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O neoliberalismo entrou na cena brasileira, somente em 1990, no Governo de Fernando Collor de Mello, constituindo o que Behring (2002) chamou de ―neoliberalismo retardatário‖, considerando que em outros países apresentava-se desde o final da década de 1970. Foi nos governos de Margareth Thatcher (1979),
na Inglaterra e de Ronald Reagan (1982) nos Estados Unidos que se consolidou o neoliberalismo em oposição ao Estado de Bem Estar Social.
No Brasil, Collor venceu a primeira eleição direta para presidente em 1989, derrotando Luís Inácio Lula da Silva, candidato do Partido dos Trabalhadores (PT), e, assumiu no dia 15 de março de 1990, sufocando o processo de democratização pela implementação acelerada das estratégias neoliberais – sua maior intervenção – principalmente, através de uma política industrial fundada na abertura comercial facilitada para capitais externos. No Brasil,
a política neoliberal [...] esteve dirigida a permitir uma maior integração do país na lógica econômica internacional, transformando num espaço permeável a globalização. Tudo isso no entendimento de que se trata da única via capaz, nos dias de hoje de conduzir ao progresso e de tornar possível a modernidade (CARCANHOLO, 2002, p.87).
A década de 1980 foi marcada por uma grave crise econômica em decorrência do endividamento externo, não somente no Brasil, mas em vários países da América Latina. Com a crise da dívida e a possibilidade de colapso financeiro internacional, impõe-se a necessidade dos ajustes fiscais e dos planos de estabilização econômica a nível global. ―Houve uma espécie de coordenação da reestruturação industrial e financeira nos países centrais, cujo custo foi pago duramente pela periferia‖ (BEHRING, 2003, p. 136), visto que os benefícios ficaram nas economias centrais.
Portanto, em síntese, de um ponto de vista econômico, têm-se, na entrada dos anos de 1990, um país derruído pela inflação – [...] e que será o fermento para possibilidade histórica da hegemonia neoliberal; paralisado pelo baixo nível de investimento privado e público; sem solução consistente para o problema do endividamento; e com uma situação social gravíssima (BEHRING, 2003. p. 137).
Desse modo, as atenções do Governo Collor se concentraram no plano econômico. Algumas medidas tomadas no primeiro dia do governo foram: bloqueio de grande parte do dinheiro que pessoas e empresas tinham nos bancos, com o propósito de controlar a inflação. Além do objetivo de conter a inflação faziam parte do plano econômico de Collor: privatização de empresas estatais; fechamento de órgãos do governo e vendas de propriedades do Estado; abertura da economia ao capital externo e às importações de produtos estrangeiros; e demissão de
funcionários públicos (PILETTI, 2002). Como apreendemos dessas medidas as políticas, efetivadas em seu governo eram de cunho notadamente neoliberais.
No que tange às políticas sociais, as ações interligavam redução nos gastos sociais na esfera pública e privatização de setores mais rentáveis, como é típico das políticas neoliberais. Entre suas estratégias destacaram-se: a complementação da previdência pública básica, por esquemas públicos e privados voltados aos setores de média e alta renda; inexistência de prioridade para implementação do Sistema Único de Saúde (SUS); e deslocamento da política de Educação para a área de reestruturação competitiva da economia (COSTA, 2000).
É importante ressaltar as diversas restrições nesse governo para a Seguridade Social, recém conquistada e colocada em xeque pelas inúmeras ações incompatíveis com o debate público do tema e com os avanços da Carta Magna. Não é de se admirar, portanto, que por esse governo tenham sido vetados a Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS) que regulamentava a política de Assistência e os projetos relativos ao plano de benefícios previdenciários e à organização e custeio da Seguridade Social, bem como editou medidas provisórias, desvinculando os benefícios previdenciários do salário mínimo.
No âmbito social, o governo Collor caracterizou-se por uma crescente subordinação dos gastos sociais aos ajustes econômicos, provocando crescimento do desemprego e o declínio dos níveis de renda, comprometendo com isso, inclusive, o desempenho das receitas públicas.
Conforme tabela abaixo, analisamos a queda nos gastos sociais em vários setores das políticas sociais durante o governo Collor.
