XII. Dönem Konya Milletvekilleri
1.9. Mustafa Fakih Özfakih’in Biyografisi
João Grilo é o homem de Portugal, do sertão brasileiro, de todos os lugares. É o herói que habita o imaginário popular e os textos eruditos. Personagem recorrente nos folhetos de cordel, rompe os gêneros textuais, ocupa espaço em romances, contos infantis, coletâneas de textos populares. Não obstante, estreia nos tablados e, de lá, domina a televisão e chega às telas do cinema.
Como conceituar Grilo? Quando se pensa que ele é bobo, surge um Grilo sagaz. Quando o taxam de popular, nasce um erudito. Ao pensar que é um personagem teatral, mostra-se televisivo, cinematográfico.
João Grilo é um ser em metamorfose, porque o povo também o é. Longe de querer aprisionar-se em quaisquer definições, Grilo é. Isso lhe basta. João é o que ele quer ser naquele momento para, no seguinte, deixar de sê-lo e tornar-se outras coisas mil. O povo tem a característica de possuir uma forma que se transmuta ao seu bel prazer. Assim é João Grilo. Tal fato confunde especialistas e dificulta o trabalhos de teóricos que procuram conceituar o mundo, mas não deve ser visto como um demérito. Pelo contrário, é uma forma de poder, é um meio de existir, uma estratégia de sobrevivência.
O conceito de povo é amorfo e generalizador. Não deve ser confundido com população que, segundo Ferreira, é o “conjunto de habitantes de um país, de uma região, de uma cidade” (1986, p. 1365). Assim, esse termo está atrelado ao sentido de dado demográfico, enquanto que povo é o “conjunto de indivíduos que falam a mesma língua, tem costumes e
hábitos idênticos, afinidade de interesses, uma história comum” (p. 1375). Sem povo, não há Estado. Sendo este uma organização, o povo é o elemento humano essencial para a sua constituição e existência (BASTOS, 1988). Ainda assim, o conceito de povo não é simples, pois se forma a partir dos valores estabelecidos por determinada sociedade. Muitas vezes, tal conceituação indica o povo como uma construção una, indissociável e homogênea. Contudo, o povo se divide em camadas, classes e grupos diferentes (SODRÉ, 1962), e se deve fazer uma diferenciação entre povo e massa, já que esta remete à parcela do povo com consciência reduzida (ou sem consciência) de seus direitos, desmobilizada ou desorganizada diante da busca dos mesmos.
Se o poder procede do povo, “povo” é um termo advindo da democracia, e a própria raiz da palavra aponta para a origem grega, quando o povo legitimava o governo instituído. Segundo Müller, “o povo, na verdade, ainda está por ser criado” (2009, p. 98). Isto quer dizer que não existe um conceito único para todas as sociedades. De qualquer modo, em Rivas (2009), podem-se verificar tais significados: 1) povo como sinônimo de multidão; 2) povo como sinônimo de humanidade; 3) povo como coletividade; 4) povo como o conjunto de pessoas desprivilegiadas, de classe baixa ou membro da classe trabalhadora; 5) povo como maioria da população de uma determinada região ou país; 6) povo como maioria política; 7) povo enquanto opinião pública preponderante; 8) povo como elemento administrado por uma elite.
João Grilo é o indivíduo da coletividade, por isso, povo. Também é aquele que é governado por outrem, detentor do poder oficial. É humano, embora não seja respeitado como tal. Pertence às classes subalternizadas e representa a maioria das pessoas do país. É esse Grilo que se torna o herói do próprio povo a que pertence. Mesmo a serviço da classe burguesa, com a manutenção do status quo vigente, João Grilo serve de modelo ao povo e atende às necessidades das classes populares, pois, enquanto humano que é, reage aos impropérios sofridos pela sociedade e pelo governo. Sua resposta acalenta e satisfaz: “A espera do herói é sempre a espera de que ‘outro’ faça por nós o que nos consideramos incapazes de realizar” (FEIJÓ, 1984, p. 39).
