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2. TÜRK MÜLKİ İDARESİNDE HALKLA İLİŞKİLER

2.3. VALİ VE KAYMAKAMLARIN HALKLA İLİŞKİLERİ UYGULAMA

2.3.1. Tanıtma

2.3.1.1. Tanıtmada Kullanılan Araç ve Yöntemler

2.3.1.1.1. Medya İle İlişkiler

Na França de Napoleão III, explica Bosi161 (com base em Alexandre Gerschenkron), a maioria dos empresários que conseguiram exercer uma influência econômica duradoura eram socialistas simonianos. O utopista francês Saint-Simon, que tanto influenciou estes empresários, idealizou a sociedade do futuro como uma espécie de Nação-Estado corporativa, na qual os líderes da indústria assumiriam relevantes funções políticas. Conforme o autor, para estabelecer esse sistema, seria necessário instaurar uma economia planificada que regulamentasse o desenvolvimento nacional, de forma que “os

158

Cf. FIORI, José Luis da Costa. O vôo da Coruja: Para Reler o Desenvolvimento Brasileiro. Rio de Janeiro: Record, 2003.. e FERNANDES, Florestan. A Revolução Burguesa no Brasil: Ensaio de

Interpretação Sociológica. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987.

159

Cf. BRESSER PEREIRA, Luiz Carlos. Desenvolvimento e Crise no Brasil: História, Economia e Política

de Getulio Vargas a Lula, 5. ed. São Paulo: Ed. 34, 2003.

160

FERNANDES, Florestan. A Revolução Burguesa no Brasil: Ensaio de Interpretação Sociológica. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987.

161

BOSI, Alfredo. Dialética da Colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 274. (grifo do autor).

industriais e os seus financiadores seriam os missionários de um novo credo, pelo qual ‘as classes mais numerosas e sofredoras’ seriam incorporadas e protegidas pela sólida união de Indústria e Governo”162. Seria um regime próspero e distributivo na medida em que os lucros auferidos pela produção ao capital seriam “redimidos de qualquer mancha egoísta pela instituição de uma sociedade altruísta”162. Com este sistema, em que garantir-se-ia a recompensa pelo mérito dos fortes e a assistência benévola aos fracos, surgia o ideal reformista do chamado Estado-Providência: “um vasto e organizado aparelho público que ao mesmo tempo estimula a produção e corrige as desigualdades do mercado”162. Devido à forte influência deste pensamento simoniano, cujo discípulo mais célebre fora Augusto Comte, o capitalismo francês, nesta época, começava a se auto-regular mediante a aliança entre burguesia e Estado previsor e provedor, trilhando caminhos distintos ao do capitalismo inglês, no qual os impasses eram resolvidos por meio de pressões sistemáticas de trabalhadores organizados em torno de sindicatos laborais162.

Já na Alemanha, grifa o autor, os valores catalisadores do projeto capitalista não se inspiraram na tradição republicana consagrada pela Revolução Francesa, mas no nacionalismo163. Assim, Friedrich List converteu o discurso altruísta empresarial de Saint- Simon na linguagem de um poder público centralizador que praticaria um protecionismo oficial à indústria alemã no qual Otto von Bismarck seria uma espécie de paladino163: “Foi nessa Prússia entre moderna e autoritária que se adotou, pela primeira vez, o termo que conheceria uma longa fortuna: Estado de bem-estar, Wohlfahrstaat”163.

Embasado nos exemplos francês e alemão, Alexander Gerschenkron, segundo Bosi163, demonstra que o desenvolvimento das nações européias não foi um subproduto automático da Revolução Industrial, mas dependeu, fundamentalmente, da influência de distintos fatores ideológicos e, de modo geral, culturais.

No Brasil, foi com o advento dos eventos que envolveram a Revolução de 1930 que a questão social deixou de ser uma “questão preponderantemente ilegal e subversiva, tratada no interior dos aparelhos repressivos do Estado”, para passar “a ser um problema

162

BOSI, Alfredo. Dialética da Colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 274.

fundamental para equacionar a situação do crescimento e desenvolvimento econômico e da estabilidade política, absorvendo, portanto a atenção de todo o aparelho Estatal”164.

