final cabe a cada leitor visitar o inventário fotográfico em sua íntegra, ou caminhar pelos trajetos que cumprimos, para descobrir outras conformações, outro inventário, outras grades.
1. Projeto de varanda incluindo gradil (fonte: APCBH/SMARU). | 2. Fragmento de projeto, incluindo grade, do Teatro Municipal de Belo Horizonte, já demolido (fonte: APCBH/
SMARU). 3. Desenhos de Raul Tassini, do acervo do Museu Abílio Barreto. | 4. Projeto de portão de entrada lateral do Parque Municipal, não construído (acervo da Comissão Construtora da nova capital de Minas, Museu Abílio Barreto). | 5. Projeto de grade do Palácio da Liberdade (fonte: IEPHA/MG) | 6. Projeto de portada da Prefeitura de Belo Horizonte
1 2 3 4 6 5
1 e 2. Página do manual de serralheria L’ornamento nell’architettura (1927), encontrado na Biblioteca Luiz de Bessa, comparado a uma padronagem vetorizada do inventário. | 3 e 4. Desenhos vetorizados das grades do Edifício Teixeira da Rocha. | 5. Desenho vetorizado da grade da casa do Sr. Antônio Correa. | 6. Desenho vetorizado de grade com motivos figurativos de cactus, típicos do estilo déco.
1 2
3
4
6 5
História secular dos estilos narrada pelas grades de Belo Horizonte: gótico, clássico,bar- roco, rococó, nouveau e déco.
CAPÍTULO 4
PAISAGEM FORMAL, MEMÓRIA GRÁFICA: UMA GRAMÁTICA ORNAMENTADA, POSSÍVEL, BELO-HORIZONTINA E UNIVERSAL
Abro minha janela e espero ver a paisagem – qualquer uma, mas sempre uma paisagem. Ela me salta aos olhos em sua forma completa, perfeita. Ela satisfaz plenamente a construção da proposição que a envolve e a faz nascer no exato momento em que a espero. (CAUQUELIN, 2007, p. 103-104)