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3.3. Veri Toplanması

3.3.1. Nicel Veri Toplama Aracı

Muito além de firmar a resistência à prisão em flagrante obrigatório como fato típico, o Projeto de Lei nº 8125/2014 (BRASIL, 2014c) visa alterar o CP para criar os tipos penais de resistência e desobediência à ação policial. A proposta de redação do primeiro tipo, com seus preceitos primário e secundário, é a seguinte: “Art. 329–A. Opor- se à execução de ato legal, mediante violência ou ameaça a policial, ainda que em auxílio a funcionário competente para executá-lo. Pena: reclusão, de dois a quatro anos, e multa.”. Comparando-se a redação proposta com a atual, a primeira visa criar um tipo autônomo e especial em relação ao previsto no art. 329 do CP em razão da qualidade do sujeito passivo (policial), mesmo que este atue apenas como auxiliar do funcionário competente para executar o ato legal, e em razão da maior reprimenda penal.

A justificação do Projeto de Lei (BRASIL, 2014c) afirma que o crime de resistência, devido à sua pena atual de detenção, de 2 (dois) meses a 2 (dois) anos, é uma infração penal de menor potencial ofensivo, que, segundo a Lei nº 9.099/199529, são as

contravenções penais e os crimes a que a lei comine pena máxima não superior a 2 (dois) anos. Nos termos da justificação, “infração de menor potencial ofensivo é um conceito jurídico concebido para designar os crimes de menor relevância, com ações julgadas e processadas pelos Juizados Especiais Criminais.”.

A respeito dos crimes de resistência e desobediência, acrescenta-se que:

29 Lei nº 9.099/1995, art. 60, caput: “O Juizado Especial Criminal [...] tem competência para a conciliação,

o julgamento e a execução das infrações penais de menor potencial ofensivo, respeitadas as regras de conexão e continência.”. Art. 61: “Consideram-se infrações penais de menor potencial ofensivo, para os efeitos desta Lei, as contravenções penais e os crimes a que a lei comine pena máxima não superior a 2 (dois) anos, cumulada ou não com multa.” (BRASIL, 1995).

Importa a compreensão precisa do que sejam tais delitos, para que possamos demonstrar a gravidade de suas condutas, quando realizadas contra policiais. Tratando-se de verdadeiros atentados a um interesse geral que diz respeito à normalidade do funcionamento da administração pública, não nos parece proporcional que a eles sejam dado, in totum, o tratamento jurídico dos crimes de menor potencial ofensivo previsto na Lei 9.099/95. Considerando, então, que referida dosimetria das respectivas penas hoje contidas no Código Penal contribui para o descrédito dos profissionais de segurança pública, é que tomo a iniciativa do presente projeto. (BRASIL, 2014c).

Portanto, conforme a justificativa do Projeto de Lei (BRASIL, 2014c), o crime de resistência, principalmente quando praticado contra policial em serviço, é composto por uma conduta grave, mas, com base na pena atual, fica inadequadamente sujeito ao procedimento dos Juizados30 e tem seus bens jurídicos insuficientemente

tutelados, como a normalidade funcional da Administração Pública e a credibilidade dos profissionais da Segurança Pública, e, com base na teoria do órgão31, a credibilidade do

próprio Estado. A cominação de pena maior sujeitaria o crime de resistência à ação policial ao procedimento ordinário, que comporta “crime cuja sanção máxima cominada for igual ou superior a 4 (quatro) anos de pena privativa de liberdade” (CPP, art. 394, parágrafo 1º, inciso I), alheio, portanto, à competência dos Juizados, e melhor tutelaria seus bens jurídicos.

Com as alterações propostas, vale dizer, mantém-se toda a sistemática atualmente adotada pelo Código, mas dando-se tratamento específico àquelas condutas praticadas contra agentes de segurança pública, geralmente armados e em situações de risco e de grande estresse. (BRASIL, 2014c).

A especialidade do tipo proposto fundamenta-se pelas delicadas condições de trabalho dos agentes de segurança pública, a saber: porte de armas, sujeição a riscos e alto nível de estresse.

Por conta dessa inovação, o projeto promove a criação de um novo tipo, mais adequado à tutela do prestígio devido aos profissionais da segurança pública e à proteção da sociedade em geral e do próprio ofensor.Constituem mudanças absolutamente necessárias para a preservação da autoridade das polícias em geral, no exercício de suas nobres funções, ostensivas ou investigativas, em

30 Rito sumaríssimo, nos termos do art. 394, inciso III do CPP: “[O procedimento comum será]

sumaríssimo, para as infrações penais de menor potencial ofensivo, na forma da lei.”. Trata-se de rito que ostenta caráter de despenalização e descarcerização (TÁVORA e ALENCAR, 2013, p. 792).

31 “Considerando que o Estado é pessoa jurídica e que, como tal, não dispõe de vontade própria, ele atua

sempre por meio de pessoas físicas, a saber, os agentes públicos. Várias teorias surgiram para explicar as relações do Estado, pessoa jurídica, com seus agentes: [...] pela teoria do órgão, a pessoa jurídica manifesta a sua vontade por meio dos órgãos, de tal modo que quando os agentes que os compõem manifestam a sua vontade, é como se o próprio Estado o fizesse [...]” (DI PIETRO, 2017, p. 559).

prol da tutela da Administração, bem como para a proteção, como dito, do próprio ofensor, e a objetivação do interesse público. (BRASIL, 2014c).

Outros bens jurídicos apontados como objeto de maior tutela pelo tipo proposto são: o prestígio da Segurança Pública, a proteção da sociedade e do próprio ofensor e a autoridade das polícias. A proteção do ofensor baseia-se no fato de que o recrudescimento da pena desestimularia a prática da resistência à ação policial, e, consequentemente, reduziria o risco de confronto entre particular e policiais, confronto do qual é possível resultar danos físicos e psíquicos para ambos os polos. Ademais, a justificação valoriza a instituição policial, destacando sua importância para o interesse público.

Na Comissão de Constituição e Justiça, foi elaborado um substitutivo ao projeto para, em vez de tipos penais autônomos, criar formas qualificadas dos crimes de resistência e de desobediência, porque “se pretende punir de forma mais rigorosa determinada conduta típica por conta de circunstâncias que a constituem” (BRASIL, 2014c).

No que toca ao tipo penal de resistência, este passaria a ter uma segunda qualificadora, que seria denominada “Resistência à ação de profissional de segurança pública” e teria a seguinte redação: “Art. 329, § 1º-A. Se a violência ou ameaça for dirigida a autoridade ou agente de órgão descrito no art. 144 da Constituição Federal, no exercício da função: Pena - reclusão, de um a três anos, e multa.”. Portanto, em relação ao projeto original, o substitutivo pretende ampliar subjetivamente a circunstância que recrudesce a pena do tipo penal previsto no caput do art. 329 do CP para que alcance a conduta praticada, não só contra policial, mas contra autoridade ou agente de órgão descrito no art. 144 da CF, ou seja, da Segurança Pública como um todo, no exercício funcional.

Ademais, em relação ao projeto original, a proposta pena de reclusão reduz, passando, de dois a quatro anos, para um a três anos, o que sujeitaria o crime de resistência qualificado pela resistência à ação de profissional de segurança pública ao procedimento sumário (CPP, art. 394, parágrafo 1º, inciso II). Contudo, a nova pena proposta também ultrapassa o máximo de dois anos, impedindo que o crime previsto na qualificadora do projeto de lei em questão insira-se no conjunto das infrações penais de menor potencial ofensivo.