Esse é o herói recorrente nos folhetos de cordel, onde fez fama e percorreu grandes distâncias geográficas. Mas também tem suas histórias registradas nos mais díspares gêneros textuais, alcançando a casa do pobre, mas chegando à biblioteca dos intelectuais, sendo lido por trabalhadores e membros da classe alta. Quer seja com interesse sociológico ou literário, João Grilo faz parte da vida das pessoas, sendo lembrado pelas suas aventuras dos contos
orais, pelas suas peripécias livrescas ou encenando nos tablados e estrelando na sétima arte. Grilo é o herói popular globalizado:
[...] embora tenha uma poética própria, a cultura dita popular contemporânea se produz num continuum de outros estratos culturais, como o massivo, o canônico, a cultura escrita e a oral impressa, dentre outros textos marginais. Observa-se também que o cinema, o teatro, a televisão, o rádio e a literatura escrita apropriam-se de temas e formas da cultura popular num processo dinâmico e profícuo. (COSTA, 2010, p. 116).
A cultura popular é dialógica e sempre o foi. João Grilo é prova inconteste disso. Grilo é senhor dos múltiplos discursos. Usa-os como arma de defesa e ataque. Mas, antes de tudo, Grilo (re)conhece o espaço onde pisa, as pessoas com quem lida. Só depois, forja a palavra que será usada. Por isso, ele necessita da interação com outras culturas, outros falares. É desse modo que sai da oralidade para ocupar os espaços da cultura popular escrita e povoar os textos científicos e literários da erudição.
Dos gêneros textuais, onde Grilo percorre as linhas e escreve também nas entrelinhas, destacam-se os textos apreciados no quadro a seguir:
Quadro 9 – Textos de diversos gêneros textuais em que Grilo é personagem.
Conto Livro Romance
A adivinha do Amarelo, de
Câmara Cascudo;
Adivinha, adivinhão, de Téo
Brandão;
As aventuras de João Grilo,
de Ricardo Azevedo;
História de João Grilo, de
Téo Brandão;
Amigo Grilo, de Doralice
Alcoforado e Maria del Rosário Albán.
A roupa nova do rei ou o encontro de João Grilo com Pedro Malazarte, de Marco
Haurélio;
O professor Sabe-Tudo e as respostas de João Grilo: literatura de cordel, de
Klévisson Viana e Doizinho Quental;
Traquinagens de João Grilo
em cordel, de Marco
Haurélio;
A história de João Grilo e dos três irmãos gigantes, de
César Obeid.
Carcará, de Ivan Bichara.
De Câmara Cascudo, vem o registro do conto oral A adivinha do Amarelo57, variante também conhecida no Brasil, por meio de Sílvio Romero58, nomeada de O matuto João e
registrada por Aluísio de Almeida (1973), de forma simplificada, como Aí é que a porca torce
o rabo. Há uma versão divulgada em Portugal por Teófilo Braga59
com o título A princesa que
adivinha.
Embora o título aponte para o protagonista masculino, é a princesa quem serve de primeiro mote para o enredo, quando o narrador situa o ouvinte/leitor acerca da grande capacidade de adivinhação que ela possui. Aliás, sua sabedoria era tão conhecida entre todos, que desafiava a quem pudesse enfrentá-la nas artes do enigma. O prêmio para o vencedor era o casamento real.
O personagem é descrito sem nome e com sua atribuição em minúsculo, amarelo. Representa, portanto, a classe a que pertence, a sua insignificância diante da sociedade, sendo desacreditado por sua mãe e até mesmo pelo leitor/ouvinte. Sua alcunha, amarelo, segundo o próprio Cascudo, remete à esquistossomose, ou barriga d’água, doença causada pelo ancilóstomo, verme bastante comum nas regiões do litoral em locais que ainda carecem de melhores condições sanitárias. Esse verme faz com que a barriga de seu hospedeiro cresça desproporcionalmente ao corpo magro, já que ela se desenvolve, roubando os nutrientes do ser humano. Esse amarelo, pobre, feio, magro, sai de casa, levando consigo sua cadela Pita. Em seu alforje, há apenas um bolo de carne envenenado entregue por sua progenitora para que morresse antes de chegar ao palácio e, assim, evitasse o vexame de ser morto por ordem da princesa.
A João Grilo é atribuída a fama de louco. A insígnia de amalucado pode significar ser sonhador, querer uma realidade diferente para si. Ser louco pode remeter ao fato de ser persistente e ver além do que os outros veem. Ser maluco é não aceitar a realidade em que se está inserido e, por isso mesmo, ser incompreendido.
