2.1. Kuramsal Bilgiler
2.1.1. Matematik Eğitiminde Teknolojinin Kullanımı
2.1.1.3. Geogebra Yazılımı
Parte significativa da experiência de vida, da arqueologia da formação militante, da experiência de fábrica, bem como do pensamento político de alguns dos trabalhadores e educadores que desenvolveram as experiências de que tratamos neste trabalho tem seu início nos anos sessenta. Não por acaso, os que mais ênfase dariam à iniciativa de criar e desenvolver a oficina-escola já militavam no movimento dos trabalhadores desde aquela década. Nas entrevistas que realizamos com eles, que serão referência nos capítulos 4 e 5, fica claro que a trajetória de militância no movimento operário lhes mostrou a importância da competência no exercício da profissão para a formação enquanto quadro politico na fábrica. A preocupação com a formação de quadros, com a educação profissional e a formação de militantes foi aprendida por esses trabalhadores-educadores na experiência enquanto classe. A memória desse tempo, anos sessenta, vem na fala de Mário, que seria depois uma referência entre os formadores das experiências que analisamos aqui. Ele conviveu com militantes das organizações de esquerda da época, mas tem ter se filiado a elas:
O contato com o pessoal organizado começou em 66. Em fins de 67, né, depois do golpe, eu comecei no Sindicato em 63. Então, depois, de 63, a gente passou do movimento de 64, já acompanhando sindicalmente. Passando as greves de 68, como direção da equipe salarial, mas em 66, final de 66, a gente começou a ter contato com o pessoal organizado. Com a JOC, com o pessoal de AP, com o pessoal do PC do B que a gente foi aprendendo a conviver. Porém sem participar com isto. Estando junto mas sem ser um filiado a uma coisa nem outra. (Mário Bigode – torneiro/educador).
Outra lembrança da militância da época é trazido por Roberto, outro formador, também referência nos movimentos de bairro na construção da educação operária:
É, 68, eu estava trabalhando lá na fogões Orsini, dando auxílio na época da greve, que teve em 68. A gente fez assembléia aí, fizemos piquete, organizamos, saímos organizados lá, junto com o pessoal da Mannesmann, teve um quebra pau danado aqui em cima, no bairro Inconfidentes, na igreja, não sei se você se lembra do padre... porque a igreja estava em construção e a gente estava reunindo lá e o cara da Poligh Heckel entregou a gente e foi um quebra pau tremendo. Muita gente machucou-se. E em 69 eu fui pra Brasilit. Trabalhei na Brasilit até 71, mais ou menos, no final, começando 72. (Roberto – torneiro/educador)
Alguns deles, que participaram dos acontecimentos dos anos sessenta na região industrial e até em outros lugares, trouxeram seu aprendizado para as greves da década seguinte e, por isso, tinham a memória do que foram as greves de Contagem, em 1968.15
Conforme assinala Magda Neves, mesmo com o Sindicato dos Metalúrgicos de Belo Horizonte e Contagem sob intervenção, desde 1964, juntamente com inúmeros outros sindicatos no Brasil, as suas lideranças continuaram morando e trabalhando em Contagem, como por exemplo, seu presidente cassado, Ênio Seabra. (NEVES, 1995, p. 119).
Em 1967, organizaram-se oposições sindicais em todo o país. O Movimento Intersindical Anti-Arrocho (MIA), é criado em São Paulo e as oposições sindicais tratam de disputar eleições, com o término das intervenções que vinham praticamente desde o golpe de 64.
Nas eleições para a diretoria do sindicato, que aconteceram em julho de 1967, a chapa que saiu vitoriosa tinha entre seus integrantes alguns militantes das organizações de esquerda. (OLIVEIRA, 2010, p. 129). Com o objetivo de afastar os pelegos e combater o arrocho salarial e o fim da estabilidade, a chapa resultava de uma aliança que envolvia a Ação Popular, o Partido Comunista Brasileiro, a Corrente Revolucionária e militantes independentes. Todavia, alguns de seus componentes, inclusive o cabeça de chapa, Enio Seabra, foram vetados pelo Ministério do Trabalho. Ainda assim, as organizações citadas continuaram influenciando as atividades do sindicato e começaram a desenvolver intenso trabalho de agitação nas fábricas.
