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3. Muhtâr b Ebî Ubeyd es-Sekafî’nin Tarih Sahnesine Çıkışı

1.3. Muhtâr’ın Kûfe’ye Dönüşü ve Şehri Ele Geçirmesi

1.3.9. Ehl-i Beyt Taraftarlarının Muhtâr’dan Şüphe Duymaları

Fábula compilada por António Sérgio, A guerra do grilo e do leão (1924) lida com os bichos antropomorfizados, numa guerra social pelo reino da natureza. Aqui, leão e grilo duelam pela coroa de rei dos animais. De um lado, um grilo, um mero inseto, frágil, de tamanho diminuto, com uma voz fina. Do outro, o leão, com grande porte, detentor de força descomunal e brado potente.

Metaforicamente, há uma disputa de classes nessa fábula. Nesse cabo de guerra, de lado opostos, encontram-se os insetos, capitaneados pelo grilo, a saber, o povo, e o leão, juntamente com os demais mamíferos terrestres, em especial, os felinos, em outras palavras, os poderosos.

Nesse embate, previsivelmente, poder-se-ia julgar desigual o embate de forças. Os nobres e poderosos possuem a voz pujante, audível em comparação com a voz fraca, quase imperceptível do povo. Mas há outras forças em jogo. Há estratégias a se usar, a fim de mover esse cabo de força para o outro lado. No conto, a união dos insetos é a responsável pela vitória do grilo e de seus companheiros. Através do trabalho em equipe, os gatos, as raposas e os lobos foram derrotados pelo exército de moscas, de mosquitos e de abelhas, respectivamente.

Na narrativa, o canto do grilo é o fato gerador da peleja com o leão. Seu canto soa ao grande felino como uma afronta: “Grilo é rei, rei, rei, amanhã to mostrarei” (SÉRGIO, 1924, p. 06). Um canto fraco? Uma voz abafada? Mas sempre uma voz. E um rumor sempre incomoda, por mais inerme que pareça ser. E um clamor persistente, mesmo que anêmico, vai ganhando espaço em ouvidos que antes se encontravam fechados para tal. Desse modo, não só a voz do leão, majestosa e competente, é ouvida, mas também a das minorias se faz presente.

O leão dirige-se ao o grilo sempre no diminutivo, o que demonstra a relação de forças em jogo: “Grilo, grilinho, sai do buraquinho” (ibidem, p. 07). Do alto de seu poder e de sua condição social, o leão enxerga-se incólume ante a pequenez dos insetos. A presunção é o mal dos grandes; utilizando-se dela, os fracos, juntos, tornam-se fortes, vencem as investidas do inimigo.

Após as batalhas e consecutivas derrotas, o que inclui a morte de um de seus mais importantes generais, o leão cansa-se da guerra, hasteia a bandeira de paz e procura seu algoz, a fim de esclarecimentos: “– Grilo, grilinho, sai do buraquinho. Já vejo que também és rei. Se eu sou rei, e tu és rei, como há dois reis entre nós?” (ibidem, p. 09).

Nesse instante, o ensinamento é proferido pelo grilo. Não há um só rei no mundo animal. Não é possível ter apenas um rei governando sobre todos. Mesmo os subjugados precisam sentir próxima a liderança. A democratização do poder é a tônica do conto, que conjectura a existência de uma harmonia entre os diferentes poderes: o das aves, o dos mamíferos, o dos insetos e o dos peixes. Enfim, o povo quer ser ouvido, respeitado, governando pelos seus próprios representantes. Que cada um reine sobre os seus e discuta, entre os seus pares, as condições para melhor viver.

Outra versão da mesma fábula, registrada por Alda Silva e Paulo Soromenho (1984), intitulada O leão e o grilo, aborda o duelo entre os dois animais e seus exércitos, tendo como estopim para a guerra o fato de o leão ter pisado o pequeno inseto. Tal caracterização da cena faz lembrar a insignificância do grilo diante da grandeza do mamífero, intitulado rei da selva. O leão precisa procurar muito e abaixar a cabeça a fim de encontrar o dono da voz queixosa:

– Quem é que me pisa a mim, sendo eu o rei das amandigas?

O leão começou a olhar pra um lado, a olhar pra outro e num via nada. O grilo estava dentro do buraco, metia-se pró buraco e o leão na via nada. (SOROMENHO, SILVA, 1984, p. 54-55, sic.).

O vale é escolhido para a batalha que se dá com a escolha das tropas: de um lado, o leão capitaneia os bois, os cavalos, os homens, os lobos e os cães; o grilo tem suas hostes todas guardadas em um saco: as moscas dos bois, as abespras (vespas) e as moscas dos cães.

