2.1. Kuramsal Bilgiler
2.1.4. Mikro Öğretim Yöntemi
2.1.4.3. Mikro Öğretim Yönteminin Uygulama Süreci
Considerando que as greves do ABC paulista foram exaustivamente estudadas, trataremos apenas das greves ocorridas em Minas Gerais, com ênfase na região industrial de BH/Betim/Contagem, por estarem elas no conjunto de experiências vividas pelos trabalhadores e educadores populares que desenvolveram as experiências que constituem o
foco deste estudo. A partir das greves ocorridas em São Paulo, a expectativa da solução grevista propagou-se para outras categorias e outras regiões. (PESSANHA, 1994, p. 25-28). Durante o período 1978 a 1980, aconteceram 45 greves em São Paulo e 41 em Minas Gerais. (INSTITUTO DE RELAÇÕES DO TRABALHO, 1998, p. 114-116). Segundo esse mesmo relatório, em Minas Gerais, as greves ocorreram em Belo Horizonte, Contagem, Betim, Barão de Cocais, Nova Lima, Três Corações, Juiz de Fora, João Monlevade, Sabará, Ipatinga e Lafaiete (INSTITUTO DE RELAÇÕES DO TRABALHO, 1998, p. 152-169).
A primeira greve em Minas Gerais, naquele período, foi a dos metalúrgicos de João Monlevade, em agosto de 1978, portanto, quatro meses depois da greve da Scania.
Conforme lembra Michel Le ven, ela
[...] surpreendeu a todos os setores da sociedade civil em luta pela Anistia e pelas liberdades civis, os próprios empresários da Belgo-Mineira, (que se deslocaram para o local do sindicato, a fim de tentar convencer os trabalhadores a voltar ao trabalho), mas não surpreendeu aos diretores sindicais e aos trabalhadores. Ela era um passo calculado e estratégico, marcando a passagem de uma longa luta cotidiana para a afirmação de classe de um grupo de trabalhadores capazes de controlar o processo produtivo e de torná-lo um instrumento político de suas reivindicações. (LE VEN, 1987, p. 31).
As reivindicações eram: mudança na escala de revezamento, 10% de aumento acima do reajuste oficial, criação de uma Comissão Paritária, construção de um Restaurante, antecipação salarial e piso salarial da categoria. Pode-se dizer que foi a gestão da produção pelos trabalhadores, portanto como forma de luta, que viabilizou a vitória do movimento.
Da mesma forma que em São Paulo, o setor metalúrgico foi o que mais deflagrou greves em Minas. Entre os fatores que fizeram que os trabalhadores desencadeassem a greve, despontavam como motivo principal as perdas salariais de 30% havidas entre 1970 e 1978, mas a oposição sindical acrescentava mais duas reivindicações que mostravam a sua intenção de realizar mudanças profundas no sindicalismo.
A primeira delas era a formação de comissões de fábrica e a representação sindical nos locais de trabalho, que viabilizassem o conhecimento dos problemas cotidianos vividos pelos trabalhadores. A outra era o direito do sindicato de negociar diretamente com os empregadores com o mínino de intervenção do Estado e o direito a entrar em greve caso fosse necessário. (INSTITUTO DE RELAÇÕES DO TRABALHO, 1998, p. 121).
Algumas semanas depois, começou a greve dos trabalhadores da FIAT, em Betim. De acordo com Michel Le ven,
[...] os trabalhadores de Betim, os ―operários-massa‖27 da montadora automobilística
FIAT (com somente dois anos de existência), organizados pela oposição sindical, levaram o sindicato, também nascente, a uma greve, liderada internamente pelos mecânicos da FIAT e pelos ferramenteiros da FMB. (LE VEN,1987, p. 32).
Ainda segundo o autor, em outro texto,
O operário-massa, neste sentido, é ligado às grandes indústrias multinacionais de transformação que produzem em grandes séries e, por isso a baixo custo, objetos de uso de massa, a serem consumidos, inclusive, pelos próprios produtores. Enfim, existem análises culturais e políticas dão uma compreensão mais profunda do
‗operário-massa‘. Gramsci, em ‗Americanismo e fordismo‘, mesmo não empregando a palavra ‗operário-massa‘, desenvolve as características culturais e ideológicas próprias do trabalhador fordista, portanto, do ‗operário-massa‘. (LE VEN, 1988, p.
130).
