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2.1. Kuramsal Bilgiler

2.1.4. Mikro Öğretim Yöntemi

2.1.4.4. Mikro Öğretim Yönteminin Önemi ve Yararları

São raríssimos os documentos escritos em nome do Grupo Mutirão, devido à natureza mesma do grupo. O período de organização da oficina AUTOBOR deixou, todavia, algumas cartas assinadas em nome do grupo. Trata-se de algumas cartas que em que o grupo pede apoio financeiro para o projeto da oficina a duas entidades - o Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (CERIS) e a CEBEMO - Organização Católica para Co-financiamento de Programas de Desenvolvimento - , esta última, com sede na Holanda.29

29 Informação sobre a CEBEMO :"Objetivos gerais: A tarefa da CEBEMO é o apoio a processos nos países em

desenvolvimento (ou em regiões equiparáveis com esses países), destinados à emancipação social e ao progresso econômico de grupos marginalizados. A mensagem bíblica de justiça e paz constitui uma fonte de inspiração para a execução dessa tarefa. A sua visão do desenvolvimento é determinada pelos valores enfatizados pela doutrina social católica em relação ao ser humano e à sociedade. Atividades: financiamento de projetos de desenvolvimento; educação para o desenvolvimento e lobby frente a atores políticos. Atuação no Brasil Linhas de financiamento: População-alvo: pequenos produtores rurais; assalariados rurais; assalariados urbanos; moradores da periferia urbana; moradores de rua; crianças/adolescentes; mulheres; índios e negros. População-alvo prioritária: pequenos produtores rurais; assalariados rurais; mulheres e índios. Temas prioritários: programas de desmarginalização que visam abrir canais (acesso) oficiais (crédito, políticas públicas etc.) para organizações populares. Tipos de atividades prioritárias: formação/capacitação na linha dos temas acima." (BRASIL, 2015).

Assim, quando trata de organizar em Betim a oficina, para garantir a permanência de alguns companheiros na base territorial e mantê-los sindicalizados, o Mutirão aparece em algo mais do que na memória de seus participantes:

Nós, trabalhadores metalúrgicos da área de Betim, ficamos sabendo, através do companheiro Eduardo, que vocês da CERIS têm dado apoio financeiro limitado e que venha favorecer aos grupos que preocupam com a liberdade e com o trabalho da classe operária, nós do Grupo Mutirão passamos por dificuldades, pois resolvemos defender os trabalhadores e a liberdade do povo mineiro, para isto estamos montando uma oficina para termos condições de lutarmos contra a lista negra formada pelos patrões. Depois de formarmos uma sociedade de nome MUTIRÃO, onde o operário contribui com 1% do salário e que tem atingido o nosso objetivo, nos falta concretizar o trabalho, pois vimos que o peão não tem condições de manter sozinho muitos desempregados, sendo o trabalho o principal, precisamos de 150 mil cruzeiros para terminar nossa oficina que é em lote próprio e falta acabamento, instalação elétrica e hidráulica e instalação das máquinas que conseguimos emprestadas, sendo 2 tornos, uma furadeira e um esmeril. Vamos produzir serviços gerais de usinagem, reparos e buchas para caminhões. Mantemos no quadro de funcionários um único operário que disputaria as eleições sindicais, mas vendo que seria prejudicial à campanha, resolvemos afastá-lo da chapa, ganhamos a eleição onde há 9 companheiros do Mutirão, sendo 4 na diretoria, 2 no conselho fiscal e 3 na suplência. Estamos fazendo um trabalho para integrar todos os membros da chapa no Mutirão, pois tivemos o cuidado de agrupar companheiros comprometidos com a classe operária. Anexo enviamos 1 cópia do estatuto do Mutirão mais 4 atas e alguns números dos boletins da pastoral operária feitos por este grupo, na maioria. Nosso trabalho consiste em conscientizar o trabalhador, esposas e filhos, isto no Mutirão. Na oficina, pretendemos também, à noite, dar cursos profissionalizantes. Belo Horizonte, 26/03/81. Mário de Castro Gonçalves (CARTA AO CERIS, 26 mar. 1981, ANEXO A 1).

