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II. BATI VE ORTA ANADOLU’NUN GENEL ÖZELLĠKLERĠ

II. 2. KRONOLOJĠ

Conforme veremos no terceiro capítulo, a Primeira Guerra Mundial ofereceu as circunstâncias nas quais Rocha Lima realizaria sua principal contribuição científica e se integraria de forma mais orgânica à comunidade médica alemã. Cabe aqui analisarmos apenas seu engajamento como defensor de uma visão pró-germânica do conflito junto à sociedade brasileira, num momento em que a disputa por opiniões e versões revelou-se tão acirrada quanto aquela que se travava nas trincheiras.

Fernandes Figueira. Faleceu em 1928. “Fernandes Figueira” In Sociedade Brasileira de Pediatria, disponível em

http://www.sbp.com.br/show_item.cfm?id_categoria=74&id_detalhe=1275&tipo=D, Acesso em 28/05.2011. 248 Cartas de Fernandes Figueira a Rocha Lima de 12.06.1912 e 08.08.1912. Fundo Rocha Lima, CMIBSP 249 Carta de Fernandes Figueira a Rocha Lima de 08.08.1912. Fundo Rocha Lima, CMIBSP

250 Carta de Fernandes Figueira a Rocha Lima de 13.08.1912. Fundo Rocha Lima, CMIBSP 251 Idem

As declarações de Guerra no começo de agosto de 1914 surpreenderam Rocha Lima e Prowazek no retorno de Constantinopla, para onde haviam sido destacados para estudar surto de tifo. Novamente em Hamburgo, o primeiro passou a escrever cartas a amigos brasileiros, que foram publicadas no Jornal do Commercio. Entre agosto e setembro, textos semanais de sua autoria estamparam as páginas do jornal, visando neutralizar as concepções germanófobas divulgadas pela propaganda francesa e inglesa. Qualificou esta como “campanha de inverdades, intrigas e calúnias”, motivadas pela inveja, ressentimento e preocupação com o rápido progresso da Alemanha.”252 França, Inglaterra e Rússia teriam por objetivo conseguir, através da força, aquilo que não haviam atingido em tempos de paz, que era impedir aquela marcha de desenvolvimento. De acordo com Rocha Lima, foi dele próprio a iniciativa de publicar aqueles textos na imprensa. Não foi possível apurar se houve incentivo de alguma organização envolvida com a propaganda germânica, como organizações teuto-brasileiras.

Nosso personagem justificou seu engajamento naquela tarefa pela necessidade de contrabalançar a hegemonia das visões divulgadas pelas propagandas francesa e inglesa, que tinham grande penetração na sociedade letrada brasileira. Segundo ele, os laços com a cultura francesa impunham-se desde a infância. Citou ele próprio como exemplo. Dessa forma, os brasileiros tornavam-se submetidos a uma visão da Guerra refratada pela ótica dos aliados e, portanto, contrária à Alemanha. O ódio “artificial” instilado pelos franceses contra este país, fruto do ressentimento com a derrota em 1870, argumentou Rocha Lima, era algo que vinha sendo cultivado antes mesmo da deflagração da Guerra. O desconhecimento que seus compatriotas tinham da língua, organização, ideologia e modus operandi da sociedade e cultura alemãs, facilitava a recepção às idéias preconceituosas divulgadas pela propaganda francesa. “A atmosfera intelectual do nosso país é, incontestavelmente, um produto quase puro da literatura francesa (...) A nossa literatura e nossa imprensa refletem constantemente idéias francesas”, escreveu na carta de 06 de dezembro de 1914.253 Num contexto de conflito, “nossa alma está sempre pronta a vibrar em uníssono com a alma francesa”, acrescentou. Ao dominar a imprensa de quase todo o mundo, a França era favorecida na divulgação de suas versões dos fatos, que segundo o cientista, eram completamente adulteradas, criando “lendas odiosas em torno de acontecimentos justificáveis”. Um dos objetivos dessa propaganda, era “impressionar os povos vassalos semi-selvagens ou excitar as classes mais baixas do próprio país”. Recorria ao nativismo dos brasileiros para apontar que apenas o acesso a diferentes

252 De Hamburgo, 20.08.1914. Texto datilografado. Fundo Rocha Lima, CMIBSP. 253 De Hamburgo 06. 12.1914. Texto datilografado. Fundo Rocha Lima, CMIBSP.

