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I. BÖLÜM

2.5. Mali Sosyoloji

Quando a TV Tupi foi ao ar pela primeira vez, em 18 de setembro de 1950, não havia quem a assistisse. Não pela falta de curiosidade, evidentemente. Ocorre que os aparelhos não eram fabricados no Brasil e sua importação era caríssima: não havia espectadores para o meio que o empresário Assis Chateaubriand importava dos Estados Unidos. A julgar pelo panorama, a empreitada de Chatô parecia fadada ao fracasso. Era um investimento altíssimo, sem consumidores para reverter os gastos. Ainda assim, o empresário apostou no novo suporte. E, na falta de aparelhos para que as pessoas pudessem assistir à televisão, mandou trazer 200 televisores e os espalhou por pontos estratégicos da cidade de São Paulo, para que a população acompanhasse coletivamente a novidade. Por muitos anos, os programas televisivos continuaram sendo vistos coletivamente, na casa de vizinhos ou parentes que conseguiam comprar um aparelho.

Essa é a história da TV no Brasil. Uma história que tem suas particularidades e não serve de regra para nenhum outro meio de comunicação. Mas é difícil não estabelecer paralelos com os livros digitais e lembrar que os televisores, que não figuravam em lar nenhum quando a TV por aqui chegou, atualmente estão em pelo menos 96,9% dos lares brasileiros, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada no segundo semestre de 2012 – superando, depois de décadas, a presença de aparelhos de rádio nas residências que, no censo de 2000, ainda era majoritária.

Se um novo meio de comunicação se faz por uma nova tecnologia, é preciso que se pense nos dois, produto literário e suporte, quando se avalia o mercado dos livros eletrônicos e são pinceladas tendências. Assim, não basta apenas analisar os dados de consumo de obras literárias, mas ampliar a pesquisa para o meio que permite que ele seja executado: o tablet – muito embora a utilização do equipamento não implique, necessariamente, na leitura de livros, tendo em vista a grande gama de aplicativos possíveis.

Evidentemente, adquirir um tablet não significa se tornar um leitor de livros digitais – como a existência do papel não produz leitores de livros impressos por si só. Contudo, a proliferação do dispositivo no mercado aumenta as chances de leitura, assim como a prensa de Gutenberg permitiu que mais livros estivessem disponíveis para a população e a leitura pudesse se popularizar entre todas as camadas sociais ao longo dos séculos. E, ao analisar o crescimento e popularização do tablet de 2010 a 2013, é de se acreditar que a leitura de livros digitais também aumente.

13.1.1 Os aparelhos se multiplicam

De acordo com levantamento da consultoria IDC Brasil, o País comercializou 3,1 milhões de tablets em 2012, o que representa um crescimento de 171% em relação ao ano anterior, quando foram vendidos 1,1 milhão de aparelhos. Os analistas de mercado da IDC explicaram que o barateamento dos aparelhos (metade das compras foi de tablets que custaram até R$ 500), especialmente de outros sistemas operacionais que não os da Apple, foi fator principal para o aumento das vendas. Desses, 88% foram adquiridos para uso doméstico, clientela que cresceu 159% de um ano para o outro. A demanda fez com que, no Brasil, fosse vendido um tablet para cada cinco computadores no Brasil naquele ano – quando, em 2011, a

relação era de um 1 para 14. Nos Estados Unidos, diz a consultoria, os mercados já estão equivalentes, de um para um.

A IDC Brasil tinha estimado para 2013 uma comercialização total de 5,8 milhões de tablets no país. Mas os números foram ainda melhores, segundo dados da empresa em fevereiro de 2014: foram vendidos 7,9 milhões desses equipamentos, ou 119% de crescimento com relação a 2012. As novas projeções mostram que, em 2014, o mercado brasileiro comercializará 10,7 milhões de tablets contra 8,4 milhões de notebooks.