Quadro I
Gasto social Federal no Governo Collor34
Setores 1990 1991 1992
Educação e cultura 7,8 4,9 4,0
Habitação e Urbanismo 0,1 0,2 0,1
Saúde 4,1 7,4 6,70
Saneamento 0,1 0,3 0,4
Proteção ao meio ambiente 0,1 0,0 0,1
Trabalho 3,9 3,6 4,3
34 Foram feitas algumas alterações na forma de apresentação do quadro, tais como, mudanças no
Assistência Social 1,6 1,7 1,4
Previdência 36,2 20,2 20,6
Total 53,9 38,3 37,5
FONTE: UNICEF (apud COSTA, 2000)
De acordo com o quadro acima, apreendemos que durante o governo Collor os gastos com o social sofreram uma queda nos anos subseqüentes ou a elevação foi irrisória. No que se refere às políticas constituintes da Seguridade Social, a Saúde contou com uma pequena elevação de 1990 para 1991, porém sofreu uma queda em 1992. A Assistência Social, também, teve um crescimento pouco significativo em 1991 e caiu novamente em 1992. E, a Previdência Social sofreu uma queda significativa de 1990 a 1992. Ao analisar todos os gastos com as políticas sociais, em seu conjunto, apreendemos que o declínio foi constante, em todos os anos, sendo de grande propensão de 1990 (53,8) para 1991 (38,3), voltando a cair em 1992 (37,5).
A iniciativa neoliberalizante de Collor de Mello foi abalada pela grave recessão, diminuição da atividade econômica, desemprego, e principalmente, pelos escândalos de corrupção em seu governo.
Havia prometido governar para os ‗descamisados‘ e ‗pés descalços‘, mas não houve redistribuição de renda; jurou acabar com os ‗marajás‘ (funcionários públicos com altos salários e que pouco trabalhavam) e colocar os corruptos na cadeia, mas ele mesmo passou a usufruir de vantagens de uma rede de corrupção; comprometeu-se a pagar dignamente os aposentados, mas negou-lhes os reajustes devidos, levando-os às ruas, em passeatas e outras manifestações públicas, para exigir o respeito aos seus direitos (PILETTI, 2002, p. 134).
As denúncias contra o governo se avolumaram e milhares de pessoas no país se mobilizaram em um protesto, cujo grito de ordem foi: ―Fora, Collor‖35. Em 29
de dezembro de 1992, já afastado para julgamento, percebendo que seria derrotado, Collor renunciou ao seu mandato de presidente da República.
Assumiu a presidência da República, Itamar Franco (1993-1994). O principal foco desse governo foi tentar baixar a inflação que tinha voltado a subir, criando uma
35 Muitos estudantes participaram desse movimento pintando o rosto com as cores da bandeira
moeda estável. Nesse sentido, foi elaborado o Plano Real36, em 1994, passando a
vigorar em etapas, sendo capitaneado pelo então Ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso.
Com promessas de estabilização econômica, FHC aproveitou a oportunidade e alicerçou as bases para sua vitória nas eleições que se dariam em breve, realizando uma chantagem eleitoral: era necessário votar no candidato do Plano ou colocava-se em risco a estabilidade da moeda.
Os brasileiros traumatizados com uma inflação de 50% ao mês e esgotados com a incapacidade de planejar sua vida cotidiana, votaram na moeda e na promessa de que, com a estabilidade, viriam o crescimento e dias melhores (BEHRING, 2003, p. 155).
Entretanto, as esperanças que foram colocadas no Plano Real e também no Governo FHC, foram pouco a pouco, se esvaindo. Segundo Behring (2003) o Plano Real conseguiu manter a inflação sob controle, mas por outro lado, trouxe outros prejuízos, dos quais se destacam o aumento do desemprego, em virtude das altas taxas de juros – que favoreceram a queda no investimento produtivo – e a abertura comercial, que incentivou a competitividade e a busca das empresas por novas tecnologias poupadoras de mão-de-obra.
Como o Governo FHC (1995/1998 e 1999/2002) se encarregou de levar avante as propostas neoliberais do governo Collor, argumentou-se a necessidade de um ajuste fiscal, com elevada taxa de juros, para que houvesse a eliminação do suposto déficit público – utilizado também para explicar a desvalorização do real – e um corte nos gastos sociais para pagar a dívida pública. Isso acabou comprometendo a prestação de serviços sociais, principalmente, nos estados e municípios e também forçou os estados a privatizar empresas públicas, devido ao arrocho fiscal imposto a essas unidades da federação.
