3. BEYPAZARI’NDA KÜLTÜREL TURİZM VE KAYNAK DEĞERLERİ
3.2. Kuramsal Çerçeve
Nesta dissertação, temos como maior desafio compreender se e como estudantes envolvidos em experiências de radioescola encontram nesta experiência um espaço favorecedor de sua participação e, nessa perspectiva, contribuem para que desenvolvam a sua autonomia.
Abordar essa questão, como salienta Peruzzo (1999), requer uma abordagem dessa questão da participação considerando aspectos históricos. A autora argumenta que, na história do Brasil, assim como na de outros países latino-americanos, devido ao modo como nos inserimos no contexto do colonialismo, nossa sociedade tem sido marcada pela reprodução de valores autoritários, “falta de conscientização política”, entre outras características que se distanciam de práticas democráticas. Em sua avaliação, Peruzzo enfatiza que desde o período colonial “nos foi obstada ou até usurpada a possibilidade de avançar” (PERUZZO, 1999 p. 73) na prática participativa.
Demo (1986), por sua vez, argumenta que, talvez, não seja do nosso hábito cotidiano participar, pois ao longo da nossa história, tivemos a prevalência de uma sociedade autoritária, a tal ponto de, em algumas situações, ficarmos assustados com a ideia de participar de algum processo e até mesmo de dar a nossa opinião. Para o autor, o processo que constitui a participação é uma “aventura histórica, que não podemos banalizar, seja sob a capa de funcionalismos que escondem reais conflitos, seja sob a pretensão de queimar etapas, seja sob a ilusão de colocar por cima ou por baixo do processo socioeconômico” (DEMO, 1986, p. 25). Nestes termos, o autor entende a participação como um processo e um desafio.
Para Demo (1986), a participação é uma conquista, ou seja, significa um processo constante de produção, com idas e vindas, ou seja, em construção, sempre. Para ele, a participação é processual e não pode, portanto, ser considerada suficiente ou acabada. Caso viesse a se “completar”, já seria um início de retrocesso. De acordo com o autor, para que haja participação é preciso “compromisso, envolvimento, presença em ações por vezes arriscadas e até temerárias” (DEMO, 1986, p. 19). Para ele, a participação “não é dada, é criada. Não é dádiva, é reivindicação. Não é concessão, é sobrevivência. Participação precisa ser construída, forçada, cultivada, refeita e recriada”. (DEMO, 1986, p. 68). É com essa compreensão que nos aproximamos das experiências de radioescola em análise nessa
dissertação. Procurando identificar se e como elas possibilitam experiências de construção coletiva, pressão para se fazer ver e ser ouvido, cultivo do diálogo e recriação das práticas autoritárias que permeiam a nossa sociedade e se fazem presentes no espaço escolar.
Para a autora Cicilia Peruzzo (1999), no livro Comunicação nos Movimentos Populares76, ao longo dos anos, a palavra participação tem se tornado um modismo, sendo utilizada de diversas formas, em diferentes contextos e com significados distintos. Para a autora o significado do termo participação é aplicado tanto ao fato de assistirmos a um espetáculo, por exemplo, como em situações nas quais tomamos parte ativamente de uma ação. Tratam-se, contudo, de experiências bastante distintas. A força do termo “participar” concebida como sinônimo de presença simplesmente é incomparavelmente menor do que o sentido de participar associado à ideia de “tomar parte” acima indicado.
Assim como Peruzzo (1999), Demo (1986) acredita que tem havido uma banalização do termo participação e que é preciso estar atento a isso, evitando esse tipo de postura. Alguns trabalhos acadêmicos têm abordado a participação como algo corriqueiro, fácil, que tende a ocorrer naturalmente. No entanto, para estudar participação é preciso que sua dimensão processual não seja ignorada, assim como a própria banalização do termo.
Se pararmos para pensar e observarmos um pouco ao nosso redor, nas nossas práticas cotidianas e em situações que fizeram parte da nossa vida, na escola, na universidade, na associação, no condomínio em que moramos ou até no sindicato que representa a nossa categoria profissional, vamos observar um conjunto de práticas autoritárias por parte de pessoas e/ou grupos que buscam controlar essas coletividades e, por outro lado, a acomodação de muitos a esse tipo de situação que, em alguns casos, assume a forma de submissão.
