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O estudo da atividade jornalística de Umberto Eco também revela-se um instrumento indispensável para a construção do percurso literário e intelectual do escritor piemontês, e o questionamento crítico da sua formação e da escolha de seus interesses eruditos.

Conhecido por sua erudição, o autor constrói um discurso jornalístico que dialoga com vários outros textos e discursos por meio de abundante apropriação intertextual, manifestada nas diferentes citações e alusões que emergem da sua escritura. As crônicas do semiólogo italiano fornecem aos leitores várias possibilidades para tentar entender como as diferentes atividades humanas influenciam e regem a construção da identidade pós-moderna. Segundo Marcos C. Lopes, Eco afirma que “todo o seu trabalho teórico e ficcional tem por fim o mesmo objetivo: a tentativa de entender como damos significado ao mundo que nos rodeia”. (2010. p.2).

Ao refletir sobre um determinado fato ou tema, Umberto Eco estabelece uma série de conjecturas que possibilitam múltiplas leituras. As diretrizes interpretativas oferecem as coordenadas necessárias para o real propósito de suas observações: o questionamento sobre a verdadeira intenção que se esconde por trás dos signos. Assim, a fórmula “entre a intenção do autor e a intenção do intérprete existe uma terceira possibilidade. Existe a intenção do texto” (ECO, 2005a, p. 29), oferecida pelo próprio Eco para a análise e interpretação do texto literário, também pode ser aplicada para a interpretação da realidade que nos cerca, ou seja, para a leitura do mundo.

Em suas crônicas, Eco percorre os labirintos da história, escrevendo “artigos de jornal, respeitando sordidamente as exigências de espaço e compreensão21“ (ECO, 2000, p. 40), para desconstruir e revelar questões contemporâneas veladas e cifradas nas entrelinhas de acontecimentos triviais, que se perderiam no cotidiano se não fossem resgatadas pela habilidade do escritor, recebendo tratamento estético. Tendo como base um fato jornalístico, mas concentradas em seus aspectos humanísticos, as crônicas econianas oferecem dupla possibilidade de interpretação, podendo ser admitidas como textos produzidos sobre dois planos, aquele em que seu sentido encontra-se na superfície do texto, e outro que sonda o mundo em busca do significado escondido, exigindo do intérprete uma postura mais crítica. O primeiro pode ser definido como plano histórico, concernente ao fato geral noticioso e apoiado na esfera objetiva da linguagem; já o segundo, encontra-se no âmbito do plano filosófico, veículo de uma reflexão mais profunda, particular e de pertinência subjetiva, que vai além do assunto que o motivou.

Com certa regularidade, as crônicas de Umberto Eco seguem o mesmo paradigma formal. Em poucos parágrafos, com uma linguagem clara e objetiva, o autor organiza seu texto com cuidado, plano a plano, para depois chegar à junção e ao diálogo entre eles. Ao observar as crônicas econianas é possível notar o cuidado quase métrico com a estrutura arquetípica que o autor utiliza para compor suas crônicas.

Em relação ao conteúdo, nos textos de Eco é perceptível a presença de um processo de investigação sobre as origens da criação do inimigo, que se tornou um tema recorrente tanto em suas obras de teor ensaístico como em seu plano literário, desde os seus primeiros romances. Essa questão será melhor desenvolvida no terceiro capítulo, momento em que analisaremos suas crônicas.

As crônicas econianas discutem a linha tênue entre filosofia e política, entre arte e cultura, mostrando como tudo está interligado no pensamento humano. Intelectual brilhante, Eco transita com familiaridade sobre os limites entre diferentes áreas do conhecimento que se encontram no centro da cultura contemporânea, escrevendo sobre fatos cotidianos que atuam como gatilhos a incitar reflexões sobre temas que compreendem desde tratados e pesquisas científicas sobre arte, linguagem e semiótica, a breves ensaios sobre política e filosofia, como se verifica nas crônicas abordadas neste trabalho.

Segundo Anna Maria Lorusso, doutora pela Universidade de Bologna sob a orientação do semiólogo:

O interesse de Eco por aspectos lógicos e triviais da cultura é precoce e constante; percorre toda a sua obra ensaística, delineando uma espécie de olho crítico sobre o mundo que, enquanto faz filosofia, semiótica, estética e narratologia, observa e desmonta contemporaneamente os mecanismos culturais que o envolvem ou, simplesmente, lhes são contemporâneos.22 (2008, p. 111, tradução nossa)

Os textos breves que Umberto Eco escreve para o jornal desafiam o público leitor a observar os fatos cotidianos e questionar criticamente a validade das significações de sua interpretação, olhar além das hipóteses e estabelecer uma unidade de leitura que desvende o sentido mais profundo por trás dos fatos e que não podem ser encontrados na superfície do texto.

Nesse complexo trabalho de reflexão teórica e ao mesmo tempo de diálogo com o próprio tempo, Eco está sempre muito atento ao debate filosófico, crítico, literário, estético de sua época. Percorrendo os seus escritos, vemos sempre como refletem a época e o debate preciso do qual nasceram, desde aquele estético anticrociano dos anos cinquenta e sessenta, até o debate sobre o iconismo, aquele sobre o estruturalismo, e o mais antropológico e atual sobre o estatuto do observador do interior das ciências sociais23 (LORUSSO, 2008, p. 12, tradução nossa).

Desse modo, considerando o trajeto intelectual percorrido pelo professor italiano, “que não se limitou a um único ambiente disciplinar, mas que se dedicou a milhares” dialogando “sempre e contemporaneamente com muitos outros campos da cultura24 (LORUSSO, 2008, p.9, tradução nossa), seus escritos são considerados ímpares para o estudo da produção cultural e literária do mundo pós-moderno. Nesta linha, destacamos que o intelectual italiano, consciente das intempéries culturais do seu tempo, sabe ler e recolher com aguda sensibilidade (LORUSSO, 2008) os signos construídos pela pós-modernidade, sempre atento ao debate das atividades humanas que regem a nossa sociedade.

22 “L’interesse di Eco per aspetti logiche e vizi della cultura è precoce e costante; esso atraversa tutta la sua

saggistica, delineando una specie di occhio critico sul mondo che, mentre fa filosofia, semiotica, estetica, narratologia, contemporaneamente osserva e smonta i meccanismi culturali che lo coinvolgono o semplicimente gli sono contemporanei”.

23 “In questo complesso lavoro di riflessione teorica e al contempo di dialogo col proprio tempo, Eco è sempre

stato molto attento al dibattito filosofico, critico, letterario, estetetico dei suoi anni. Ripercorrendo i suoi scritti, vediamo come ogni volta riflettano l’epoca e il preciso dibattito in cui sono nati, da quello estetico anticrociano degli anni cinquanta-sessanta al dibattito sull’iconismo, a quello sullo struturalismo, a quello più antropologico e attuale sullo statuto dell’osservatore all’interno delle scienze sociali”.

24 “intellettuale che non si è limitato a collocarsi in un ambito disciplinare, ma che ne ha attraversati mille”

CAPÍTULO III

O OLHAR PLURAL SOBRE A SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA NAS CRÔNICAS DE UMBERTO ECO

3. O OLHAR PLURAL SOBRE A SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA NAS