3. Muhtâr b Ebî Ubeyd es-Sekafî’nin Tarih Sahnesine Çıkışı
1.3. Muhtâr’ın Kûfe’ye Dönüşü ve Şehri Ele Geçirmesi
1.3.8. Muhtâr’ın Abdullah b Mutî’ ile İlişkileri
Em Memórias de um sargento de milícias (1852), romance de Manuel Antônio de Almeida, a personagem Leonardo Pataca Filho é herdeira das práticas picarescas, embora pertença a outra categoria de herói e seja classificado como o primeiro malandro da literatura brasileira. A sua origem humilde aproxima-o do pícaro, bem como sua vida irregular, inconstante e a esperteza em pregar peças que levam ao riso. Mas Pataca (como seu pai Leonardo) é um trickster, um trapaceiro não somente por necessidade de sobrevivência, mas por um estilo de vida. Sente prazer em quebrar todas as leis e regras morais ao criar um universo sem culpas ou receios (CÂNDIDO, 1970).
Em 1928, Mário de Andrade lança Macunaíma: o herói sem nenhum caráter. Simbolizando a formação étnica brasileira, sintetiza as etnias indígena, europeia e negra. Preguiça e mentira fazem parte de sua concepção, safadeza e traição. Fala muitos palavrões, uma característica do pícaro, que não mede palavras, mas trai e engana pelo seu simples deleite, atribuição do malandro. Desse modo, o personagem encerra em sua construção a ambivalência do pícaro espanhol e do malandro brasileiro (MILTON, 1986).
Há, ainda, a figura recorrente na literatura popular de Pedro Malasartes (ou Malasarte), cuja origem não se sabe ao certo qual é, mas cuja ressonância de seus atos reverbera na Espanha, em Portugal e por toda a América do Sul. Como malandro, suas atitudes revelam um caráter justiceiro, que burla as regras formais para agir em prol de quem foi vilipendiado, mas não possui meios para ser ressarcido. Suas ações aparecem, para muitos, como a prova do famoso “jeitinho” brasileiro, quando uma série de situações é remendada em proveito pessoal.
Por fim, o último exemplo é de origem europeia, asiática ou oriental, mas foi no sertão nordestino que João Grilo encontrou o espaço ideal para realizar suas artimanhas. O folheto
Proezas de João Grilo33, de João Ferreira de Lima, relata o nascimento, a infância e as primeiras aventuras do Amarelo34, que abandona sua principal característica lusitana: a sorte, para adquirir, em solo tupiniquim, sua marca mais evidente: a esperteza. Em 1957, o escritor paraibano Ariano Suassuna publica a obra Auto da Compadecida. Das páginas dos folhetos de cordel, João Grilo passa a povoar também os tablados brasileiros para, em seguida, traçar seu percurso pela televisão e pelo cinema. Suassuna segue o mesmo trajeto do cordel ao esboçar o perfil do personagem já adulto. O enredo do Auto da Compadecida baseia-se na personagem João Grilo e em sua luta pela sobrevivência. Para isso, a personagem cria as situações mais picarescas; e ao se enlaçar numa de suas histórias, vê-se obrigado a criar outra situação mais complexa para se livrar da anterior, e assim sucessivamente.
Leonardo Pataca, João Grilo, Macunaíma e Pedro Malasartes figuram como quatro expoentes da malandragem nacional. Para Damatta (1997):
[...] o malandro é um ser deslocado das regras formais, fatalmente excluído do mercado de trabalho, aliás definido por nós como totalmente avesso ao trabalho e individualizado pelo modo de andar, falar e vestir-se. [...] no mundo da malandragem, o que conta é a voz, o sentimento e a improvisação. (p. 263; 265).
O malandro social é visto como aquele que fala e vive a proibição pelo consenso, isto é, diz o que pensa, rompe a censura, quebra paradigmas, através de um meio oficial. Por meio das normas vigentes, alcança o bem pessoal, mas sem destruir tais regras, o que o mantém dentro do sistema. Aniquilar o status quo em voga seria destruir a si mesmo e lacrar todas as oportunidades. Em seu projeto de vingança, todo esforço empreendido serve para destruir seu oponente, mas sem tocar na estrutura social existente.