Os motivos da greve já eram conhecidos desde 1977, ligados aos baixos salários e às más condições de trabalho. (LE VEN; NEVES; HORTA; 1984). Foram organizadas comissões salariais, em todas as fábricas, sobretudo nas indústrias que alimentavam a produção da FIAT, como aponta esse militante, que era trabalhador da FMB:
Ninguém pensava em 77, no início de 78, que ia acabar tendo uma greve. No ano de 78. em maio, começaram as greves do ABC, isso que imediatamente se espalhou. Em junho, julho, fizemos o primeiro Boletim Clandestino, fora do sindicato e tudo o mais, em dois meses já tínhamos a comissão organizada, tentando por elementos de todas as fábricas, de todos os setores, dos três turnos. Então, o modelo foi muito corrido, não foi pensado. (Adriano - eletricista de manutenção/educador).
No ano seguinte, essas comissões salariais seriam reconhecidas como comissões de fábrica, pela KRUPP e pela FMB. As greves obtiveram vitória na reivindicação salarial, com os trabalhadores de Betim conseguindo na Justiça do Trabalho os dez por cento acima do reajuste oficial, na melhoria das condições de trabalho e na representação organizada dos trabalhadores nas fábricas. Conforme assinala Le Ven, essas greves tiveram uma importante repercussão política e educativa, por terem preparado o caminho para as greves de 1979, que foram desencadeadas pelas mesmas pautas de reivindicações, como salário, melhoria de condições de trabalho e mais direito à representatividade por local de trabalho. O número de greves ocorridas em Minas Gerais saltou de 6, em 1978 (5 do setor metalúrgico e 1 do têxtil) para 28 em 1979 (sendo 11 do setor metalúrgico e 17 de outros setores), segundo
27 Segundo Palloix, com a internacionalização do capital e a produção automática em massa em âmbito mundial, ―Os processos de trabalho passaram a ser definidos somente em escala internacional, surgindo daí um novo
trabalhador, ou seja, o trabalhador de massa, ligado às vicissitudes das multinacionais, isto é, aos movimentos da internacionalização do capital. (PALLOIX, 1982, p. 89).
levantamento organizado pelo IRT da PUC Minas. (INSTITUTO DE RELAÇÕES DO TRABALHO, 1998, p. 115).
O fato de terem sido essas greves movimentos de massa, totalizando cerca de 407.000 grevistas, resultado de mobilizações de trabalhadores organizados ―a partir de sua identidade no trabalho e de organização espontânea‖, como diz Le Ven (1987; 1988), indica a construção de uma forte base social do ―novo sindicalismo‖ em Minas Gerais. As características desses movimentos apontavam uma grande diversificação por categorias de trabalhadores. Além dos grevistas metalúrgicos, que, nas greves de 1979 chegaram a 90.800, a participação muito significativa de servidores públicos (professores da rede estadual, universidades federais, garis, funcionários da Prefeitura de Belo Horizonte, enfermeiros, médicos) com 116.500 grevistas, a grande novidade foi a greve dos operários da construção civil, com 104.500 trabalhadores em greve. As demais categorias se dividiam entre mineiros, fumageiros, tecelões, bancários, comerciários e vigilantes. (LE VEN, 1988, p. 33). Certamente, não há uma homogeneidade no plano das formas de mobilização que foram realizadas, mesmo porque algumas categorias tiveram condições de avançar mais, no processo de organização, não apenas devido a terem mais experiência acumulada, mas também por se tratar, por vezes de setores que enfrentavam maiores problemas, tanto do lado patronal, como das relações com os seus sindicatos.
A greve dos professores da rede estadual foi um interessante exemplo de renovação, num clima que acentuava também as características do ―novo sindicalismo‖, pois a entidade que representava os professores, a APPMG, foi desautorizada por uma assembléia com mais de dois mil participantes, no auditório da antiga Secretaria de Saúde, e foi legitimado em seu lugar e reconhecido o CGG, Comando Geral de Greve, que seria o núcleo duro da nova entidade de representação da categoria: a UTE, União dos Trabalhadores do Ensino. (OLIVEIRA, 2006, p. 83-84).
As greves foram educativas, pois, dada a forma de organização que tinham, possibilitaram aos metalúrgicos discutir de forma concreta as condições de trabalho nas fábricas. As empresas, contudo, tendiam a manter condições precárias de trabalho, além de terem implantado, após a primeira greve, um sistema de policiamento e vigilância no interior das fábricas, notadamente na FIAT, desenvolvendo, inclusive, perseguição sistemática às organizações de trabalhadores e demitindo em massa os que mais mobilizavam.
Outro ponto relevante do caráter educativo das greves daquele período é representado pela ligação consciente e participativa com a redemocratização do País.
O clima propiciado pela abertura política favorecia o aparecimento dos movimentos sociais, ao mesmo tempo em que tais movimentos forçavam uma ampliação dos limites impostos pelo regime à abertura política. Nesse sentido, para os professores, assim como para outras categorias participantes do Novo Sindicalismo, tratava-se de uma luta que tinha entre suas principais bandeiras a questão da democracia, tanto nos locais de trabalho quanto no cenário político nacional. (NEVES; FREITAS, 1999, p. 204).