Outro documento, também mostrando a participação decisiva do Mutirão na criação da oficina-escola, descreve o projeto, desta vez no pedido de co-financiamento à CEBEMO. Aqui, é também mencionada a vinculação entre o grupo Mutirão e as oposições sindicais da região. Ao se referir ao surgimento da oposição sindical metalúrgica em Betim, no início de 1978, o documento fala da greve daquele ano e das demissões ocorridas em conseqüência dela, observando que:

A partir desse momento, começamos a pensar na defesa e sustentação dos demitidos. Foi assim que um grupo já existente, o Mutirão, entrou a participar mais por dentro da luta operária em Betim. Este grupo tem como finalidade a ajuda mútua e a conscientização da classe operária. Em setembro de 1979, por ocasião da segunda greve dos metalúrgicos de Betim, a repressão patronal não mediu o limite: quis demitir todos os que participaram ativamente da greve. Frente a esta situação, ao

fato de os mais destacados líderes operários serem catalogados na ‗lista negra‘ e à

necessidade de dar continuidade à luta na base territorial de Betim, começou-se a pensar na implantação de uma pequena indústria que fosse de sustento para os desempregados, e desse condição de dar continuidade à luta sindical. (PEDIDO DE CO-FINANCIAMENTO A CEBEMO, 1980, ANEXO A 2).

Mais adiante, o mesmo documento volta a falar do Grupo:

Os participantes do Mutirão são atualmente cerca de 40 famílias.‖ (O documento é datado de abril de 1981). ―Em abril de 1980, houve a intervenção do Ministério do

Trabalho no Sindicato dos Metalúrgicos de Betim, adiando assim as eleições naquela entidade, exatamente para impedir o grupo de oposição sindical de assumir o sindicato. Com a intervenção, ficou impossibilitada a atuação precária que se tinha através do sindicato. Surgiu, então, a Pastoral Operária de Betim, iniciativa de um grupo de participantes do Mutirão, junto com os padres da Igreja Católica de Betim. No período de nove meses, a Pastoral Operária confeccionou 10 boletins, que distribuiu na porta das fábricas, num total de 80.000 exemplares. Tudo isso levou à formação de uma chapa que concorreu às eleições sindicais de março de 1981, que ganhou as eleições. Oito dos 22 elementos da nova diretoria do sindicato são membros do Mutirão. (fonte: Pedido de Co-financiamento à CEBEMO por parte do Grupo Mutirão - abril de 198l). (PEDIDO DE CO-FINANCIAMENTO A CEBEMO, 1980, ANEXO A 2)

Embora não seja o objetivo desta parte da narrativa uma completa descrição do que foi o Grupo Mutirão, é interessante procurar construir uma imagem mais precisa, uma vez que vários de seus integrantes tiveram participação decisiva nas experiências que aqui serão narradas. E, para traçar um perfil mais fiel à realidade e à história do grupo, a memória, escrita e oral, de seus participantes constitui o material por excelência. Neste particular, um documento datado de 24 de setembro de 1981 tem excepcional importância. É uma carta em que o Grupo Mutirão, mais exatamente, um dos seus membros envolvidos na criação da oficina-escola, responde a um questionário (CARTA DO CERIS AO GRUPO MUTIRÃO, 17 set. 1981, ANEXO A 3) enviado pelo CERIS no dia 17 do mesmo mês. O questionário, que é bastante detalhado, com questões específicas sobre a instituição responsável pelo projeto, mais um grupo de questões referentes ao próprio projeto, sobre a organização e o funcionamento da oficina e sobre os equipamentos solicitados no projeto, recebe uma resposta também detalhada:

Tendo recebido sua solicitação para dar as informações sobre a atual situação do projeto da oficina AUTOBOR, nos reunimos no dia 23/09 pp, para juntos podermos responder ao questionário:

Dados sobre a instituição responsável :

a) O Mutirão não tem personalidade jurídica. Ele nasceu ainda nos meados dos anos 60, como uma forma de dar sustento à luta operária, Se reestruturou e teve nova expressão nesses últimos anos, se engajando nas lutas sindicais, sobretudo da região industrial de Betim. Devido ao tipo de grupo, não é possível pensar em ter personalidade jurídica. Anexamos, porém, cópia do estatuto. (CARTA DO GRUPO MUTIRÃO AO CERIS SOBRE SITUAÇÃO DO PROJETO, 24 set. 1981, ANEXO A 4).