Na música, o malandro fez escola: nasceu no samba e habitou os morros cariocas. Sua roupa excessivamente branca e seu chapéu panamá geraram um estilo inconfundível. Seu andar aparentava uma ginga, seu falar denunciava um jeito de se expressar característico. A mesma malemolência dos passos, num eterno samba pisado, era usada na fala. Esse malandro entrou para o folclore brasileiro, ganhando fama de conquistador de mulheres e de burlador das normas, mas tudo feito com o consentimento das “vítimas”, que autorizavam a ação do anti-herói convencidas por ele.
33 Esse folheto, publicado originalmente em 1932, em sextilhas, e contendo oito páginas, intitulava-se As
palhaçadas de João Grilo. Em 1948, foi ampliado para trinta e duas páginas, com todas as estrofes acrescidas escritas em septilhas.
34 “No Nordeste, MG, SP e MT, é sinônimo de pessoa pálida, come-longe. [...] Pálido, doente, amarelo, quem
Sai, pois, das ruas e das canções, transforma-se no “malandro literário”, como conceituou González (1994) e afasta-se do pícaro clássico em sua relação com o mundo. Se, por um lado, o pícaro tem a toda a sua luta pautada em conseguir, ao final dela, um emprego que lhe exija pouco esforço, o malandro foge do trabalho formal. Está demasiadamente influenciado pela ideologia burguesa e, por isso, vislumbra uma vida de regalias. Cabe lembrar que, no Brasil, o trabalho árduo está associado à escravidão.
Durante o todo o período de escravidão negra no país, o homem livre era conhecido por ser um profissional liberal, ou integrar a nobreza e o clero. Sobrava o serviço pesado para os negros trazidos à força do continente africano. O malandro, pois, influenciado por esse pensamento, abomina o serviço formal, assalariado, por remetê-lo ao trabalho escravo.
Tanto Pedro Malasartes, quanto João Grilo e o Lazarillo sobrevivem em subempregos, por isso mesmo, todos esses ofícios são passageiros. A relação patrão-empregado não se dá de maneira harmoniosa. A visão capitalista é criticada, a fim de ratificar a exploração em nome dos lucros exorbitantes.
Um emprego formal, com base na égide capitalista da opressão do empregador sobre o empregado, não pode deter o malandro. Sua opção por trapacear exige tempo disponível para tramar suas vinganças e planos para obtenção de alimento, de mais um fôlego de vida. Aí a necessidade de ser livre das amarras sociais, como a sua função de trabalhador. O trapaceiro precisa de seu tempo livre para desenvolver seu ócio criativo: a criação de artimanhas.
O sentimento é usado pelo anti-herói enquanto hybris35, que o impulsiona a agir. É o coração quem dita as regras do malandro. Suas atitudes possuem um fim emocional, seja a conquista de uma mulher por quem se enamora, seja a vingança empreendida contra um rico fazendeiro. O malandro ama o que faz, sente prazer nos planos que traça. O sentimento materializa-se na voz. É o primeiro passo para alcançar seus objetivos: o tom que dá aos seus atos é iniciado pela conversa que trava, pelo diálogo convencedor.
Contudo, de nada adiantariam o sentimento e a voz se não fosse a sua capacidade de improvisação. A ação imediata é característica que marca o malandro. Para tal, é preciso falsear a situação, contornando os problemas. Pensamento ágil e atitude contígua fazem do malandro um especialista em resolver situações embaraçosas, mesmo sendo ele o gerador delas.
Segundo Antonio Candido, a ação do malandro recai na prática da
35 “Designa o sentimento de exagerada autoconfiança, orgulho ou paixão, que incita os heróis da tragédia grega a
[...] astúcia pela astúcia (mesmo quando ela tem por finalidade safá-lo de uma enrascada), manifestando um amor pelo jogo-em-si que o afasta do pragmatismo dos pícaros, cuja malandragem visa quase sempre ao proveito ou a um problema concreto, lesando frequentemente terceiros na sua solução (CANDIDO, 1970, p. 71).
Nem sempre há uma justificação pelos atos do malandro. Em várias instâncias, é o prazer de iludir que prevalece. Se ele persegue a burguesia, é para fugir do proletariado ao qual pertence. Embora a fome também o persiga, é o seu desejo de enriquecer que guia os passos. Não é uma mera vontade, mas uma aspiração. Em nome dessa cobiça, tudo é justificável.
Há uma aproximação evidente entre o pícaro clássico e o malandro pela mesma origem humilde. Este é influenciado pelo folclore nacional, como aquele fora influenciado pelo meio que o gestara. Os dois são frutos do seu tempo e espaço. Os chistes nascidos nas camadas populares criaram tais personagens, logo, eles são representantes de sua cultura. Isso diminui o peso da dívida do malandro para com o pícaro.