O tema das greves de 1978 e 1979 será retomado nos próximos capítulos, no contexto de sua relação com as trajetórias dos militantes e trabalhadores que participaram das experiências de educação operária de que tratamos neste trabalho. Todavia, é importante lembrar, aqui, que a sociedade se movimentava, em diversas frentes de atuação.
Ao mesmo tempo que o Novo Sindicalismo se afirmava, eram numerosos os grupos interessados em organizar novos canais de participação política. Entre eles, destaca-se a Articulação Nacional de Movimentos Populares e Sindical (ANAMPOS). Esse coletivo foi organizado por dirigentes sindicais autênticos, oposições sindicais, associações profissionais, pastoral operária e comunidades eclesiais de base que se reuniram, em fevereiro de 1980, em João Monlevade, num encontro convocado pelo sindicato dos metalúrgicos daquela cidade.
O evento foi organizado com o objetivo de
[...] resultar em uma identificação de estratégias, metas e princípios consensualmente aceitos, para alterar qualitativamente as formas de atuação sindical, tendo em vista seu revigoramento buscando a adesão de outros setores atuantes no campo e na cidade. (MANCE, 1990, p.5).
Esse primeiro encontro da ANAMPOS precedeu outros três, sendo um em Taboão da Serra, SP, julho de 1980, outro em Vitória, junho de 1981, e o último em Goiânia, Goiás, em junho de 1982. No encontro de julho de 1980, foram encaminhados temas como a relação entre partidos políticos e movimento popular e os rumos do sindicalismo brasileiro. E já se colocava a questão de um partido que pudesse representar os trabalhadores. Nesse encontro, de acordo com Neves e Freitas:
[...] começava-se a delinear mais claramente a formação de um partido político, com ampla participação dos trabalhadores, promovendo a organização política da classes
populares‖, mas, ―respeitando a autonomia dos movimentos populares‖. Também, entre os rumos prioritários do movimento soiindical é salientada a proposta de ―uma
nova estrutura sindical, democrática e autônoma, utilizando-se de todas as iniciativas propícias para tal, inclusive como a criação de uma Central Única dos
Trabalhadores‖, além da realização de uma CONCLAT que seja a expressão
democrática do movimento sindical do campo e da cidade. (NEVES; FREITAS, 1999, p. 192).
Depois de observar que, no Encontro de Vitória, foram discutidos temas como desemprego, greve geral, formação de uma central sindical e articulação dos sindicatos com movimentos populares, as autoras enfatizam que o Sindicato dos Metalúrgicos de Monlevade atuou em todos esses encontros, de forma conjunta com outras lideranças sindicais, ―para a consolidação de uma nova proposta para o movimento sindical, que posteriormente veio a ser analisada pelos pesquisadores e estudiosos do tema como Novo Sindicalismo.‖ (NEVES; FREITAS, 1999, p. 192).
Encontros como os da ANAMPOS tiveram importante papel na formação e consolidação de instrumentos de luta para as classes trabalhadoras. As greves de 1978 e 1979 haviam mostrado, em razão de suas dimensões e da atenção que tiveram dos meios de comunicação, a importância que tinha a classe trabalhadora como ator político. A despeito disso, mesmo a sua repercussão nesses meios chega a ser questionada:
[...] onde os jornais situaram a greve dos operários metalúrgicos, que foi sem dúvida alguma a mais importante, tanto pelo seu caráter detonador de outros movimentos, quanto pelo fato de por a descoberto todas as implicações políticas do acontecimento? É certo que os operários ganharam as primeiras paginas dos jornais e até mesmo mereceram alguns editoriais. Mas onde estavam as matérias centrais? Na seção de economia, que, aliás, é pouco lida. (MUNAKATA, 2010, p. 23).
Esse autor lembra que não há porque culpar apenas os jornais, que ―apenas reproduzem de modo grosseiro a velha compartimentalização da realidade em ―instâncias‖ estanques, relacionadas cada uma com um saber específico e positivo.‖ Isto separa o econômico do político e define os personagens correspondentes, reservando o ―político‖ como uma prerrogativa exclusiva dos políticos ―oficiais‖, em conformidade com o bordão clássico que a ditadura sempre utilizara contra todos os movimentos sociais, segundo a qual ―quem quiser fazer política que entre nos partidos existentes.‖ No dizer do autor, reduzia-se o trabalhador à instância do econômico: ―ele é apenas uma função da produção, e, nesta medida, é contabilizado juntamente com demais fatores da produção.‖ (MUNAKATA, 2010, p. 24).
Na verdade, a idéia de se formar um partido dos trabalhadores havia sido lançada, oficialmente, antes dos encontros da ANAMPOS.