Em seguida, o documento menciona o crescimento do Grupo Mutirão e a sua presença que passava aos três municípios da Região Industrial, acrescentando informação sobre o número total de participantes, o número de contribuintes e a arrecadação mensal do grupo:

b) Devido ao crescimento do grupo e a sua expansão territorial, o Mutirão se organizou neste ano em três grupos, um funcionando na região industrial (o núcleo mais antigo), outro em Contagem e o terceiro em Betim. Sendo que os últimos dois são mais recentes, só comunicamos os dados do núcleo mais antigo, que é também aquele que se responsabiliza pela oficina. Os participantes atuais do Mutirão são 31. Os participantes que estão contribuindo com 1% do salário atualmente são 24. A arrecadação mensal é de Cr$10.000,00. Temos um caderno de caixa onde registramos entradas e saídas. Esta é a única fonte de arrecadação que sustenta as atividades do ponto de vista financeiro. (CARTA DO GRUPO MUTIRÃO AO CERIS SOBRE SITUAÇÃO DO PROJETO, 24 set. 1981, ANEXO A 4).

Também a relação com a Pastoral Operária é evidenciada no documento, com ênfase na participação dos membros do Grupo Mutirão nas atividades do movimento operário, em conjunto com as CEBs. Interessante, nesta parte, é o projeto de criação de um sindicato dos trabalhadores rurais, no município vizinho de Igarapé, o que significa, inevitavelmente, uma visão mais ampliada da luta dos trabalhadores no âmbito da sociedade, incluindo assim o setor rural nas preocupações desses militantes.

c) Além da oficina, o Mutirão está atuando na Pastoral Operária de Betim e da região industrial de Belo Horizonte-Contagem. Essa atividade implica desde reuniões e encontros sobre vários problemas do movimento operário, à preparação e distribuição do Boletim da Pastoral Operária nas portas das fábricas, e em outras atividades como a organização do Fundo de Ajuda aos Desempregados, lançado pela Pastoral Operária junto com as Comunidades Eclesiais de Base de Betim.‖

―Outra atividade do Mutirão é a luta junto aos trabalhadores rurais do município de

Igarapé, a 40 km de Belo horizonte, que pretendem fundar um sindicato naquele município para defender seus direitos. (CARTA DO GRUPO MUTIRÃO AO CERIS SOBRE SITUAÇÃO DO PROJETO, 24 set. 1981, ANEXO A 4).

Como foi dito antes, os militantes tinham o objetivo de fortalecer a oposição sindical metalúrgica em Betim e, no documento, esse objetivo fica registrado também no que se refere ao Sindicato de Belo Horizonte e Contagem. Esse projeto estava inscrito na estratégia do grupo e fica declarado no documento:

Outra atividade consiste na participação direta na luta sindical dos metalúrgicos de Betim, onde atuam como diretores 8 companheiros do Mutirão e também no sindicato de Belo Horizonte-Contagem, onde participamos na linha de oposição sindical.

Tudo isso nos obriga a organizar nossa participação, dividindo as tarefas. Uma parte atua mais diretamente no sindicato, outros na Pastoral Operária, outros no projeto da oficina. No encontro mensal, discutimos juntos os problemas que encontramos nas nossas atividades. Por isso, que a responsabilidade do projeto da oficina está mais entregue a um grupo de 8 pessoas. (CARTA DO GRUPO MUTIRÃO AO CERIS SOBRE SITUAÇÃO DO PROJETO, 24 set. 1981, ANEXO A 4).

O mesmo documento volta a contribuir para uma melhor compreensão da natureza do Grupo Mutirão, quando informa sobre o projeto da oficina, ao lembrar que o motivo fundamental que os levaria a pensar na construção de uma oficina não foi o de dar sustentação

financeira aos operários que, por sua luta, são despedidos e incluídos nas listas negras. Não se tratava, assim, de uma luta contra o problema mais amplo do desemprego. Nas palavras do próprio documento, o motivo fundamental

[...] foi o de ter condições de dar continuidade à luta dos metalúrgicos de Betim duramente perseguidos pelo governo e pelos patrões. Portanto, o motivo principal é o de garantir a presença física de alguns companheiros mais experientes na base

territorial de Betim, que é muito pequena e facilmente controlada pelos patrões‖. ―Por isso, -prossegue o documento -mesmo que a oficina comporte oficialmente a

possibilidade de empregar 15 pessoas e praticamente possa dar trabalho a umas 10 pessoas, nossa intenção é de que um operário consciente e ativo procure trabalhar numa fábrica para desenvolver lá a luta. (CARTA DO GRUPO MUTIRÃO AO CERIS SOBRE SITUAÇÃO DO PROJETO, 24 set. 1981, ANEXO A 4).