Entre Pedro Malasartes, João Grilo, Macunaíma e o Lázaro, nascido na região da Salamanca, na Espanha, às margens do rio Tormes, podem-se observar mais semelhanças. Como o pícaro espanhol, os representantes brasileiros possuem, com exceção de Macunaíma, um pré-nome cristão. João significa “Deus é misericordioso”36, e Pedro é “rocha, força, dureza”37. De origem hebraica, os nomes são bastante comuns, o que denota popularidade, traçando os perfis dos personagens como homens simples, do povo.
O segundo nome, Grilo, indica vulgaridade, ou seja, ao levar o nome de um inseto, reveste-se de uma pequenez diante das pessoas que compõem a sociedade. Ao mesmo tempo, como o grilo aborrece pelo seu som estridulatório, o João Grilo incomoda essa sociedade com sua presença e artimanhas. Ainda recebe a alcunha de Amarelo, numa alusão à sua cor, ou falta dela, acentuada pelo sol escaldante do sertão e pela anemia, causada pela falta de vitaminas em virtude da escassez de alimentos, o que gera essa palidez constante, mas que não lhe confere lentidão, ao contrário, ganha agilidade na criação e execução das tramas. Já Malasartes vem do espanhol “más artes”, aquele que só faz estripulias, o que remete à visão estereotipada que recebe e, por ela, fora nomeado.
Macunaíma, nome de origem indígena que significa “aquele que trabalha durante a noite”38, por sua vez, sequer tem sobrenome, mas o epíteto de “herói sem nenhum caráter”
36 Disponível em: <http://bebe.abril.com.br/ferramentas/nomes/nome.php?nome=783>. 37 Disponível em: <http://bebe.abril.com.br/materia/pedro>.
aponta para a ambiguidade do personagem: de um lado, um homem visto como pernicioso para a sociedade, já que não possui caráter formado; do outro, um ser que se molda à situação, cujo nenhum caráter significa caráter adaptável.
Para Roberto Goto, o malandro vive numa coreografia que encena a “dialética da malandragem”, a dialética “da ordem e da desordem”:
A ótica da ordem mimetiza o modo de ver oficial [...] A ótica da desordem corresponde a uma visão desideologizada do real, considerada popular, que valoriza e prestigia comportamentos e relações definidos como naturais e espontâneos. Na passagem de uma para outra, a ideologia da ordem é objeto de uma crítica desarticuladora e revertida para um “lusco-fusco” em que todas as ideologias são pardas; em contrapartida, a idéia de desordem só é resgatada na medida em que é amenizada. (GOTO, 1988, p. 46).
A luta do malandro é contra toda a sociedade, mas, como um neopícaro, ele está tão envolvido e contaminado com a ideologia em vigência, que não pretende rever tais conceitos, mas se inserir nesse sistema que o exclui. A mentira é apenas um meio para obter alimento ou outras benesses. Todavia, as ações do malandro podem variar da esperteza à marginalidade, quando abandona os pequenos golpes para a desonestidade sem volta. Ao fazê-lo, entra para o banditismo e passa a ser perseguido pela Justiça. Assim que isso ocorre, geralmente, perde a simpatia do público-leitor.
Cabe lembrar que, ao contrário do pícaro, o neopícaro não tem uma única origem, o imaginário popular. Não é só em folhetos e compêndios de literatura popular onde eles serão apreciados. A cultura erudita também produz seus malandros e se diverte com eles. Manuel Antônio de Almeida, Jorge Amado, Ariano Suassuna criaram malandros para um público que não lê, costumeiramente, cordéis.
Outro fator importante acerca do trapaceiro é seu caráter itinerante. Não há como produzir uma classe social de malandros, pois não há uma estabilidade territorial para estes. Vaguear pela cidade, pelo sertão, pelo mundo é seu intuito maior. Como não se detém em um só espaço, não almeja dividir com a sociedade a sua força de trabalho, tampouco às qualificações. Estar só facilita sua mobilidade, suas fugas.
Os enredos criados pelos pícaros não têm longa duração, sendo logo desmascarados e, consequentemente, punidos, mas
A astúcia, sobretudo, quando é a arma usada contra algum tipo de força aterradora ou obstrutora, parece conferir um sentimento de triunfo que
superlativo, e que podemos nomear como júbilo. (MENDES, 2008, p. 42, grifos do autor).
