[...] Chegaram ao lugar luminoso onde a verdade esplendia seus fogos. Era dividida em metades diferentes uma da outra. Chegou-se a discutir qual a metade mais bela. Nenhuma das duas era totalmente bela. E carecia optar. Cada um optou conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia. (Carlos Drumond de Andrade) Pensamos essa seção a partir do objetivo de analisar as formas do dizer verdadeiro que constituem a relação mídia e “corpo velho”, tendo em vista os discursos que incluem ou excluem as construções identitárias do corpo velho.
A heterotopia identitária do sujeito idoso nos discursos da mídia faz com que esse sujeito, a partir dos processos de subjetivação e exercícios de poder sobre o próprio corpo, relacione o dizer verdadeiro com os dizeres da mídia. Os saberes sobre o corpo, desde os vários lugares identitários proporcionados para ele pela mídia, não o tornam um monopólio, e não impedem que esse corpo, situado dentro condições de possibilidades sócio-culturais, passe a ser entendido como uma construção. Assim como o dizer verdadeiro também é uma construção estabelecida dentro da ordem discursiva social contemporânea.
A mídia, em relação à produção discursiva, nesse caso, atua como produtora de um dizer verdadeiro sobre a velhice e o envelhecimento. Os sujeitos idosos, são o alvo desse dizer por estarem inseridos em uma cultura, que valoriza as tecnologias do biopoder e as assume como verdade. Assim,
[...] nessa cultura de si, nessa relação consigo, viu-se desenvolver toda uma técnica e toda uma arte que se aprendem e se exercem. Viu-se que essa arte de si necessita de uma relação com o outro. Em outras palavras: não se pode cuidar de si mesmo, se preocupar consigo mesmo sem ter relação com outro. E o papel desse outro é precisamente dizer a verdade, dizer toda a verdade, ou em todo caso dizer toda a verdade necessária, e dizê-la de uma certa forma[...] [FOUCAULT, 2010d, p. 43].
Quando é posta em cena a palavra “aposentadoria”, os sentidos que ela arregimenta apontam, prioritariamente, para duas imagens cristalizadas na memória social: uma está relacionada à prática do hedonismo em sua plenitude e a um ideal de felicidade; e a outra está relacionada à incapacidade produtiva e a uma infelicidade latente.
Por isso, essa seção com partirá dos seguintes questionamentos: como as modificações nos discursos sobre a aposentadoria e o envelhecimento proporcionam rearticulação nos projetos de vida, de trabalho e de lazer desse grupo etário? E como a imagem do envelhecimento “adequado” afeta a produção discursivo-midiática sobre a velhice, construindo identidades de inclusão?
Uma celebração de uma segunda “adolescência” após os 60 anos, a ideia de uma aposentadoria feliz e prazerosa e de uma “irresponsabilidade” quase utópica é uma construção da mídia na medida em que ela propõe identidades de inclusão para a velhice. É também mais que isso, pois a sociedade atual elabora uma série de tecnologias que fornecem mecanismos de promoção dos cuidados de si, propondo uma moral ética e estética em que o corpo não pode ser “lido” como velho e a mente/alma do sujeito não pode deixar de ser “higienizada”. Por isso, existem os discursos do hedonismo e do culto ao corpo que estão na base da produção de identidades pela mídia.
Nas imagens a seguir, a grade de análise será baseada na tecnologia do biopoder, pois o prolongamento da vida, a manutenção da saúde e a preocupação estética pertencem ao regime discursivo do biopoder.
Figura 30 A geração sem idade - Capa da revista Veja edição 2121, 15/06/2009.
A GERAÇÃO SEM IDADE.
Mulheres e homens maduros que já desfrutam dos formidáveis avanços da medicina na conservação da juventude.
A ciência anuncia uma certeza: comer pouco (mas pouco mesmo) prolonga a vida, a saúde e a beleza. 6 receitas de pessoas entre 35 e 50 anos que parecem ter parado de envelhecer.
“Dr. Hollywood”, o cirurgião das estrelas, diz qual a hora certa para recorrer ao bisturi.