Alguns militantes de organizações trabalhavam como operários e eram também estudantes, (NEVES, 1995, p. 126) Entre estes, havia militantes da AP, da Colina e da
15
As greves de 1968 em Contagem e Osasco foram estudadas por diversos autores, entre os quais, Francisco Weffort, (1972), Magda Neves (1995), Reynaldo Muniz (1984), Michel Le Ven (1978), Espinosa (1978), Marco A. Santana (2008) e Edgard Leite de Oliveira (2010). Os pontos que, a nosso ver, surgem como fundamentais para a narrativa sobre elas dizem respeito à forma de organização, à participação dos grupos de esquerda e dos estudantes, à relação do movimento grevista com o governo ditatorial e à escalada da repressão.
Corrente, e o objetivo de fortalecer a aliança operário-estudantil, com o projeto de organizar os trabalhadores, de ―preparar a classe operária para a revolução‖, que, na segunda metade dos anos sessenta, para as convicções marcadas pela guerra do Vietnam, pelas guerrilhas latino-americanas e pela vitória em Cuba, poucos anos antes, não parecia tão distante e tão impossível como acabou sendo. Ao mesmo tempo em que influenciavam a oposição sindical, essas organizações de esquerda visavam organizar uma forte campanha nacional contra a política de arrocho salarial que era imposta pela ditadura militar.
O movimento concretizou-se, com caráter intersindical e passou a trabalhar a união de diversas categorias de trabalhadores, com vista a promover uma grande concentração no dia primeiro de maio de 1968. A luta contra o arrocho teve grande repercussão, conforme lembra Magda Neves, ao citar um órgão da imprensa mineira da época:
Dentre todas as manifestações que vinham ocorrendo, as seis confederações que coordenam a campanha pretendem fazer uma concentração-monstro no dia 1º de maio, em recinto fechado, com a presença de operários de todo o Estado. Para isso, os dirigentes sindicais de Belo Horizonte viajaram para as principais cidades de Minas, pedindo a união dos trabalhadores em torno da demanda das leis do arrocho. O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Belo Horizonte/Contagem, Sr.
Antônio Santana, afirmou ontem que ‗os operários voltarão mesmo a protestar, dia lº de maio, contra o arrocho, mas em recinto fechado e dentro da ordem.‘ Ressaltou ainda que ‗devido à união conseguida entre as lideranças operárias, a campanha
contra o arrocho vai ganhando maior densidade, mas sem perturbar a ordem e a disciplina. (Diário de Minas, Belo Horizonte, 4 de abril de 1968 apud NEVES, 1995, p. 126).
Trabalhar esse clima de insatisfação, de dificuldades no cotidiano, como conseqüência do arrocho, foi o que fizeram os militantes das organizações de esquerda, tornando-se operários ou não, mas distribuindo boletins nas saídas das fábricas, organizando palestras em sindicatos, na busca de uma união dos trabalhadores e de apoio a eles, para enfrentar uma política econômica que os ameaçava com o desemprego e reduzia seu poder aquisitivo.
A greve começou no dia 16 de abril, na Trefilaria da Companhia Siderúrgica Belgo- Mineira, em Contagem. Não seria surpresa a forma como os jornais se referiam ao movimento grevista:
Os 1.400 operários da Belgo-Mineira, da trefilaria da Cidade Industrial, entraram ontem, às 7 horas, em greve geral, exigindo aumento de vencimentos em 25%, depois de paralisarem todo o serviço e tomarem a fábrica de assalto. Os diretores da Companhia pediram providências às autoridades, pois consideram a greve ilegal. (Diário de Minas, Belo Horizonte, 17 de abril de 1968 apud NEVES, 1995, p. 129).
Observe-se aqui a linguagem da notícia, como sempre, registrando a visão patronal acerca da greve. Outros jornais falavam em 1.600 operários da Belgo-Mineira em greve (O Estado de Minas, de 17 de abril 1968 apud NEVES, 1995, 129) e até em 2.000 grevistas:
Apanhando de surpresa até mesmo os dirigentes do Sindicato, cerca de 2 mil operários da Belgo-Mineira, na Cidade Industrial, entraram em greve na manhã de ontem. [...] Querem os operários um reajuste de 25% sobre os salários de 1º de abril, mas até então a Companhia mostrara-se disposta a conceder somente 10%, ocasionando a greve. A turma que entrou às 23 horas de segunda-feira resolveu paralisar as atividades às 7 horas, contando com o apoio dos operários que entrariam no segundo turno. (O Diário, Belo Horizonte, 17 de abril de 1968 apud NEVES, 1995, 130).