No mundo, as vendas também vão bem. Pesquisa feita pela empresa de consultoria Forrester Research, em abril de 2012, apontava que a curva de crescimento dos dispositivos móveis é tão acentuada que, em 2016, seus analistas preveem que o número de tablets será maior do que o de computadores no mundo. Esse estudo mostrava uma expectativa de venda de 375 milhões de dispositivos em quatro anos. Somando com os já existentes, seremos 760 milhões de usuários. Embora seja apenas uma previsão, eles acreditam que dificilmente esse cenário não se concretizará, tendo em vista que os tablets estão assumindo, inclusive, funções semelhantes a dos computadores.

Em reportagem publicada no site Techtudo, hospedado no portal Globo, Frank Gillete, um dos responsáveis pelo levantamento da Forrester, contou que “nos próximos anos, os tablets ainda ganharão novos sensores, poder de processamento, melhores conectividades... Isso vai permitir o controle por voz total, controle por gestos melhor, mais acessórios e softwares que antecipam as necessidades dos usuários”104.

Os números mostram que esta não pode ser considerada uma moda passageira. É um mercado em ascensão, impulsionado por um grande desejo de consumo. Levantamento realizado com 1,3 mil mães do Brasil, Venezuela, Colômbia e Uruguai pela OH! Panel, a pedido do Mercado Livre, mostra que os tablets eram os presentes que elas mais desejavam ganhar no Dia das Mães em 2013 – é o segundo ano consecutivo em que elas mais querem o

gadget. O aparelho foi o mais citado por 25% das mães – e, no Brasil, elas foram 40%.

O Grupo Abril também realizou pesquisas de desejo de consumo no Brasil (Pesquisa e Intel. de Mercado Abril: Posse de tablets entre internautas 2012) e chegou ao resultado de que 33% pretendiam adquirir um tablet nos próximos seis meses – foi mais citado que televisor (27%), smartphone (26%) e notebook (24%).

Por que do desejo? As razões podem ser inúmeras e dependem de usuário para usuário, mas fato é que há uma crença de que os tablets e smartphones melhoram a qualidade                                                                                                                

de vida. Essa percepção foi constatada em pesquisa da plataforma Conecta, do grupo Ibope, em parceria com a Worldwide Independent Network of Market Research (WIN), divulgada em abril de 2013 e feita com 54.121 internautas. Enquanto 55% dos entrevistados no mundo acreditam nisso, no Brasil, o número é maior: 69%. Ainda de acordo com esta pesquisa, para 65% dos brasileiros, essas tecnologias contribuem para atingir maior potencial em seus trabalhos e 59% disseram que aprendem com eles informações valiosas sobre o mundo. A mesma pesquisa constatou que os brasileiros gastam em média 79 minutos de seu dia mexendo nos tablets. É mais do que o resto do mundo: 71 minutos. Nos e-readers simples, a média brasileira é de 63 minutos contra 54 do mundo.

Quem são os donos de tablets hoje? De acordo com a pesquisa levantada pelo Grupo Abril em 2013, 62% são homens, 71% são casados, 78% já têm smartphone, 46% são da classe A e a idade média é de 43,8 anos. E o que fazem eles com seus aparelhos? 80% disseram que suas atividades principais são a leitura de notícias, seguida pela leitura e envio de e-mails (72%), redes sociais (65%), assistir a vídeos (48%), games (43%), livros digitais (41%), ouvir música (39%), revistas digitais (39%), jornais digitais (36%) entre outros. Os livros podem não figurar como primeira opção, mas a porcentagem de leitura entre o público ouvido pela Abril é considerável. Segundo a mesma pesquisa, 34% preferem ler livros no tablet – o que também é uma porcentagem digna de nota, tendo em vista que este usuário tem, em média, 43 anos e não pertence à geração de nativos digitais.

