Harald Szeemann (1933-2005) após “declarar sua independência” ao renunciar o cargo de diretor do Kundthalle de Berna32, em 1969, definiu a si mesmo como um organizador de exposições, um curador independente. Nos oitos anos que dirigiu essa instituição organizou inúmeras exposições e transformou o local em ponto de encontro de artistas emergentes da Europa e Estados Unidos. Agregou a seu trabalho diversas funções, como “arquivista, conservador, negociador, assessor de imprensa, contador, mas acima de tudo, foi um cúmplice dos artistas” (OBRIST, 2010, p.103) tornando-o dinâmico e por diversas vezes caótico, como ele mesmo dizia.
No inicio da sua carreira contou com o apoio e indicações de Franz Meyer33 para alguns trabalhos, em 1957 foi indicado para trabalhar no projeto Dichtende Maler/Malende Dichter (pintores poetas/poetas pintores), em que cuidaria da seção contemporânea. Na montagem dessa mostra Szeemann percebe seu lugar, “A intensidade do trabalho me fez perceber que esse era o meu meio” (SZEEMANN in: OBRIST, 2010, p.105). A partir daí não se desliga mais das organizações de exposições e é a partir da concepção da montagem de When Attitudes Become
32 Dirigiu a instituição de 1961 a 1969.
Form: live in your head, com o subtítulo works, concepts, processes, situations, information, em 1969, que ele encontra seu verdadeiro lugar na arte. Nesta montagem é a primeira vez que artistas conceituais e pós-minimalistas têm seus trabalhos exibidos em uma instituição na Europa. Quando as atitudes se tornam forma34reúne, em um processo de exposição próprio, um grupo ímpar de artistas por
meio de um procedimento conceitual bastante especial de diálogo com o curador na ocupação do espaço, sendo considerada uma exposição-marco na História da Arte.
Antes da exposição Quando as atitudes se tornam forma a maioria das mostras eram concebidas a partir de temas, onde artistas eram agregados por afinidades formais, por estilos ou mesmo por grupos ou movimentos que fizessem parte. As obras geralmente estavam prontas e eram escolhidas pelo curador em visitas a ateliês e acervos de outras instituições. Szeemann realizou muitas exposições neste formato, em que tinha que lidar com o comitê de exposição do Kunsthalle, de Berna, e com as políticas artísticas locais. Trabalhando como curador institucional, Szeemann concebia dois tipos de exposições, uma temática coletiva, com artistas emergentes e já estabelecidos e em seguida uma individual. Trabalhou muito e fez diversas exposições neste formato.
A história da exposição Quando as atitudes se tornam forma inicia após a abertura de 12 Environments35e é assim descrita por Szeemann:
O pessoal da Philip Morris e da empresa de RP, Rudderand Finn, foi a Berna e me perguntou se eu gostaria de fazer uma exposição por conta própria. Eles me ofereceram dinheiro e total liberdade. Eu disse que sim, claro. Até então, nunca tivera uma oportunidade como essa. Normalmente eu não seria capaz de pagar os custos de transporte dos Estados Unidos para Berna [...] obter este financiamento para Atitudes foi como uma libertação para mim. (ibid. p 112 ).
Com liberdade total e dinheiro para produzir a exposição, Szeemann propôs uma mostra que estivesse concentrada em “comportamentos e gestos”, provocando um deslocamento no processo e metodologias utilizados até então. Os artistas foram convidados a apresentarem não obras prontas, finalizadas, mas processos e conceitos onde as ações propostas poderiam acontecer dentro ou fora da instituição,
34 Adotaremos esta forma reduzida quando nos referirmos a esta exposição, a mesma usada em
OBRIST, 2010.
35 A mostra 12 environments, em 1968,apresentava obras de Andy Warhol, Martial Raysse, Soto,
diluindo desta forma as fronteiras institucionais ocupando a cidade e estabelecendo novas formas de convívio entre artistas, obras e público. Sobre a montagem da exposição Szeemann diz:
Foi uma aventura do inicio ao fim, e o catálogo, que discute como as obras poderiam assumir forma material ou permanecerem imateriais, documenta esta revolução nas artes visuais. Era um momento de grande intensidade e liberdade, quando você podia produzir uma obra ou apenas imaginá-la [...] Sessenta e nove artistas, europeus e norte-americanos, tomaram a instituição. [...] O Kunsthalle se tornou um laboratório real e um novo estilo de exposição nasceu: um caos estruturado. (SZEEMANN, in OBRIST, 2010, p.113)
Com o lema “tomem conta da instituição” Szeemann convidou os artistas a uma nova relação com o espaço, a “essência da exposição não estava nas obras expostas e sim nas ‘atitudes’ decorrentes do processo criativo” (RUPP, 2010, p.41). Artistas como Lawrence Weiner executaram ações dentro da instituição (img. 11),Weiner escavou o reboco da parede, e fez dela uma das obras mais emblemáticas da mostra demonstrando as intenções da exposição. “Robert Barry iluminou o telhado; Richard Long fez uma caminhada pelas montanhas; Merz construiu seus primeiros iglus; Michael Heizer abriu a calçada; Richard Serra exibiu suas esculturas de chumbo [...]” (SZEEMANN in OBRIST, 2010, p. 113)
Imagem 11: Lawrence Weiner durante sua ação no Kunsthalle,
Berna, 1969, onde retira um metro quadrado da parede. Fonte: Rupp, 2010.
A forma de ocupação proposta por Szeemann no Kunsthalle (img. 12) e a expansão das ações dos artistas, pela pequena cidade de Berna (img. 13), causaram grande polêmica. Críticos e público não concordaram com as ações desenvolvidas e acusaram Szeemann de que suas atividades “eram destrutivas para a humanidade” (ibid. p.114). Com o envolvimento do governo para decidir sobre os caminhos que seguiriam a partir dali, foi decidido que Szeemann continuaria no cargo de diretor do Kunsthalle, mas os programas seriam decididos por um comitê de artistas locais. Este comitê cancelou algumas exposições já aprovadas por Szeemann provocando desta forma seu pedido de demissão do cargo, tornando-se a partir daí um curador freelancer36
Imagem 12: Vista geral da exposição Quando as atitudes se tornam forma,
Kunsthalle, Berna, 1969 Fonte: Rupp, 2010
Imagem 13: Michael Heizer, Berne Depression, Kunsthalle, Berna, 1969.
Revista Arte & Ensaios,nr.13, 2006 Fonte: RUPP, 2010
As atividades de Szeemann, curador independente, seguiram sempre com o mesmo espírito inovador, foi assim com a versão de 1972 da Documenta 5, em Kassel, na Alemanha, com Monte Verità, exposição que mapeava as utopias visionárias do século XX ou mesmo na sua atuação como curador-chefe freelancer da Kunsthaus de Zurique de 1981 a 2001 ou ainda como Diretor da Bienal de Veneza entre 1999 e 2001. Sua formação em Historia da Arte e as constantes visitas a ateliês, no inicio de sua carreira, lhe proporcionaram uma aproximação fecunda com vários artistas da época a observação dos processos de criação artísticas abriram novos caminhos para as suas curadorias, mais focadas nos processos que nas obras em si, rompendo com várias práticas e convenções de instituições. Surge na historia das exposições como um curador facilitador.