A organização da greve ocorreu no interior da fábrica. Os operários elegeram uma comissão de 25 representantes para as negociações com a diretoria da Belgo-Mineira. Essa comissão formou grupos para a disciplina e segurança do movimento. Os grevistas permaneceram no espaço da fábrica durante todo o dia e mantiveram junto a eles três membros da diretoria da empresa, configurando já uma forma diferente de ação grevista, que era a ocupação da fábrica. No segundo dia de greve, como não houve qualquer avanço em termos de negociação com a empresa, os operários, considerando a possibilidade de invasão policial, deixaram a fábrica e se reuniram em assembléia, no sindicato, onde decidiram continuar a greve, recusando a proposta dos patrões, de 10% de reajuste salarial. Nesse mesmo dia, receberam a adesão de mais de trezentos operários da Sociedade Brasileira de Eletrificação (SBE), que também ocuparam a fábrica, vizinha à da Belgo-Mineira.
Em seguida, entraram em greve mais 4.500 trabalhadores da Companhia Siderúrgica Mannesmann e, no dia 21, os operários de mais cinco empresas, que eram a Demisa, (indústria de tratores, com 200 trabalhadores), a Única, (fundição, com 50 0perários), a Industam (metalúrgica, com 130 trabalhadores, a RCA (fábrica de válvulas eletrônicas, com 1.000 trabalhadores) e a Fundição Santo Antônio, (metalúrgica, com 300 trbalhadores).
A importância conferida a essa greve por parte do governo militar traduziu-se nas viagens que o ministro do trabalho, Coronel Jarbas Passarinho, fez a Belo Horizonte durante o movimento. A primeira delas, realizada no dia 20 de abril, contou com a ida dele ao Sindicado dos Metalúrgicos, onde os trabalhadores estavam reunidos em assembléia. Ali, o ministro deixou claro que o governo via o movimento como ilegal, configurando até mesmo uma ação ―contra-revolucionária‖, ou seja, contra o governo golpista instalado em 1964, e que o não
encerramento da greve iria ocasionar a demissão por justa causa de todos os grevistas16. Dessa
primeira visita, resultou uma proposta de conciliação do governo, de um reajuste de 10% extensivo a todos os trabalhadores amparados pela CLT, a partir de 1º de maio. Esse reajuste, diferentemente do que haviam proposto os empresários, não seria descontado na próxima data-base. Segundo o próprio ministro do trabalho, o reajuste correspondia à ―pré-estréia do afrouxo salarial‖. Apesar da proposta de reajuste ser bem abaixo do que os operários reivindicavam, ela significava uma primeira vitória dos trabalhadores, nacionalmente, contra uma política de arrocho salarial praticada pela ditadura militar.
A diretoria do sindicato aceitava a proposta, mas outra assembléia foi realizada no dia 22 de abril e foi mantida a greve, numa proporção esmagadora de votos favoráveis. Até o dia 23, o número de fábricas paradas chegava a 18, com a entrada em greve dos trabalhadores da Poligh-Heckel, da Metalúrgica Triângulo, da Mafersa, da Barmel, da Santa Fé, da Acém, da Capistrano, da Barbosa Melo, da Postes Cavan e da AEI do Brasil. com um número de grevistas, estimado por órgãos de imprensa, variando entre 12 e 16 mil. (ver os seguintes jornais: Diário de Minas, 23 de abril de 1968; O Diário, 24 de abril de 1968, e o Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 24 de abril de 1968 apud NEVES, 1995, p. 133). A reivindicação se mantinha nos 25% de abono salarial.
Com a continuação e a ampliação do movimento, o ministro veio uma segunda vez a Belo Horizonte, no dia 23 de abril, e fez ameaças aos trabalhadores com a violência do regime militar, em entrevista realizada na Casa do Jornalista (atual Sindicato dos Jornalistas):
Se a classe operária tem dispositivo militar forte, que continue a greve e prepare os grevistas para as conseqüências que virão Se desafiam o governo, é porque estão dispostos a receber a resposta. Este é meu último apelo para que voltem ao trabalho. (Diário de Minas, 24 abr. 1968 apud NEVES, 1995, p. 135).
