A ideia de um atendimento que contemplasse a educação, ao invés da repressão, tem suas origens ainda no início do século, quase três décadas antes da promulgação do Código de Menores de 1927. Um dos marcos da entrada dos saberes interdisciplinares nas causas da infância tem origem quando a assistência assume um caráter mais filantrópico que caritativo. Conforme já mencionado, o discurso moral e religioso não eram suficientes para explicar e atuar no foco dos problemas dos menores. A filantropia visava a reintegração social por meio de uma assistência científica.
O modelo de atendimento almejado, cuja formulação datava do século XIX, estava calcado na razão científica, a qual pressupunha objetivos, um método de trabalho
e resultados palpáveis, que juntos constituíam o “maquinismo da assistência.
(BRITTO, 1959, obra de 1929 apud RIZZINI, 2009c, p. 232)
O “método” preconizava uma organização do atendimento que consistia na
classificação dos menores a partir de uma série de critérios complexos, dentre eles: o motivo da internação, inteligência, aptidões, caráter, ocupação criteriosa do tempo e espaço dos internos. Tanto o trabalho de regeneração quanto o de preservação (protetivo) deveria incutir o trabalho como forma de educação moral, já que era considerado o único instrumento capaz de tornar “ válidos” os desvalidos socialmente. A orientação da época era que a instrução dada fosse suficiente para o necessário exercício profissional - “modesta educação literária e completa educação profissional” (lei, n. 4.242, 1921, art. 3º apud RIZZINI, 2009c). A educação para o trabalho perpassa toda a
história das crianças e adolescentes no Brasil. O Código de 1927 produziu um avanço nesse sentido ao restringir o trabalho infantil, pois, naquela época, as indústrias têxteis contratavam a mão de obra infantil a salários baixíssimos e em condições precárias de suas instalações.
Os juízes, por meio de publicações, relatórios oficiais, passaram a defender com veemência a necessidade de maior número de vagas para atendimento dos menores, demandando por mais unidades especializadas. Tal demanda era subsidiada pelas estatísticas do próprio Juízo e pelo uso de argumentos ditos científicos. Os juízes recorriam, cada vez mais, às intervenções do corpo técnico, o que culminou em diversos setores técnicos de atendimento ao menor. Vários juízos instituíram seus laboratórios e novas disciplinas foram criadas nesse período, como é o caso do serviço social, que na década de 30 teve um curso intensivo orientado pela assistente técnica do juízo, sendo que o mesmo funcionava também na sede do Juízo.
Os laboratórios começaram a se proliferar por diversos lugares no Brasil, tendo como principal função fornecer subsídios científicos para o tratamento médico e pedagógico das crianças abandonadas e delinquentes. Boa parte deles foi criada a partir de portarias de juízes de menores, com autorização do Ministério da Justiça. Alguns deles funcionavam anexos aos abrigos de menores. A finalidade dos mesmos pode ser expressa nesta passagem: "pesquisas e investigações referentes aos problemas pedagógicos e de reeducação da criança, que é estudada sob o aspecto biológico e social, tendo ainda as medidas e instituição de psicotécnica e de orientação profissional" (LIMA, 1939, p. 535 apud RIZZINI, 2009c, p. 250).
O uso intensificado dos laboratórios e os diagnósticos produzidos por eles apontavam, para além das causalidades morais, as causas psíquicas, físicas, sociais e econômicas na explicação dos comportamentos dos menores. Na prática, os diagnósticos serviram para dizer se
uma criança era normal ou anormal, se tinha “chances” de recuperação, regeneração, o que
historicamente legitimou, em nome da base científica, a exclusão e a discriminação de milhares dos, então, menores.
No tempo em que vigorava a FUNABEM, Costa (2006a) anuncia que o saber técnico interdisciplinar foi inicialmente exaltado, como os cursos de serviço social, psicologia, terapia ocupacional, educação física e outros afins que foram introduzidos nas universidades. A equipe interdisciplinar ganhou destaque na estrutura e organização da FEBEM. O delinquente nato, anti- social e dotado de alto grau de periculosidade, herdado do então antecessor SAM, foi dando lugar,
no discurso institucional, ao “menor privado de condições de desenvolvimento", o “carente biopsicossociocultural”. Motivados pelos saberes técnicos, o “novo pessoal” proíbe castigos físicos,
propõe o diálogo e terapias em grupo, além de estudos sociais de cada caso como uma nova metodologia do atendimento ao menor.
Contudo, ainda segundo Costa (2006a, p.50), com a falta de experiência da nova equipe, o discurso inovador não funcionava, pois não sabiam lidar com as rebeliões e motins, confronto de bandos rivais, drogas, vandalismo e depredações. Além dos menores, a FUNABEM herdou os funcionários e a cultura do SAM, que permanecia viva no interior dessas unidades. A necessidade de sair das primeiras páginas dos jornais não tardou para que uma parceria velada se (re)estabelecesse com o setor correcional-repressor, e assim, “o velho se reintroduz e começa a ser
gestado no ventre daquela que deveria ser uma nova institucionalidade” (COSTA, 2006a, p. 50).
Fica nítida, aqui, a divisão dentro das instituições da época: equipe técnica de um lado e segurança de outro (monitores, disciplinadores, agentes, os encarregados da disciplina), sendo que o diretor da
instituição era quem fazia a “mediação” dos especialistas e “tomadores de conta”24 .
O discurso técnico assumiu o monopólio do discurso político e institucional, porém, no interior das unidades, o caos permanecia e os técnicos estavam confinados em seus corredores, ou se acumpliciavam com o arbitrário. Esses foram alguns dos motivos pelos quais a FUNABEM ficou conhecida como ambígua. O discurso não foi capaz de produzir mudanças significativas na prática, sendo esse dualismo o principal traço da sua identidade institucional (COSTA, 2006a, p.51).