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Duclos e Nicourd (2006), em artigo dedicado aos processos individuais e coletivos de engajamento em ações sociais e de solidariedade, afirmam que a busca de respostas sobre os motivos de adesão a essas causas tem sido objeto de estudo

das Ciências Sociais ao longo de seu desenvolvimento. A Sociologia mostra, de acordo com eles, que motivos sociais, materiais, identitários, simbólicos e ideológicos combinam-se permanentemente nesse processo, também perpassado por uma combinação de motivos altruístas e egoístas. O engajamento resulta, segundo eles, de uma tentativa de ajustamento, muitas vezes frágil, entre uma história pessoal e condições sociais e históricas particulares. Assim, ações de engajamento não são apenas a consequência de uma escolha pessoal, mas seguem normas valorizadas em determinada época e contexto social. Beck (1997) acrescenta que atualmente os conflitos resultantes da distribuição dos bens ocorrem paralelamente àqueles derivados da distribuição dos malefícios, o que levanta entre os indivíduos a necessidade de redeterminar padrões sociais, ganhando força a questão da responsabilidade.

Em relação às ações sociais no campo educacional, Silva (2003) fornece algumas possíveis chaves de interpretação ao afirmar a possibilidade de sobreposição, nas tomadas de decisão parentais, de interesses individuais e coletivos, já presentes no conceito de consumidor-cidadão desenvolvido por Woods. Trata-se de uma noção mais alargada, que considera a interdependência dos papeis desempenhados pelos indivíduos contemporâneos, ao mesmo tempo atores individuais e sociais, e sua não passividade diante do ato de escolha. De todo modo, em um texto bastante recente, Van Zanten afirma que:

[...] a questão da relação com os “outros”, do por que e do como os pais desejam ou não que seus filhos, e eles próprios, interajam com certas categorias de “outros” no espaço escolar [...] não foi ainda, até agora, devidamente explorada de forma sistemática (VAN ZANTEN, 2010, p.410).

No que se refere especificamente às posições parentais diante da educação escolar, a autora (VAN ZANTEN, 2009) sustenta que um dos principais ideais da escola de classe média é a integração, termo polissêmico que remete a três dimensões: integração social, mediante o fortalecimento de laços de pertencimento entre grupos sociais próximos em termos socioeconômicos e culturais; integração societal, mediante a aquisição de valores e de comportamentos considerados, por esses grupos, importantes para a vida em sociedade; integração política, mediante a adesão a valores próprios do modelo de organização da vida pública. Ela sustenta,

ainda, que as opções feitas por segmentos da classe média diferem bastante quando se trata das demandas parentais pela integração através da escola; de fato, descreve dois modelos típico-ideais de integração, dentro dos quais é possível analisar as diferentes condutas e critérios de escolha do estabelecimento de ensino por parte desses grupos (ZANTEN, 2009).

O primeiro modelo é formado por famílias que buscam um fechamento em relação a outros grupos sociais em matéria de habitação, de escolarização e da maior parte das dimensões da vida social, com o propósito de transmitir aos filhos valores e práticas que garantam a reprodução do status e do estilo de vida do grupo social de pertencimento. Este grupo é majoritariamente constituído, de acordo com a autora (VAN ZANTEN, 2009), por pais cujas estratégias de formação e de escolarização dos filhos são voltadas a construir barreiras que propiciem uma homogeneidade social. Ou seja, nesse caso os contatos com outros grupos socioculturais poderiam resultar em um indesejável processo de “contaminação”.

Por outro lado, um número menor de famílias deste primeiro grupo defende um modelo escolar de “mistura social”, ainda que moderada, e a prática, sobretudo em escolas privadas católicas, de ações humanitárias, baseadas na concepção cristã da existência de uma “humanidade comum”. Este envolvimento dos alunos em ações humanitárias está, porém, ainda de acordo com a autora, apoiado em uma aceitação da existência de desigualdades. Além disso, a adesão parental depende de que tal envolvimento não comprometa a transmissão da herança cultural, nem a aquisição dos conhecimentos úteis para o futuro. Com efeito, esses pais sentem-se seguros de sua superioridade social e buscam uma educação que habitue precocemente seus filhos a assumirem responsabilidades e a posicionarem-se como “chefes” frente a grupos menos favorecidos (VAN ZANTEN, 2009).