O grilo intitula-se rei das Amandigas, referência ao antigo reino da África na Líbia ulterior, Mandiga41. Conhecedores da escrita e considerados como grandes feiticeiros, os mandingas eram temidos por outras etnias, daí a atribuição ao termo “mandinga” para se relacionar a algum elemento mágico. Vindo de longe, o Grilo trazia consigo a origem real, oriunda da África.

O rei mandinga não veio sozinho, mas trouxera consigo suas hostes: várias castas de insetos. Na visão europeia, as nuvens de insetos habitavam a África e de lá saíam a destruir as

plantações pelo mundo. Uma visão recorrente é de que os insetos da praga do Egito, na luta ente Moisés e o Faraó, foram conjurados, pelo patriarca hebreu, do continente africano, e para a África retornaram com o término da maldição contra os egípcios.

Desse modo, o exército do grilo está acostumado a guerrear desde o princípio dos tempos. Na guerrilha entre os mais fracos e os mais fortes, os insetos levam a melhor, expulsando todos os grandes mamíferos para o charco, restando apenas o leão em seu sítio. Nessa versão, até mesmo os homens estão subordinados ao rei das selvas, sendo considerados os membros “mais astutos” (SOROMENHO, 1984, p. 55) do seu esquadrão. Contudo, nem a astúcia humana foi capaz de sobrepujar a ferocidade do ataque das vespas, que cegaram seus oponentes, forçando o recuo para dentro do brejo. Literalmente, as intenções do leão deram com bois, cavalos, homens, cães e lobos n’água.

Ainda uma terceira versão da fábula, divulgada por J. R. dos Santos Júnior (1966), na

Revista da Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia, substitui o leão pela raposa na

luta contra seu rival, o grilo.

Sem explicitar as razões para o início da guerra, iniciada no mês de janeiro, em pleno inverno, a ação foi dividida em duas batalhas: na primeira, os bois, os cães, os gatos, os leões e demais castas de animais de grande porte, aliados da raposa, venceram as abelhas e as vésperas (vespas), já que, durante o inverno, os insetos não possuem tanta força. No mês de maio, já na primavera, dá-se a segunda e decisiva batalha, e é aí que basta apenas “o primeiro batalhão de vésperas, os soldados de casaca amarela” (SANTOS JÚNIOR, 1966, p. 374) para ferroar e vencer todo o front inimigo.

A substituição do leão pela raposa é também a troca da força pela perspicácia. Desse modo é que o grilo vence a energia e sobrepuja a esperteza dos seus inimigos. Enquanto os generais das armadas inimigas fiavam-se na força individual de seus soldados, o grilo arquiteta a estratégia da união. É pelo conjunto de soldados, centenas deles, que o General Grilo vence o poderio do Leão e da Raposa.

Especificamente na versão que lida com o grilo e a raposa, tem-se aí a disputa entre dois animais, no imaginário popular, considerados inteligentes:

Nos contos e diálogos que a imaginação popular compôs, a comadre raposa é quási sempre chamada a intervir para lograr com a sua astúcia os papalvos [...] Algumas vezes, porém, volta-se o feitiço contra o feiticeiro [...] (OLIVEIRA, 1943, p. 11, sic., grifos do autor).

O grilo, no entanto, é falador, característica atribuída ao som que emite. Sua capacidade de dizer o que pensa incomoda os outros, por isso é sempre lembrado nas histórias populares como um ser incômodo, que usa de esperteza para sobreviver e vencer as batalhas diárias.

Embora as fábulas não sejam sobre o personagem em estudo, é pertinente para perceber que João Grilo segue o pensamento de seu primo, o grilo, rei dos insetos, pois vê, em cada ação, uma possibilidade de virar a pirâmide social, onde se encontra na base. Seu desejo é sobrepujar o status quo instituído, na expectativa de que um representante do povo, assim como o simples grilo, tome o cetro do poder e alcance o patamar de senhor.

Essas fábulas registram a luta do grilo para se tornar o herói reconhecido pela sociedade dos animais, no entanto, suas ações, que burlam a norma estabelecida, afastam-no de tal título. A partir dessas fábulas, percebe-se que o grilo nunca será um herói clássico. Não nascera na categoria de animal apto a ser coroado rei. Pertence a outra classe, comumente subalternizada. O que ele faz, no entanto, é subverter a ordem. Daí sua alcunha ser a de anti- herói, já que não detém o porte que se espera de um rei, tampouco atitudes éticas.