Lesbaupin (1999, p. 7) sintetiza os retrocessos vividos, somente nos quatro primeiro anos do governo FHC no país:
[...] o Brasil é um país imerso numa grave crise econômica, em pleno processo recessivo, submetido diretamente ao controle do Fundo Monetário
36
―O Plano Real consistiu na adoção de uma nova moeda, o real, que substituiu o cruzeiro real, em vigor no início do plano; o objetivo era manter a estabilidade da moeda, isto é, fazer com que o seu valor permanecesse o mesmo ou que variasse pouco‖ (PILETTI, 2002, p. 135).
Internacional (FMI), tendo privatizado quase todas as suas empresas estatais, [...], tendo perdido grande parte de suas reservas cambiais, com um nível de desemprego alarmante e crescente, com uma evidente queda de renda salarial média e com acentuada deterioração dos serviços públicos de saúde, de educação, de assistência, de previdência, de moradia.
No Brasil a política neoliberal tem investido fortemente na organização de uma contrarreforma do Estado, iniciada também no governo FHC, com o suposto objetivo de vencer a crise fiscal do Estado, controlar a dívida pública e tornar eficaz a intervenção estatal, especialmente na área social. Contudo não têm sido esses os resultados obtidos, haja vista que, para concretizar esses objetivos, o Estado tem realizado uma série de estratégias que dão ênfase ao aspecto econômico em detrimento do social.
Neste sentido, o Estado tem aberto paulatinamente atividades econômicas rentáveis, que eram de sua responsabilidade, aos investimentos privados, ocasionando outras problemáticas, pois para se criar demanda para os serviços privados é indispensável que os serviços fornecidos pelo setor público sejam insuficientes ou de má qualidade. O Estado passou, assim, a fazer cortes nos gastos sociais públicos, o que gerou, por sua vez, deterioração e precarização dos serviços e crescente desprestígio das instituições públicas. Além disso, o Estado transferiu muito dos recursos públicos para o pagamento de juros da dívida pública, à custa das já precárias condições de vida da maioria da população (LAURELL, 2002).
Dessa forma, a ação do Estado, na área social, foi focalizada na compra de serviços-benefícios do setor privado, com fundos públicos, por meio do credenciamento desses serviços, deixando de investir no setor público; no incremento da indústria de seguros privados, voltada para aqueles que podem pagar; e na centralização dos gastos sociais em programas seletivos voltados aos pobres.
Desse modo, Behring (2003), questiona a utilização do termo reforma do Estado, para explicar essas ações do Estado.
Mesmo que o termo reforma seja apropriado pelo projeto em curso no país ao se auto-referir, partirei da perspectiva de que se está diante de uma apropriação indébita e fortemente ideológica da idéia reformista, a qual é destituída de seu conteúdo progressista e submetida ao uso pragmático, como se qualquer mudança significasse uma reforma, não importando seu sentido, suas conseqüências sociais e direção política (BEHRING, 2003, p. 128).
Behring (2002) salienta que o conceito de reforma do Estado, em seu sentido original, é uma bandeira da esquerda, pois ganhou sentido no debate do movimento operário socialista e nas suas estratégias revolucionárias, contudo a contrarreforma do Estado, presente nesse contexto, tenciona passar por progressista aquilo que não o é, a não ser no discurso, visto que retira, cada vez mais, direitos que foram conquistados pelas classes trabalhadoras e muda substancialmente o caráter do Estado como principal garantidor das políticas sociais. Assim, nesse contexto, não se pode falar de reforma, em seu sentido pleno, mas de uma contrarreforma do Estado, tendo em vista que, as medidas até então preconizadas, demonstram um retrocesso social que beneficia apenas uma minoria (BEHRING, 2002). Portanto, para que se consiga empreender reformas democráticas, num país como o Brasil, é indispensável a ultrapassagem do Estado de direito burguês.
Seguindo esta argumentação é que utilizaremos o termo contrarreforma do Estado nesse trabalho ao tratarmos das mudanças que tem se dado no Estado brasileiro, especialmente, a partir dos anos 1990, sob a égide neoliberal.