visões da Guerra poderia romper a “vassalagem” intelectual do país em relação aos franceses. A tarefa de escrever aos brasileiros foi, então, legitimada pelo objetivo de fornecer uma versão “verdadeira” do decurso da guerra e das motivações que impeliam as tropas, permitindo que seus patrícios formassem por si um juízo “que não seja exclusivamente baseado nas notícias que os inimigos da Alemanha nos fornecem.” “Censure-se, condene-se e combata-se uma tal política, mas não se repitam imputações caluniosas dos agitadores da plebe intelectual do mundo”, exortou aos leitores, incentivando interpretações independentes das privilegiadas pelos franceses.254 Ele disse perceber uma tendência a escolherem o Brasil como “objeto de demonstração da influência dos Aliados sobre a América do Sul.”255 Considerava esta uma posição muito desabonadora para seu país, que era assim reduzido à servidão intelectual. “O meu desejo é unicamente que a campanha anti-alemã, se vitoriosa, tenha ao menos um nível elevado e digno de nossa pátria”, asseverou.256

Nos textos divulgados por Rocha Lima, a Alemanha aparece como vítima dos arranjos de poder das demais potências européias, tendo sido “arrastada” à Guerra pela aliança com o Império Austro-Húngaro. Em sua visão, a Inglaterra aproveitou a oportunidade que há muito esperava para aniquilar o império que despontava como seu principal oponente e desafiador. A responsabilidade pelo conflito recaía portanto nas mãos dos ingleses e russos, que conscientes do sistema de alianças, decidiram mesmo assim mobilizar suas tropas em auxílio à Sérvia. A política européia era catalisada, de acordo com o cientista, pelo princípio do “Delenda est germania” – do extermínio da Alemanha – fomentado pela França, Inglaterra e Rússia. A primeira, motivada pelo setimento revanchista, a segunda pelas ambições de hegemonia e, a terceira, pelo objetivo de dominar o estreito de Dardanelos. “A estrada comum que conduz ao fim almejado passa por Berlim”, escreveu.257 A manutenção da paz não teria dependido, portanto, das manobras do Kaiser, como faria crer a propaganda aliada. Na acepção de Rocha Lima, a maior culpada era a Rússia, país de “povo inculto”, no qual “vidas, liberdades e haveres só tem valor entre as classes dominantes.”258

Ao contrário do que se divulgava – argumentou o brasileiro – o povo alemão não era belicoso, mas sim pacífico. Haveriam apenas se juntado ao seu governo mediante a ameaça de

254 Idem. 255 Idem. 256 Idem

257 De Hamburgo, 20.08.1914 e de 07.09.1914. Texto datilografado. Fundo Rocha Lima, CMIBSP. 258 De Hamburgo, 20.08.1914. Texto datilografado. Fundo Rocha Lima, CMIBSP.

que sua pátria fosse destruída e humilhada. A Guerra não era artifício do imperador e de sua “camarilha militarizada”, que a teriam imposto aos demais segmentos da sociedade alemã, mas resultado do sacrifício coletivo de um povo que decidira pegar em armas, plenamente confiantes na capacidade de liderança dos seus superiores. A confiança mútua entre a sociedade e seu governo e o senso de dever dos alemães seriam traços, que somados à “alta força moral” dos militares, garantiriam a força do Reich no enfrentamento de seus adversários.

Como evidência de que não era a Alemanha que havia levado a Europa à Guerra, Rocha Lima apontou que o povo alemão, “habituado a medir friamente os prós e os contras das questões que o interessam”, era consciente da superioridade numérica e militar de seus oponentes. Eles estariam também conscientes de que nenhuma vantagem poderiam obter do conflito. A única ambição que poderiam ter - o aumento de suas possessões coloniais - seria impedida pela Inglaterra, que contava com força naval superior.

Rocha Lima apontou repetidas vezes para uma diferença nos métodos de divulgação das informações da Guerra. Enquanto a França trombetearia vitórias, ridicularizaria o inimigo e distorceria o andamento das operações militares a seu favor, a Alemanha limitar-se-ia a comunicados simples, sóbrios e diretos, mas sempre pautados pela exatidão, mesmo quando sofria revezes no campo de batalha. A consequência disso seria que o povo alemão confiaria nas comunicações oficiais do seu governo, enquanto a imprensa seguia-os à risca, reinando dessa forma uma “intensa monotonia” no noticiário da Guerra. O pesquisador do

