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Como apreendemos da análise feita anteriormente, o movimento sindical, desde sua gênese foi muito atuante no cenário brasileiro. Suas lutas contribuíram imensamente para constituição de diversas conquistas: direitos, redemocratização do país, Constituição, e, inclusive a fundação da Central Única dos Trabalhadores. O governo e a burguesia sempre tentaram impedir os trabalhadores de criarem uma Central. Assim, a formação da CUT no ano de 1983 deu-se em um contexto, ditatorial, de proibições e repressões, apesar da abertura iniciada no governo Geisel. Como vimos, no final dos anos 1970, quando a abertura política já tinha sido sinalizada, as lideranças sindicais, oficiais ou não, começaram a se mobilizar para construção de um novo cenário de lutas. Os anos 1980 marcaram uma mudança de grande importância para o sindicalismo, visto que, segundo Boito Jr (1991, p. 47)

A principal – e praticamente única – atividade dos milhares de sindicatos oficiais no período de 1968-1978 consistiu em implantar ou expandir

grandes e dispendiosos serviços assistenciais – serviços médico,

odontológico, laboratoriais, jurídico, colônia de férias, bolsas de estudos, cooperativas de consumo, etc. – convertendo esses sindicatos, em espécies de agências da Previdência Social.

forças políticas críticas da ordem capitalista estabelecida, identificadas com as lutas dos trabalhadores pela transformação social‖.

Durante boa parte do período ditatorial, como vemos, os sindicatos assumiram atividades que nada tinham a ver com as reivindicações das classes trabalhadoras, principal objetivo dessas entidades. Atividades, essas, que competiam ao Estado desenvolver. Desse modo, é apenas com o afrouxamento do controle governamental, que vai se processando uma mudança no organismo sindical, ao longo de toda década de 1980.

Esse processo de inflexão do movimento sindical nos anos 1980, segundo Boito Jr. (1991) teve alguns marcos relevantes: o ressurgimento das grandes greves entre 1978-1980; a criação, em 1983, da Central Única dos Trabalhadores; a política liberalizante iniciada pelo Ministro do Trabalho Almir Pazzionotto, em 1985, no governo de José Sarney, marcando o fim do controle rígido do estado sobre os sindicatos; e coroando esse processo de liberalização a Constituição Federal de 1988.

Analisemos, um pouco, cada um desses processos que demarcaram o novo sindicalismo. No que se refere às grandes greves, Noronha (1991) em seu estudo sobre a explosão das greves na década de 1980 ressalta o despertar dos trabalhadores para a situação que vivenciavam de repressão, arrocho salarial e desemprego, através dos movimentos grevistas, que no período ditatorial anterior a essa década, tinham permanecido dentro do estritamente legal.

A ausência de canais de participação nas instituições governamentais e de negociação nas empresas tornou a greve um dos instrumentos de reivindicação mais utilizados para a luta das classes trabalhadoras – apesar de não ser o único, pois devem ser considerados os movimentos sociais, a campanha pelas ―Diretas Já‖, entre outros –, muito embora sua proibição e riscos decorrentes de sua realização.

As greves dos anos 1978-1979, embora, pouco numerosas, representaram o marco do processo de transição brasileira. Nos anos posteriores esse instrumento de luta foi sendo, cada vez mais, utilizado por diversas categorias – inicialmente apenas do setor privado e a partir de 1983 incluiu, também o setor público.Tais greves não ocorreram de forma constante, mas, contaram vez ou outra, de alguns refluxos. Noronha (1991) revela que o período de greve pode ser definido em três fases: a primeira de crescimento (1978-1979), a segunda de retração (1980-1982) e a terceira de retomada (1983-1984). Salientado, ainda, que até 1984 o patamar de greves manteve-se baixo ou médio, em relação aos índices internacionais, sendo após 1985 que o Brasil passou a se situar entre os países de maiores taxas de

greves.

É importante salientar que a greve sempre foi um importante instrumento de luta utilizado pelos trabalhadores e, apesar de algumas derrotas vivenciadas em muitos momentos de luta – tais como demissões em massa e descontos dos dias parados (ENGELS, 2008) – essas greves trouxeram, por outro lado, importantes conquistas. Pode-se até mesmo dizer que a grande maioria das conquistas alcançadas pelas classes trabalhadoras foi sempre precedida por intensa organização grevista. Não podendo, assim, ser depreciado esse instrumento que trouxe ganhos tão significativos para as classes trabalhadoras.

Tal instrumento fez-se presente, também, no período Ditadura Militar, cujo contexto era de inflação crescente, arrocho salarial e movimentação para a realização de eleições diretas. O primeiro presidente civil, pós ditadura foi Tancredo Neves, que venceu as eleições no dia 15 de janeiro de 1985, porém, não chegou a assumir a presidência da república, morrendo repentinamente com um grave problema de saúde. Assumiu, então, o vice presidente, José Sarney.

No campo do movimento sindical, esse ano trouxe uma conquista relevante para os sindicatos: a eliminação do modelo ditatorial de controle do sindicalismo de Estado. Boito Jr. (1991, 2005) chamou a atenção que esse movimento não libertou o sindicalismo brasileiro da estrutura sindical vigente desde o início do populismo, apesar das variações presenciadas nas diversas conjunturas em que viveram o país, desde então.

