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5.1 O pensamento evolutivo de Habermas

Conforme Zanette495, Habermas revisou diversas vezes o seu pensamento ao longo de sua vida intelectual, sem perder o espírito adogmático e de profundo respeito à liberdade, solidificando o apego ao debate racional e buscando a aceitabilidade racional. Habermas trabalhou “dentro” da Escola de Frankfurt, foi assistente de Adorno e, desde jovem, pôde participar dos efervescentes debates da primeira metade do século XX, tratando o pensamento filosófico como uma pedra bruta a ser constantemente refinada. Com esse posicionamento, na busca de uma teoria social crítica, passou por várias abordagens, incluindo, a depois abandonada consideração da psicanálise como paradigma para as demais ciências sociais. Dessa forma, Habermas reconsiderou ou, como ele preferiu dizer, retocou a sua visão da filosofia, mas, em nenhum momento, abandonou o racional como a possibilidade para o mundo vivido, sem aceitar críticas à razão que só podem se realizar pela própria razão.

Habermas, fundamentando as suas reflexões, mantém forte o papel dado à razão, em atitude anticética, porém falibilista, ao mesmo tempo em que persegue um realismo epistemológico e um construtivismo moral. Na fase inicial de construção desse modo no seu pensar, dentre outras influências, teve, com Popper, a crença no falibilismo lógico, no sentido de se aprender com decepções e erros496 e reconheceu que foi Apel que o introduziu no Pragmaticismo de Charles Sanders Peirce. Conforme Habermas:

Apel foi quem dirigiu minha atenção para Peirce na década de 1960...Em epistemologia - e na teoria da verdade - Peirce foi a minha mais forte influência, desde a minha aula magna de Frankfurt sobre Conhecimento e Interesse (1965) até

Verdade e Justificação (1999) . Desde que Apel e eu tivemos contato, foi sua interpretação que, primeiramente, guiou a minha recepção.497

Habermas já considerava que o racional da modernidade é um caminho cultural do sacro para o profano e que, dessa maneira, apriorismos das assunções de textos sagrados não contêm outra função a não ser a de se tornarem ponto de partida para o caminho racional. O a

495ZANETTE. 2006. Tese de mestrado. 496HABERMAS. 2004. Op. Cit. p.20, 64 e 99.

497HABERMAS. 2002. Op. Cit. p.226 e 227. " Apel was the one who directed my attention to Peirce in the early 1960s...In epistemology - and the theory of truth - Peirce had the strongest influence, from my Frankfurt lecture on Knowledge and Human Interest (1965) onwards up to Wahrheit und Rechtfertigung (1999) (Truth and

Justification - as translated). Since Apel and I had remained in contact, it was his interpretation that at first guided my reception".

priori, para Habermas, está estabelecido em textos ou formas de vida por ele chamadas de "arquiescrituras”. Dessa maneira, Habermas afasta, como passíveis de correção normativa racional, as éticas de fundo religioso, dogmaticamente estabelecidas. Para ele, as proposições morais religiosas devem entrar para o mundo da aceitabilidade racional na mesma posição daquelas laicas, sem a pretensão de destruição dessas últimas por forma coercitiva. Habermas também critica as chamadas éticas de amparo na tradição, como exemplo a trazida por MacIntyre. Tais sistemas éticos, para Habermas, não se dispõem, suficientemente, a colocar em discussão consensos já tutelados por constituição prévia e obrigatórios moralmente, sendo ou não justos.

Habermas, com a influência de Peirce, na questão da epistemologia, pôde enfrentar a questão da incondicionalidade pretendida para as questões de verdade, mesmo se colocadas de forma condicional para avaliação do pressuposto pragmático. Habermas, ao discutir justificação para o verdadeiro, faz isto em linha com a filosofia de Peirce, pela qual o condicionado, tanto pelo caráter hipotético como pela vagueza das constituições linguísticas498, enfim com caráter falível, fica justificado ou não pela ideia, aberta à experiência comum, de permanência ou regularidade das consequências de conduta prevista na asserção. Há um caráter incondicional na suposição499 de um mundo mais ou menos igual para todos. Todavia Habermas distingue o momento da possibilidade da justificação das asserções que indicam conduta moral, à vista de uma pragmática formal, as quais não podem se abrir à experiência comum, por considerarem sentimentos como a dor dos ofendidos. Nesse caso, o transcendente da condicionalidade para a experiência, como representação da conduta prevista em suas consequências, não poderia estar fundando a justificação. Como solução, Habermas inclui um realismo sem representação, porém cognitivo e construtivista por aprendizagem, no qual o "momento" da constatação da justificação fica antecipado e dentro da asserção.