Segundo André Corrêa164, Pontes de Miranda, já em 1928,

(...) compartilhava da opinião conforme a qual caberia ao aparato estatal estabelecer as bases para o avanço social; entendia que ‘apriorismo da Revolução francesa, positivismo de August Comte, plutocratismo liberalista, grandes haveres fundiários de associações, tudo isso concorre para o entrave da evolução econômica do país e, principalmente, do Estado’.

Já, para Oliveira Viana, apud André Corrêa165, “coube à Revolução de 30 o mérito ‘de elevar a questão social à dignidade de um problema fundamental do Estado e dar-lhe um conjunto de leis, em cujos preceitos domina, com um profundo senso de justiça social, um alto espírito de harmonia e colaboração’”.

Citando Getúlio Vargas166, André Corrêa167 ressalta que se entendia à época que era ao Estado que competia organizar o domínio econômico, a ser realizado “mediante inteligente, ponderada e sistemática coordenação para conciliar e garantir os seus mútuos interesses”, sem descuidar “do fato de que a vida econômica tem seu fundamento na solidariedade e a democracia deve associar o regime da liberdade com o da responsabilidade”.

Com a determinação política de uma alteração do papel a ser desempenhado pelo Estado brasileiro (passando este a ser responsável pela promoção do desenvolvimento industrial nacional e pelo arbitramento dos conflitos de interesses em torno da definição do valor do dinheiro e do Direito), por ser eminentemente político os poderes constituintes e fundamentalmente política as Constituições, mostrou-se indispensável atentar a aspectos de política econômica que retratassem tal alteração durante a elaboração de um texto constitucional pós-revolucionário. No ato de instalação da Assembléia Constituinte de 1933-1934, Getúlio Vargas, em oposição às “campanhas civilistas de Rui e a reação

164

CORRÊA, André Rodrigues. Solidariedade e Responsabilidade: O tratamento jurídico dos efeitos da

criminalidade violenta no transporte público de pessoas no Brasil. São Paulo: Saraiva, 2009. p. 274.

165

Ibidem. p. 274-275.

166

Influenciado, quiçá, pelo positivismo comtiano que inspirou a Constituição do Rio Grande do Sul de 14/07/1891, redigida inteiramente por Júlio de Castilhos [BOSI, Alfredo. Dialética da Colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 273-307].

167

CORRÊA, André Rodrigues. Solidariedade e Responsabilidade: O tratamento jurídico dos efeitos da

republicana de Nilo”168,destacou as funções às quais o Estado deve se propor ao pronunciar: “O Estado, qualquer que seja o seu conceito, segundo as teorias, nada mais é, na realidade, do que o coordenador e disciplinador dos interesses coletivos, a sociedade organizada como poder, para dirigir e assegurar o seu progresso. Toda estrutura constitucional implica, por isso, a estrutura das funções do Estado”169.

A Constituição Federal de 1934, elaborada com o intuito de “organizar um regime democrático, que assegure à Nação a unidade, a liberdade, a justiça e o bem-estar social e econômico" (segundo determina seu preâmbulo), ao lado de outras Constituições Nacionais elaboradas após o final da Primeira Guerra Mundial consideradas parte de um novo constitucionalismo social170 (como a Constituição de Weimar de 1919), dedicou espaço específico à normatização da matéria econômica e social no Título IV – “Da Ordem Econômica e Social” (artigos 115 a 143171), consagrando, além dos tradicionais direitos individuais, os denominados direitos sociais ou direitos de prestação172. Nesse sentido, de acordo com André Corrêa173, foi em virtude da influência da Constituição alemã acima aludida “que a Constituição de 1934 recolherá em sua estrutura dispositivos que contemplarão aquilo que os autores denominavam à época de ‘sentido social do direito’ ainda que inclinando-se mais a um corporativismo centralizador do que a um liberalismo reformador”.