Grilo sai com a morte em seu alforje. Aí se pode perceber que a morte não estava no castelo, para onde se dirigia, mas segue o pobre todos os dias. Cada amanhecer é um dia novo ao lado da morte, tentando vencê-la, resistindo ao seu chamado. O personagem, pois, é um sobrevivente diante de tanta agrura. É um lutador face à morte cotidiana. Arriscar-se num embate com a princesa só era mais uma forma de enfrentar a morte:
57 Uma versão muito parecida desse conto, intitulada Dão Grilo, foi registrada por Alcoforado e Albán (2001)
em seu livro Contos populares brasileiros: Bahia.
58 Romero (1885). 59 Braga (1883).
Saí de casa com massa e Pita.
A Pita matou a massa e a massa matou a Pita Que também a sete matou.
Atirei no que vi Fui matar o que não vi. Foi com madeira santa Que cozinhei e comi. Um morto vivos levava. Bebi água, não do céu. O que não sabia a gente Sabia um simples jumento. Decifre para seu tormento. (CASCUDO, 1978, p. 332).
A charada resume toda a peregrinação do personagem até chegar ao castelo. Não há maior enigma do que a vida. Ela surpreende a cada esquina, a cada passo dado. O homem interage com a vida, sendo testado por ela. O Amarelo é desafiado todos os dias pela vida, cuja derrota nesse embate terá como punição a morte, que o espreita. É dessas batalhas que vem a astúcia do personagem. Fora ensinado pela vida cotidiana e pelas dificuldades, sua escassez de comida, de oportunidades. Esse é o enigma da maior parte da humanidade: sobreviver.
Ao final do prazo, a princesa responde o enigma do Amarelo, que aparece com inicial maiúscula desde que adentra ao palácio e profere suas palavras. Agora ele muda seu status. Ao estar ali naquele local, ganha uma condição de visibilidade, recebe a nomenclatura de homem, adquire dignidade. O agora Amarelo, ser maiúsculo, mesmo se for condenado à morte, já evidenciara a todos sua capacidade de discernimento, provara sua grandeza.
A princesa dorme com o malandro e, dessa forma, acerta a charada. Ao agir dessa forma, revela, para o público-leitor que, antes de ser princesa, era mulher. E ser mulher em um mundo machista faz com que esta empreenda uma luta desigual para provar sua inteligência, para ser aceita entre os homens. Ao dormir com João Grilo, utilizou-se da arma que dispunha, seu corpo, para vencê-lo. O conto termina relatando o casamento e a felicidade do casal de adivinhos, uma dupla de astutos, provando que perspicácia não é atributo somente das classes ricas ou do proletariado, mas inerente a todo aquele que, subjugado de alguma forma, necessita libertar-se dos pesados jugos da vida.
Téo Brandão registra duas versões para os contos “grilescos”. Na primeira, História de
João Grilo60, o herói é casado e vive de alugar o pasto que tinha para tropeiros, o que não gerava renda suficiente para se manter com folga. Preguiçoso, decide tornar-se adivinho. Abre
60 Versão também encontrada, com o mesmo título, em 50 contos populares de São Paulo, de Aluísio de
um letreiro e coloca-o na porta da sua casa. Tal estratégia o leva ao palácio para duelar com o Imperador. Seguem-se aí as três perguntas recorrentes.
Não há registro, nesse relato, de recompensa recebida, mas o enredo se encerra demonstrando a alegria de Grilo ao ser perdoado, e também não se explica o porquê desse perdão, nem como se deu sua saída do reino.
Na segunda versão de Brandão, Adivinha, adivinhão, compilada originalmente por Cascudo (2002) e adaptada para a literatura infantil por Sonia Junqueira (1994), o personagem, negociante, já atingiu a maturidade, mas ainda não obtivera sucesso nos negócios, sendo pobre como Jó, personagem bíblico que perde todos os bens, numa disputa entre Deus e o Diabo. Para fugir da miséria em que vivia, decide abandonar a profissão de comerciante para vencer na vida através da arte da quiromancia, indo em direção ao palácio.
O conto não informa o motivo de o personagem fazer do castelo uma hospedaria, nem como os guardas e o monarca permitiram a entrada de alguém tão pobre, a ponto de cear ao lado no rei. Possivelmente, sua fama já havia chegado àquele local e suas vestes, simplórias, podem ter sido vistas como uma excentricidade do quiromante.
