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Kart Çıkaran Kuruluşun Yükümlülükleri

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A CUT nasceu resultante de um intenso processo de mobilização e da constituição de um novo sindicalismo em nosso país. Assim, a CUT constitui uma importante conquista das classes trabalhadoras, tendo em vista que, rompia com o corporativismo presente no movimento sindical, defendia os direitos dos trabalhadores, bem como, lutava por sua ampliação e consolidação, e, sobretudo, pela transformação da ordem societária. Não se pode duvidar que a formação de uma Central Única dos Trabalhadores – que na realidade nunca foi única porque o movimento dos trabalhadores nunca foi homogêneo – no contexto da década de 1980 foi de extrema importância para os trabalhadores.

Pela formação dos seus dirigentes e pelo caráter combativo, por muito tempo a CUT foi considerada por alguns membros da direita como radical. De fato, a CUT gerada fora das leis vigentes na época, quando comparada a outras vertentes do sindicalismo brasileiro, assumiu um ideário e uma prática, a princípio, diferentes, como mostram os princípios norteadores de suas ações: classismo, independência

de classe, socialismo; democracia como condição indispensável; sindicalismo de base; sindicalismo de massas (GIANNOTTI & LOPES NETO, 1991).

Tais princípios presentes no Estatuto da CUT desde sua criação denotam claramente suas intenções radicais. Contudo com o passar dos anos poucas foram as ações combativas, frente ao Estado, por um sindicalismo autônomo e independente, pela ampliação e consolidação de direitos e pelo fim da sociedade capitalista.

Entretanto, esta não é uma opinião unívoca, para alguns avanços, para outros retrocessos. Para analisar essas mudanças vejamos algumas deliberações e bandeiras de lutas levantadas nos congressos da CUT (CONCUTs) realizados na década de 198025.

No I CONCUT realizado no período de 24 a 26 de agosto de 1984, em São Bernardo do Campo (SP), um ano após sua criação, contou-se com a presença de 5.222 delegados de todo o Brasil. Nesse Congresso, conforme a CUT (2009, p. 03) as principais resoluções foram: ―organização de uma campanha nacional de luta em torno das reivindicações imediatas, a luta pelas Diretas Já e a definição da greve geral, como principal instrumento de luta dos trabalhadores‖.

É importante considerar que nesse período, além das lutas pela redemocratização do país, havia um intenso processo de lutas por reajustes salariais e reivindicações pela redução da jornada de trabalho. A economia estava passando por um profundo processo de recessão iniciado no fim da década de 1970, em mais uma crise do modo de produção capitalista, conforme já analisamos, o qual atingia diversos setores e não somente a economia. O Brasil passou a sentir essas mudanças, que já se davam em nível mundial nesse momento, com o fim do ―milagre econômico‖.

Nesse cenário, a exemplo de em outros momentos, a greve foi o grande instrumento de reivindicações dos trabalhadores por melhorias nas condições do trabalho e de vida. Desse modo, logo depois do I CONCUT

Os metalúrgicos do interior de São Paulo, liderados por Santo André e São

25 Vale ressaltar que não é nosso objetivo analisar detalhadamente os CONCUTs, ou a luta da CUT

desde sua fundação, mas assinalar as principais lutas, discussões e deliberações, as quais contribuíram para a construção e transformação do perfil da CUT, e, assim, melhor analisarmos o posicionamento dessa Central diante das duas contrarreformas da Previdência Social em 1998 e 2003.

Bernardo, iniciaram a luta pelas 40 horas semanais, com o célebre slogan ‗Trabalhar menos para viver melhor‘. Meses depois do início desta

campanha, realizaram a chamada ‗Greve vaca brava‘ e como resultado

disso foi quebrado o tabu das 48 horas. Começaram a conquistar as 44 horas. Em novembro deste ano, uma campanha salarial unificada em São Paulo, estenderá essa conquista, junto com o reajuste trimestral dos salários introduzido através de uma greve nacional dos bancários, para várias categorias da capital (GIANNOTTI & LOPES NETO, 1991, p. 41). Eram as primeiras conquistas puxadas pela CUT. Contudo, este cenário não durou muito tempo. Antes da realização do II CONCUT, realizado de 1 a 3 de agosto de 1986, no Rio de Janeiro, abriu-se uma discussão sobre uma série de mudanças estatutárias que a tendência majoritária da CUT propôs.