A liberdade trazida pelos saberes produzidos na contemporaneidade não é plena, por isso, para construir nosso corpo, nos submetemos a uma produção discursiva que define como identidade de inclusão o corpo “perfeito”, sem as marcas do tempo.
Se antes a velhice era considerada apenas como um fato natural inevitável, agora, ela pode ser no mínimo mascarada, o que pode levar o “corpo velho” a passar por modificações por intermédio de cirurgias plásticas e pela prática de atividades esportivas que se impõem ao olhar rígido, de formas contidas por um lado, e exacerbadas, por outro. “Dr. Hollywood”, o cirurgião das estrelas, diz qual a hora certa para recorrer ao bisturi.
Esse exagero na produção de um corpo jovem a qualquer custo, sustentado pela espetacularização dos discursos médico e econômico, e entrelaçamento destes com o discurso da mídia, dão sustentação ao enunciado: “O cirurgião das estrelas”, fazendo deste, um exemplo de como a vontade de verdade da mídia interpela o “corpo velho” produzindo identidades de exclusão
Sobre essa questão, Foucault afirma que
o domínio e a consciência do seu próprio corpo só puderam ser adquiridos pelo efeito do investimento do corpo pelo poder: a ginástica, os exercícios, o desenvolvimento muscular, a nudez, a exaltação do próprio corpo... tudo isso conduz ao desejo de seu próprio corpo através de um trabalho insistente, obstinado, meticuloso, que o poder exerceu sobre o corpo das crianças, dos soldados, sobre o corpo sadio. Mas, a partir do momento em que o poder produziu este efeito, como consequência direta de suas conquistas, emerge inevitavelmente a reivindicação do seu próprio corpo contra o poder, a saúde
contra a economia, o prazer contra as normas morais da sexualidade, do casamento, do pudor. [...] O poder penetrou no corpo, encontra-se exposto no próprio corpo [FOUCAULT, 2008a, p. 146].
Os enunciados a seguir são fruto da regulamentação dos discursos midiáticos sobre a velhice e os “cuidados de si”, que perduraram através dos séculos: “A ciência
anuncia uma certeza: comer pouco (mas pouco mesmo) prolonga a vida, a saúde e a beleza. 6 receitas de pessoas entre 35 e 50 anos que parecem ter parado de envelhecer”. Esses enunciados têm como mote o gerenciamento da atividade alimentar,
marca, assim, uma atitude por parte do sujeito idoso que o deixaria mais próximo de um ideal de juventude e beleza.
Direcionados para o sujeito idoso, no enunciado “comer pouco (mas pouco
mesmo) prolonga a vida”, a atitude alimentar e o discurso médico são articulados
dentro das formações discursivas que compõem o sistema dos dispositivos midiáticos, tendo como fundamento, o discurso científico, que coloca o “corpo velho”, assim como o gordo, “um corpo marcado pela falência moral e que, portanto, deve ser corrigido, modificado e aperfeiçoado” [PEREIRA, 2013, p.168].
Atualmente, o sujeito idoso, que não pratica as “técnicas de si”, está fadado a ser posto fora da margem estabelecida pelos padrões de beleza divulgados pelos veículos midiáticos, tornando-se, à vista da mídia, um corpo “anormal”. Mas o que é possuir um corpo velho anormal?
Soa-nos estranho colocar a velhice como algo fora das regras, pois a regra é envelhecer, se considerarmos, apenas o aspecto biológico. Porém, o biopoder, através da reverberação discursiva da mídia, propõe para os sujeitos idosos a maneira “correta” de envelhecer.
A segregação identitária, que exclui o sujeito idoso, pode ser compreendida a partir do procedimento de controle que padroniza o que é jovem, belo e produtivo, qualquer outra situação que fuja das características consideradas como propícias, é colocada como anormal.
Dessa maneira, o “corpo velho” velho (em oposição a um “corpo velho” jovem) é posto na periferia discursiva da sociedade devido às suas particularidades que o tornam diferente dos demais, pois o modelo de beleza corrente e espetacularizado é inatingível. Sempre que se acha que o limite está posto, ele estará além, causando uma
ilusão, a ser compreendida mais tarde no âmbito da transgressão, que envolve não só a mídia, mas todo um conjunto de instituições que delimitam normas para os sujeitos.