4.4. Araştırmanın Bulguları ve Yorum
4.4.1. SMMM’lerin Bilgi Üretiminde Muhasebe Sistemine
4.4.1.1.2. Mali Tablo Niteliklerine Uyum
Os corpos envolvidos em Play on Earth não ocupam apenas um espaço. Ao pretender- se distribuída por meio da rede, a série coloca seus atores em uma zona de tensão entre a atmosfera física, palpável, e um território imaterial, deslocado, sem um referencial geográfico que o delimite de forma exata. E não se trata de uma divisão simples, ou seja, que se partilhe matematicamente ao meio e permita um fácil gerenciamento das questões pertencentes a cada um dos mundos presencial e remoto.
Na primeira montagem da série, as telas dispostas sobre o palco mantinham uma relação circular e recorrente com a narrativa presencial. As projeções mostravam dimensões outras da existência dos personagens seja num delírio inconsciente ou na manifestação distante dos respectivos duplos. Estar em cena, portanto, significava transitar entre uma materialidade relevante para os espectadores locais e uma presença distribuída pela rede e que deveria, de alguma forma, fazer-se sentir pelos que assistiam nos demais países. O corpo- carne alternava-se para corpo-projeção e, ao executar esta transição, demandava a existência de um significado que justificasse um posicionamento físico ou imagético. Além disso, ao ator era atribuída a tarefa de deslocar-se pelo já conhecido território cênico e o nebuloso espaço da tela. No local, a sustentação. Na rede, a distribuição da existência tanto dos personagens como daqueles que os viviam.
As mesmas premissas aplicam-se a Whats Wrong with the World, embora a disposição das projeções em camadas de diferentes profundidades no mesmo nível do palco aumentasse consideravelmente a complexidade da questão. A horizontalidade reticular tornava-se esteticamente também expressa no palco, uma vez que atores presenciais e remotos encontravam-se no mesmo plano topológico, embora no Brasil as imagens na tela aparecessem de maneira distorcia sobretudo em relação às cores. Os limites, neste caso, foram borrados mais explicitamente, enfatizando a condição móvel dos participantes do jogo cênico. Ao estar fisicamente em um determinado local e, ao mesmo tempo, projetado significativamente em outro espaço a quilômetros de distância podendo ser visualizado nas duas condições em certos instantes, o ator vê-se em um trânsito permanente, sendo obrigado a fluir por entre locais, culturas e outras presenças, de modo a tornar-se, então, um viajante- instrumento da mobilidade que caracteriza os principais hábitos sociais de comunicação de que temos notícia atualmente.
Além do corpo e da narrativa, a interconexão entre os mundos remotos e presenciais resulta na concepção de um espaço entre tais esferas, uma lacuna para o imaginário que
viabiliza o sentir-se pelo mundo e não mais apenas no mundo. O fluxo passa a ser condição de existência. O indivíduo deixa de depender exclusivamente de uma passagem aérea e um passaporte com visto válido para interferir em uma localidade qualquer, por mais distante que seja. O estar assume, também, uma característica imaterial.
Play on Earth, no entanto, aborda apenas parte desta questão. Além de estar em trânsito por entre locais e dimensões existenciais, a ubiqüidade do corpo é reforçada por sua própria transformação. Ou seja, a rede (aqui entendida como meio) não se configura como algo exógeno, mas sim como uma teia de relações complexas que dialogam com uma outra teia o humano -, que se expande para além da sua origem biológica e reconfigura-se por meio de extensões maquínicas protéticas ou não. O cotidiano apóia-se progressivamente em dispositivos que relativizam tempo, espaço e distância, posicionando a informação de maneira central seja ela em forma imagética, sonora ou de qualquer outra natureza. A vida diária torna-se uma permanente negociação com um grande fluxo de informações na rede, em que nos cabe escolher como e com qual intensidade desejamos estar em um ou muitos locais.
A existência distribuída no contexto de comunicação inerente a Play on Earth mostra, portanto, uma zona não apenas híbrida em que, teoricamente, haveria uma mescla unidimensional de territórios ou dispositivos. O que existe, de fato, é a demonstração de um viver cíbrido, um estar múltiplo entre as redes.
É o que chamamos de configurações cíbridas, situações resultantes de experiência de interconexão de redes on e off-line, que se dão no trânsito e em trânsito, mediadas por sistemas de gerenciamento de tráfego, painéis eletrônicos, celulares, PDAs e agentes inteligentes [...] (BEIGUELMAN, 2005, p.168).
Da mesma maneira que um ator vê-se diante da necessidade de expandir seu espectro de percepção e diálogo entre os territórios on e off-line, os indivíduos vêem-se confrontados com novas maneiras de produzir significados e criar relações com o mundo e outras pessoas. A rede torna-se a medida potencial das relações sensórias de cada um de nós. Para Santaella (2007, p.132), em referência ao que chama de sistemas cíbridos, afirma que há uma materialização e uma expansão do potencial que é próprio da consciência humana. A dimensão existencial, efetivamente, espraia-se pelos nodos das redes.