Foi neste Congresso que se estruturou as duas principais tendências da CUT: a Articulação Sindical, majoritária e a CUT pela Base, minoritária. A primeira, segundo Rodrigues (apud GIANNOTTI & LOPES NETO, 1991, p. 44) pretendia fazer da CUT ―uma central de organizações sindicais, o que significa inexoravelmente e qualquer que seja a retórica, aceitar os parâmetros da economia de mercado e da ordem legal‖ e a segunda pretendia fazer da CUT ―uma central contra o sistema capitalista‖.

Além dessa oposição, outros temas, também, provocaram divisões, tais como: o papel da central na construção do socialismo e o pagamento da dívida externa. Outra discussão colocada foi se os sindicatos deveriam lutar somente pelos interesses imediatos ou se os sindicatos deveriam travar a luta por uma sociedade socialista (GIANNOTTI & LOPES NETO, 1991). Esses aspectos demarcam as diferenças de pensamento existente no seio da CUT, que já existiam desde sua gênese, mas que se mostraram mais latentes nesse período.

Essas divergências no interior do II CONCUT se traduzem nas três chapas candidatas para compor a Direção Executiva da Central.

Na cronologia de lutas da CUT26 (2009) nada se fala sobre essa disputa,

mencionando de forma genérica que as discussões giraram em torno da conjuntura econômica e política do país, o projeto de uma nova estrutura sindical e mudanças no estatuto. E, entre as principais resoluções se destacaram ―a luta pela recuperação das perdas salariais impostas pelo Plano Cruzado, redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais sem redução de salário, direito de greve,

26 É bem verdade que a cronologia de lutas, retirada do site da CUT constitui-se apenas numa síntese

reforma agrária e participação popular na Constituinte‖ (CUT, 2009, p.4).

É importante ressaltar que nesse momento o país vivia uma situação difícil política e economicamente. Muitos estudiosos do assunto destacam que a década de 1980 foi um período rico em mobilizações e reivindicações de diversos setores da sociedade civil, porém, no âmbito econômico acontecia o contrário. O cenário no país era de inflação, cada vez mais crescente, e queda no valor dos salários, esses aspectos somados ao período de repressão e restrições políticas com a Ditadura Militar, explica os embates e organizações de diversos movimentos na época.

Em 1986 o governo Sarney tentando derrubar a inflação lançou um plano, denominado Plano Cruzado. A princípio grande parte da população apoiou tal medida, contudo, os problemas não demoraram a chegar. O governo não conseguiu resolver os problemas decorrentes e a inflação voltou a subir no final de 1986. O quadro era tão crítico que

O Ministro da Fazenda, Dílson Funaro, responsável pelo Plano Cruzado, demitiu-se e foi substituído por Luís Carlos Bresser Pereira. Bresser tentou, sem êxito, controlar a crise e também saiu do governo no final de 1987. Seu sucessor, Maílson da Nóbrega, também não obteve sucesso com o Plano Verão, de janeiro de 1989, que novamente congelou preços e salários e substituiu o cruzado novo. No final do governo Sarney a inflação chegou a 85% ao mês (PILETTI, 2002, p. 132).

Essa era a situação do país, em termos gerais, no período de realização dos três primeiros CONCUTs e da luta dos trabalhadores nos anos 1980.

No período anterior ao III CONCUT algumas lutas da CUT demonstraram a indignação dos trabalhadores com a situação do país. Destacaram-se na estratégia de luta da CUT duas greves. Uma em dezembro de 1986, defendendo o salário, congelamento dos preços, as empresas estatais e contra o Plano Cruzado e o pagamento da Dívida Externa. Em agosto de 1987, outra greve foi organizada contra o Plano Bresser. Essas greves paralisaram muitos trabalhadores em todo o país. Em março de 1988 a CUT promoveu uma campanha pela recomposição das perdas salariais, reivindicando ações do Governo Federal (CUT, 2009). Boito Jr. (2005, p.) ressalta que

Ao todo foram quatro greves gerais nos anos 80. Todas foram realizadas em protesto contra a política de desenvolvimento, em resposta a alguma medida econômica antipopular, e todas elas agitaram a plataforma de transformações econômicas e sociais então defendidas pela CUT. A

participação dos trabalhadores nessa greve foi crescendo ao longo da década. A primeira, a greve geral de julho de 1983, contou [...], com a participação de cerca de dois a três milhões de trabalhadores. A segunda greve geral, de dezembro de 1986, contou com a participação de cerca de dez milhões de grevistas, isto é, cinco vezes mais que o contingente da greve de 1983. A greve de agosto de 1987, terceira da série, manteve o mesmo nível de participação da greve geral de 1986. Finalmente, a quarta greve geral de protesto dos anos 80, realizada em março de 1989, deu um salto quantitativo, duplicando para 20 milhões o número de grevistas. Essa greve teve, ademais, a duração de dois dias, diferentemente das três anteriores que foram apenas de um dia.