Segundo Habermas, está mantido o viés pragmático, pois é possível, nesta pragmática formal, manter o caráter procedural, o deontológico e o cognitivo. Entretanto, por força das relações humanas, esse viés pragmático, antes de se realizar somente como aprendizagem de um saber, é um construtivismo moral sem representação, mas é realista, pois também referido, por força da aceitabilidade racional, a um suposto mundo objetivo e mais ou menos igual para todos. Para Habermas, a teoria da verdade de Peirce, que requereria,

498Para Habermas, o primeiro falível da dupla reserva falibilista no caminho do verdadeiro ou do correto.

499Só podemos supor que a nossa significação do mundo não será mudada, pois o conhecimento, como saber prever, para Habermas, como para Peirce, designa o "em futuro".

forçosamente a representação, não se aplicaria ao construtivismo moral, mas somente ao aprendizado decorrente da reação dos existentes. Entende-se que, destarte, as objeções de Habermas e a forma por ele proposta para a correção moral também estão em linha com as assunções de fundo da filosofia de Peirce, que contêm visão mais ampla de alteridade que simples reação por existência. É forçoso reconhecer que Peirce não realizou uma filosofia moral, mas que a filosofia moral de Habermas é a que melhor traduziria uma extensão da cosmologia filosófica de Peirce.

Tendo reconhecido, na sua análise, uma progressividade sobre a filosofia de Peirce500, Habermas que reconhece, na sua própria filosofia, uma transcendência ao contexto linguístico, fica próximo do dualismo de Peirce, inerente à significação que decorre por e somente pela experiência de alteridade, sob pena de haver submissão a um naturalismo forte, indutor ao mecanicismo, refutado por Habermas. Assim, entende-se que a incorporação de Peirce pela filosofia de Habermas, no que se refere à transcendentalidade, afastou-se daquela de Apel. Complementa-se que a forma de incorporação do falibilismo, a chamada dupla reserva falibilista de Habermas, a relação do condicionado e incondicionado, a visão de interpenetração indissolúvel de linguagem e realidade, como reavaliadas e assumidas por Habermas, são postulados que o deixam mais próximo de Peirce.

Habermas501, reparando e complementando Verdade e Justificação, inicialmente respondendo a avaliações sobre as suas posições sobre Peirce502, afirma que elas não podem ser julgadas somente pela maneira como ele se apropriou da concepção peirciana do conhecimento, de uma maneira deliberadamente seletiva e por um livro escrito há 35 anos (Conhecimento e Interesse). Habermas503 também menciona que falhou em distinguir o princípio do discurso, ou seja, a explicação dos requisitos de aceitabilidade racional das proposições em geral, do princípio moral, ao explicar o procedimento de universalização das normas de ação. Para Habermas, o conteúdo normativo do princípio do discurso se sobrepõe ao princípio moral, mas o significado do princípio moral é mais específico. Somente o

500HABERMAS. 2002. Op. Cit. p.227. Nas palavras de Habermas, ao falar da influência de Peirce, menciona de (from) ...progressivamente até (onwards up to).

501HABERMAS. 2002. Op. Cit. p.224.

502Idem Ensaio de Tom Rockmore, The epistemological promises of pragmatism.

503HABERMAS. 2002. Op. Cit. p.224. " I apparently failed in my attempt to distinguish a "discourse principle" - that is, to explain the requirements for the rational acceptability of propositions in general - from de "moral principle" explaining the procedure of "universalizing" norms of action. Certain confusion may be due to the fact that the normative content of discourse principle overlaps with that the moral principle, but the meaning of the latter is much more specific. Only the moral principle explains what it takes for supposedly all-inclusive norms of actions to meet post-conventional justifications requirements (while "inclusive" points to idealized range of addressees, unlimited in social space and historical time)".

princípio moral explica o que se tomar do todo abrangente suposto como normas de ação para se atender aos requisitos das justificações pós-convencionais (o todo abrangente aponta para uma faixa idealizada de endereçamentos, ilimitados no espaço social e no tempo histórico).

Em outras palavras, as proposições em geral, por princípio para o discurso, devem encapsular as chances de avaliação sobre a sua aceitabilidade racional, em suma possuir bem lógico para se dizer do equivalente ao falso ou verdadeiro, correto ou incorreto. No entanto, pragmaticamente, como a questão moral não se relaciona necessariamente a fatos e tem a sua justificação no próprio discurso, deve levar em conta os interesses envolvidos sob pena de perder a referência de mundo. Conforme Habermas:

E a justificação de um princípio moral como "neminem laedere" [não lesar ninguém] apelará a determinada concepção de justiça ou à universalidade dos interesses correspondentes e, portanto, mais uma vez, não essencialmente a fatos, mas a ponto de vista normativos ou a procedimentos de teor normativo504.

