• Sonuç bulunamadı

1.4. Hazır Giyim Sektöründe Rekabetin Dayanak Noktaları

1.4.5. Marka ve Markalaşma

A nova visão que Lobato elabora da população rural, a partir do final da década de 1910, vai somar-se às suas teorias sobre a econômica e a política nacional e à valorização de outro componente constitutivo da população de São Paulo: o imigrante europeu. Discutindo, no livro Mr. Slang e o Brasil (1927), a necessidade de

estabilização da moeda nacional, já durante a década de 1920, Lobato aponta quais seriam os benefícios dessa ação (1959: 32):

[Um imigrante europeu questiona]- “E a gente do Brasil vive sob um

regime desses? Não arrebentam todos?”

[Mr. Slang responde] - “A vida la se resume a fazer ginastica, em dar pinotes para adaptar-se ao cambio do dia O brasileiro distrai-se com isso e esquece-se de enriquecer”. (...)

[Fala o interlocutor brasileiro] - Realmente! Está aí um aspecto da questão que nunca me ocorreu. Quer dizer que no dia que tivermos moeda estável o afluxo de braços será enorme.

[Responde Mr. Slang] - Colossal! O Brasil inteiro se transformará num estado de São Paulo, que se é o que é deve-o sobretudo a um pouco de braço e cérebro europeu que para lá se encaminhou [sic]..

Nessa passagem, está demonstrada a visão de Lobato sobre São Paulo em relação ao Brasil. São Paulo é um símbolo que deve ser seguido pelas outras regiões do país. O estágio de progresso atingido por São Paulo é o ponto que Lobato prevê para as demais regiões brasileiras a partir de um processo de estabilização monetária que possibilitaria um maior afluxo de braços estrangeiros para o país, contribuindo para seu desenvolvimento, assim como ocorrera com o estado paulista.

Em relação ao povo é ressaltada a importância do estrangeiro na composição da população, contribuindo com o desenvolvimento econômico através de sua força de trabalho e de seu senso de realidade e consciência (LOBATO, 1959: 33). Nessa perspectiva, a ideia de povo paulista estaria para Lobato no “entre caminho” de um símbolo ideal a um ponto de negação. De um lado, há a idealização do europeu – representado pelo trabalhador imigrante – e, posteriormente, também tendo os Estados Unidos como parâmetro de modernidade. Do outro lado, encontra-se o símbolo negativo do homem brasileiro de outras regiões do país que, assim como o caipira paulista, precisava ser salvo de suas mazelas através da assistência do Estado.

Segundo Lobato, com a estabilização da moeda, “o Brasil inteiro se transformará num estado de São Paulo, que se é o que é deve-o sobretudo a um pouco de braço e cérebro europeu que para lá se encaminhou” (LOBATO, 1959: 32). Nessa passagem, está demonstrado um ponto característico da visão do autor sobre a relação

de São Paulo com o Brasil. Também tem a visão sobre o povo, ressaltando a importância do estrangeiro na composição da população. Nessa perspectiva, a ideia de povo paulista estava para Lobato em uma comparação com o símbolo ideal do europeu e o símbolo negativo do homem rural de outras regiões do Brasil, mas também do interior paulista. Assim, a Paulistanidade de Lobato está no meio do caminho entre esses dois pólos. Lobato não vê seu povo paulista ideal como algo pronto, mas algo a ser construído através da adaptação de características dos estrangeiros, que se fixaram no estado de São Paulo, e da adequação da população rural. Sua ideia de povo estava no meio do caminho entre o imigrante europeu e o caipira paulista.

Sua Paulistanidade também se revela no apontamento dos indícios de modernidade já presente em São Paulo. O estado paulista é “o galho mais vigoroso da arvore doente chamada Brasil” (LOBATO, 1959: 33). Na “realidade brasileira”, onde imperam o atraso e a improdutividade, o estado paulista é o modelo a ser seguido pelos demais estados do país. Mas São Paulo e o Brasil também estão relacionados a uma esfera internacional. Mr. Slang esteve na Índia, na Nova Zelândia, nas Ilhas Salomão, em Hawaí, em Sorawok e outras “inconcebíveis terras de gente cor de pinhão”. Por fim, veio parar no Brasil (LOBATO, 1959: 05). Para o inglês, a característica do pitoresco unia todos esses lugares. Eles eram diferentes da Inglaterra, tomada como parâmetro de modernidade.