O III CONCUT realizou-se no período de 07 a 11 de setembro de 1988, em Belo Horizonte (MG). Embora, a CUT (2009) afirme que a central nesse congresso tenha discutido a conjuntura, concepção e prática sindical e organização para o próximo período, Giannotti &Lopes Neto (1991) afirmaram que o III CONCUT foi sobremaneira influenciado pelo II CONCUT, prevalecendo as discussões sobre as mudanças no estatuto.

Uma das poucas discussões políticas que esteve presente nesse CONCUT foi a promulgação da nova Constituição de 1988. É interessante que a cronologia de lutas da CUT (2009) nada mencione sobre a atuação da CUT diante desse fato histórico em nosso país. Entretanto, Giannotti e Lopes Neto (1991) destacaram que a CUT assumiu um papel semelhante ao MST, que se expressa no título sugestivo: ―Transformar em carvão a Constituição‖. Praticamente todos os setores da CUT consideraram a Constituição conservadora, como esteve presente na justificativa da CUT na época

Apesar de terem sido incorporadas à lei algumas reivindicações dos trabalhadores, essa Constituição mantêm o essencial do caráter conservador e da tutela militar, iguala a propriedade ao direito à vida, legaliza a continuidade dos assassinatos dos trabalhadores rurais e legitima a transição conservadora de Sarney (CUT apud GIANNNOTTI & LOPES NETO, 1991, p. 47).

No que se referem às resoluções desse CONCUT, as principais foram: manifesto contra o pacto social, uma central sindical classista, uma CUT organizada a partir dos locais de trabalho, conquistar a liberdade sindical, autonomia diante das centrais sindicais internacionais. Ressalta-se que apesar de contar nos relatórios, tais premissas não foram discutidas na plenária, pois a ênfase foi dada às mudanças pretendidas no Estatuto (GIANNOTTI & LOPES NETO, 1991).

Ainda segundo esses autores as principais mudanças introduzidas foram: a representação para os congressos nacionais deixou de ser escolhida pela plenária de base dando prioridade aos dirigentes; o número de delegados não mais seria definido de acordo com a base da categoria – o que abrangia todos os trabalhadores, sindicalizados ou não –, mas, apenas com o número de sindicalizados; redução do peso da participação das oposições; as eleições dos delegados aos Congressos Nacionais seriam feitas nos Congressos Estaduais – retirando a possibilidade de um trabalhador de base participar.

Por outro lado, contraditoriamente, é reafirmada a luta pela emancipação dos trabalhadores na perspectiva de superar a ordem capitalista e construir uma sociedade socialista. Ao mesmo tempo em que no estatuto são introduzidos elementos contrários à democracia defendida desde o começo pela central, a CUT aprofundou a formulação do seu objetivo que é o socialismo. Sóhria-Silva (2006, p. 332) chamou a atenção que nesse congresso ficou aberto

A possibilidade de se justificar teoricamente a necessidade de se promover lutas pontuais, as negociações com o patronato e governo – em suma a

prática de reformas –, sem ferir o posicionamento de fundo da central, qual

seja impulsionar o projeto histórico do socialismo.

Se o III CONCUT se deu em um cenário repleto de uma nova perspectiva que representava a Constituição Federal de 1988, marcando a redemocratização do país e a inauguração, ainda que formal, de diversos direitos ainda não gozados por diversos segmentos. O IV CONCUT realizado de 04 a 08 de agosto de 1991 em São Paulo ocorreu numa conjuntura bem diferente e repleta de limitações em face do quadro nacional de ofensiva neoliberal, com a posse do governo Fernando Collor de Mello, além do clima internacional criado com o colapso do socialismo burocrático nos países do Leste Europeu e na União Soviética.

A CUT que já vinha sofrendo sérias transformações no decorrer da década de 1980 prosseguiu no processo de mudanças na década de 1990, determinando sobremaneira sua atuação, bem como seu posicionamento diante das contrarreformas da Previdência Social, fruto das inflexões gestadas logo após sua fundação em 1983. Ou seja, a postura da CUT diante das contrarreformas da previdência foi determinada pelas transformações de direcionamento desde sua gênese, e, mais substancialmente, na década de 1990, perdurando e se

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