A diferença essencial que surge a partir deste constitucionalismo social não se restringe, obviamente, a uma distinção de caráter formal, resultante de uma estruturação mais ou menos sistemática de um capítulo ou título destinado exclusivamente à regulamentação da ordem econômica. Ela está no fato de que essas Constituições não

168

SILVA, Helio. Vargas: Uma biografia Política. Porto Alegre: L&PM, 2004. p. 116.

169

A Nova Política do Brasil, vol. II, p. 30-31. Apud SILVA, Helio. Vargas: Uma biografia Política. Porto Alegre: L&PM, 2004. p. 116.

170

BERCOVICI, Gilberto. Constituição Econômica e Desenvolvimento: Uma Leitura a Partir da

Constituição de 1988. São Paulo: Malheiros, 2005. p. 9.

171

Todas as Constituições brasileiras posteriores, conforme grifa Bercovici, passaram a incluir um capítulo sobre a Ordem Econômica e Social, em que se tratava da intervenção do Estado na ordem econômica e dos direitos trabalhistas (arts. 120 a 123). A única Constituição a romper esta sistemática foi a de 1988, ao incluir os direitos dos trabalhadores em capítulo diverso. Direitos estes que, “no fundo, foram o principal enfoque das inovações da Constituição de 1934, que buscou solucionar a chamada ‘Questão Social’” e, com isso, angariando o necessário apoio político dos trabalhadores [BERCOVICI, Gilberto. Constituição Econômica e

Desenvolvimento: Uma Leitura a Partir da Constituição de 1988. São Paulo: Malheiros, 2005. p. 22].

172

BERCOVICI, Gilberto. Constituição Econômica e Desenvolvimento: Uma Leitura a Partir da

Constituição de 1988. São Paulo: Malheiros, 2005. p. 32.

173

CORRÊA, André Rodrigues. Solidariedade e Responsabilidade: O tratamento jurídico dos efeitos da

buscam mais perpetuar a estrutura econômica vigente, mas pretendem alterá-la, e, por isso, positivam uma série de tarefas e políticas a serem implementadas pelo Estado no domínio econômico e social com o intuito de obtenção de determinados fins. Estas constituições, cujas ordens econômicas (normativas) são chamadas de programáticas ou dirigentes174, surgem quando a estrutura econômica da sociedade se revela problemática, quando cai a crença no mito da auto-regulação dos mercados e de sua pretensa harmonia natural175. Nesse contexto, a Constituição dirigente, ao “fornecer linhas de atuação para a política, sem substituí-la, destaca a interdependência entre Estado e sociedade”176-177.

O artigo que inaugura as disposições acerca da regulamentação da política econômica na Constituição de 1934 destaca o caráter nacionalista e intervencionista do Estado ao restringir a liberdade econômica aos princípios da justiça e às necessidades da

174

As normas programáticas, conforme definição de Jorge Miranda, “são de aplicação diferida, e não de aplicação ou execução imediata; mais do que comandos-regras, explicitam comandos-valores; conferem

elasticidade ao ordenamento constitucional; têm como destinatário primacial – embora não único – o

legislador, a cuja opção fica a ponderação do tempo e dos meios em que vêm a ser revestidas de plena eficácia (e nisso consiste a discricionariedade); não consentem que os cidadãos ou quaisquer cidadãos as invoquem já (ou imediatamente apos a entrada em vigor da Constituição), pedindo aos tribunais o seu cumprimento só por si, pelo que pode haver quem afirme que os direitos que delas constam, máxime os direitos sociais, têm mais natureza de expectativas que de verdadeiros direitos subjetivos; aparecem, muitas vezes, acompanhadas de conceitos indeterminados ou parcialmente indeterminados”[MIRANDA, Jorge. Manual de Direito Constitucional. 4 ed. Coimbra: Coimbra Editora, 1990. p. 218, t. 1. Apud MORAES, Alexandre de. Direito

Constitucional. 13. ed. São Paulo: Atlas, 2003. p. 43]. Sobre o tema da eficácia jurídica dessas normas,

Bercovici afirma que esta não é “incompatível com o fato de que, por seu conteúdo, a realização destes preceitos tenha caráter progressivo e dinâmico e, de certo modo, sempre inacabado. Sua materialização não significa a imediata exigência de prestação estatal concreta, mas uma atitude positiva, constante e diligente do Estado” [BERCOVICI, Gilberto. Constituição Econômica e Desenvolvimento: Uma Leitura a Partir da

Constituição de 1988. São Paulo: Malheiros, 2005. p. 37].