13.1.2 A caminhada dos livros digitais

Uma vez que comprar os aparelhos é diferente de adquirir produtos para eles, cabe agora analisar números a respeito do mercado de aplicativos de forma global. Segundo previsões da ABI Research para 2013, as vendas de apps de todos os tipos para tablets deveriam chegar a um volume de US$ 8,8 bilhões, enquanto os aplicativos para smartphones vão gerar receita de US$ 16,4 bilhões. A empresa crê que o mercado de apps para tablets vai se equiparar ao de smartphones em 2017 e suplantá-lo em seguida, em volume de dinheiro.

Esse crescimento na venda de aparelhos e aplicativos já mostrou desdobramentos no mercado de e-readers. A consultoria IHS Suppli afirmou, antes mesmo de 2012 acabar, que o comércio de e-readers fecharia o ano com queda de 36% e que deveria cair outros 27% em 2013. Analistas da empresa afirmam que a queda deve-se ao fato de os e-readers comuns não

serem páreos para os tablets. Portanto, isso não quer dizer uma redução de leitura, e sim uma possível migração dos leitores para o outro gadget. Não há, na maioria das pesquisas, uma divisão da leitura de livros digitais entre os dois suportes – uma vez que a maioria pode ser lida em ambas as plataformas, com exceção dos enhanced e-books. Portanto, poucas vezes consegue-se avaliar nesses levantamentos o quanto corresponde a cada um, mas, ainda assim, são dados a se considerar para analisar o avanço do livro digital.

A Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada pelo Instituto Pró-Livro em março de 2012, traz um panorama interessante nesse sentido (sua última publicação havia sido em 2007). Segundo ela, 9,5 milhões de brasileiros são adeptos dos livros digitais, o que representa 5% do universo leitor. A maioria é do sexo feminino, tem entre 18 e 24 anos e se concentra na região Centro-oeste (9%), seguida pela Sudeste (6%), Sul e Norte (5%) e Nordeste (4%). A classe A é a maior consumidora (21%). Quem experimentou gostou muito (54%), embora 6% não tenham apreciado a experiência. E, segundo o levantamento, 45% nunca tinham ouvido falar em e-book.

Nos Estados Unidos, esse número é bem maior e vem crescendo. De acordo com pesquisa da Pew Internet & American Life Project, de dezembro de 2012, 23% dos entrevistados estão migrando para a leitura digital – no ano anterior, eram 16%. A pesquisa também descobriu que o número de leitores de livros impressos caiu: de 72% para 67%.

Se o parâmetro de análise muda e vai diretamente para a indústria e mercado livreiro, os números também são reveladores quanto à ascensão dos e-books: 20% de toda a venda de livros nos Estados Unidos em 2012 foi de obras para leitura digital, de acordo com dados da Association of American Publishers (AAP) e Book Industry Study Group (BISG). A mesma AAP, por meio de seu programa StatShot, informa que as vendas de e-books para crianças aumentaram 120% em 2012 e representavam 13,8% do mercado americano.

E o que é mais curioso: os leitores de e-books leem mais títulos do que os que se mantém fieis aos livros impressos: são 24 obras digitais por ano para o primeiro grupo contra 15 de papel para o segundo, conforme pesquisa da norte-americana Pew Research Center divulgada em abril de 2012. Isso também reflete a oferta. Enquanto em língua inglesa são mais de 1 milhão de títulos, no Brasil, no início de 2013, havia disponíveis cerca de 15 mil obras em português (12 mil publicadas por editoras e o restante, independentes), contra 6 mil no início de 2012. Em entrevista à revista Galileu, Fábio Uehara, coordenador de negócios

digitais da Companhia das Letras, conta que em 2010, a editora lançou apenas 20 e-books, em 2011, foram 200 e, no ano seguinte, 600 105.

A verdade é que não é possível ignorar um mercado que cresce a passos largos e é facilmente apropriado por crianças, adolescentes e jovens. Ler livros, agora, também significa navegar por um universo de recursos ao alcance dos dedos na tela. E, embora essa leitura ainda seja cara, com o preço de um aplicativo geralmente equivalente a do exemplar impresso, há a expectativa de barateamento com o aumento da base consumidora.