Com pouquíssimas variações entre as versões de Brandão, Cascudo e Junqueira, nesse relato, o personagem não sofre ameaças da Majestade, que está muito mais preocupado em readquirir seus bens. A ajuda do protagonista é, pois, bem-vinda. Como pagamento, o personagem recebe muito dinheiro e retorna rico para sua terra.
Amigo Grilo, de Doralice Alcoforado e Maria del Rosário Albán, possui uma narrativa
muito próxima das versões portuguesas. Em seu enredo, há uma família pobre, um Grilo que adota a profissão de adivinho e parte para descobrir o roubo das riquezas reais. Em seguida, é submetido a três provas e, exitoso, retorna rico do palácio. Nessa compilação, o herói é o pícaro lusitano. Seu futuro depende muito mais do acaso do que da perspicácia. O que comprova que, no Brasil, convivem as duas facetas do herói: a de malandro, com sua inteligência, e a de pícaro, com a sorte que lhe é peculiar.
O livro A roupa nova do rei ou o encontro de João Grilo com Pedro Malazarte, de autoria de Marco Haurélio, é uma releitura do conto O rei nu, quando toda a sociedade é questionada sobre os conceitos de sabedoria e fé cega. Os costureiros são os dois pícaros mais famosos do Brasil: João Grilo e Pedro Malazarte. De origens incertas, mas muito bem ambientados em solo nacional, Malazarte e Grilo são os maiores propagadores do “jeitinho brasileiro”, quando driblam um status quo estabelecido e vencem seus algozes, sempre mais fortes e poderosos que os malandros:
As façanhas destes dois Correm por todo o sertão Em folhetos populares, De grande circulação, Pois é função do Cordel Preservar a tradição. (HAURÉLIO, 2012, p. 08).
A tradição a que o autor se refere é a reatualização de uma cultura popular. Nas sociedades em que a oralidade é marca presente, também é possível inferir que os costumes são preservados com mais afinco, pois se crê que, com isso, uma determinada população une- se em prol de marcas preservadas pelo tempo, sejam elas linguísticas, alimentares, religiosas. Mas uma tradição só pode sobreviver se novos elementos a ela forem acrescidos. Essa relação entre o passado e o presente, num contínuo influenciar de um no outro, faz com que não se construa uma cultura anacrônica, fixada em um tempo e fadada ao esquecimento. O texto popular contribui para a divulgação de uma tradição cultuada no Nordeste, ao tempo em que a atualiza, como é o diálogo estabelecido nessa obra entre um texto infantil clássico e a presença de dois dos representantes da cultura popular brasileira.
Pedro Malazarte, no Brasil, é um caipira que comprova ser o homem pobre, do campo, mais sábio do que o executivo estudado e prepotente da cidade grande. Como João Grilo, Malazarte prega peças para se vingar enquanto pobre e, principalmente, vingar seus amigos e conhecidos de toda sorte de injustiça sofrida. Grilo, por sua vez, prefere lutar em causa própria, quase sempre:
Como os dois já eram muito Conhecidos no Nordeste, João convidou Malazarte, Dizendo: — Cabra da peste, Vou lhe fazer um convite, Que na verdade é um teste. Vamos para outro país Onde a sorte nos ajude. Desses que só aparecem Em filmes de Hollywood. Malazarte disse: — Vamos... Aqui já fiz o que pude. (HAURÉLIO, 2012, p. 10).
De navio, partem para um reino distante governado por D. Fernando Primeiro, conhecido pelo autoritarismo e pela presunção, que se sente o centro do universo e, por isso
mesmo, nutre desprezo por todas as pessoas. Os trapaceiros usam o orgulho do Imperador como forma de obter vantagens.
Grilo e Malazarte passam-se por alfaiates, por isso, vestem-se com trajes luxuosos para impressionar o rei, amante da moda. Enchem-no de elogios, gabam-lhe a sabedoria e a elegância. O texto condena a utilização das láureas como forma de conquistar uma função, quando isso deveria se dar por competência. As roupas, nesse texto de cordel adaptado para o formato de livro, são as vestes sociais. É preciso ser inteligente o suficiente para ver além dos adornos da sociabilidade, ser sábio para compreender o que está por trás da palavra proferida, do gesto arranjado:
João Grilo mostrou-lhe então Um baú artesanal.