A contrarreforma do Estado brasileiro se deu processualmente – fato que até hoje ocorre – por meio de diversas medidas tomadas pelo Estado através de seus governantes. Como já foi assinalado, o Governo FHC foi extremamente relevante para o desenvolvimento dessa ação neoliberal, sendo que seu projeto de governo incorporou a contrarreforma e consubstanciou-a no Plano Diretor da Reforma do Estado do Ministério da Administração da Reforma do Estado (PDRE-MARE).
Behring (2003) abordou muitos aspectos essenciais e expressivos desse Plano. O PDRE foi aprovado na Câmara da Reforma do Estado – órgão criado para discutir e aprovar os termos necessários a contrarreforma do Estado – pelo MARE. Como justificativa para sua elaboração e implementação está a crise do Estado, a qual, no plano é resumida à crise fiscal, com o objetivo de resgatar sua autonomia financeira e a capacidade de implementar políticas públicas. Para tanto, a contrarreforma deve
[...] seguir por alguns caminhos: ajuste fiscal duradouro; reformas
econômicas, orientadas para o mercado – abertura comercial e
privatizações –, acompanhadas de uma política industrial e tecnológica que fortaleça a competitividade da indústria nacional; reforma da previdência; inovação dos instrumentos de política social; e reforma do aparelho do Estado, aumentando sua eficiência (BEHRING, 2003, p. 178).
O Plano traz, ainda, a proposta de redefinição do papel do Estado, defendendo ser necessária a transferência para o setor privado de atividades que podem ser controladas pelo mercado – antes de responsabilidade do Estado – ou mesmo a descentralização de serviços. Esta descentralização deve acontecer, por meio de parcerias com entidades da sociedade sem envolver o poder do Estado, pelo menos diretamente, visto que, comumente, são subsidiadas por ele. O processo de privatização e transferência de responsabilidade é caracterizada no PDRE, como publicização. Isso confirma o que disse Gusmão (2002, p. 97)
Com um discurso ideológico, a contra-reforma desmontou o serviço público e tem levado ao esvaziamento das responsabilidades públicas estatais, para entregá-las à iniciativa privada e a seus interesses, em resposta às orientações do grande capital, retirando direitos da classe trabalhadora – servidores e usuários.
O PDRE procurou, também, provar a tese de que a Constituição de 1988 tirou a capacidade operacional do governo e aumentou seu custo. Desse modo, colocou o importante período de transição democrática, expresso nessa Constituição, como um momento de retrocesso e entrave ao desenvolvimento. Inclusive, o conceito de Seguridade Social, formado pelo tripé Saúde, Assistência Social e Previdência Social foi ignorado, sendo cada uma de suas políticas vistas de modo desarticulado e isolado.
A contrarreforma do Estado, apresentada por esse plano e a forma como tem sido conduzida sugerem-nos a visão simplista de que, a mesma é necessária e irreversível, quando na realidade representa uma escolha político econômica, ao estilo das classes dominantes, e não um caminho natural, que impreterivelmente precisa ser seguido, mediante os imperativos econômicos (BEHRING, 2003).
Entretanto, essa escolha traz diferenças significativas, posto que destrói os poucos avanços que foram conquistados no cenário brasileiro, principalmente, no que diz respeito aos direitos sociais. Mais especificamente, tem-se desmontado a proposta de Seguridade Social inaugurado pela Constituição de 1988.
O atual governo representado por Luiz Inácio Lula da Silva – em seus dois mandatos (2003-2006/2007-2010)37 – tem dado continuidade a esse processo de
37
Faz-se relevante salientar que não analisaremos ambos os mandatos do governo Lula, muito menos a densidade de suas atuações, mas nos deteremos ao período inicial de sua ascensão ao poder, principalmente em suas ações para efetivar a contrarreforma da Previdência Social em 2003,
contrarreforma do Estado. É bem verdade que Lula chegou ao governo, tendo um grande desafio: reverter o que ―setores de esquerda chamaram de herança maldita de FHC‖ 38 (NETTO, 2004) – pelo menos, esperava-se isso. Entretanto não foi isso
que ocorreu.
Lula alcançou a posição de presidente do país, com uma consagrada vitória, claro que devido a uma aliança de forças sociais e políticas. Coalizão essa que conforme Netto (2004, p. 11) era inevitável e necessária.