O segundo modelo descrito por Van Zanten (2009) é constituído por pais “intelectuais” e “mediadores” (também chamados de “nova classe média”) que, devido principalmente a suas atividades profissionais, defendem o contato com outros grupos socioculturais como um modo de formação do senso crítico e de preparação dos filhos para o mundo do trabalho, bem como para a convivência em uma sociedade multicultural. No entanto, a autora ressalta que a maior parte das famílias desse grupo desconfia quando os “outros” (com que seus filhos convivem) são muito “diferentes” de seu próprio grupo social de pertencimento, buscando, assim, contextos escolares que apresentem uma “mistura equilibrada”. Além disso,

elas são encorajadas pela possibilidade de contrabalançar a eventual “influência negativa” desse contato com a transmissão do habitus de classe dentro do contexto familiar e com sutis estratégias segregadoras, como a escolha dos espaços de lazer, o controle dos amigos que frequentam sua casa e o reforço dos signos distintivos dos filhos, como a linguagem, o vestuário e os resultados escolares. Desse modo essas famílias garantem certa superficialidade nas trocas e nos contatos promovidos pela escola com indivíduos pertencentes a outros grupos socioculturais.

Van Zanten (2007) nota, de fato, a existência, entre algumas famílias de classe média francesa, mais especificamente aquelas que trabalham no setor público, de uma preocupação com as finalidades sociais da escola. As relações desses pais com a escola expressam uma complexa relação entre valores privados e públicos, marcada por ambivalências, dilemas e tensões (verificadas por outros autores também no contexto anglo-saxão) entre o desejo de priorizar os interesses dos filhos, cumprindo seu papel de “bons pais”, e priorizar o “bem coletivo”, sentindo- se, assim, “bons cidadãos”.

Em consonância com isso, Tiramonti e Ziegler (2008) observam que na Argentina a classe média não desenvolve hoje estratégias tão fortes de fechamento social; por transitarem em espaços mais abertos, alguns setores desse grupo social têm um estoque mais amplo de disposições, demonstrando, em alguns casos, preocupações sociais. Há, ademais, o desenvolvimento, no mundo atual, de novos posicionamentos em relação à desigualdade, uma vez que, além das esferas estatais, diversos outros agentes, como fundações privadas, empresas, ONGs e grupos religiosos, passam a participar de diferentes modalidades de intervenção social. Isto tem gerado, de acordo com as autoras, um “boom do voluntariado” e da “solidariedade privada”. De fato, elas notam que diferentes formas de filantropia e de assistencialismo estão sendo desenvolvidas por setores não-estatais, e que o comprometimento com causas sociais está cada vez mais sendo considerado como uma virtude moral dos indivíduos.

Ball (2006) acredita, ainda, que as famílias de classe média são, de forma geral, portadoras de princípios e de valores de “justiça social” como parte de sua identidade social “liberal”, o que explica a existência de racionalidades mistas na base de suas escolhas e evita que elas sejam consideradas somente sob a ética do mercado, que não é hegemônica. Assim, a opção de alguns pais por uma relativa

abertura às diferenças sociais através da escola poderia expressar a busca de contato com o mundo “real”, desde que aliada a uma vigilância constante.

