A relação do “corpo velho” com o que é considerado normal e o que é considerado anormal, pela via da AD, pode ser tomado como espaço de inscrição da memória discursiva e (des)construção de limites pré-estabelecidos.
A mídia propõe aos sujeitos idosos maneiras de envelhecer que normatizam as construções identitárias para velhice e modificam os processos de subjetivação desses sujeitos. Mas isso não significa que as propostas da Mídia sejam todas negativas, pois “[...] a norma não tem por função excluir, rejeitar. Ao contrário, ela está sempre ligada a uma técnica positiva de intervenção e de transformação, uma espécie de poder normativo” (FOUCAULT, M, 2011, p. 43), que interfere na produção de identidades.
O “corpo velho” pode ser considerado “anormal” no sentido de que fora entendido como instituído fora da norma do que é considerado culturalmente “correto”, em uma determinada época.
A anormalidade é definida e estabelecida discursivamente como resultado de práticas discursivas e não discursivas, fruto de processos históricos e culturais. Nesse ponto, as ideias de Foucault [1997] são vitais para as nossas análises, pois essas ideias contestam o que é anormal e desnaturaliza aquilo que a mídia coloca como verdade absoluta.
Do ponto de vista histórico, as anormalidades estavam ligadas ao crime, ao mal, às aberrações [FOUCAULT, 2011a]. As construções identitárias atuais dos idosos e outros sujeitos, que destoam do padrão do corpo ideal, têm o mesmo efeito de marcar negativamente e excluir esses corpos alheios à norma.
Na perspectiva foucaultiana, a relação de poder de corpos normais/corpos anormais refere-se a um passado histórico ainda bastante atual, encoberto apenas pelo discurso da oportunização e da acessibilidade. Assim, não importa se o sujeito é velho, gordo ou deficiente, o que está em jogo são as microrrelações de poder que tornam esses
sujeitos aceitáveis ou não, pois o efeito de flexibilidade da norma funciona como uma oportunidade para que esses sujeitos se encaixem nela.
No livro Os Anormais, Foucault [2011a] afirma que essas relações podem desdobrar-se em locais de poder a favor da hegemonia da norma. O livro apresenta um percurso genealógico da noção de "anormal", constituída durante o século XIX. Inicialmente, a constituição da norma ocorre no embate entre os saberes jurídicos e penais, até uma psiquiatrização do desejo e da sexualidade, no fim do século XIX.
Foucault [2011a] afirma que o grupo dos anormais se constituiu em correlação a um conjunto de instituições de controle, com uma série de mecanismos de vigilância e de disposição dos elementos na rede dos poderes. Esse grupo se formou a partir de três categorias: o monstro moral, o indivíduo a corrigir e o onanista. Falaremos, aqui, apenas do monstro, que não é o monstro moral, como definirá Foucault [2011a, p. 64, 68,78- 89]. Esse autor afirma que o monstro moral surge no romance gótico, no século XIX com a publicação dos textos do Marquês de Sade. Essa categoria relaciona os saberes da Medicina e do Direito dessa época e coloca a criminalidade diretamente ligada à possibilidade de todo criminoso de ser um monstro em potencial. A relação da patologia com o que é considerado fora das normas sociais pré-estabelecidas, ou ainda, do criminoso com o patológico, passa a figurar dentro do funcionamento das tecnologias características de controle do poder de punir. Uma das formas de monstro moral é o político, que pode ser entendido como aquele que exerce o poder de forma a perturbar a ordem pública, infringido o pacto social fundamental.
A partir dessa categoria do monstro moral, pretendemos pensar sobre o sujeito que focalizamos na nossa pesquisa. Foucault diz que esse monstro é marcado por dois elementos: o jurídico e o biológico. Existe uma norma cultural, cuja exigência postula que o sujeito seja ou não de determinada forma, esteja ou não dentro de uma determinada ordem, e esse tipo de ordem é marcada pelo corpo.
No domínio constituído pelo “corpo velho”, existe a necessidade de um controle fundamentado nas disciplinas dos biopoderes, tal como vem acontecendo nas últimas décadas, especialmente com a exacerbação de uma política do corpo jovem, quando da busca pela manutenção da vida propiciando o acontecimento de enunciados como “Você
Figura 31 Você que envelhecer... - Revista Veja 23/06/2010
Tendo isso em mente, quando lemos a matéria exposta ao lado, observamos os seguintes enunciados: “Quem pode e gosta de cuidar da aparência consegue cruzar os 60 muito bem – desde respeite os seus limites”. “MAIS OU MENOS LISO – Variações sobre o bisturi: Brigitte que nunca usou, Úrsula, que usou demais e Helen que fez a coisa certa”. Os sujeitos, que são considerados “monstros” no sentido foucaultiano do
termo, são justamente aqueles que fugiram dos padrões de beleza normatizados pela mídia e que provocaram uma ruptura na ordem discursiva social da manutenção da juventude.
