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de beleza faz contraponto aos outros cabeleireiros mais simples da vizinhança, e a diferen- ça se dá também no preço do corte que pode sair até quatro vezes mais caro que os outros.

A elegância tem endereço certo no Baixo Augusta. Em 1954, o alfaiate francês Mauri- ce Plas abriu sua loja no número 724, onde mantém seu ateliê quase inalterado. O espaço antes era uma confecção de ternos sob medida, mas nos anos 70 surgiram os acessórios e, tempos depois, Maurice acabou preferindo os chapéus aos ternos. Assim, o senhor octoge- nário com ar simpático que parece ter saído de um comercial de televisão acabou ficando conhecido por seus belos chapéus, boinas e bonés, e passou a colecionar clientes famosos, como Tarcísio Meira, Nando Reis, Ed Motta e os irmãos Caruso.

O número 720 da Augusta exibe uma vitrine ousada. São vestidos curtos, blusas de- cotadas, calça de vinil, macacão com “recortes estratégicos”, saias minúsculas, calcinha fio dental, peças que remetem ao sadomasoquismo, corselet, espartilhos, sandálias salto quinze com plataforma de cristal, botas de cano alto acima do joelho e até o tal vestido da “Bruna Surfistinha”. A loja Ropahrara, inaugurada há 13 anos, é pioneira em moda sensual feminina que a gerente, Helena da Paixão, frisa: “são roupas exóticas, não eróticas”. A ge- rente afirma que muita gente não entra na loja por preconceito e conta que seus principais clientes são casais frequentadores de casas de swing que vêm à procura de roupas sensuais, exibicionistas. “Homem gosta de sair com a mulher e mostrar pra outras pessoas”, garante. Na Augusta, tenho a ligeira impressão de que todo mundo se conhece. Grande parte dos entrevistados interrompeu rapidamente a conversa para abanar a mão e dar um tchau- zinho a alguém que por ali passava. É o tipo de coisa que só alguns poucos bairros ou cidades pequenas podem oferecer ao cidadão. Mas, às vezes, essa sensação de aconchego pode ser consequência do medo da solidão. O perfil do morador do Centro é o de pessoas que vivem sozinhas e têm um animal de estimação. Há muitos casos de suicídio, e pode ser que esse aconchego da comunidade seja uma maneira de as pessoas não se esquecerem delas mesmas.

Além de ser a conquista de várias gerações, a liberdade que se tem no Baixo Augusta, de, por exemplo, duas meninas andarem de mãos dadas, dois meninos se beijarem e fa- zerem tudo o que um casal tem direito ou travestis andarem tranquilamente pelas ruas, são poucos lugares da cidade que podem absorver. Mas essa diversidade e sensação de liberdade se mostra bivalente. Ao mesmo tempo em que o público LGBT, (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros) sente-se livre para exercer suas vontades, os “carecas” ou skinheads – grupo simpatizante do nazismo, que se mostra intolerante com minorias – que frequentam a Augusta são tomados pelo mesmo sentimento. Assim, o ponto de “convivência diversificada” torna-se palco de agressões.

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noites, multidões entopem as ruas e tornam difícil para os transeuntes atravessarem a rua sem pisar fora da calçada.

É na esquina notívaga em contorno de “T”, formada pela Rua Fernando de Albu- querque, que o esquenta começa. Botecos preparam-se para receber, geralmente até às 23h devido à “Lei do Psiu”, skatistas, manos, playboys, neo-hippies, prostitutas, roqueiros, travestis e qualquer outra “tribo” que por lá pintar. Bares antes jogados às moscas, exalando um cheiro de urina misturado com cerveja, com o típico bêbado de balcão a posto, banhei- ro sem porta, com a descarga quebrada e a garçonete exibindo um avental sujo, mudam de cara, passam por uma repaginada para atender os novos consumidores. É o caso do Ibotirama, que hoje tem até cartão de visita e ostenta um azulejo branquíssimo em suas paredes reformadas. Mas o boteco continua simpático, e mantém a fidelidade de seus clientes bebuns com incentivos à embriaguez como o “Desafio da Erdinger”: quem beber sozinho três litros do chopp importado em 10 minutos não paga nada. “Tem coragem?”, convida o cartaz.

Diversidade é palavra chave para descrever a Augusta. É possível encontrar desde bo- tecos pés-sujos, lar de beberrões das antigas, à baladas “moderninhas” frequentadas por playboyzinhos que procuram as baladas in do momento. O primeiro sopro a mostrar essa faceta veio em 2003 com a inauguração do clube OUTS, mas a sua “consagração” aconte- ceu por volta de 2005, quando mais bares apareceram na região, como o Vegas, atraindo o pessoal de outras regiões a frequentar a Augusta, tornando-a uma concorrente poderosa para tradicionais bairros notívagos, como a Vila Olímpia e a Vila Madalena. De padoca pré-balada a bar sujinho, arrumadinho com música ao vivo, pista de dança, são vastas as opções que a Dona Augusta oferece, como: O Pescador, Bar do Netão, Studio SP, Z Car- niceria, Volt, Tapas, Beat Club, Beco 203, Caos, LAB, Anti-Social Club, Casa da Sogra, Inferno, Sarajevo, FunHouse, The Week e A Lôca.

Com tantas casas noturnas, bares e opções para quem busca refúgio na noite a fim de extravasar, um certo pó acaba dando as caras. Seja numa megabalada, festinha privê ou in- ferninho, as filas nos banheiros têm ficado longas. Farinha, tiro, teco, glória, padê, glamour, sniff, brilho, Faustão e buzuzi. Não importa o nome, basta chamá-lo que você o encontra facilmente na Augusta. Há rumores de que existem bares que vendem pó até no cartão de crédito. Não consegui confirmar o boato, mas bastou perguntar para o primeiro cara que avistei na porta do bar Ecléticos – entre a Rua Costa e a Antônia de Queirós –, e ele soube me indicar na lata com quem conseguiria o “pó mágico”. Mas não se engane: o papelote de R$ 10 é de cocaína “porcaria”, quem usa está cheirando basicamente cal e remédio tritura- do com 10% de droga. “Dá até para dormir na volta da balada”, garantem os caras do bar. O cheiro de eucalipto das saunas de quinta categoria está cada vez mais fraco. A pros- tituição já viveu melhores momentos na rua que ainda conserva a fama de “grande centro

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