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1.4. HZ MUHAMMED’İN İSLÂM’A YÖNELİK SALDIRILARLA

1.4.14. Mekke’nin Fethi

Desenvolvo o conceito de mudança linguística aqui (Koch, p. 2008) a partir, mais uma vez, de coseriu (1979), que recupera uma distinção8 fundamental entre inovação e adoção/difusão. a inovação

corresponde ao ato individual de criação de um fato linguístico novo por um determinado falante e não basta, por si mesma, para cumprir a mudança; no entanto, é precedente necessário dela. a adoção de um fato linguístico inovador por outros falantes de uma comunidade linguística provoca a sua difusão naquela comunidade e, então, o que chamo de mudança linguística.

nesses processos de inovação, adoção e difusão, evidentemente, intervêm os diferentes níveis e domínios do linguístico (Quadro 2.2). a inovação individual ocorre, de acordo com Koch (2008, p.56), no nível atual do discurso, baseando-se, por um lado, em regras idio- máticas preexistentes, mas não imutáveis, como chama a atenção esse autor, e, por outro, em regras elocucionais que proporcionam ao falante tais procedimentos criativos. nessa direção, p. Koch oferece duas possibilidades de interpretar o modo como se desenvolvem os processos de adoção e difusão. Um primeiro cenário possível, segun- do ele, seria o que representa a intervenção do domínio da língua histórica, i.e., a inovação partiria do discurso atual e introduziria, na comunidade linguística, um fato novo, que, adotado em seguida pelos falantes, se difundiria em toda essa comunidade. Um segun- do cenário, mais realista, proporia a divisão da língua particular em variedades – e a comunidade linguística em subcomunidades. nessa perspectiva, p. Koch considera o modelo de Blank (1997, p.123),9

conforme esquematizado a seguir:

8 inicialmente introduzida em coseriu (1958, p.78-80 apud Koch, 2008, p.56) e apre- sentada genericamente no capítulo 1.

9 esse modelo tem sido elaborado para descrever mudanças semânticas, mas, segundo Koch (2008, p.57), é bastante pertinente generalizá-lo de forma que possibilite inte- grar todos os tipos de mudança linguística.

Figura 2.3 Desenvolvimento da mudança linguística entre Tradições Discursi- vas e variedades da língua histórica (Koch, p. 2008, p.57).10

10 o símbolo ⊘, localizado em vários pontos do esquema, significa que a inovação ou a nova regra podem desaparecer em qualquer etapa do processo de mudança.

0 INOVAÇÃO ad hoc no discurso I HABITUALIZAÇÃO no discurso de alguns A Nova REGRA compartilhada por alguns produtores de discursos B Nova REGRA idiomática dentro de uma variedade linguística A’ Nova REGRA discursiva dentro de uma Tradição Discursiva B’ Nova REGRA idiomática em (grande) parte da língua histórica II ADOÇÃO em uma variedade linguística I’ ADOÇÃO em uma Tradição Discursiva II’ EXTENSÃO em muitas/todas as variedades da língua histórica ⊘ ⊘ ⊘ ⊘ ⊘

para exemplificar o modelo proposto nesse esquema, p. Koch (2008, p.58) traz o exemplo de um caso de mudança linguística clássico:

(1) latim vulgar: pLicaRe “atracar” = “arribar” > espanhol: llegar (passar a estar em um lugar)

segundo uma explicação etimológica, os marinheiros diziam “plicare” para “atracar”. Visto que se atraca uma embarcação, nor- malmente, depois de “arribar”, produz-se um contexto prototípi- co para a transição metonímica ao significado “arribar = llegar ao porto” e, geralmente, a “passar a estar em um lugar”. essa inovação (= 0 na Figura 2.3) habitualiza-se, ou seja, adota-se e difunde-se em comunidades de marinheiros (ii: adoção em uma variedade linguísti - ca > B: nova regra idiomática). mais tarde, o sentido “passar a estar em um lugar” difunde-se por toda a comunidade espanhola (B’). esse itinerário da mudança é muito frequente, embora a passagem de B > B’ não seja necessária, já que a mudança pode bloquear-se dentro de uma variedade particular.

além desse panorama, o autor apresenta, também a partir da Figura 2.3, a existência de um itinerário alternativo da mudança lin- guística: a inovação no discurso (0) > habitualização em uma TD (i > a > i’ > a’), para só depois passar ao papel de nova regra idio- mática da língua histórica (ii’ > B’). nessa direção, as TDs assu- mem um papel decisivo na mudança linguística.

ainda com base na Figura 2.3, concluo, com o autor, que uma concepção diádica não é suficiente para explicar todos os tipos de mudanças linguísticas, uma vez que pode haver um nível interme- diário entre o discurso atual e a língua particular, configurando o que caracterizaria uma concepção triádica, precisamente porque o afeti-

vo, i.e., o retórico-pragmático, e o momentâneo não coincidem com-

pletamente. Dessa forma, numa concepção triádica, entre o discurso

atual (afetivo e momentâneo) e a língua particular (não afetiva e não

momentânea), perpassam as TDs (que representam o estágio do afe- tivo e não momentâneo):