É uma situação com a qual convivemos no cotidiano e, muitas vezes, como a maioria das pessoas está habituada a não ter peso político para decidir questões que lhe dizem respeito, não percebe ou não consegue acreditar em formas mais coletivas de luta. “É comum, por exemplo, que a população de um bairro espere do dirigente da associação de moradores a eficiência na solução dos problemas ‘afinal, foi eleito para isso’ – ou que se eleja um presidente da República como um ‘salvador’ da pátria” (PERUZZO, 1999, p. 74). Como teremos oportunidade de discutir nesta dissertação, não são incomuns as situações em que, no contexto escolar, crianças e adolescentes são levadas a se manterem na condição de espera
76 Comunicação nos Movimentos Populares: a Participação na Construção da Cidadania. PERUZZO, Cicilia Maria Krohling. Editora Vozes. 1999.
diante do professor e/ou gestor a quem cabe a prerrogativa de tomar a iniciativa de falar, definir regras, conduzir processos e definir soluções, num processo que tende a silenciar as vozes dos estudantes.
Este tipo de processo segue na contramão do conceito de participação proposto por Demo (1986) ao destacar que o “abc da participação” consiste em organizar-se para conquistar o seu espaço e, com base nesta conquista, conseguir gerir seu próprio destino e, consequentemente, ter vez e voz.
Logo no início desta dissertação, comentei acerca da minha realidade estudantil ao cursar o Fundamental I em uma escola do interior do estado do Ceará. Uma breve incursão nesta experiência pode nos ajudar a esclarecer um pouco mais esta questão da necessidade de se tomar consciência da própria situação de apatia para que espaços participativos se instaurem. À época, década de 1980, uma escola pequena do interior, com uma educação tradicional, apresentava muitas imposições e regras a serem seguidas. A diferença é que os estudantes nem se davam conta de que tais imperativos poderiam, em algum momento, ser questionado ou conversado com a professora. O “por que, professora?” dificilmente era escutado. Todos pensavam: se a professora fala, a autoridade, a que sabe mais, a pessoa de maior idade da sala, é porque sabe o que está falando e nós, meninos e meninas obedientes que somos, devemos concordar e atender.
Lembro que, em muitas situações, a curiosidade era tremenda, mas eu permanecia quieta para não discordar ou ser “mal-educada” com a professora. Afinal, “ela sabia o que estava falando” e eu deveria, como aluna exemplar que buscava ser, escutar e anotar no caderno para fazer boas provas. Com base neste pequeno relato acerca da minha vida estudantil, retomo o questionamento de Peruzzo (1999) que alerta para a necessidade de se problematizar se a dominação deve mesmo ser vista apenas como imposição ou se, às vezes, não há, de certa forma, uma cumplicidade ou até mesmo omissão que necessita ser melhor analisada. Nessa perspectiva, a autora ressalta que esta situação de sujeição a práticas autoritárias faz parte da formação histórica, social, política e cultural do brasileiro.
Na realidade das radioescolas estudadas nesta dissertação, buscamos compreender qual é o espaço conquistado pelos estudantes que participam das atividades das rádios. Podemos classificar o envolvimento dos alunos nestas experiências como participação nos termos definidos por Peruzzo (1999) e Demo (1986) e acolhido por nós? Se considerarmos que a participação pode se dar em diferentes níveis, como podemos compreender e classificar estas experiências? A participação nas atividades da rádio inclui, por exemplo, a elaboração de programas de rádio pelos estudantes ou consiste, num outro extremo, na reprodução de
regras definidas pela escola? Nesse contexto, como nos provoca Demo, é preciso identificar se a relação dos estudantes com a rádio vai além das “ajudas, favores ou proteções” (1986, p. 26).
Para Bordenave (1985), na atualidade, as instâncias participativas têm proliferado em vários espaços, desde a conversa em família para decidir como reduzir os custos mensais até o envolvimento coletivo na definição do projeto da escola ou do condomínio, como a coleta seletiva, por exemplo, entre outros. “As rádios convidam os ouvintes a ‘participarem’ de sua programação telefonando, escrevendo (...), os partidos políticos conclamam a população a participar (...), parece que estamos entrando na era da participação”. (BORDENAVE, 1985, p. 8). No entanto, esse interesse em “participar” não vem acompanhando a real compreensão do que seria este “participar”. Afinal, de qual participação estamos falando?
O autor define alguns graus de participação em uma série que se estende do mais baixo ao nível mais alto e que incluem o da informação, da consulta facultativa ou obrigatória, da elaboração/ recomendação, da co-gestão e delegação, até o da autogestão77. No tópico a seguir, abordaremos a questão da participação como um direito, considerando, em particular, o público envolvido nesta pesquisa, ou seja, crianças e adolescentes.