Em 24 de janeiro de 1979, no IX Congresso dos Trabalhadores Metalúrgicos, Mecânicos e de Material Elétrico do Estado de São Paulo, realizado na cidade de Lins, foi aprovada a resolução que chamava os trabalhadores a se unirem para criar um partido político que pudesse combater a exploração desumana a que eram submetidos:
A história nos mostra que o melhor instrumento com o qual o trabalhador pode travar esta luta é o seu partido político. Por isso, os trabalhadores têm que organizar os seus partidos que, englobando todo o proletariado, lutem por efetiva libertação da exploração. Hoje, diante da atual conjuntura política, econômica e social que vive a sociedade brasileira, essa necessidade, com o peso de sua importância, se faz sentir. (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1979).
O documento defendeu, ainda, que fosse lançado por aquele congresso, um manifesto chamando todos os trabalhadores brasileiros a se unificarem na construção de seu partido, o Partido dos Trabalhadores. E, no item 4 do documento, a democracia interna do partido:
4) que este partido seja de todos os trabalhadores da cidade e do campo, sem patrões, um partido que seja regido por uma democracia interna, respeite a democracia operária, pois só com um amplo debate sobre todas as questões, com todos os militantes, é que se chegará à conclusão do que fazer e como fazer. Não um partido eleitoreiro, que simplesmente eleja representantes na Assembléia, Câmara e Senado, mas que, além disso e principalmente, seja um partido que funcione do primeiro ao último dia do ano, todos os anos, que organize e mobilize todos os trabalhadores na luta por suas reivindicações e pela construção de uma sociedade justa, sem explorados e exploradores. (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1979).
É importante lembrar aqui que a proposta petista da reorganização das práticas do sistema político vai na direção da inserção político-institucional de novos atores. Trata-se da legitimação e da abertura de espaços institucionais para as demandas sociais, como bem mostra Meneguello:
Ao agregar as novas demandas sociais e políticas emergidas nos últimos anos, sobretudo as que conduzem a um novo relacionamento entre sociedade e Estado, o PT introduziu novos temas na arena político-institucional, redimensionando o conflito entre as forças políticas existentes. [...] O PT destacou-se na arena política nacional por apresentar novos temas. As experiências prévias do novo sindicalismo parecem ter definido os traços essenciais da proposta política petista. (MENEGUELLO, 1989, p. 104-105).
Surgido das lutas sindicais, da identificação do Novo Sindicalismo com os movimentos sociais, da participação dos setores progressistas da Igreja e de ex-militantes de organizações revolucionárias destruídas ou remanescentes, de intelectuais independentes, o Partido dos Trabalhadores inaugurava um modelo diferente para a formação de uma organização partidária. Como aponta Souza, ―o fato de ser considerado um partido ―classista‖ não chegava a perturbar seus criadores; conforme dizia Lula: ―até agora, todos os Partidos Brasileiros foram Partidos Classistas, a única coisa é que eram da outra classe.‖ (SOUZA, 1988, p. 126).
Assim, o PT se diferenciou do esquema tradicional da política brasileira, em que a política é atribuição e exclusividade de setores sociais das elites, em que os partidos se
constituem por cisões no interior dessas elites ou por iniciativa de quadros parlamentares em função de interesses específicos. O processo inicial de constituição do partido foi de intenso trabalho, já que, entre todos os partidos políticos que existiam na época, ele era o único que não possuía qualquer vínculo de origem com partidos anteriores, seja do passado ou do presente, e também não tinha apoio parlamentar expressivo e nem de personalidades conhecidas da vida pública, com legitimidade político-eleitoral. Vale lembrar ainda, que, diferentemente dos partidos tradicionais, que vinham de trocas de siglas, cisões e estruturações verticais, o PT não possuía uma efetiva máquina partidária, nem sequer dispunha de uma estrutura de serviços necessários para o processo de organização e funcionamento do partido. E, também, não trazia qualquer experiência político-partidária acumulada.
Era, portanto, este o quadro em que se organizava e avançava a experiência dos trabalhadores que, articulados com algumas das forças políticas que compartilhavam o cotidiano da região industrial, associavam-se a um processo que resultaria em práticas de formação profissional e formação política. Era, ao mesmo tempo, um processo de construção e de transformações que constituíam o espaço e as contradições em que eles avançavam com seu trabalho de militância de educadores. O próximo capítulo deverá tratar, mais especificamente, dessas práticas que traziam na sua dinâmica e no seu objetivo a experiência de um princípio educativo voltado para a construção de novos sujeitos políticos.
4 A MILITÂNCIA COMO EXPERIÊNCIA DE VIDA e o TRABALHADOR EDUCADOR