E, mais adiante:

3) As pessoas do Mutirão indicadas para continuar a luta na base territorial de Betim foram escolhidas e aprovadas no Mutirão mesmo. Elas permanecerão lá enquanto precisar delas em Betim. Isso sempre será decidido pelo Mutirão. Do mesmo jeito serão escolhidas as pessoas que precisarem trabalhar na oficina enquanto procuram outro emprego. 4) Sendo que esta oficina não foi pensada como solução das listas

negras, nós não estamos preocupados na ‗‗seleção‘ dos que terão necessidade de

trabalhar lá: até agora, o mutirão enfrentou esse problema com a arrecadação de 1% para não deixar esses companheiros passar necessidade. 5) O Mutirão participa do projeto decidindo todas as questões fundamentais, como foi até agora, a partir da decisão de registrar esta oficina, a decisão de quem assumiu a responsabilidade legal da mesma, quem ficou trabalhando lá, a decisão de pedir ajuda ao CERIS e à CEBEMO. (CARTA DO GRUPO MUTIRÃO AO CERIS SOBRE SITUAÇÃO DO PROJETO, 24 set. 1981, ANEXO A 4).

O documento cresce em importância, ao descrever a organização e o funcionamento da oficina anteriormente ao pedido de financiamento às duas instituições, sendo que o fato de ela não ter registro como empresa chegou a trazer problemas:

No início de 1980, a oficina ainda não registrada, funcionava numa loja alugada, até que, na noite de primeiro de maio, a polícia entrou forçando a porta e, no dia seguinte, alegando falta de registro, nos obrigou a sair do aluguel. Foi aí que decidimos comprar um lote e começar a construção de uma loja que nos desse a possibilidade de trabalhar sem depender de ninguém. Desde então, estamos trabalhando - 4 pessoas -, na construção e montagem da oficina. Atualmente, somos 4 pessoas: um torneiro, dois eletricistas e um ajustador. (CARTA DO GRUPO MUTIRÃO AO CERIS SOBRE SITUAÇÃO DO PROJETO, 24 set. 1981, ANEXO A 4).

Nessa época, a oficina, que começara a funcionar no ano anterior, tinha, do ponto de vista legal, dois operários como donos. Tinham sido escolhidos por terem condições, um de garantir o funcionamento da oficina e escola da parte elétrica, e o outro por ter experiência

profissional suficiente para garantir o funcionamento da parte de tornearia, tanto da oficina quanto da instrução.

Quanto aos recursos tecnológicos para o funcionamento, a oficina dispunha, em setembro de 1980, de algumas máquinas emprestadas, podendo, naquele mês, fazer apenas serviços de serralheria (portas e janelas). Ao que parece, o que levou o grupo a pedir ajuda às instituições foi o fato de que a entrada de recursos com o trabalho de serralheria não era suficiente para a manutenção dos quatro que trabalhavam na oficina e na sua montagem. Na data em que foi redigido o documento, os quatro ainda precisavam de sustentação vinda do Mutirão. Nesse mesmo documento-resposta, eles mencionam que os dois tornos emprestados tinham vários problemas, desde eixos empenados e engrenagens quebradas até motores queimados. O grupo conseguiu consertar as máquinas, mas uma delas era muito antiga e serviria praticamente ―só para dar aulas – é completamente manual e para dar aulas vai bem‖. Nesta fase do projeto, a demanda da oficina era de cinco tornos, entre os quais um de porte médio, para serviços que garantissem a sustentação econômica. Com um mínimo de cinco tornos, a oficina poderia organizar cursos profissionais legalizados, que dessem diplomas reconhecidos pelo Ministério da Educação. Assim, a oficina programou comprar tornos usados, para a parte de mecânica, e, na parte elétrica, dependeria completamente da aprovação do projeto.