4.4. Araştırmanın Bulguları ve Yorum
4.4.1. SMMM’lerin Bilgi Üretiminde Muhasebe Sistemine
4.4.1.1.1. Muhasebenin Temel Kavramlarına Uyum
Do ponto de vista identitário, Play on Earth também representa a performance como sintoma da época em que vivemos. Sua proposta de elucidar a existência fragmentada do indivíduo pós-moderno dialoga amplamente com a premissa que cerca a relação do humano no contexto das redes. Somos progressivamente múltiplos, assumimos máscaras e personagens ao sabor dos contextos e nos fazemos reconhecer diferentemente em cada rede social que integramos sejam elas reais ou virtuais. Nossa identidade está pulverizada por entre as conexões que mantemos e nossa dimensão existencial acaba por ser resultado da maneira pela qual nos distribuímos pela teia global.
Félix Guattari explica que a oposição entre indivíduo e sociedade deve ser ultrapassada, uma vez que os modelos de Inconsciente atuais estão sendo reconfigurados por fatores como [...] a irrupção de fatores subjetivos no primeiro plano da atualidade histórica, o desenvolvimento maciço de produções maquínicas de subjetividade e, em último lugar, o recente destaque de aspectos etológicos e ecológicos relativos à subjetividade humana (GUATTARI, 1992, p.11).
O ser, portanto, relaciona-se de outra maneira com o ambiente, com a imaterialidade cada vez mais atuante em detrimento do plano concreto e, por fim, com uma nova maneira de enxergar o maquínico mais orgânica, horizontal e sob o ponto de vista da dinâmica e não dos elementos constituintes de um dispositivo social ou operativo. O autor posiciona a performance nesse contexto como reflexo dos padrões emergentes de relações sociais.
E, a esse respeito, a poesia, a música, as artes plásticas, o cinema, em particular suas modalidades performáticas ou performativas, têm um lugar
importante a ocupar, devido à sua contribuição específica, mas também como paradigma de referência de novas práticas sociais e analíticas psicanalíticas em uma acepção muito ampliada (GUATTARI, 1992, p.116).
O novo indivíduo que se lança à rede percebe uma nova forma pela qual pode estabelecer vínculos. Os conceitos de intimidade e comunidade relativizam-se e não mais dependem de contatos pessoais ou geograficamente próximos. Para qualquer um que não esteja envolvido na dinâmica das redes, é provavelmente difícil de imaginar como um meio baseado em computador poderia viabilizar o convívio amistoso [...] (ASCOTT in GRUNDMANN, 1984).
As experiências sociais ocorrentes nas redes e por meio de dispositivos computacionais evidenciam a performatividade identitária, ou seja, a flexibilidade e a mutabilidade dos eus que habitam o mundo.
Identidade é performativa. Isso significa que posso levantar e [...] assumir um gênero diferente pela manhã. Não se trata de uma falácia. A convergência de idéias de performatividade e fluidez nos discursos sobre gênero, identidade, sexualidade, cultura e etnicidade permite um escape dos cânones de toda sorte [...]O impacto deste argumento não é discursivo: a performatividade é uma prática de repetição diária que permite respirar e movimentar-se por entre códigos sociais e convenções
(KOZEL, 2007, p.66-7).
Existe no seio artístico uma distinção entre o performático teórico (identidades múltiplas) e o prático, em que se dão os projetos artísticos. Esta separação impede o desenvolvimento de linguagens e proposições que se alinhem ao máximo às questões existenciais da contemporaneidade, de modo inclusive a aumentar o poder de conexão junto às audiências, uma vez que elas vivem tal contexto diariamente. Esta é uma virtude de Play on Earth, que lança mão da rede para problematizá-la, não a utilizando como suporte ou um componente de linguagem referente a qualquer outra externalidade.
A presença on-line é distribuída, múltipla, de modo a ocupar espaços, tempos e culturas amplamente diversos, em que o eu reproduz-se continuamente sem a necessidade de uma base física, como por exemplo é verificável em MUDs, MOOs, chats e outros ambientes simulados de encontro. A vida virtual permite que as pessoas tenham presença em muitas janelas e contextos simultaneamente, uma condição que se tornou um aspecto central de muitos projetos de arte on-line (PAUL, 2008, p.165).