Nesse sentido, podemos identificar que Monteiro Lobato estabelece uma escala em sua geografia da modernidade. No ponto mais alto, estão a Inglaterra e os Estados Unidos e, em menor escala, a Argentina. Esses países são tomados como símbolos do arrojo econômico, das mais avançadas ações políticas, o berço das grandes ideias, onde o trabalho é valorizado. No texto Resignação, publicado no livro Opiniões, Lobato demonstra sua visão sobre a condição do Brasil em relação a esses países (LOBATO, 1959: 180):

E assim vamos vivendo, vergonhosamente entalados entre dois países cada vez mais prósperos e poderosos: Estados Unidos e Argentina, este dez vezes, aquele cem vezes mais rico do que nós. E os nossos estadistas continuam a ser grandes estadistas - enquanto transportam no lombo as relíquias da fabula [sic].

Apontando as falhas dos governos e a resignação da população, os temas centrais desse texto, encontramos os elementos que definem o lugar do Brasil nessa geografia da modernidade. O Brasil encontra-se na extremidade oposta aos Estados Unidos, Inglaterra e Argentina, estando ladeado por países como a China, o Senegal e o Havaí. Nesses lugares, impera o despreparo e o descompromisso com o trabalho, as ações retrógradas na administração, a mentalidade em descompasso com os ideais da modernidade e do progresso.

Mas no meio do caminho entre essas duas extremidades, encontra-se o estado de São Paulo. Diferenciando-se dos outros estados do Brasil devido às suas origens ancestrais, ao comprometimento da população com o trabalho, à moralidade de seus governantes à mentalidade de seu povo e de suas elites mais comprometida com os ideais de modernidade, é fundamental ressaltar que essa diferença esteve associada à influência estrangeira. São Paulo é o mais próximo que o Brasil chega do ideal de modernidade presente nesses outros países, por isso o estado paulista tem o dever de guiar o país no processo de modernização e progresso.

Após essa passagem pela obra de Lobato, podemos apontar o quanto esse autor é um mutante, ele passa da admiração européia à norte-americana e, num pulo, à admiração paulista. Em cada um desses casos, seja lá qual for o qualificativo político concedido ao autor, ele não pode deixar de ser reconhecido como um astuto observador social. Talvez, por isso mesmo, Lobato não tenha tido nenhum temor em ser polêmico ou em ser pego em suas próprias armadilhas. Lobato, aos poucos, compreende que as singularidades de “um povo” o levavam ao “moderno” – e não o contrário. Dessa conclusão, como outros já sugeriram (SOARES, 2007), pode ser depreendido o apego de Lobato à literatura infantil: cansado de “falar” aos adultos – às vezes, “paus tortos, sem conserto” – Lobato resolveu “atiçar as crianças” – elas poderiam ser “moderninhas”. Com uma pedagogia peculiar, continuou defendendo o alcance de uma modernidade que representasse nosso país. Embora essa seja outra história, ela não é avessa à obra adulta lobatiana. Nesse sentido, as pistas encontradas nos textos de Lobato nos levam a afirmar que captar o moderno na obra de Lobato nos interessa muito mais do que apenas “classificá-la como moderna”.

Seguindo esses ideais de modernidade e progresso, a importância dada à noção de trabalho estabelece a ligação mais forte entre a obra lobatiana e a ideologia da

Paulistanidade. Retomando esse percurso, concluímos como o pensamento lobatiano se

relaciona a essa ideologia através da valorização de São Paulo, de sua pujança econômica, de sua característica como um lugar de trabalho que estabelece as inúmeras diferenças entre o estado paulista e as demais regiões do país. A Paulistanidade de Monteiro Lobato pode então ser identificada na valorização do fator econômico ligado ao trabalho produtivo que concedem a São Paulo a condição de guiar e inspirar o Brasil a trilhar o caminho da modernidade e do progresso. Todavia, que não se esqueça que a

Paulistanidade a la Lobato apontava sempre para o “meio do caminho”. Como era

característica desse autor, a diferença lhe aprazia mais do que a imitação pura e simples, ausente de criatividade.