Tropeninstitut procurou contrariar ainda a idéia de que o exército alemão encontrava-se em estado de fadiga e extenuado e de que as “reservas” encontravam-se no final. Pelo contrário – argumentou ele – número cada vez mais avultado de membros da sociedade civil alistavam-se nas tropas. A força moral do povo alemão, alvo de elogios entusiasmados por parte do autor, garantia a superioridade das tropas de Guilherme II, mesmo estando em número bastante inferior ao das tropas da Entente. Reiteradas vezes, Rocha Lima sublinhou o fato de os alemães, não apenas estarem em menor número, mas também de lutarem em diversas frentes – contra os franceses, belgas e ingleses, de um lado e contra os russos, de outro. “Não é assombrosa a energia e bravura com que este povo se bate contra o mundo quase que inteiro?”, questionou.259 Destacou também o fato dos adversários da Alemanha empregarem nos esforços de guerra tropas de negros, índios e demais povos submetidos ao jugo colonial

das potências européias aliadas.260 Esse foi um aspecto explorado pela propaganda alemã como meio de desmoralizar a França e seus aliados. É o tema de um texto distribuído pela legação alemã no Brasil, que compôs a biblioteca de Oswaldo Cruz.261 Evidência aduzida por Rocha Lima da capacidade de luta e resistência dos alemães seria o fato deles conseguirem manter seu território livre das operações de Guerra, batalhando apenas em território inimigo.262

Um ponto nevrálgico que teve de ser enfrentado por Rocha Lima foi o da divulgação de supostos atos de barbárie perpetrados pelos alemães contra a população belga. Segundo ele, relatórios dos próprios oficiais franceses registravam os bons procedimentos de conduta dos soldados alemães no teatro de guerra. Ele procurou convencer que a Bélgica não fora mera vítima da invasão alemã, mas há tempos vinha se preparando para o conflito como “aliado secreto da França”.263 Algumas crueldades que teriam sido cometidas pelos soldados alemães, como o assassinato de médicos e enfermeiros e corte de orelhas de feridos, foram desmentidas por ele. Enquanto os alemães procederiam corretamente no campo de batalha – prosseguiu – os franceses e belgas adotariam métodos traiçoeiros, como o saque das regiões conquistadas e a utilização de franco-atiradores escondidos entre a população civil. O único método que restaria aos alemães como “punição exemplar” seria a destruição dos bairros ou cidades de onde provinham os ataques.264

A questão das supostas barbáries cometidas pelos alemães na Bélgica, intensamente exploradas pela propaganda francesa, rendeu polêmica com o renomado catedrático da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, Bruno Álvares da Silva Lobo. Ele escreveu de Paris, em 29 de janeiro de 1915, carta divulgada pela imprensa brasileira com título “A todas as senhoras brasileiras, sobretudo às que têm filhos!”265 Bruno Lobo dirigia-se diretamente à Rocha Lima na referida carta. Uma vez que o “ilustrado colega” havia, em artigos sucessivos no Jornal do Commercio, procurado “atenuar as violências a barbaridades cometidas pelos soldados e oficiais do Kaiser”, pedia sua opinião, “e ao mesmo tempo, o obséquio de tornar

260 De Hamburgo, 18.09.1914. Texto datilografado. Fundo Rocha Lima,CMIBSP.

261 “O emprego, contrário ao Direito Internacional, de tropas de cor, não civilizadas, no Theatro euorpeu da Grande Guerra, por parte da Inglaterra e da França” – Traducção. Ministério das Relações Exteriores, Berlim, 1915. Biblioteca da Casa de Oswaldo Cruz – Coleção Oswaldo Cruz, F. 752.

262 De Hamburgo, 06.12.1914. Texto datilografado. Fundo Rocha Lima, CMIBSP. 263 De Hamburgo, 18.09.1914. Texto datilografado. Fundo Rocha Lima, CMIBSP. 264 De Hamburgo, 05.10.1914. Texto datilografado. Fundo Rocha Lima, CMIBSP.

265 Lobo, Bruno.”A todas as senhoras brasileiras, sobretudo as que têm filhos”, Jornal do Commercio do Rio de Janeiro de 24 de Fevereiro de 1915. Fundo Rocha Lima, CMIBSP.

conhecido dos intelectuais alemães tão aviltante proceder”. E pôs-se a enumerar, em seguida, as atrocidades perpetradas pelos militares alemães na Bélgica e norte da França. Além dos saques, o professor relatou violações de mulheres, que teriam sido obrigadas a ter relações com os soldados. “As mulheres, na sua maioria, nada puderam fazer. Submeteram-se à escravidão e foram vítimas das mais revoltantes brutalidades”, afirmou Lobo. De acordo com ele, muitas delas ficaram grávidas, enquanto outras fugiram. Algumas foram raptadas para atuar como serviçais e as crianças, para servir como reféns. A grande preocupação era com as consequências da gravidez indesejada: “Que fazer? Deixar que no seu ventre se desenvolva o fruto de tão grande infâmia? E os maridos? Qual a situação do filho tão irregularmente gerado? (...) Devem tais mães deixar nascer os intrusos? E o pai? E a herança dos maus instintos do seu gerador?”, indagou. Estava fora de questão o aborto, desaconselhado por qualquer indivíduo “bem formado e normalmente constituído.” De forma provocativa, Lobo solicitou que Rocha Lima consultasse os intelectuais alemães acerca do problema.