Inevitável porque havia de envolver representantes de partidos e forças sociais que constituíram a base eleitoral e social de Luiz Inácio Lula da Silva no processo de 2002 e necessário – e este é o ponto mais decisivo – porque nenhum partido ou força política poderia enfrentar sozinho, apoiados apenas em seus próprios suportes, a herança da era FHC.
Em virtude dessa coalizão era necessária uma intensa negociação para se manter as promessas e contratos feitos. Seria nessas negociações, com base nas mobilizações das forças sociais, que o PT poderia ter vencido as condicionantes, impostas pelo capital. Todavia, os primeiros meses de governo já assinalaram que o ―Executivo chefiado por Luiz Inácio Lula da Silva não se alterou senão para maior abrangência, o comando do capital parasitário-financeiro‖ (NETTO, 2004, p. 12-13). Iasi (2005, p. 525) em seu estudo sobre as mudanças ocorridas no PT, nos faz um questionamento importante:
Como compreender um partido de trabalhadores que finalmente chega ao governo não mais para realizar um governo democrático e popular que implementaria reformas estruturais que se confundiam com o início de uma transição socialista, nem mesmo para executar um projeto anticapitalista, antimonopolista, antilatifundiárrio e antimperialista, mas para aplicar uma ruptura necessária com o neoliberalismo e, ao chegar ao governo, mantém, naquilo que é essencial, o modelo econômico neoliberal, o que o impede de aplicar até mesmo as modestas reformas que um ano antes considerava urgentes e inadiáveis?
O presidente nacional do PT, José Genoino (apud IASI, 2005, 526) tentou explicar essa mudança, afirmando que, ―projeto político não pode ser entendido como algo que necessariamente se realizará. Trata-se apenas de um dever-ser, de
especialmente a postura da CUT diante de um governo supostamente de esquerda.
38 Já vimos algumas dessas heranças, ainda nesse item: privatização, aumento da dívida do setor
uma das possibilidades em relação ao futuro‖. Contudo anos antes, era ele mesmo que afirmava que
a substância rebelde que constitui o PT é feita deste conflito social, desta necessidade de contestar o regime e de transgredir a realidade estabelecida. O PT não pode conciliar com esta ordem, nem a ela moldar- se (apud IASI, 2005, 357).
Entretanto, cabe ressaltar que a mudança de orientação do PT, dos seus aliados e governantes não é recente – assim, como não é a mudança na CUT – e nem pode ser pensada como uma simples mudança de orientação desses dirigentes políticos. Esse processo de mudanças faz parte de um processo mais longo e mais profundo. Juntamente com o PT mudou, também, as próprias classes populares39.
O fato é que o governo de Lula, contraditoriamente, assumiu as práticas neoliberais que combateu frontalmente na era FHC, mantendo relações com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e conduzindo a contrarreforma, especialmente pelo prosseguimento de contrarreformas nas políticas sociais, de que é exemplo, em larga escala, a contrarreforma da Previdência.
O discurso governamental é marcado pelo retrocesso à cena de argumentos utilizados por FHC, como a defesa da estabilidade econômica e a idéia de que a solução para a dívida social é o crescimento econômico. Ao mesmo tempo, os investimentos nas estratégias para amenizar a pobreza, miséria e desemprego têm se mostrado medíocres. É nítido assim, que a política econômica tem sido mal direcionada, não visando o real desenvolvimento econômico e social. De modo geral,
Grande parte daquilo que faz hoje e os apoios políticos com que pode contar são, portanto, os mesmos utilizados por FHC. Lula herdou não só o modelo econômico, mas também a sua base de sustentação política. Herdou e reproduz o bloco no poder onde pontificam o grande capital, o capital estrangeiro e os bancos; herdou, também, os apoios que o neoliberalismo logrou obter no meio popular (BOITO JR., 2005, p. 258-259).
Ou seja, o governo Lula tem elevado a uma etapa superior o longo processo de implantação do modelo capitalista neoliberal no Brasil.
Ambos os governantes contribuíram fundamentalmente para o declínio dos direitos
previdenciários alcançados nas décadas anteriores pelo movimento dos trabalhadores. Como vimos foram nesses governos que se gestaram as propostas e se efetivaram as contrarreformas de Previdência Social.
3.3 AS PROPOSTAS NO DEBATE SOBRE AS CONTRARREFORMAS