175

BERCOVICI, Gilberto. Constituição Econômica e Desenvolvimento: Uma Leitura a Partir da

Constituição de 1988. São Paulo: Malheiros, 2005. p. 33.

176 Ididem. p. 35. 177

Nesse mesmo sentido, conforme Eros Grau, opera-se, com a Constituição de 1934, uma transformação na forma em que a Constituição brasileira regula a ordem econômica (mundo do ser). Isto porque as Constituições liberais anteriores à de 1934 não necessitavam “dispor, explicitamente, normas que compusessem uma ordem econômica constitucional”. Uma vez que a ordem econômica existente não merecia reparos, bastava que o texto constitucional garantisse a propriedade privada e a liberdade contratual, “ao quanto, não obstante, acrescentava-se umas poucas outras disposições veiculadas no nível infraconstitucional, confirmadoras do capitalismo concorrencial, para que se tivesse composta a normatividade da ordem

econômica liberal”. Destarte, com o advento do “constitucionalismo social”, “as precedentes ordens

econômicas (mundo do dever-ser) passam a instrumentar a implantação de políticas públicas”, ou seja, “a predicar o aprimoramento da ordem econômica (mundo do ser), visando à sua preservação” [GRAU, Eros Roberto. A Ordem Econômica na Constituição de 1988: Interpretação e Crítica. São Paulo: Malheiros, 2005. p. 72].

vida nacional nos seguintes termos: “A ordem econômica178 deve ser organizada conforme os princípios da Justiça e as necessidades da vida nacional, de modo que possibilite a todos existência digna. Dentro desses limites, é garantida a liberdade econômica”. Comentando este dispositivo constitucional, Pontes de Miranda179:

O liberalismo apriorístico levou a resultados deploráveis: o Estado-setor, indiferente, que deixa cavar-se o abismo entre explorados e exploradores, formar-se o espírito de terrenidade, de mundanidade, ligado às coisas da terra e do mundo material (Geist der Irdischkeitund Weltlichkeit, disse Werner Sombart), de predomínio material, a racionalização do modo de viver no mundo (Max Werber), o exaspero individual do lucro, o crescimento do “exército industrial de reserva”, previsto por Karl Marx. Ao mercantilismo seguiu-se, na doutrina econômica, o liberalismo econômico de Adam Smith: as rédeas saem da mão do Estado para as dos indivíduos. (...) Mas vimos que o liberalismo extrapola os princípios da liberdade. O homem precisa das liberdades, de um mínimo, e conquistou aquelas que a vida em comum lhe permitia e lhe permite. Não são todas as liberdades. O liberalismo econômico consistiu exatamente em levar a setores a que não devia os princípios da liberdade. (...) Temos, pois, a primeira conclusão: as liberdades fundamentais precisam ser mantidas. O Estado contemporâneo tem de consagrá-las. (...) Só a socialização progressiva pode salvá-las. (...) Porque a chamada liberdade econômica desprotege ao mesmo tempo que protege: engendra os cerceadores do comércio livre e do livre acesso às riquezas, pelo truste, pelo cartel e pelos outros meios de atuação espoliadora. Somente pela socialização das sobras individuais é que a liberdade pode subsistir.