CONCEPÇÃO DIÁDICA Guillaumista (Ly, 1981) CONCEPÇÃO TRIÁDICA discurso: o afetivo e o momentâneo discurso (0): o afetivo e o momentâneo tradição discursiva (A’) (B) o afetivo e o não momentâneo língua:

o não afetivo e o não momentâneo

língua (B’):

o não afetivo e o não momentâneo

Figura 2.4 Do “afetivo e momentâneo” ao “não afetivo e não momentâneo” cf. Figura 2.3 (adaptada de Koch, p. 2008, p.74).

a idiomatização, ou seja, a transição das regras discursivas a regras idiomáticas, é um processo lento e gradual, a que subjazem outros processos, tais como a universalização, a emancipação, a des- motivação pragmática e a sistematização. segundo p. Koch (2008, p.77), a interpretação adequada desses processos, envolvidos no processo mais amplo de idiomatização, depende da introdução do nível das TDs na teoria da linguagem e, consequentemente, na teo- ria da mudança linguística. assim, passo, na sequência, a abordar as possíveis relações entre TD e mudança linguística e, pontualmente, as relações entre TD e um tipo específico de mudança, a gR. 2.4 Tradição Discursiva e gramaticalização

Recentemente, alguns estudos, tal como este, têm contribuído para precisar os efeitos semântico-cognitivos implicados nos proces- sos de gR, rechaçando, a princípio, o conceito “simplista” – para usar as palavras de p. Koch (2008, p.78) – de bleaching, e, por esse caminho, esclarecer a relação entre gR e reanálise, e para corrigir a ideia de um único continuum compacto de gR (Detges, 1999, 2003; Detges; Waltereit, 2002 apud Koch, 2008, p.78).

para aproximar os paradigmas teóricos da gR e das TDs, a fim de alcançar os objetivos apontados anteriormente, Kabatek (2005c, p.28-29) destaca que os estudos de gR não necessitam, em primeira instância, de fatores externos, já que procuram explicar as mudanças gramaticais a partir de um ponto de vista puramente interno, ainda que dependente de fatores pragmáticos da comunicação como lu- gar em que os princípios cognitivos são convertidos em fatos de fala com a possibilidade de se tornarem, gradualmente, fatos de língua. a visão externa, embora supérflua, nesta concepção, entretanto, é necessária para explicar aspectos como o ritmo da mudança, fatores que dificultam canais de gR, podendo levar, inclusive, à inversão aparente das regularidades esperadas. por sua vez, o estudo das TDs por si é necessariamente externo, o que possibilita até mesmo pres- cindir da visão propriamente linguística (e interna), por exemplo, quando se focaliza a história de um gênero determinado apenas no que tange a seus aspectos puramente literários. apesar disso, pode- -se, a contento, relacionar as TDs com a abordagem interna da mu- dança linguística, o que, na opinião de Kabatek, “não só é possível, como promissor e frutífero” (2005c, p.29).

com o autor, afirmo que as TDs afetam ambas as perspectivas, interna e externa. afeta a visão interna, quando esta pretende re- construir uma diacronia única e linear, já que vai fazer referência direta à realidade de língua concreta, conforme concepção coseria- na, e não abstrata, conforme concepção saussuriana, em que se com- param “estados de língua” diferentes em momentos diferentes da história. assim, na mudança linguística, comparam-se informações extraídas de textos pertencentes a TDs distintas (gêneros, estilos ou outras tradições).11 ao mesmo tempo, as TDs afetam a visão exter-

na, por causa de uma de suas características principais: o fato de que não são elementos ligados a uma língua, mas a uma cultura, ou seja,

11 segundo Kabatek (2005c, p.31-32), a solução desse dilema da diversidade textual não reside na seleção de um único tipo de texto, ou TD, para a realização de estudos dia- crônicos – dada a influência de obras anteriores nas posteriores de mesmo gênero –, motivo pelo qual um estudo diacrônico baseado em um só tipo de texto poderia cair no perigo de descrever a história de um gênero ou TD e não a história de uma língua.

em um sentido mais amplo, a algo denominado como comunidade

textual (Kabatek, 2005c, p.31-32). assim, as fronteiras de uma TD

são mais amplas do que as de uma língua.

nessa perspectiva, ao adotar a concepção de TD assentada aqui, pelos trabalhos levantados, reconheço, ao mesmo tempo, a necessi- dade intrínseca de rever ambas as visões, no que tange à mudança linguística, ou seja, rever a forma de conceber o papel de fatores ex- ternos e internos nesse processo de “evolução”. a primeira revisão, ancorada na perspectiva interna e já apontada anteriormente, diz respeito ao monolitismo com o qual se pretende descrever e se têm descrito a história da língua, como se fosse uma espécie de linha reta, em sucessão linear, claramente definida ou definível. na realidade, é preciso considerar a existência de um complexo edifício de varieda- des e de textos em cada um dos momentos da história.

esse primeiro ajuste teórico traz consequências fundamentais à nossa concepção de diacronia, uma vez que, ao adotá-lo, não pode ser mantida uma visão de diacronia ideal. De acordo com Kabatek (2005a, 2005c), quando se estuda a história de uma língua, estudam- -se não as mudanças da língua, mas as da língua dos textos de di- ferentes épocas considerados representativos dos estados concretos dessa língua:

Figura 2.5 TD e história da língua (Kabatek, 2005a, p.163).