A obra egoscópio 2.0 (2004), de Giselle Beiguelman, exprimiu de forma literal o desejo performativo dos indivíduos em rede. A obra consistia em uma plataforma
multiusuários que permitia a inserção de textos, imagens e animações em Flash por meio de mensagens enviadas por celular (SMS, MMS) e pela Internet. Os conteúdos enviados eram exibidos em tempo real em uma enorme tela, no que a artista intitula como um exercício anárquico de grafitagem eletrônica planetária (BEIGUELMAN, 2010, online). Sem filtros, a obra explorou uma poética emergente derivada do forte desejo de expressão que permeia a relação das pessoas com a rede. As projeções amplificam vozes difusas ciosas por atenção, do mesmo modo que é possível ver em qualquer ambiente de conversação na Internet ou via celular, por exemplo.
De acordo com Steve Dixon (2007, p.2), a comunicação pela Internet pode ser vista como solo fértil para uma performance virtualizada do eu, de tal modo que a vida social se vê como um teatro ocupado por aqueles que usam as redes computacionais de modo consciente para freqüentar eventos teatrais ou simplesmente desenvolver amizades virtuais, escrever em seus blogs ou comunicar-se de qualquer outra maneira que faça sua expressão ser disseminada. Os duplos multiplicam-se, a vida materializa-se como teatro permanente.
Na era dos teatros virtuais, o sentimento de duplos libertos dos desejos e da consciência do indivíduo gerador se faz presente nas mais diferentes situações. Os corpos se multiplicam em dados. Estes, meros pontos em grandes mapas digitais, alimentam os sistemas de informações cada vez mais devoradores de trações e condutas (LEÃO in ARANTES; SANTAELLA, 2008, p.264).
A existência performativa nas redes adentra um outro estágio de desenvolvimento. Mais do que interagir em ambientes virtuais, o indivíduo ganha, agora, um alto potencial de mobilidade física. À fluidez psicológica, soma-se uma transitoriedade real, física, que amplia a alternância existencial entre territórios de diferentes naturezas. O viver performativo é, também, cíbrido. A popularização dos dispositivos de comunicação móvel aponta para a incorporação do padrão de vida nômade e indica que o corpo humano se transformou em um conjunto de extensões ligadas a um mundo cíbrido, pautado pela interconexão de redes on e off-line (BEIGUELMAN in ARANTES; SANTAELLA, 2008, p.279). De acordo com Giselle Beiguelman (2005, p.9), esta simbiose pode rumar para um estágio no qual sejamos mais uma espécie dentre outras de avatares e indivíduos gerados por meio de manipulação genética.
Este contexto é reforçado pelo blog Networked Performance (2010, online), cujo objetivo consiste em inventariar as múltiplas correntes de expressão na performance em rede a partir justamente do performativo, que de acordo com as autoras acaba por suplantar a
simples representação. Deste contexto, portanto, entende-se o ator em rede como um ente que passa a estar muito mais do que representar. O artista passa, então, a executar agenciamentos em rede e não mais a agir repetidamente por meio de um distanciamento construído pelo paradigma da representação. Do mesmo modo, o indivíduo aproveita tal ambiente para distribuir-se em múltiplas identidades e exercê-las na infinitude de possíveis relacionamentos ocasionados pelos meios e recursos tecnológicos disponíveis.
A Internet dissolveu os limites do corpo e permitiu, especialmente nas comunidades virtuais, que se formam a partir de listas de discussão e redes sociais, como o Orkut, a construção de personalidades diversas corporificadas em entidades virtuais, como os avatares, que desintegram e multiplicam as identidades. Em um mundo globalizado e mediado pelas telecomunicações, o corpo conectado às redes eletrônicas torna-se interface entre o real e virtual. Ao mesmo tempo em que se dilui, imbuído de uma negatividade que evoca sua inutilidade, duplica sua existência como telepresença e presença física (BEIGUELMAN, 2005, p.102).
