A. KUR’ÂN KISSALARININ GERÇEKLİĞİNİN ANLAŞILMASI
1. Lafzî Fesâhat (Za‘f-ı Te’lîf) Açısından
Acerca do conceito de estereótipos, consideramos a completa e pertinente definição de Bardin (1977):
Um estereótipo é “a ideia que temos de...”, a imagem que surge espontaneamente, logo que se trate... É a representação de um objeto (coisas, pessoas, ideias) mais ou menos desligada de sua realidade objetiva, partilhada pelos membros de um grupo social com uma certa estabilidade. Corresponde a uma medida de economia na percepção da realidade, visto que uma composição semântica pré-existente, geralmente muito concreta e imagética, organizada em redor de alguns elementos simbólicos simples, substitui ou orienta imediatamente a informação objetiva ou a percepção real. (p. 51)
Diversos elementos nos chamam a atenção nesse trecho de Bardin (1977): primeiramente, a autora associa estereótipos a representações relativamente desconectadas da realidade objetiva, isto é, não necessariamente pertinentes àquilo que se entende por “real”. Em adição, a autora afirma que essas representações costumam ser partilhadas com
estabilidade; justifica-se, portanto, a nossa opção pelo uso da expressão “imagens estabilizadas” como alternativa para o termo “estereótipo”, indicando percepções geralmente fixas de um objeto (coisas, pessoas, ideias, como aponta a autora).
Também ressaltamos a menção à imagem pré-existente como integrante da noção de estereótipos. Como apontaremos no capítulo referente à discussão de dados, em muitos casos, os alunos-participantes parecem falar sobre estereótipos sem justificativas concretas, ou seja, eles emitem considerações estereotípicas com rapidez e sem embasamento, pautados por imagens estabilizadas pré-existentes.
Sobre a origem do conceito estereótipo, embasamo-nos no resgate histórico proposto por Andri e Caira (2007):
O termo estereótipo não teve sempre o sentido que lhe atribuímos hoje; no início era uma palavra usada área da arte tipográfica (...) e se referia a um procedimento antigo de reprodução de papel que utilizava um sólido molde de metal para efetuar a impressão em cópias de papel. Com o tempo tornou-se uma metáfora para identificar qualquer união de ideias repetidas identicamente, em massa, com modificações mínimas. (p. 340)
A origem do termo muito contribui para a compreensão de seu uso atual, uma vez que traz a ideia de estereótipo como molde, figura modeladora, e sob esse aspecto, rigidamente concebida. É importante ressaltar que o uso do termo como metáfora aglutinou a noção de “molde” à de “massa”, ou seja, conferindo ao termo a ideia de grande número de moldes identicamente confeccionados, sutilmente (ou raramente) diferentes.
Nesse sentido, a concepção do termo estereótipo no estudo de aspectos culturais nos remete a imagens similares (generalizadas) sobre um país e pessoas, imagens que embora sejam / possam ser distintas, são comumente observadas sob um ponto de vista superficial e, dessa maneira, raramente fiéis à profundidade do país e / ou cultura em questão.
Alguns dos estereótipos verificados nos discursos dos alunos – conforme discutiremos adiante – revelam exatamente a noção descrita por Andri e Caira (2007):
opiniões compartilhadas por um grupo de pessoas pertencentes à mesma comunidade etária e social, opiniões inflexivelmente iguais, rigorosamente moldadas.
Rigidez e inflexibilidade são noções comumente associadas a imagens estabilizadas, o que não é surpreendente, uma vez que tais conceitos estão relacionados à etimologia da palavra “estereótipo”, como ilustra Gaias (2005): “O termo „estereótipo‟ vem do grego e está formado por duas palavras: stereos, que significa rígido, e túpus, que significa traço.” (p. 38)
A autora descreve o conceito como “(...) uma imagem que surge espontaneamente na mente cada vez que nos referimos a determinadas situações, grupos étnicos e outros; porém, a caracterização geralmente não representa a realidade” (GAIAS, 2005, p. 38).
Temos ressalvas com o uso do termo “espontaneamente”, porque embora acreditemos que imagens possam surgir de forma natural e até repentina, não as consideramos de todo espontâneas, pois fatores sociais e o contexto histórico-político-cultural no qual um / o indivíduo está inserido podem influenciar o desenvolvimento de estereótipos, ainda que inconscientemente.