A reprodução do texto de Bruno Lobo no jornal O Imparcial foi enviada a Rocha Lima por J. Kastrup, do Rio de Janeiro, que em carta afirmou que o médico devia sofrer de “desarranjo mental”. Ele não era do círculo de relações do cientista: “Queira desculpar a liberdade, mas o assunto é de tal gravidade para a reputação da Alemanha inteira, que eu não posso deixar de solicitar seu suporte”. Perguntou quando ele responderia ao colega e qual seria o teor da réplica.266 De Santa Catarina, Emilio Strauch também enviou ao nosso personagem cópia do artigo de Bruno Lobo. Não pertencia à rede de seus conhecidos, mas sentira imenso orgulho – afirmou – quando esteve em Hamburgo em 1913, e viu o nome do cientista “em relevo”. Sentiu-se no dever de enviar o artigo no qual seu nome aparecia, de modo a poder responder aos ataques do professor da Faculdade de Medicina.267

Meses depois, o Diario Allemão publicou em primeira página a resposta de Rocha Lima, com o título “O catedrático da calúnia”.268 Segundo ele, a carta de Bruno Lobo era uma das circulares que a França espalhava por todo o mundo “como a expressão da alma dos fracos, procurando na comiseração dos outros, na piedade dos fortes, o valimento que às suas armas falta, para enfrentar as colunas disciplinadas e fortes, que marcham serenas sob os obuzes da calúnia e a metralha miserável da intriga infamante.” A estratégia da propaganda,

266 Carta de J. Kastrup a Rocha Lima de 23.02.1915. Fundo Rocha Lima, CMIBSP. 267 Carta de Emilio Strauch a Rocha Lima de 29.03.1915. Fundo Rocha Lima, CMIBSP.

268 Rocha Lima, H. da “O cathedratico da calumnia”, Diario Allemão (Supplemento em portuguez do Deutsche Zeitung de São Paulo), 09.05.1915. Fundo Rocha Lima, CMIBSP.

da qual a carta de Bruno Lobo deveria ser considerada como exemplar, foi caracterizada pelo pesquisador como reação à “bravura” , “heroísmo” e resistência que os alemães vinham demonstrando nos combates. Acuados, os franceses e seus aliados carregariam nas tintas em sua campanha de difamação e calúnia. “Encurralados nas trincheiras”, restaria-lhes espalhar pelo mundo “o clamor das suas lástimas”. “É a propaganda do medo, é o grito apavorado de quem se defende de trás de uma tocaia e tenta, quando vê perdido, conquistar o auxílio de quem passa, chorando-lhe aos ouvidos e ao coração”. Procuravam agora – prosseguiu – apelar para a sensibilidade feminina. Em contrapartida, a Alemanha manteria a calma, concentrando- se nas operações militares. “A esperança da vitória continua a encher a alma dos seus soldados e o cérebro dos seus generais”, emendou, não obstante estar submetida ao ataque em todos os seus flancos.269

Rocha Lima afirmou que a Guerra tratava-se de um cataclisma étnico, que opunha a “alma latina” à “alma germânica”. Era impossível manter-se neutro perante o embate, argumentou: “Só os chimpanzés e os gorilas da África podem continuar a sua vida vegetativa sem um grito de horror e um olhar interessado. Do interesse do olhar, aos poucos, nasce a preferência”. Sublinhou que a sua, a princípio, havia sido pela França, em virtude da identidade cultural latina. Mas diante da interferência da Inglaterra, motivada por desígnios “cúpidos” e da Rússia “bárbara”, inclinou-se em favor da Alemanha. Ainda mais vendo a França, “democrática e liberal”, “beijar sem repugnância”, as faces da Rússia autocrática. Sugeriu como tremenda covardia o consórcio de nações que atacavam a Alemanha: “Na rua, quando eu passo e vejo alguém atacado por seis ou oito, não me aproveito igualmente para lhe cuspir à cara (...), paro, defendo e auxilio ao que luta só”. 270