Sob a perspectiva da comunicação por meio da arte, é imprescindível considerar este contexto, uma vez que os afetos não são mais caros somente aos diálogos presenciais. O ser humano, no exercício performativo de sua identidade múltipla, vê-se cada vez mais espelhado no âmbito cíbrido. E isto deve ser levado em conta no desenvolvimento de um projeto
artístico que ambicione tocar questões nesse sentido. Embora os dispositivos de comunicação dos quais dispomos sejam ambientes de convergência midiática, eles potencializam e multiplicam a existência humana em tempos e espaços diversos. Portanto, convergem as mídias para distribuir-nos no ambiente reticular. Em Play on Earth, emergiram inúmeras questões culturais, comunicacionais e estéticas que foram resultado da distribuição de atores, identidades e narrativas por um espaço invisível e aparentemente incontrolável. Nenhum dos grupos envolvidos no projeto mostrava-se absolutamente seguro com a Internet como meio de realização do espetáculo, justamente por redundar questões em uma escala muito mais complexa do que seria caso fossem obras de apreciação unicamente presencial.
Visível também pela Internet, Play on Earth não envolveu o espectador para além da convenção que cerca o edifício teatral. Ainda que na Inglaterra Whats Wrong with the World tenha transcorrido em um bar, o público permaneceu na simples posição de espectador. A mobilidade foi demonstrada muito mais na existência distribuída dos atores por entre os espaços participantes do que algo em relação aos próprios espectadores, ainda que pudessem ver uns aos outros em determinados momentos principalmente antes e depois das apresentações. Curiosamente, em Whats Wrong with the World, após uma sessão um casal esperou, no Rio de Janeiro, a aparição da filha em alguma das telas de projeção. Ela estava em Londres e logo apareceu, em um momento de afetividade remota, que causou comoção nos presentes. Giselle Beiguelman (2005) amplia o espectro da conceituação iniciada por Peter Anders e expõe o aumento de problemáticas ocasionadas pela alternância entre espaços conectados e aqueles puramente baseados na imediaticidade física, espacial e temporal.
[...] o corpo humano se transforma, rapidamente, em um conjunto de extensões ligadas a um mundo cíbrido, pautado pela interconexão de redes e sistemas on e off-line. Criar para esse contexto implica, por isso, repensar as condições de legibilidade e as convenções e formatos da comunicação no âmbito de práticas culturais relacionadas à ubiqüidade, ousando questionar se de fato rumamos para a tão alardeada convergência de mídias, ou se, ao contrário, o que se impõe é um cenário de leitura distribuída em inúmeras mídias [...] respondendo às demandas pontuais de um leitor em trânsito permanente (BEIGUELMAN, 2005, p.160).
Portanto, Play on Earth ainda que não cubra todas as variáveis da questão alude a uma existência transitória no campo dos espaços cíbridos, em que o corpo pode viajar de um lugar a outro por meio de uma projeção imagética, uma chamada de telefonia celular, a participação em um chat ou qualquer outra simultaneidade entre espaços on e off-line. Pode- se, a partir de um dispositivo, estar em muitos lugares ao mesmo tempo ou, por meio da rede,
estar em vários dispositivos no mesmo instante. O corpo une-se à interface, que se torna fundamental, pois ela dirá como ele será expresso remotamente o que pode transformar sobremaneira seu significado no contexto distante.
Um exemplo concreto pôde ser visto em Whats Wrong with the World. A projeção das imagens vindas de Londres estava com as cores saturadas em favor de uma distorção que transformou completamente o significado do que se realizava no plano físico. A mesma ação poderia ser uma comédia na Inglaterra e um drama mórbido no Rio de Janeiro. As interfaces que colocam o corpo em contato com o sistema e com os demais indivíduos passam a figurar de maneira relevante na produção de linguagens próprias dos novos meios. Nos ambientes interativos ocorre uma virtualização do corpo em zonas cíbridas, nas quais o sujeito interfaceado é um sujeito em fluxo, conectado a computadores pessoais ou a computadores conectados em rede [...] (DOMINGUES in ARANTES; SANTAELLA, 2008, p.79).
Com isso, a sensorialidade do humano também é afetada, uma vez que o interfaceamento pode ocorrer tanto por meio de uma tela de visualização remota de um corpo como também via dispositivos acoplados a ele que permitem um diálogo com o sistema. A experiência na sua essência se estabelece pelos movimentos de realimentação das forças vitais no corpo, artificializadas com os elementos maquínicos, gerando um ambiente cíbrido (DOMINGUES in ARANTES; SANTAELLA, 2008, p.64).
As afetações causadas pela presença múltipla aqui tratada evidenciam que as conseqüências ocorrem não apenas para a dimensão não-física do corpo, mas também em sua constituição material. Sua consciência pode supostamente se expandir, entretanto a comunicação dar-se-á também no sentido oposto, retroalimentando o estado físico com os insumos derivados do contato com as redes. Embora Santaella enfatize a expansão da consciência humana, não perde de vista a importância do físico neste processo. O virtual pode estar em outro lugar, e o outro lugar ser um ponto de vista privilegiado mas a consciência permanece firmemente arraigada ao físico. Historicamente, o corpo, a tecnologia e a comunidade se constituem mutuamente (SANTAELLA, 2007, p.217).
De acordo com os responsáveis brasileiros de Play on Earth, prevê-se a realização de uma continuidade da série que terá como foco justamente a presença distribuída, bem como as implicações político-culturais que cercam esta dimensão existencial.