Algumas contribuições para esta reflexão podem ser encontradas também em Lipovetsky (2008), desde que não seja desconsiderada a tendência a um subjetivismo extremado presente em suas análises do mundo contemporâneo (DORTIER, 2006). Segundo ele, verifica-se atualmente uma relação inédita entre o individual e o social, visto que a valorização da diferenciação individual passa a sobrepor-se à distinção gerada pelo pertencimento a um estrato social ou a uma fração de classe. Por outro lado, como consequência de uma tentativa de síntese dos valores típicos das sociedades liberais e da ideologia moderna (como o culto ao individualismo e o mito da igualdade), a vontade de exprimir uma identidade singular coexistiria com uma rejeição da exibição da hierarquia e do distanciamento social. Forma-se, desse modo, um cenário em que “é preciso ser como os outros e não inteiramente como eles, é preciso seguir a corrente e significar um gosto pessoal” (LIPOVETSKY, 2008, p.44), em um movimento de aproximação e de diferenciação dos demais. É de maneira semelhante que a diferenciação (e não o distanciamento aberto) se afirma, segundo Elias (1994), como um ideal das sociedades complexas.

Em contrapartida, Bauman (2007) alerta que outra consequência da ótica de consumo e do excesso de escolhas nas sociedades atuais é a fragilidade dos laços sociais, uma vez que engajamentos temporários estão substituindo aqueles de longo prazo. No mundo contemporâneo os vínculos são, segundo ele, mutáveis e transitórios, e os novos critérios de escolha estão baseados na redução dos riscos aliada à garantia de não fechamento das opções, criando relações sociais marcadas pela fluidez e pela fugacidade. O autor considera, portanto, que existe hoje uma desconfiança da condição de estarmos ligados permanentemente a outros e o temor de que essa situação traga encargos e tensões que limitem a liberdade individual, o que daria origem a buscas paradoxais, ancoradas na vontade de usufruir do convívio sem assumir compromissos.

Com efeito, nas sociedades “consumidoristicamente corretas” há uma morte das grandes utopias sociais, pois a lealdade deixa de ser motivo de orgulho e o mundo exterior torna-se dotado de um valor instrumental (BAUMAN, 2007). Segundo Lipovetsky (2008), essa configuração leva a uma nova e complexa solidariedade, caracterizada pela defesa descontraída e sem extremismos das causas sociais, ou melhor, pela preponderância de um investimento superficial. De fato, em sociedades

onde um dos valores primordiais é o indivíduo, a sensibilidade para o “drama humano” ocorre, segundo ele, de forma concomitante a um engajamento social mínimo e intermitente (LIPOVETSKY, 2008).

Já Ion (2006) acredita que sejam falsas as ideias de morte das ideologias e de acirramento do egoísmo, supostamente resultantes do processo de individualização das sociedades, uma vez que se mantém, segundo ele, o sentimento de pertencimento a uma coletividade. Por outro lado, o autor também observa uma diversificação e uma transformação das formas de envolvimento em causas sociais, prevalecendo atualmente ações de curto prazo e um engajamento distanciado e revogável. Por fim, Martuccelli (2006b) nota que atualmente os atores sociais comprometem-se desconfiando, e esse comprometimento depende, em sua perspectiva, dos possíveis efeitos positivos para a vida pessoal daqueles que se engajam em causas sociais.

Com base no referencial teórico aqui apresentado, pressupõe-se que a adesão de algumas famílias às propostas escolares de “responsabilidade social” pode indicar uma complexa tentativa de conciliação entre a diferenciação individual e o pertencimento a um determinado grupo social, entre interesses pessoais e coletivos, finalidades existenciais e instrumentais, opções aparentemente individuais e valores socialmente legitimados. De toda maneira, o mundo contemporâneo caracteriza-se, conforme sustenta Ball (2006, p.14), pelo desenvolvimento de uma “nova cidadania”, apoiada na concepção de escolha ativa e nas supostas virtudes da responsabilização pelas próprias ações, o que pode levar as famílias, como explorado nesta pesquisa, a aperfeiçoar suas demandas educativas e seus processos de escolha do estabelecimento de ensino para os filhos.

3 O PERCURSO METODOLÓGICO DA PESQUISA: FASES DA SONDAGEM E