Esse final da greve de abril é lembrado por Weffort com estas palavras:
No dia seguinte, o Ministro fala aos trabalhadores e a toda a população, utilizando uma cadeia de rádio e televisão. Reafirma a decisão do governo de conceder o abono
de emergência, mas reafirma também a ilegalidade da greve ―e as suas possíveis conseqüências. Era o ―começo da Guerra‖. Era também o começo do fim para o
movimento grevista. Em obediência às suas determinações, a Política Militar passa a ocupar a Cidade Industrial, proíbe as assembléias, a distribuição de boletins e os ajuntamentos de rua. Desarticulam-se, assim, os meios difusos de comunicação, que
16Segundo Weffort, a imprensa menciona as seguintes palavras do Ministro: ―...se as condições se agravarem,
passando para a provocação e o desafio, vai haver luta e perderá quem tiver menos força, embora não queiramos fabricar e nem nos transformarmos em cadáveres, porque há muita gente interessada em transformar operários em carga de canhão, iniciando uma contra-revolução, que saberemos enfrentar com as mesmas armas.‖ (O Estado de São Paulo, 21/4/1968 apud WEFFORT, 1972, p. 46).
eram os decisivos, senão os únicos disponíveis para a articulação do movimento. Ao lado da presença policial, algumas empresas desencadeiam seus próprios mecanismos repressivos e enviam representantes à casa dos operários, chamando-os de volta ao trabalho, sob ameaça de demissão. (WEFFORT, 1972, p. 49).
Na impossibilidade de resistir, diante de tamanha desigualdade de forças, os operários iniciam o retorno ao trabalho no dia 24, sendo que o final da greve veio a ser ratificado em assembléia, no sindicato, no dia 26. Terminava a greve de abril, que durou dez dias e que trouxe importantes inovações no formato e na condução de movimentos dessa natureza para a classe trabalhadora.
Falar da singularidade das greves de 1968 leva a considerações que vão muito além da luta sindical e das questões específicas do movimento operário, uma vez que o envolvimento das organizações revolucionárias teve caráter decisivo nos acontecimentos. Oliveira mostra que os trabalhos de politização junto aos operários aconteciam em diversas frentes de atuação, ―pelos movimentos populares, organizações políticas e estudantis, através de jornais, panfletos, assembléias, reuniões, além da criação de comissões de fábricas, permitiram um levante de tomada do setor da fábrica, pelos operários (OLIVEIRA, 2010, p. 71). Essas ações vinham acontecendo desde o ano anterior, 1967.
Outra frente de politização acontecia em escolas regulares, tanto na região do Barreiro, onde fica a Mannesmann, quanto no Colégio Municipal de Contagem. Nessas escolas, lecionavam militantes de organizações de esquerda e alguns deles estudavam na Faculdade de Filosofia da UFMG (atual FAFICH), que, na época, incluía os cursos de letras, matemática, filosofia, psicologia, geografia, história, jornalismo, biologia e toda a área da pedagogia, que mais tarde se tornou a Faculdade de Educação da UFMG. Assim, militantes de organizações que eram ligados ao movimento estudantil davam aulas, à noite, para diversos jovens operários da região industrial, num trabalho de efetiva conscientização política. Nessas escolas, circulavam os jornais da imprensa operária, como ―O Metalúrgico‖, o ―Piquete‖, ―O Companheiro‖. Alguns desses materiais de divulgação eram impressos com a ajuda de entidades ligadas à Igreja, outros eram impressos em escolas onde militantes davam aulas, ou nas entidades estudantis e as organizações de esquerda também tinham condições de providenciar a impressão de textos.
Já no decorrer da greve, a participação das organizações de esquerda no apoio ao movimento grevista se dava com seus militantes realizando ações de panfletagem na região industrial e na divulgação da greve junto à população de Belo Horizonte, além do envolvimento que já existia com o sindicato. Aqui, é inevitável nos lembrarmos das
panfletagens e dos pequenos ―comícios-relâmpagos‖ que, na condição de militantes de organizações, realizávamos durante o horário de almoço das fábricas da Cidade Industrial, para grupos de operários que descansavam próximo aos portões. Uma frase que utilizávamos ao falar para aqueles trabalhadores, aprendida com eles próprios, a maioria com certeza vindos do interior, dizia: “O boi não sabe a força que ele tem! Se ele soubesse, ninguém fazia
ele puxar o carro e ninguém levava ele para o abatedouro. Assim é a classe operária: ela não sabe a força que tem, mas a união faz força!”