Os princípios da justiça a que alude o artigo acima transcrito, conforme Pontes de Miranda, referem-se aos princípios da justiça distributiva, por considerar que é esta, e não a produção capitalista, que dá o índice da felicidade material (ou, em outros termos, que promove o desenvolvimento)180. Nos ensinamentos de José Afonso da Silva181, um regime pautado no princípio da justiça (ou, como preferiram as Constituições brasileiras seguintes – com exceção da de 1937 –, da justiça social) “será aquele em que cada um deve poder dispor dos meios materiais para viver confortavelmente segundo as exigências de sua natureza física, espiritual e política”. Assim, por força desta determinação, a Constituição de 1934 somente garante a liberdade econômica aos particulares até onde esta não restrinja

178

É de se notar que, aqui (assim como nas Constituições de 1946 art. 145, 1967 art. 157, 1969 art. 160 e 1988 art. 170), o termo ordem econômica é empregado para denotar o modo de ser empírico da economia brasileira; como um conceito de fato (do mundo do ser) e não normativo ou de valor.

179

MIRANDA Francisco Cavalcanti Pontes de. Comentários à Constituição de 1946. v. IV. São Paulo: Max Limonad, 1953. (grifos do autor).

180

Ibidem. p. 10-11.

181

SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. 31. ed. São Paulo: Malheiros, 2008. p. 789.

os princípios da justiça (social ou distributiva) e o interesse nacional. Apesar desta inovadora proteção da ordem social, ligada ao bem comum, e da ordem nacional, Pontes de Miranda critica a vagueza deste mandamento constitucional, que deixa de estabelecer com precisão os fins a serem buscados pelo Estado brasileiro182. Nesse sentido, André Corrêa183 aponta ao indício de ter padecido a Constituição de 1934 do mesmo mal que afetou a Constituição de Weimar, posto que “sendo resultado de frágil ‘compromisso e dissensão’ entre a estrutura de poder do Estado, amparada por setores emergentes que buscavam impor seu modelo de modernização e antiga estrutura de poder regional e oligárquica, surgiu como um estatuto híbrido e ambíguo” incapaz de resistir à confluência e ao recrudescimento de segmentos ideologicamente distintos.

Com a instituição do regime autoritário do Estado Novo184 presidido por Getúlio Vargas, o caráter intervencionista e nacionalista do Estado foi exacerbado. É o que podemos depreender da redação do artigo 135 da outorgada Constituição Federal de 1937, que ressalta a importância da intervenção do Estado no domínio econômico para garantir os interesses da Nação, não mais tratando do princípio da justiça como vetor da intervenção estatal.

Art 135 - Na iniciativa individual, no poder de criação, de organização e de invenção do indivíduo, exercido nos limites dobem público, funda-se a riqueza e a prosperidade nacional. A intervenção do Estado no domínio econômico só se legitima para suprir as deficiências da iniciativa individual e coordenar os fatores da produção, de maneira a evitar ou resolver os seus conflitos e introduzir no jogo das competições individuais

182

MIRANDA Francisco Cavalcanti Pontes de. Comentários à Constituição de 1946. v. IV. São Paulo: Max Limonad, 1953. p. 13.

183

CORRÊA, André Rodrigues. Solidariedade e Responsabilidade: O tratamento jurídico dos efeitos da

criminalidade violenta no transporte público de pessoas no Brasil. São Paulo: Saraiva, 2009. p. 280-281.

184

Cabe ressaltar que o Estado Novo não foi um Estado fascista ou corporativista, embora o fascismo houvesse influenciado a Constituição de 1937 e o governo houvesse posto em práticas medidas corporativistas. Nesse sentido: “Certamente que a inspiração e as intenções explícitas da Carta ‘polaca’ de 1937, acaso concretizadas, resultariam por hipótese, num Estado totalitário, no limite fascista mesmo, corporativo até. Mas o Estado Novo não foi uma República Corporativa, o que não nos impede de constatar que ele ativou práticas corporativistas que hão de permanecer, até a atualidade, no nosso imaginário e em algumas de nossas instituições. Também não foi um Estado fascista, visto que, por exemplo, rejeitou compromisso político com um movimento genuinamente fascista, como o Integralismo, o que não nos impede de constatar que muitos de seus princípios estavam assentes nas ações governamentais. Sabemos que a efetivação integral da Carta ‘polaca’ sempre foi postergada pelo Chefe da Nação e do Estado, o qual, na verdade, governou apoiado na ‘legalidade ilegítima’ de alguns artigos, particularmente o de numero 180, das Disposições Transitórias” [SILVA, José Luiz Werneck da. O Feixe do Autoritarismo e o Prisma do Estado