A dimensão imaterial da existência também é alvo de críticas, como se pode perceber no pensamento de André Gorz. Em sua visão, os processos de abstração e matematização conduziram a uma sistematização da vida que, ao basear-se em números, barrou o acesso aos sentidos, à experiência viva. Nesse mundo, o homem aparece como um ser sobrepujado, antiquado, desalojado. Para estar à altura do ambiente técnico, ele necessita de próteses químicas e eletrônicas. O projeto de uma inteligência artificial, deve superar a limitação biológica da humanidade (GORZ, 2005, p.13). Este contexto, em que o eu se autoproduz de forma multiplicada, na verdade o reduz, o torna menor. Trata-se de uma visão que demoniza o código e a artificialidade como entes representantes de uma categoria que se opõe a um pretenso natural, quando na verdade a ele se soma e o transforma.
Este mesmo ser é visto, todavia, a partir de outra condição: a do pós-humano. O conceito, amplamente dissecado por Lucia Santaella (2007), consiste no atingimento de um diferente estágio de desenvolvimento de nossa espécie, que passa a interagir de modo mais orgânico junto a dispositivos genéticos, mecânicos, dentre outros. Trata-se de uma existência que ruma progressivamente para o mundo virtual e imaterial.
Assim, a condição pós-humana diz respeito à natureza da virtualidade, à genética, à vida, à inorgânica, aos ciborgues, à inteligência distribuída, incorporando biologia, engenharia e sistemas de informação. Por isso mesmo, os significados mais evidentes, que são costumeiramente vinculados à expressão pós-humano, associam-se às inquietações acerca do destino biônico do corpo humano (SANTAELLA, 2007, p.38).
Tal espécie, mais fluida, transita com maior naturalidade entre as esferas reais e virtuais, conectadas ou não, de modo a estabelecer agenciamentos artificiais ou não, redefinindo os paradigmas da conexão homem-máquina que, juntos, passam a integrar de modo sincrônico e, com isso transformar as máquinas sociais (GUATTARI, 1992) e o fluxo de significados que se dá por entre elas.
No entanto, a definição de pós-humano suplanta a definição corporal. Não obstante incluam as mutações que as tecnologias estão provocando no real do corpo, há dimensões antropológicas e filosóficas implicadas nessa expressão que a dotam de uma complexidade que envolve, e vai além da tecnologia e mesmo da biologia (SANTAELLA, 2007, p.43).
Efetivamente a existência performativa amplia as noções psicológicas desenvolvidas já no século XIX, em que o eu já era visto como um ente difuso ou um ponto de encontro de diferentes identidades, que se configuram na condição de enunciador fragmentário, justamente o sujeito problematizado no contexto de Play on Earth. Assim, no lugar dos antigos sujeito e eu, novas imagens de multiplicidade, heterogeneidade, flexibilidade e fragmentação dominam nas visões atuais sobre a subjetividade humana (SANTAELLA, 2007, p.86).
Este entendimento é detalhado por um dos atores da série, Beto Matos (2008, entrevista). De acordo com ele, o ser humano não pode mais ser visto apenas como um construto linear, histórico. O sujeito é resultado de inúmeras afiliações, que se potencializam na rede. Com o advento das novas tecnologias digitais de comunicação, o ser humano rompeu a barreira do espaço-tempo, e busca se entender como ser múltiplo, com inúmeras personas (MATOS, 2008, entrevista).
De acordo com Santaella (2007, p.90), tal noção de sujeito pode ser resumida pela multiplicidade, disseminação e descentramento, em que se unem em torno de um conceito instável de identidade que não é próprio naturalmente da cibercultura, mas nela encontra um novo significado. A novidade está, isso sim, em tornar essa verdade evidente e na possibilidade de encenar e brincar com essa verdade, jogar com ela até o limite último da transmutação, da metamorfose [...] (SANTAELLA, 2007, p.97).
A problematização destas concepções em um evento como Play on Earth nos faz pensar que é possível executar uma metaperformance, na qual a representação cênica provoca a reflexão sobre a camada existencial cotidiana, uma existência performativa, pós-humana e cíbrida.