• Sonuç bulunamadı

3. Muhtâr b Ebî Ubeyd es-Sekafî’nin Tarih Sahnesine Çıkışı

1.3. Muhtâr’ın Kûfe’ye Dönüşü ve Şehri Ele Geçirmesi

1.3.6. Muhtâr’ın İkinci Hapis Hayatı

Do mito, o herói passa a fazer parte da história. De carne e osso, a partir de então, adquire certidão de nascimento, uma vida construída através da infância, mocidade, adultez e, às vezes, velhice. Por meio desse percurso, acerta, erra, molda seu caráter sem a pré- determinação divina, ou seja, vive a sua humanidade em todas as suas idiossincrasias. O herói histórico é falho, pois é humano.

Paradoxalmente, decai ao mesmo tempo em que se eleva: ao assumir sua humanidade, também assume o risco de, humano como é, ser finito, apagar-se no curso da História. Deixa o espaço mítico, onde habitam os deuses, para coabitar com os homens. Aí está seu declínio. No entanto, nessa mudança de habitat, muda também sua maneira de pensar. Pode compreender melhor o ser humano, porque se sente mais um entre eles. Junto aos homens, pode perceber o que estes percebem, sentir o que estes sentem, viver o que estes vivem. Ao herói mítico isso é vedado. Ele age em prol do homem, mas não vivencia a humanidade. O herói mítico é limitado, pois, mesmo se transvestindo de homem em suas peregrinações terrenas, ainda é um deus. Tais visitas à humanidade só demonstram que o herói mítico deseja ser homem, sem consegui-lo.

10 Segundo Vasconcellos (2009, p.88), essa é uma “expressão latina que significa ‘o deus que desce na

máquina’”. Para Massaud Moisés, “designava, no teatro grego, a técnica artificial de precipitar o desenlace das tragédias com o aparecimento súbito de uma divindade em cena, por meio de um mecanismo, que a fazia descer do teto, a elevava do solo ou lhe permitia executar movimentos no ar, como se voasse. [...] posteriormente, adquirindo sentido figurado, o expediente designava toda intervenção, propositada e incoerente, que visasse a resolver o conflito em cena ou no transcorrer da narrativa”. (MOISÉS, 1995, p. 141-142).

O herói histórico faz parte das revoluções humanas, mas não com suas intervenções poderosas e sua interferência extra-humana. Aqui, ele é alguém que se destaca enquanto líder de uma comunidade e luta com ela e/ou por ela. Os superpoderes são substituídos por ideologias, pela oratória capaz de convencer os demais, já que “os heróis tornam-se cada vez menos fabulosos, até que, nos estágios finais das várias tradições locais, a lenda se abre à luz comum cotidiana no tempo registrado”. (CAMPBELL, 2007, p. 306).

Há dois tipos de herói histórico: o oficial e o paralelo. O primeiro, referendado pela História oficial, tem seus feitos cantados e contados pelos aparelhos estatais. São os heróis fundadores da nação, aqueles que mantêm a ordem pública. Os homens e as poucas mulheres elevados a tal posto constituem a identidade oficial de um país. Por meio de suas histórias de vida, tudo é levado a que se creia em um desprendimento em prol de sua nação. Duque de Caxias e Marechal Deodoro da Fonseca são representantes desse tipo de herói.

O segundo tipo nasce num meio menos nobre, ocupa funções também menos qualificadas ou reconhecidas socialmente do que o herói oficial. Tal herói é assim qualificado pelas classes subalternizadas. Desse modo, suas atitudes, muitas vezes, são realizadas fora dos padrões estabelecidos pela lei. Por isso, não raro, o Estado classifica-o como bandido e o persegue. A sua existência configura-se como uma ameaça ao status quo vigente. Possui uma história controversa, visto que, de um lado, os registros oficiais declaram-no um fora da lei, ou fingem não saber de sua existência; do outro, sua história é referendada pelas camadas sociais menos abastadas. É o caso de Virgulino Ferreira, o Lampião e Antônio Conselheiro, o beato. Esses heróis convivem com duas biografias: a de bandidos e heróis, a de justificadores e de vilões.

No percurso histórico há, ainda, os heróis do proletariado, a saber, o homem comum, anônimo. Tal ideologia, influenciada pelo marxismo, prevê o fim da figura do herói como aquele que fará o bem pelo povo. Aliás, na visão marxista, essa figura é perniciosa, pois mantém o povo inerte, à espera de um salvador:

O percurso do herói moderno é a reversão do percurso do herói antigo. Se antigamente se colocava a questão do percurso individual ou grupal entre o alto e o baixo da sociedade, o herói passa a ser, com o processo de industrialização, o próprio questionamento da estruturação social em classe alta e classe baixa. (KOTHE, 2000, p. 65).

De um lado, a divisão de classes fazendo com que a figura do herói sucumba diante das desigualdades, não há mais como esperar por alguém para resolver os problemas alheios.

O herói é visto, na sociedade marxista, como um extraterrestre, alguém que não conhece a realidade local e que, portanto, nada pode realizar. Não há espaço para heróis em uma sociedade que se pretende coletiva. É essa coletividade que precisa realizar seus desejos e resolver as pendências e impasses que surjam ao longo do caminho. A figura do herói representa o ópio que só atrasa a passagem de uma sociedade de classes num espaço onde todos comungam dos mesmos bens, vivem a mesma realidade.

Do outro lado, há a sociedade capitalista, dividida em classes com inserção quase que hereditária. Um abismo formado entre ricos e pobres que somente alguém vindo de um ambiente externo para resolver tal fosso, ou minimizá-lo. Aqui o herói não basta. Alguém da comunidade será rechaçado pela outra classe não contemplada. Um homem cujas virtudes sejam físicas e/ou intelectuais não satisfaz. É mister alguém com tais características potencializadas, daí surge a figura do super-herói: o homem que sofre mutação para adquirir poderes especiais, o deus que vem à Terra para resolver as pendências humanas ou ainda seres vindo de outros planetas e que, de forma bastante benevolente, sensibilizam-se com os problemas encontrados entre os homens. De qualquer forma, os super-heróis, mesmo que possuindo um ponto fraco, não conseguem estabelecer o mesmo processo catártico que o herói convencional, ou mesmo o anti-herói.

O super-herói é perfeito demais, logo, torna-se anacrônico. Apesar dos seus superpoderes, somente minimiza um caos estabelecido na sociedade, mas não o resolve. Isso se dá, exatamente, porque não há um aprendizado repassado à comunidade. Não se encontra um legado a ser seguido. Enfim, o leitor/espectador até torce por ele, mas não se coloca em seu lugar, pois o super-herói é um estrangeiro, não um homem.