A concepção de Preiswerk & Perrot (1975), conforme mencionados no estudo de Zarate (1986), também abrange a noção de rigidez. De acordo com esses autores:
O estereótipo pode ser definido como um conjunto de traços que tentam caracterizar ou tipificar um grupo, no seu aspecto físico e mental e no seu comportamento. Ao restringir a realidade, esse conjunto se distancia dela, uma vez que ela a altera e, portanto, a deforma10. (p. 63-64)
Consideramos esse posicionamento sobre estereótipos bastante preciso na medida em que notamos, por meio do contato com alunos de LI participantes da coleta de dados deste trabalho, que a estereotipia está equalizada, quase sempre, à tipificação, isto é, à redução de uma sociedade em alegorias generalizadas e simplificadas, nem sempre condizente com a realidade.
A generalização ocorre não somente na criação de caricaturas sobre determinadas culturas, mas também na transferência do mesmo modelo rígido de estereótipo a
10 Tradução livre de Lúcia Maria de Assunção Barbosa, apresentada em aula do curso “Dimensões culturais no ensino-aprendizagem de línguas”, no Programa de Pós-graduação em Linguística da Universidade Federal de São Carlos.
todos os membros de um grupo social, limitando-os à coletividade simplificada (PREISWERK& PERROT, 1975, apud ZARATE, 1986).
A concepção de estereótipos de Tannen (1986) também está fundamentada na noção de generalização: “(...) estereotipia intercultural, que é simplesmente a extensão para todo um grupo de tipos de impressões que são normalmente formadas sobre indivíduos.”11 (p.
54).
Cuddy et. al (2009) se pautam na premissa de que estereotipar é reflexo do desenvolvimento cognitivo do ser-humano. Segundo esses autores, “(…) estereótipos derivam de fenômenos comuns a todos os seres-humanos: (1) a necessidade de sobrevivência básica de identificar „amigos‟ e „rivais‟ e (2) a ubiqüidade entre diferenças de status hierárquicos e competição por recursos12” (p. 2).
Assim, a necessidade (talvez inerente ao ser-humano) de identificar, em grupos sociais distintos, os “amigos” e aqueles considerados “oponentes” pode levar, a longo prazo, ao desenvolvimento e estabelecimento de estereótipos sócio-culturais – imagens positivas a respeito dos “amigos” e negativas em relação aos “inimigos”.
Samovar et. al. (1998), citado por Gaias (2005), revela que estereótipos podem ser originários de contato pessoal limitado. Os autores ilustram essa premissa descrevendo uma situação hipotética: um estrangeiro, em contato com um brasileiro rico, pode pensar que todos os brasileiros são ricos.
Embora possamos compreender que, em algumas situações, o contato pessoal limitado pode levar ao desenvolvimento de estereótipos, é preciso admitir (e reconhecer) que no mundo globalizado atual, encontros pessoais não ocorrem isoladamente: a Internet e novas tecnologias, além dos meios de comunicação de massa tradicionais, fornecem excessivas quantidades de informações sobre muitos povos e países.
Ainda que esses meios contribuam, geralmente, para a ocorrência de estereotipia, por meio deles existe a possibilidade de aquisição de conhecimento imediato acerca de quaisquer temas, tópicos e assuntos.
Não pretendemos apontar a Internet e outros meios de comunicação como isentos de estereótipos; pelo contrário: em muitos casos, até os propagam. Entretanto, em
11(…) cross-cultural stereotyping, which is simply the extension to a whole group of the kinds of impressions that are regularly formed about individuals.
12 (…) stereotypes stem from phenomena common to all humans: (1) the basic survival need to identify „friends or foes‟ and (2) the ubiquity of hierarchical status differences and competition for resources.
meio a cenários idealizados e falseados, a mídia é capaz de oferecer, com riqueza, subsídios culturais que certamente auxiliam a complementar eventuais contatos pessoais limitados.
Nesse sentido, um estrangeiro que infira, por meio de contato com um brasileiro rico, que todos os brasileiros também o são, envereda pelos caminhos da estereotipia por conta própria, distante de fontes de informação acuradas.
De acordo com Galimberti (1999), estereótipo pode representar, em alguns casos, visões de mundo concebidas anteriormente ao contato mais aprofundado com cultura. Assim, estereótipo caracteriza-se como preconcebido, contribuindo para o desenvolvimento de julgamentos de valor geralmente isentos de embasamento.
Para Galimberti (1999), citado por Andri e Caira (2003), estereótipo pode ser definido como “opinião preconcebida13
de uma classe social de indivíduos, de grupos ou de objetos que reproduzem formas esquematizadas de percepção de julgamento14.” (p. 340)
Ressaltamos o uso da palavra “preconcebida” associando-a com as imagens culturais mantidas por muitos alunos, originadas – frequentemente – por pré-conceitos, cenas idealizadas estampadas nos meios de comunicação de maior alcance, acarretando avaliações muitas vezes inverossímeis da realidade, até falseadas, rotineiramente travestidas em julgamentos culturais.