E disse: — Aqui dentro guardo Uma joia sem igual,
Com a qual vamos fazer Uma roupa divinal. Por terem sido cuidados Por homens de sapiência, Os tecidos do baú,
Dos quais louvo a excelência, Só são vistos por pessoas De provada inteligência. (HAURÉLIO, 2012, p. 16).
Desse modo, os alfaiates Grilo e Malazarte fingem costurar a veste mais bela feita no mundo, mas só vista pelos verdadeiros sábios. O tecido é invisível, bem como as linhas e os demais aviamentos, pois deveriam ser transparentes as relações humanas. Instalados em aposentos luxuosos, aproveitam a vida boa e tranquila conseguida através da enganação. Provaram que a presunção é o maior mal que pode acometer a um homem. Não reconhecer os próprios defeitos é a maior fraqueza que um homem pode cultivar. O medo de ser néscio fez com que toda a corte, mesmo não enxergando o tecido e a roupa sendo costurada, alegasse serem aquelas vestes as mais sublimes da face da Terra. Falar do que não se tem domínio é uma forma de vestir roupas sociais. Mesmo o rei, em toda a sua vaidade, temeu não possuir inteligência.
Resta a todos seguir atestando a beleza de algo que não existe, quando os elementos de valor são olvidados. Os tapetes vermelhos são abertos para a vaidade, para a mentira e para a bajulação, no lugar da verdade, da compreensão e da singeleza.
Os adultos estão contaminados pelo jogo de aparências da sociedade. O fingir tornou- se ato constante no jogo social. Aqueles que proferem verdades são tidos como loucos e afastados do convívio humano. Só quem não possui um respeito social pode dizer verdades que, a todo custo, a sociedade tenta esconder. Apenas crianças, dementes e pícaros/malandros têm a possibilidade de questionar conceitos, pois eles não possuem um discurso competente, no sentido de poder falar e ser ouvido.
A criança faz com que as vendas dos olhos do povo sejam retiradas. Todo mundo admite que o rei está nu, exposto, vulnerável. O imperador continua seu trajeto, fingindo nada acontecer, mas o mais importante já havia ocorrido. Desvendado, diante de seu povo, o rei pôde sentir melhor a situação das pessoas. Ao aparecer sem os adornos sociais, sem maquiar as verdadeiras aparências, teria condições de governar melhor, compreendendo sua humanidade, bem como a dos conselheiros, vassalos e demais membros do povo.
Quanto aos falsos estilistas, fugiram para o sertão, antes de ser capturados pela guarda real. O retorno ao Nordeste dos dois pícaros é uma viagem constante para quem precisa revigorar suas forças, ampliando as histórias que protagonizam. Pedro Malazarte e João Grilo separam-se e seguem rumos diferentes, na certeza de que outros encontros serão inevitáveis.
Publicado em livro pela Editora Escritinhas, em 2009, a narrativa de cordel, O
professor Sabe-Tudo e as respostas de João Grilo, é destinada ao público infantil. O enredo
baseia-se na estada do malandro, ainda infante, na escola e sua relação com os saberes sistematizados em coadunação com os conhecimentos populares. Para o narrador do folheto, a escola, no Nordeste, tem um caráter diferenciado, já que não basta ensinar ciência aos discentes, mas trazer a prática do dia a dia, cujo aprendizado, por parte das crianças, é condição essencial para a sobrevivência no semiárido brasileiro.
Ainda do escritor baiano Marco Haurélio, o cordel Traquinagens de João Grilo, publicado, posteriormente, em livro intitulado Traquinagens de João Grilo em cordel, homenageia o trapaceiro, ressaltando todos os seus feitos. O vocábulo “traquinagens”, que compõe o título do folheto, faz referência a uma atividade infantil. Um menino traquino é aquele que realiza travessuras sem pensar nas consequências. A criança age pelo princípio do prazer. João Grilo assim o é: uma criança em forma de homem. Aprendera, desde a infância, que suas safadezas trazem-no deleite, como também satisfação a quem ouve suas histórias. Quando adulto, conseguiu manter esse mesmo princípio do gozo em driblar a fome, em enganar as diferenças sociais e sobrepujar os seus inimigos.
O local de nascimento, o sertão da Paraíba, é o espaço onde reinavam coronéis e cangaceiros, mas João Grilo a todos destrona sem usar sequer um ato de violência, apenas com o poder da palavra e pelas ações necessárias à sobrevivência.
A fortuna de João Grilo não era constituída de bens materiais, pois, desde pequeno,