Dessa forma, a solução ao problema representado pela existência de diferentes TDs, capazes de influenciar na diacronia dos fatos lin- guísticos, é o estudo da história da língua a partir dessas diferenças, o que significa um estudo menos monolítico e que permitirá constatar: (i) em qual TD se criou uma inovação em relação aos aspectos focali- zados; (ii) como essa inovação se difunde através das TDs; (iii) onde há resistências aos processos de inovação/mudança etc.

T1 T2 T3 T4 T5 Tn

em consequência dessa primeira revisão, necessariamente, abro mão da concepção de gR, assim como de toda mudança linguística, como um processo linear, e passo a concebê-la como um comple- xo que esconde, debaixo do que em trabalhos com grandes corpora aparece como uma linha, textos em que a mudança pode estar mais avançada que em outros. o contato e a interferência tornam possí- vel, mas não necessária, como vimos na Figura 2.5, a generalização de uma inovação (Kabatek, 2005c, p.30-31).

nessa direção, ao adotar as TDs com o intuito de atingir a pri- meira revisão proposta, consequentemente, atinjo a segunda revisão, intrinsecamente relacionada à ligação entre TD e fatores externos. ou seja, ao admitir a relevância das TDs na perspectiva interna, ad- mito, naturalmente, a relevância dos fatores externos, de ordem cul- tural, que subjazem o próprio conceito de TD, e, assim, escapo da problemática visão da mudança linguística como processo que se dá a partir da manipulação de uma “mão invisível”,12 que, embora válida

como metáfora no âmbito de uma teoria da mudança focada no nível abstrato da língua, é totalmente inútil como explicação no âmbito da língua concreta. Dessa forma, uma teoria como a gR ganha argu- mentos relevantes para a explicação da mudança gramatical quando, ao acrescentar em sua agenda de investigação as TDs, altera, com isso, numa visão interna, o idealismo de uma diacronia linear e, numa visão externa, acrescenta dados referentes a distintas condições de produção dos textos que constituem essas TDs, associadas, intima- mente, com o contexto cultural em que se inserem, em nome de uma verdadeira abordagem da língua concreta em sua dimensão histórica.

portanto, o conceito de TD é indispensável para a compreensão adequada de graus e itinerários de habitualização na mudança lin- guística, incluindo a gR. p. Koch (2008, p.79-80) lembra, ainda,

12 essa teoria foi defendida por Helmut Lüdtke (1986) e, posteriormente, pelo germa- nista Rudi Keller, que explica, em trabalho bastante difundido, que gira ao redor da questão da consciência do falar a mudança linguística como um processo da “mão invisível”, no qual uma soma de atuações individuais leva a um resultado não inten- cionado pelos indivíduos, como se os falantes fossem guiados por uma mão invisível. (Kabatek, 2000, p.57).

que tal conceito auxilia na precisão da vigência de regras linguísticas implicadas na mudança, o que permite falar, em primeiro lugar, da pertinência do conceito para a microscopia do processo de mudança. em segundo lugar, o autor menciona o problema da elaboração lin- guística, enquanto aspecto central de toda a história de uma língua de cultura, compreendida em duas fases: (i) a extensiva, que consiste na apropriação, por parte de uma língua, de TDs de outras línguas pertinentes para a comunidade cultural respectiva; e (ii) a intensiva, que, por sua vez, consiste no desenvolvimento, nessa língua, de es- truturas e procedimentos linguísticos capazes de satisfazer os requi- sitos das TDs adotadas. nesse contexto – sobretudo no da elaboração

extensiva –, o conceito de TD é indispensável para a macroscopia das

mudanças que tomam lugar numa língua. por fim, em terceiro lu- gar, o autor menciona um aspecto metodológico, fundado no fato de que o estudo diacrônico de uma língua particular, baseado empirica- mente em textos, não deve se enganar com a ilusão de que os dados extraídos desses textos reflitam, de fato, regras idiomáticas da língua em questão, nem mesmo que os dados extraídos de textos sucessivos temporalmente reflitam diretamente uma mudança de regras idio- máticas, sem ter em conta os “filtros” não só das variedades linguís- ticas, mas também das TDs, que inevitavelmente intervêm em cada discurso individual (materializado em texto). essa consideração leva, portanto, a uma consequência importantíssima para a metodologia da linguística baseada em corpus. pressuponho, então, que as regras idiomáticas (B’ da Figura 2.3) não são diretamente acessíveis na lin- guística diacrônica baseada em corpora. Todas essas perspectivas jus- tificam a pertinência do emprego do conceito de TD, neste trabalho, como ferramenta não só teórica, mas também metodológica.