Como aponta Espinosa,
A grande inovação das greves de 1968 foi o fato de elas serem realizadas sem a ação de piquetes, iniciando-se dentro da própria fábrica, em horário de expediente. Outra novidade, criada pelos metalúrgicos de Contagem, mas levada a extremos pelos de Osasco, foi a ocupação da fábrica, com os operários assumindo os postos dos vigilantes, passando a dirigir o refeitório etc. (ESPINOSA, 1978, p. 9).
Oliveira chama a atenção para o aparato político que apoiava a greve, mostrando que ela passa a ser uma luta política contra a ditadura militar, e cita a percepção de um líder operário, Antônio Santana em entrevista a Edgard Leite de Oliveira:
Na época, quem armou esse movimento grevista de 68 foi o pessoal da Polop, o pessoal da Política Operária, clandestinos, quase todos eles eram estudantes universitários, na época, eu até coloquei um ou dois, que eram ligados a eles, que ficavam na porta das fábricas. Mas eles se arriscavam demais, porque eles não eram metalúrgicos, eram estudantes universitários. De repente, a polícia pegava na porta lá do coisa, ia preso, ia ser torturado, aí, nós criamos no sindicato, através de opinião da Conceição Imaculada, que era secretária do sindicato, um departamento social de pessoas responsáveis por conseguir documentação pra aposentadoria daqueles operários que estavam em condições de se aposentar. Então, ela foi pegando o pessoal da Polop, foi colocando lá, fichando todos eles com o pessoal do sindicato, que e aí eles tinham todo o direito de estar na porta da indústria [risos] procurando o pessoal pra conversar, certo? Então, eles aproveitaram e organizaram aquele movimento. O pessoal da AP, a Ação Popular, e da Polop, que organizaram aquele movimento grevista, muito bem feito, por sinal. (OLIVEIRA, 2010, p. 90).
É importante lembrar que, não só a situação de penúria vivida pela classe trabalhadora, com o arrocho salarial, a ponto de levar ao desencadeamento da greve, chamava a atenção das pessoas, mas, também elas presenciavam o impacto do movimento estudantil e da violência da repressão na vida das grandes cidades do país. Aquele foi um ano que ficou na memória de muitos que tomaram conhecimento da polarização entre a repressão e os estudantes que se manifestavam contra a ditadura e o imperialismo. Assim, o clima político dava espaço a posicionamentos que iam desde os temores do governo militar, de que uma greve como a de Contagem pudesse provocar uma revolta que envolveria toda a classe operária no país, até ao apoio efetivo que os operários chegaram a receber de alguns setores, como a oposição
parlamentar, o MDB, da época, em pronunciamentos de alguns deputados no plenário da Assembléia Legislativa de Minas Gerais.
Mas a luta dos trabalhadores seguia em frente e havia a preparação do Primeiro de Maio em Belo Horizonte. ―O dia 1º de maio é dia de luta - Não é dia de festa‖, dizia o Boletim número 2, distribuído pelo Movimento Inter-Sindical, ao convocar todos para a concentração que seria realizada no auditório da Secretaria da Saúde, às nove horas da manhã. A caminho da concentração, notava-se o quanto a cidade estava policiada ostensivamente. Em um enorme auditório lotado, era possível reconhecer, perto das saídas, policiais civis, do DVS (antigo DOPS) e da Polícia Federal, pois eram os mesmos que haviam estado nas imediações das fábricas da Cidade Industrial, durante a greve, ou próximo ao sindicato, e que costumavam ser vistos em cercos a faculdades e manifestações estudantis. Eram mais de duas mil pessoas presentes e uma mesa de composição numerosa, com representantes de várias categorias de trabalhadores e de entidades estudantis. Havia também militantes de organizações que tinham colaborado na greve de Contagem e que tinham participado das mobilizações para a concentração.
Apesar da proibição de se fazer qualquer manifestação de rua, depois de vários oradores terem feito seus pronunciamentos, foi decidido que seria feita a leitura em público, na confluência de avenidas que ficava perto do Mercado Central, de um manifesto contra a política salarial do governo. Entretanto, assim que foram abertas as primeiras faixas da manifestação, em frente ao prédio da Secretaria de Saúde, começaram a explodir as bombas de gás lacrimogêneo e algumas prisões foram feitas, incluindo a de representantes da UNE e da União Estadual dos Estudantes de Minas Gerais, além de trabalhadores que estavam no evento.17
O que ficou na nossa memória pessoal, pois estivemos nesse evento, além do clima de