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2.5. SPORCULARDA TEMEL BESLENME ĠLKELERĠ

2.5.6. Mineraller

2.5.6.3. Demir:

A escolarização da classe média em suas frações superiores constitui, como apresentado na seção anterior, um amplo campo de estudos, que abrange desde as relações entre composições patrimoniais e trajetórias sociais e escolares até as diferentes práticas de mobilização por parte das famílias e as várias formas de investimento no mercado escolar. Neste campo de estudos interessa, para fins da presente investigação, explorar mais detalhadamente a literatura sociológica sobre as estratégias e os critérios de escolha do estabelecimento de ensino pelas famílias desse meio social, devido à sua relação estreita com o objeto de pesquisa.

Nogueira (2000) percebe que a atual heterogeneidade da oferta educacional por parte das escolas e das próprias demandas parentais faz com que as interpretações das práticas educativas da classe média estejam longe de um consenso. Como sustenta a autora (NOGUEIRA, 2000, p.127-128), desenvolve-se, no meio sociológico, um intenso debate a esse respeito, e, “no centro da discussão, encontra-se a questão da natureza consciente (explícita) ou inconsciente (implícita) das condutas educativas dos atores, mas também o sentido que esses últimos atribuem a elas”.

A noção de estratégia utilizada de forma mais recorrente nas análises sociológicas da educação é, sobretudo, aquela baseada nas teorias de Bourdieu (2007; 2008), segundo o qual há uma correspondência entre a posição ocupada na hierarquia social e o espectro de “trajetórias possíveis e prováveis” dos atores, gerando escolhas ou preferências. Não obstante Bourdieu reconheça a existência de decisões explícitas e racionais na base das condutas dos atores sociais, ele defende, grosso modo, que as estratégias de ação sejam resultantes não apenas de um cálculo de custo-benefício, mas sobretudo da incorporação do habitus próprio de um campo, e do consequente processo de interiorização do sentido prático das regras do jogo social e de desenvolvimento de um conhecimento intuitivo das

probabilidades de acesso a determinado tipo de bem.12 Assim, as estratégias de ação seriam principalmente práticas inconscientes, não devido à ausência de reflexão, mas por decorrerem desse conhecimento prático e intuitivo, que levaria os sujeitos a um ajustamento entre as condições objetivas e a provável rentabilidade de seus investimentos. Mostrando a complexidade da noção de estratégia e apontando para o caráter multidimensional da realidade social, Bourdieu sustenta a importância de se:

[...] compreender a lógica específica de todas as ações que trazem a marca da razão sem serem o produto de uma meta racionalizada ou, ainda mais, de um cálculo racional; que são habitadas por uma espécie de finalidade objetiva sem serem conscientemente organizadas em relação a um fim explicitamente constituído; que são inteligíveis e coerentes sem serem provenientes de uma intenção inteligente e de uma decisão deliberada; que são ajustadas ao futuro sem serem o produto de um projeto ou de um plano (BOURDIEU, 2008, p.83).

Para o autor, as aspirações referentes à educação escolar estão relacionadas às oportunidades inferidas pelos atores a partir de sua posição social, transformadas em uma espécie de “necessidade interiorizada” (BOURDIEU, 2008); devido aos recursos possuídos na decodificação do campo educacional e, portanto, à diferente rentabilidade dos investimentos educativos das classes favorecidas, as sequências de práticas por elas produzidas contribuiriam para a renovação permanente de seus privilégios.13

Nogueira (1998) mostra que, à luz da teoria de Bourdieu, autores ingleses, como Ball, Gerwitz e Bowe (1995), exploram a cultura de escolha por parte das famílias, buscando analisar suas relações com as políticas educacionais neoliberais introduzidas na Inglaterra a partir dos anos 1980. Tais políticas, apoiadas nas forças de mercado, estimulariam as competências individuais e a responsabilização dos pais pelas decisões relativas à educação escolar de seus filhos. No entanto,

12 O conceito de habitus pode ser entendido como um sistema de disposições duráveis, estruturadas

de acordo com o meio social dos sujeitos e, ao mesmo tempo, estruturador de suas práticas e representações. Não corresponderia, porém, a um conjunto inflexível de regras, mas a uma “matriz de percepções e de apreciações”. O conceito de campo refere-se, por sua vez, a “[...] sistemas simbólicos de certos espaços de posições sociais nos quais um determinado tipo de bem é produzido, consumido e classificado”, adquirindo relativa autonomia com a complexificação das sociedades e tornando-se palco de lutas pelo controle desses bens (NOGUEIRA; NOGUEIRA, 2006, p.27-36).

13 Tais recursos estariam associados a um componente específico do capital cultural, constituído

pelo conhecimento da estrutura e dos modos de funcionamento dos sistemas de ensino e, sobretudo, das hierarquias neles existentes (NOGUEIRA; NOGUEIRA, 2006, p.61-62).

segundo esses autores, as tomadas de decisão devem ser investigadas não como ações individuais, mas colocadas no quadro das ações sociais e pensadas como lutas simbólicas entre as classes pela apropriação do capital cultural.14

De fato, eles criticam alguns estudos sobre a escolha do estabelecimento de ensino devido à crença tipicamente economicista do cálculo racional, apoiada na responsabilização individual pela definição da escola e na dissociação entre esta escolha e o pertencimento a determinado meio social (BALL; GERWITZ; BOWE, 1995). É o caso das análises de Boudon, principal representante da Teoria da Escolha Racional, o qual acredita que os agentes de qualquer classe social são capazes de proceder a um cálculo racional dos riscos e dos benefícios de seus investimentos, ainda que o autor admita a existência de diferenças de cálculo segundo as posições ocupadas no espaço social. Para Ball, Gerwitz e Bowe (1995), a escolha é um processo multifacetado, mas claramente relacionado à classe social de pertencimento e ao conhecimento do código cultural necessário para decodificar o mercado educacional; seria, pois, um fenômeno socialmente construído, com significados diferentes em diferentes contextos socioculturais.