Convém lembrar que Peirce, ao revisar a máxima pragmática, amplia o conceito de objeto da primeira máxima, para conteúdo505 do símbolo na revisão, o qual indica ação, abrangida nas formas de realidade ou de real possível, interpretação que estreita a diferença entre proposições assertivas formuladas pelas formas de raciocínio no fluxo semiótico, conceitualmente de fundamento na aplicação do pressuposto pragmático, e a do presumido filtro da racionalidade comunicativa ao interagir com a racionalidade reflexiva, a instrumental e a estratégica.

5.2 A filosofia de Peirce como elemento do pensamento de Habermas

Habermas é um filósofo cujo pensamento dominante está na aplicação das chamadas ciências sociais ao desenvolvimento humano por meio do construtivismo moral em linha com o desejo de liberdade e emancipação. À vista de tal meta, a relação entre teoria e prática é preocupação vital na formulação de suas hipóteses, assim como a relação humana na esfera privada e pública. Nesse caminho, interrelacionam-se, sem estrita hierarquia, os elementos da esfera pública, da ética do discurso e da forma deliberativa da normatividade social, pelos quais se estabelecem as conexões de ser e dever ser, de bom e justo. O ponto inicial, ainda que também umbilicalmente conectado aos demais aspectos do mundo da vida, é a possibilidade de consenso ou entendimento mútuo, o qual, para Habermas, realiza-se pela mediação decorrente do uso da linguagem.

504HABERMAS. 2004. Op. Cit. p.182.

Para Habermas, no que diz respeito ao intento da emancipação humana, significações restritas à esfera individual, não desenvolvidas na cadeia de interpretação da alteridade, referem-se a um intramundo de tratamento linguístico específico. As questões filosóficas da racionalização da consciência apresentam, para Habermas, soluções que a liberam da aporia da filosofia da consciência ou do sujeito, na qual, excluída a experiência, só se pode criticar a razão a partir e pela própria razão. A solução procurada por Habermas busca, senão utopicamente, mas, como elemento diretivo, a reconstrução de uma intersubjetividade coativa dos indivíduos entre si, sem qualquer coerção a não ser a força do melhor argumento. Constituindo um pensamento próprio, ele defendeu, para esse caminho, uma teoria da ação comunicativa506, caminho no qual traz, como evolução da crítica de Peirce à filosofia da consciência, a filosofia de Mead, notadamente o fundamento da troca reversível de perspectivas entre os humanos, a teoria do "I and Me", como caminho da significação linguística rumo à ação, passando por uma análise dos atos de fala. Ao mesmo tempo em que introduz a alteridade como condição para a significação e, no caso específico das relações humanas, o pragmatismo de Mead, Habermas, definitivamente, sem negá-la, retira o "status" privilegiado que havia dado à Psicanálise.

Com efeito, embora Habermas considere que os diálogos terapêuticos possam se prestar à liberação dos indivíduos dos entraves intrapsíquicos no exercício dos atos de fala, a notável assimetria entre analisando e analista torna problemáticas as pretensões de veracidade das proposições conquistadas nesse diálogo. A capacidade para que proposições de veracidade de normas morais, expressas simbolicamente, sejam analisadas, requerem delas, ao menos para o exercício contrafáctico507, que se aproximem suficientemente de condições de uma situação ideal de fala508. Ao "retocar" os fundamentos básicos da sua filosofia, Habermas altera o mundo condicional, para a experiência possível do significado linguístico, de situação ideal de fala para "quase" ideal, o que melhor se coaduna com o falibilismo ontológico que se traduz na semiose, ao mesmo tempo em que se afasta do parâmetro do apriorismo da ideia regulativa para confirmação ou constituição assertiva do significado.

A formação e a associação de ideias e atos de fala, na forma trazida de Mead509 e adaptada por Habermas, têm fundamento original, ou pelo menos paralelismo, nas ideias

506HABERMAS. 2001. Op. Cit. p.7-63.

507Exercício teórico, porém suposto a fatos de um mesmo mundo objetivo. 508HABERMAS. 2001. Op. Cit. p.67-69.

509HABERMAS. 2002. Op. Cit. p.227. Habermas afirma: "A segunda influência, quase tão forte quanto a de Peirce, veio da teoria da interação social de Mead". No original: "The second influence, almost as strong as that of Peirce, came from Mead's theory of social interaction".