É o poder de enganar com suas histórias que dá, primeiramente, prazer ao anti-herói nordestino; em seguida, confiança para continuar a engendrar seus planos. João Grilo e Pedro Malasartes são seres ínfimos diante dos poderosos, mas sua aparente fragilidade é que os tornam fortes. Por passarem boa parte do enredo despercebidos (ou menosprezados, o que vem a ser a mesma coisa) aos olhos dos membros importantes da sociedade, encontram espaço para criar e sobrepujar, embora por tempo limitado, cada uma das pessoas que os afligem. O triunfo é passageiro, a alegria da trapaça dura pouco, mas é o bastante para validar os intuitos das personagens e fazer com que elas continuem a agir. Afinal de contas, disso depende sua liberdade, seu dia de amanhã.
O êxito desse anti-herói, através da palavra e da esperteza, satisfaz à plateia, daí o motivo de o espectador afeiçoar-se e defender o malandro. Este não possui força física, ou não a utiliza, contudo, é pela perspicácia das ações empreendidas e pelos discursos proferidos que vence os seus algozes, conquista o público e ainda gera o riso. Este personagem produz um discurso criado a partir de situações dúbias, expressões ambíguas e situações confusas. A catarse do espectador dá-se pela vingança dos protagonistas, em nome de todos, contra os trapaceiros, já que “ [...] O prazer dos espectadores acompanha e aplaude as proezas do explorado contra os exploradores. [...] Os explorados introjetam na vingança a sua inteligência” (GUIDARINI, 1992, p. 22).
No entre-lugar entre a picardia e a vingança, o malandro admite que suas artes começam pela necessidade de sobrevivência, mas que depois passam, também, para o júbilo da desforra. Isto o diferencia do pícaro clássico, que não dissocia sobrevivência de vingança. Lázaro foge das agruras de seus amos. Os atos que comete, inclusive os físicos, contra os seus patrões, são reflexos, reações a uma agressividade sofrida anteriormente:
É somente o malandro [...] que vive do presente, usa do presente e, assim, liga o passado com o futuro, abrindo outra alternativa para um sistema social não preocupado com as regras impessoais (vale dizer, com o passado) ou com as relações pessoais e os traços de genialidade e messianismo que correspondem a tal sistema (vale dizer, o futuro pleno e aberto). (DAMATTA, 1997, p. 300).
Em um primeiro plano, para Grilo, Malasartes, Macunaíma e Lázaro, o que importava era o dia a dia, as trapaças criadas. As histórias inventadas davam conta apenas de saciar a
urgente fome daquele dia. No dia seguinte, seria necessário sustentar a mentira com outra história, forçando, assim, uma rede de histórias criativas e encadeadas, tecida para garantir a salvação diária. Mas há uma diferença básica entre os personagens. O Lázaro de Tormes deixa sua vida de picardias ao mudar sua posição social, ao saciar a fome. João Grilo e Pedro Malasartes não têm a sua condição de pobreza alterada em definitivo.
Lázaro viajou pela Espanha em busca de alimento e melhor condição de vida. Pedro Malasartes visitou o interior brasileiro, oferecendo sua justiça enviesada. Grilo andou pelo sertão à procura de sobrevivência. Macunaíma saiu do mato e foi à cidade, fazer-se brasileiro por suas andanças. Todos encontraram reconhecimento através dos livros que explanam suas aventuras e espectadores de suas adaptações para o teatro, televisão e cinema. Eternizaram-se no imaginário dos leitores/espectadores que os sagraram no passado como porta-vozes de uma classe oprimida. Os leitores/espectadores elegem o riso sem regras ou limites, ainda na contemporaneidade, como denúncia social.
Não é só Macunaíma que é “herói sem nenhum caráter”. Leonardo Pataca, João Grilo e Pedro Malasartes também o são, mas é preciso entender o contrário do que a afirmação diz: herói sem nenhum caráter é exatamente herói pleno de caráter, mas não aquele vigorante na sociedade, que se permite excluir, oprimir, invisibilizar, mas um caráter móvel. Por isso, tais heróis não se propõem a ser modelos sociais, mas coabitar o espaço da contradição, como conflitante é a humanidade.
É por isso que Lázaro e João, Malasarte e Macunaíma continuam por aí, caminhando pelas estradas da Espanha, flanando pelo interior, cruzando as avenidas das metrópoles ou trilhando os caminhos do sertão brasileiro, fazendo picardias, burlando regras, mentindo e trapaceando. Enfim, representando o ser humano em todas as suas idiossincrasias.