Nogueira (1998) também mostra que são frutíferos os trabalhos desenvolvidos na França nesta área, sobretudo a partir da década de 1970. Um dos teóricos que se destaca nesse sentido é Héran, que alerta para a dificuldade de utilizar a noção de escolha, a qual remete a uma expressão do desejo livre de qualquer determinação.15 Ele defende que os atos de escolha podem variar de acordo com o grupo social e com as categorias profissionais dentro de um mesmo grupo, havendo aí uma espécie de “hierarquia social das escolhas”. Por outro lado, acredita que é possível perceber o caráter relativamente ativo das tomadas de decisão, que não devem ser mecanicamente reduzidas à classe social de pertencimento.

Outras contribuições importantes advêm dos trabalhos de Ballion (1980), o qual conclui que nas últimas décadas as atitudes das famílias têm sofrido mudanças consideráveis, com estas assumindo o papel de “consumidoras”, com demandas cada vez mais diversificadas, ao passo que o mercado escolar torna-se mais complexo, impondo a necessidade crescente de competências específicas para sua

14 Uma perspectiva similar é adotada pelos franceses Langouet e Leger, os quais enfatizam os

comportamentos de tipo estratégico próprios das classes favorecidas na escolha do estabelecimento de ensino. Cf. NOGUEIRA, 1998, p.49-50.

utilização. Desse modo, a noção de estratégia está associada, para ele, a decisões em parte racionais, por meio das quais os agentes buscam maximizar seus investimentos. Ballion também alerta para as tensões vividas pelos pais na escolha do estabelecimento de ensino, uma vez que eles se preocupam tanto com as exigências sociais de sucesso escolar quanto com a realização pessoal e com a individualidade dos filhos. Essas tensões dariam origem a diferentes condutas no processo de escolha da instituição de ensino e na própria constituição da oferta escolar (NOGUEIRA, 1998).

Charlot (1996), por sua vez, sustenta que os recursos e as experiências prováveis dentro de certa posição social não influenciam diretamente os indivíduos, pois suas tomadas de posição dependem dos significados por eles atribuídos a esses elementos. Assim, acredita que, com a mudança na escala de observação, torna-se imprescindível refinar as bases de análise empregadas por Bourdieu para estudos macrossociais, ou seja, para estudos cuja escala preponderante é a societária. Para melhor compreender as tomadas de decisão no plano microssocial, em particular no que se refere à educação escolar, ele enfatiza o papel da subjetividade e da identidade do sujeito, dada a existência de construções singulares de significados ao longo da história de vida e da trajetória de cada um (NOGUEIRA; NOGUEIRA, 2006).

Mais recentemente, devido ao desenvolvimento deste campo de estudos também no Brasil, reflexões válidas são apresentadas por estudiosos que se ocupam dos processos de escolarização de diferentes estratos sociais no país. Romanelli (2000), por exemplo, chama a atenção para o caráter estruturante das tomadas de decisão das famílias, uma vez que as estratégias correspondem, para ele, a uma busca permanente de abertura e de adaptação a situações inovadoras, podendo variar no interior das unidades domésticas. Seguindo os postulados de Bourdieu, o autor defende que as estratégias não seriam nem simplesmente ações inconscientes, nem apenas frutos de cálculos racionais. Nogueira (1998), por sua vez, nota que a organização mais complexa das redes escolares e a menor homogeneidade entre as instituições de ensino na atualidade trazem consigo uma maior responsabilização das famílias por suas escolhas, cujos critérios variam de um meio social a outro e mesmo no interior da mesma condição social. Por outro lado, apesar de tais variações, a autora acredita ser possível encontrar certa regularidade

nos valores, nas disposições e nas condutas dos membros de um mesmo grupo social.

No contexto aqui apresentado, de transformações sociais e de renovação teórica nos estudos sobre a relação entre classe média e escola, há ainda um crescente interesse, verificado em trabalhos sociológicos mais recentes, pela individualização das sociedades contemporâneas (NOGUEIRA, 2010), como será explorado na seção que segue. Adquirem importância reflexões e estudos voltados aos sentidos que os indivíduos atribuem às suas condutas e às formas como as vivenciam – estudos que exploram o caráter crescentemente reflexivo das tomadas de decisão. De fato, de forma concomitante à complexificação das sociedades e de suas instituições na contemporaneidade, percebe-se uma tendência, por parte dos indivíduos, de análise das próprias práticas e de busca constante de informações nos processos de tomada de decisão. Isso não invalida a consideração de que as estratégias de escolha da escola continuam relacionadas, em certa medida, àquelas disposições já incorporadas, fruto de um ajustamento entre um habitus e um determinado mercado ou campo. Porém, dadas as relevantes mudanças ocorridas na sociedade descrita por Bourdieu no século passado, parece necessário pensar em possibilidades de ajustamento de seu quadro analítico, buscando compreender as condutas atuais dos indivíduos não apenas como expressão de um habitus diretamente associado a uma posição social ou de um ajuste “natural” das inclinações sociais ao mercado.