Novo. In. O Feixe e o Prisma: Uma Revisão do Estado Novo, vol. 1, p. 24. Apud BERCOVICI, Gilberto. Constituição Econômica e Desenvolvimento: Uma Leitura a Partir da Constituição de 1988. São Paulo:

o pensamento dos interesses da Nação, representados pelo Estado. A intervenção no domínio econômico poderá ser mediata e imediata, revestindo a forma do controle, do estimulo ou da gestão direta. (grifos nossos).

Ao lado do necessário reajuste constitucional dos pactos políticos que consubstanciam as funções e objetivos do Estado nacional, uma das áreas mais atingidas pelas transformações na relação entre o Estado e o domínio econômico acarretadas com o Movimento de 1930 foi, justamente, o regime jurídico sobre os contratos, posto que estes instrumentos desempenham fundamental papel na forma de alocação de poder e riqueza (produção e distribuição) em uma sociedade, na medida em que regulam as transações econômicas e estruturam as instituições de mercado. Assim, a transição do Direito liberal ao Direito social operada pelas Constituições promulgadas após a Primeira Guerra Mundial, para o Direito contratual, representou (a) a incorporação de critérios de justiça contratual; (b) a metamorfose de formal à material do significado do princípio da igualdade; assim como (c) a introdução do conceito de segurança na conformação da responsabilidade civil.

Conforme anota Ronaldo Porto Macedo Júnior185, a ideologia liberal (nascida no século XVIII e que atingiu seu ápice no século XIX) rechaçava a concepção de que o mercado constitui uma ordem de poder e riqueza. Concebia-o, assim, como o locus a ser gerado, tão-somente, a partir de escolhas individuais e voluntárias, não devendo o Direito impor qualquer resultado distributivo em particular185. A partir das doutrinas fisiocratas do século XVIII, portanto, emerge uma concepção naturalista de mercado que o compreende como “o locus da liberdade e da espontaneidade, que ‘mãos invisíveis’ orientam na direção do bem comum”186. Empregando a formulação dicotômica preferida por Judith Martins- Costa, a ordem econômica, embora “ordem”, era entendida como cosmos, e não taxis, por resultar “da regularidade do comportamento dos elementos que compreende e não [ter], justo porque é espontânea, um fim que a polarize. Não seria portanto taxis, já que esta indica a ordem resultante de ação exógena ou imposta e, nesta medida, o produto de um desenho, de uma vontade capaz de escolher fins”187.

185

MACEDO JÚNIOR, Ronaldo Porto. Contratos Relacionais e Defesa do Consumidor. 2. ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2007. p. 48.

186

MARTINS-COSTA, Judith. Mercado e Solidariedade Social entre Cosmos e Taxis: A Boa-Fé nas Relações de Consumo. In. MARTINS-COSTA, Judith (org.). A Reconstrução do Direito Privado: Reflexos dos Princípios, Diretrizes e Direito Fundamentais Constitucionais do Direito Privado. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2002. p. 611-661. p. 614.

187

Como consequência necessária desta concepção naturalista de mercado, o Direito é utilizado como instrumento fixador das regras do jogo econômico-social e garantidor das escolhas individuais, delegando-se ao Estado a produção dessas garantias e a concessão dos meios que possibilitariam aos particulares a definição dos fins e o alcance de escopos autonomamente estabelecidos188. Destarte, não competia ao Estado a condução da sociedade à realização de fins comuns, mas a propiciar, tão-somente, “sob a égide de leis gerais, constantes e uniformes, condições de segurança – física e jurídica – à vida