Em adendo à resposta de Rocha Lima, o Diario Allemão exaltou sua lógica e tom de segurança nos textos veiculados no Jornal do Commercio. Em semelhança aos textos de outros, como Oliveira Lima e Visconde de São Boaventura, o de Rocha Lima era documentado, baseado em dados. Em contrapartida, a carta de Bruno Lobo seria marcada pela “falta assombrosa de critério (...) do lobo injusto que à ovelha acusa, sem base e sem razão, pelo critério exclusivo do apetite de uma predileção”. O autor ressalta que não havia nenhum dado que pudesse comprovar os supostos atos de barbárie alemã. Tratar-se-iam de calúnias divulgadas pelos aliados, que dominavam o telégrafo. Por outro lado, seriam bem atestadas as

269 Idem. 270 Idem.

barbáries cometidas por estes, de isolar a população alemã, matando-a de fome, e a sugestão dada pelo senador francês Martin e acatada por Bruno Lobo e Érico Coelho, de provocar o aborto das mulheres que estavam grávidas de soldados alemães. Isto sim – concluiu o texto – “não é um grave insulto aos vossos corações; que alguém, catedrático ou não, apele para os vossos sentimentos para que patrocineis o aborto e o massacre de inocentes?”271

Se por um lado o posicionamento público de Rocha Lima provocou controvérsia com Bruno Lobo e certamente despertou a antipatia em muitos de seus “patrícios”, por outro recebeu apoio. A Câmara de Comércio Teuto-Brasileira (Deutsch-Brasilianischer

Handelsverband) agradeceu à Rocha Lima pelas “oportunas expressões” e colocou seus serviços à disposição do cientista.272 Em janeiro de 1915, a tradutora para o português do “Hamburger Nachrichten” (Notícias de Hamburgo), a brasileira Lilia Emil, que vivia em Hamburgo, elogiou as colocações do pesquisador do Tropeninstitut e colocou o jornal à disposição para “expandir suas idéias”.273

Alguns brasileiros que, como Rocha Lima, não tinham ascendência germânica, compartilharam de suas idéias referentes ao papel da Alemanha na Guerra. O médico Raul de Almeida Magalhães, com quem havia estabelecido contato nos tempos de Manguinhos, escreveu-lhe em julho de 1915, exultante com a possível tomada de Varsóvia pelas tropas do Kaiser. “Os triunfos alemães têm desapontado alguns imbecis, que ainda supunham que as avalanches russas pudessem chegar até Berlim e que os cossacos pudessem amarrar seus cavalos nas tílias da Unten-den-Linden”, escreveu. Informou, ainda, que a reação por parte dos simpáticos à Alemanha havia crescido, tendo sido fundada uma Liga Pró-Germânica. Por outro lado, os jornais amplificavam o mote do “perigo alemão” no sul do país, recrudescendo as desconfianças dos brasileiros em relação às intenções do Reich.274 Quando recebeu aquelas linhas, nosso personagem estava mergulhado nas pesquisas sobre o tifo exantemático, conforme veremos no próximo capítulo. Ele havia contraído a doença, que matou o colega Prowazek, distanciando-se, por conta disso, do envolvimento mais direto na propaganda pró- alemã.

271 Idem. Sobre o imaginário sobre o “perigo alemão” no sul do país e a postura das comunidades teuto- brasileiras ver Gertz, 1991.

272 Carta da Câmara de Comércio Teuto-Brasileira a Rocha Lima de 23.12.1914. Fundo Rocha Lima, CMIBSP. 273 Carta de Lilia Emil a Rocha Lima de 26.01.1915. Fundo Rocha Lima, CMIBSP.

Em agosto de 1915, Rocha Lima, publicou “Um ano de Guerra”, no qual fez um balanço do conflito, que refletiu o otimismo reinante entre os alemães: “É indescritível a sensação elevada de conforto moral de quem tem a felicidade de compreender e sentir a atmosfera de dedicação sem limites, de heroísmo estóico, de caridade sublime e deconfiança serena que há um ano e meio se respira na tão caluniada Alemanha”.275 No texto fez algumas retificações, que sugerem que as críticas tiveram dimensão bem maior do que da controvérsia acima mencionada. Salientou que jamais afirmara que a Alemanha venceria ou deveria vencer a Guerra, nem havia tentado convencer da vantagem dessa vitória. Tampouco teria preconizado maior simpatia por aquele país do que pelos seus inimigos. Mas reforçou a profunda admiração que sentia por aquele povo de “virtudes cívicas inexcedíveis”. Ela se

Benzer Belgeler