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Um outro argumento a favor da resistência à prisão em flagrante obrigatório deriva da Súmula nº 522 do STJ, segundo a qual “a conduta de atribuir-se falsa identidade perante autoridade policial é típica, ainda que em situação de alegada autodefesa” (BRASIL, 2015). De acordo com a ementa do REsp Repetitivo sobre a matéria, julgado antes da edição da aludida súmula:

RECURSO ESPECIAL REPETITIVO. REPRESENTATIVO DA CONTROVÉRSIA. DIREITO PENAL. ART. 307 DO CP. PRISÃO EM FLAGRANTE. FALSA IDENTIFICAÇÃO PERANTE AUTORIDADE POLICIAL. AUTODEFESA. INEXISTÊNCIA. TIPICIDADE DA CONDUTA DE FALSA IDENTIDADE. SUBMISSÃO AO RITO PREVISTO NO ART. 543-C DO CPC E NA RESOLUÇÃO N. 8/2008 DO STJ. 1. Típica é a conduta de atribuir-se falsa identidade perante autoridade policial, ainda que em situação de alegada autodefesa (art. 307 do CP). 2. O Supremo Tribunal Federal - ao julgar a repercussão geral no RE n. 640.139/DF, DJe 14/10/2011 - reafirmou a jurisprudência dominante sobre a matéria controvertida, no sentido de que o princípio constitucional da autodefesa (art. 5º, LXIII, da CF) não alcança aquele que se atribui falsa identidade perante

autoridade policial com o intento de ocultar maus antecedentes, sendo, portanto, típica a conduta praticada pelo agente (art. 307 do CP). 3. Recurso especial provido exclusivamente para restabelecer a condenação do recorrido pelo delito de falsa identidade (art. 307 do CP), consoante o decisum de primeiro grau, mantido, no que não contrariar este voto, o acórdão a quo. Acórdão sujeito ao regime do art. 543-C do Código de Processo Civil e da Resolução n. 8/2008 do Superior Tribunal de Justiça. (BRASIL, 2014b).

A decisão do STJ não coincide totalmente com o objeto desse trabalho, porque refere-se especificamente à autodefesa como vertente do princípio da ampla defesa, e não no sentido aqui focado. Entretanto, é possível comparar tal decisão com aquelas condenatórias da resistência à prisão em flagrante obrigatório, porque também trata do momento do flagrante e dela é possível concluir que, a partir da conduta prevista no tipo penal (no caso, o positivado no art. 307 do CP), estão presentes todos os elementos do fato típico.

O REsp repetitivo indica a ocultação de maus antecedentes perante a polícia (no que pode se incluir a condição de foragido) como finalidade da prática do crime de falsa de identidade na prisão em flagrante. Esse intuito envolve a busca da liberdade e representa uma espécie de manifestação da autodefesa, mas, nem por isso, obsta a configuração do crime de falsa identidade.

Portanto, no contexto da prisão em flagrante, a prática dos crimes de falsa identidade e/ou resistência têm em comum o objetivo de manter a liberdade, mas, ainda assim, o agente deverá ser responsabilizado penalmente por elas se ausentes as excludentes de ilicitude e de culpabilidade. Do contrário, seria indevidamente permitido o cometimento de determinados crimes a título de autodefesa, para assegurar a impunidade da(s) infração(ões) penal(is) motivadora(s) do flagrante. Além disso, não se pode olvidar que, assim como o tipo penal de resistência, o de falsa identidade também protege um bem jurídico, a saber a fé pública (o art. 307 do CP está inserido no Título dos crimes contra a Fé Pública).

O citado REsp Repetitivo menciona o julgamento pelo STF de repercussão geral em Recurso Extraordinário no qual se consolidou o entendimento sumulado posteriormente pelo STJ.

Alguns autores já tratavam da questão em obras publicadas antes da edição da súmula, aprovada em 25 de março de 2015:

Para o STF, a autodefesa não vai a ponto de deixar impune a prática de fato descrito como crime, no qual há dolo de lesar a fé pública. Assim, aplica-se o delito tipificado no art. 307 do CP à pessoa que, ao ser presa ou mesmo interrogada pela autoridade policial ou judicial, identifica-se com nome falso, com a finalidade de esconder seus maus antecedentes ou alguma medida coercitiva em seu desfavor. (MASSON, 2014, p. 1167).

Por conseguinte, assim como na resistência à prisão em flagrante obrigatório, a prática da falsa identidade na prisão ou no interrogatório possui todos os elementos do fato típico, inclusive o dolo.

Nucci (2014, p. 1114) assume a seguinte posição ao discorrer sobre o crime de falsa identidade e sua relação com a autodefesa:

Autodefesa: não é infração penal a conduta do agente que se atribui falsa identidade para escapar da ação policial, evitando sua prisão. Está, em verdade, buscando fugir ao cerceamento da sua liberdade. Ora, se a lei permite que a pessoa já presa possa fugir, sem emprego de violência, considerando isso fato atípico, é natural que a atribuição de falsa identidade para atingir o mesmo fim também não possa ser assim considerada. Não abrange, no entanto, o momento de qualificação, seja na polícia, seja em juízo, pois o direito de silenciar ou mentir que possui o acusado não envolve essa fase do interrogatório. Não há, como já visto em itens anteriores, qualquer direito absoluto, de modo que o interesse na escorreita administração da justiça, impedindo-se que um inocente seja julgado em lugar do culpado, prevalece nesse ato. Daí por que, falseando quanto à sua identidade, pode responder pelo crime do art. 307.

O autor considera a prática de falsa identidade no momento da prisão para impedi-la como fato atípico com base nos argumentos da busca pela manutenção da liberdade e da evasão do preso sem violência (contra a pessoa, pelo art. 352 do CP) como fato atípico. Já a prática da falsa identidade no momento da qualificação policial ou judicial constitui fato típico, pois o direito ao silêncio não alcança essa fase. Isso se deve à já exposta e necessária relativização de direitos de modo que prevalecem sobre o direito ao silêncio: a proteção da fé pública, da administração da justiça e da dignidade de um inocente cuja identidade possa ser assumida pelo preso em flagrante, submetendo-se ao risco de ser, devido a isso, injustamente acusado da prática da(s) infração(ões) penal(is) motivadora(s) do flagrante.

Greco (2015, p. 352), em obra publicada um pouco antes da edição da súmula, também se alinha ao entendimento do STJ:

É um direito do Estado saber em face de quem propõe a ação penal e uma obrigação do indiciado/acusado revelar sua identidade. [...] posicionamo-nos pela possibilidade de se imputar ao agente a prática do delito de falsa identidade quando pratica a conduta prevista no art. 307 do Código Penal com a finalidade de livrar-se da Justiça Penal.

O autor destaca o dever do cidadão perante o Estado de corretamente identificar-se ainda que, na condição de indiciado ou acusado, tenha o desejo de quedar- se livre da persecução penal. Desse modo, a prática de falsa identidade nessa situação constitui fato típico. Daí a coerência com o entendimento pela resistência à prisão em flagrante obrigatório igualmente como fato típico, em que o indivíduo também é alvo da persecução penal e busca dela se esquivar devido ao instinto de autodefesa.