A fabricação desse corpo a-temporal nos remete a uma questão pensada por Michel Foucault no estudo do enunciado e nos faz perguntar: “por que este corpo e não outro em seu lugar?”.
Figura 34 Dieta Já. Jun./2004 Figura 33 Dieta Já. Abril/2006.
Figura 32 Ana Maria, 10/01/2014
As micropráticas estão na base de formação dos poderes que regem a construção discursiva do corpo velho. Ao impor um corpo que aparenta ter vinte ao um sujeito que já passou dos sessenta, cria-se uma tensão entre a imagem que se deseja alcançar e o corpo que ainda não foi totalmente moldado pelos biopoderes.
Portanto, o envelhecimento do corpo, representado nas revistas, anula a ideia de uma velhice destinada ao abandono e à falta de cuidados. Assim, são fabricadas identidades, dando margem à criação de um mercado de consumo específico para essa faixa etária através do oferecimento de mercadorias como um novo vestuário, novas formas de lazer e de relação com o corpo e os afetos.
A normalização disciplinar consiste em primeiro colocar um modelo, um modelo ótimo que é constituído em função de certo resultado, e a operação de normalização disciplinar consiste em procurar tornar as pessoas, os gestos, os atos, conformes a esse modelo, sendo normal precisamente quem é capaz de se conformar a essa norma e o anormal quem não é capaz. Em outros termos o que é fundamental e primeiro na normalização disciplinar não é o normal e o anormal, é a norma. Dito de outro modo, há um caráter primitivamente prescritivo da norma, e é em relação a essa norma estabelecida que a determinação e a identificação do normal e do anormal se tornam possíveis. Essa característica primeira da norma em relação ao normal, o fato de que a normalização disciplinar vá da norma à demarcação final do normal e do anormal, é por causa disso que eu preferia dizer, a propósito do que acontece com as técnicas disciplinares, que se trata muito mais de uma normação do que de uma normalização [FOUCAULT, 2008b, p.74-75].
As micropráticas estão na base de formação dos poderes que regem a construção discursiva do corpo velho, tornando o corpo um lugar de circulação de poderes. Se existe a necessidade de propor um corpo magro e sarado mesmo depois dos sessenta anos, é porque há um discurso contrário, baseado em práticas as quais a mídia não valoriza.
Um fato que ocorreu em julho de 2013, e reverberou nas mídias, retorna esse ano a ocupar espaço pelo mesmo motivo: a velhice e o conceito de beleza. Tal conceito atua como um divisor de águas que coloca qual corpo pode ser destacado, no campo das visualidades e determina qual sujeito deve silenciado, interditado.
Desse modo, o sujeito detentor de um corpo velho passa a sofrer coerções sociais por expor um corpo esteticamente inapropriado às normas da beleza.
Esse mesmo conceito de beleza vai depender da situação histórico-cultural a partir da qual a mídia vai produzir seus discursos. O “corpo velho” pode se encaixar sim em um modelo de beleza, desde que atenda às normas do biopoder e se torne um “corpo velho” novo.
O corpo do sujeito idoso como um lugar político, arregimenta relações de poder que interditam a imagem de Betty Faria, ao mesmo tempo em que se nota o estranhamento causado por um ideal de corpo que não foi alcançado faz com que a imagem repercuta na mídia em geral, particularmente nas redes sociais.
O fato de a atriz não ser mais dona de um corpo perfeito faz com que a sua “audiência” vocifere contra ela. “Quem vai à praia de burca?”, reclamou a atriz. As construções identitárias propostas pela mídia e as imagens cristalizadas na memória social sobre a velhice não incluem a imagem de uma mulher de 72 anos usando biquíni, mesmo porque esse sujeito não usou de todas as tecnologias médicas e cosméticas, devidamente recomendadas pelo consumo através da mídia, por isso, Susana Vieira pode, mas a Betty Faria não é permitido exibir o corpo.
Esse processo de rompimento de limites que é estabelecido a partir das memórias social e coletiva, dos movimentos de resistência do “corpo velho” e dos processos de interdição dos objetos que perpassam esse corpo é o tema do próximo capítulo.
FONTE: http://catracalivre.com.br/geral/design-urbanidade/indicacao/mas-e-quando-voce-ficar-velho-idosos-tatuados- respondem-a-pergunta/