Para Boito Jr. (1991, p. 50) a estrutura sindical

É o sistema de relações que assegura a subordinação dos sindicatos (oficiais) às cúpulas do aparelho de Estado – do Executivo, do Judiciário ou do Legislativo. O elemento essencial da estrutura sindical brasileira é a necessidade de reconhecimento oficial-legal do sindicato pelo Estado. Todas as demais relações que asseguram a subordinação dos sindicatos oficiais às cúpulas do Estado dependem desse elemento de base. Um determinado organismo sindical, para representar um segmento de trabalhadores, necessita obter um registro junto a um ramo do aparelho do Estado [...].

O movimento sindical da época lutou para arrebentar o modelo ditatorial de sindicalismo de Estado, mas não a estrutura sindical vigente. Embora, esse fato não tenha deixado de ser uma conquista, porém, ela ocorreu, ainda, dentro das amarras do Estado, Essa é uma distinção relevante para analisarmos o perfil da organização

sindical brasileira, visto que vai determinar, em grande medida, a atuação do movimento sindical frente ao Estado no pós Ditadura Militar. Determinará, inclusive, o posicionamento e as lutas da CUT.

Assim, em 1985, o Ministro do Trabalho Almir Pazzianotto editou algumas medidas reformistas para os sindicatos que demonstraram os traços da estrutura sindical, não da forma rígida, como o foi na Ditadura. Foi um controle mais flexível e indireto do Estado sobre os sindicatos. Ele extinguiu o modelo detalhado de estatuto padrão, suspendeu o controle direto e minucioso das Delegacias Regionais do Trabalho (DRTs) sobre as eleições sindicais e reconheceu as Centrais Sindicais – que haviam sido proibidas pela legislação da Ditadura Militar. Entretanto, há que ressalvar que Pazzianotto, em importantes movimentos grevistas, reprimiu violentamente ou aceitou a iniciativa repressora do governo (BOITO JR., 1991).

Essa ambigüidade de ações faz-nos reportar ao caráter das políticas sociais brasileiras: repressão versus assistência. O Estado diante das mobilizações e conflitos sociais pungentes lança mão de medidas concessórias, reivindicadas pelas classes trabalhadoras, para atenuar os conflitos e legitimar o poder, sem, contudo, desistir do controle.

Coroando a década de 1980, temos a promulgação da Constituição Federal do Brasil, em 05 de outubro de 1988. A Carta Magna era uma antiga reivindicação de diversos setores da sociedade, dentre eles, o movimento sindical. Assim, houve intensa mobilização para participar da Constituinte, nas diversas comissões que se formaram. Apesar de, ainda, existirem contradições e restrições, muitas foram as conquistas, em diversas áreas, trazidas pela nova Carta.

Para o movimento sindical, a Constituição de 1988 preservou a estrutura sindical vigente, mantendo no Artigo 8º a necessidade de reconhecimento do sindicato pelo Estado, apesar de no inciso I afirmar

A lei não poderá exigir autorização do Estado para fundação de sindicato, ressalvado o registro no orgão competente, vedadas ao poder público a interferência e a intervenção na organização sindical.

O que expressa flagrante contradição, já que estabeleceu diretrizes e características para funcionamento dos sindicatos, nos incisos que se seguem, tais como: a unicidade sindical, as contribuições sindicais obrigatórias, a divisão do

movimento sindical por categorias, seu retalhamento por municípios e tutela da Justiça do Trabalho sob o movimento sindical, o que significa claramente a intervenção do Poder Público na organização sindical.

Segundo Boito Jr (1991) para os legisladores esses dispositivos não são encarados como intervenção, porque eles entendem como interferência, aquelas próprias do modelo ditatorial – deposições de diretorias, eleições rigidamente controladas, etc.. Ou seja, como são interferências mais amenas, se comparadas ao período de Ditadura Militar, não são consideradas como tal.

O Artigo 9º assegura o direito de greve de modo bastante amplo, consideradas algumas ressalvas: serviços considerados inadiáveis das comunidades e os abusos cometidos seriam punidos, conforme regulamentações posteriores. O Artigo 10 assegura, também, a participação dos trabalhadores nos órgãos públicos de deliberação e discussão, que impliquem seus interesses, como nos profissionais e previdenciários.

Conforme Boito Jr. (1991, p. 74) ao longo da década de 1980, a área sindical, tem sido um dos temas que mais tiveram propostas e projetos de mudanças. ―Em termos de propostas governamentais ‗renovadoras‘, talvez só perca para o tema da reforma agrária‖.

Outra importante conquista da Constituição Federal de 1988, alardeada aos quatro cantos, por diversos teóricos que tratam sobre o tema, e de grande relevância para o nosso estudo, foi a constituição do conceito e diretrizes da Seguridade Social, a qual passou a contar com três políticas, saúde, assistência social e Previdência Social. Essa conquista demarcou um período novo para o Brasil, no que concerne às políticas sociais, jamais visto, anteriormente. Preconizando a responsabilidade precípua do Estado para com seu reconhecimento e garantia. Claro, que a exemplo de muitos dispositivos, havia contradições.

A política previdenciária, por exemplo, ao mesmo tempo em que, estava sob efeito dos princípios da Seguridade Social – universalidade, uniformidade, seletividade, irredutibilidade, equidade, diversidade e caráter democrático e descentralizado da administração – continuou tendo o caráter contributivo, excluindo muitos trabalhadores do setor informal desse benefício. Além disso, o Artigo 202 autorizou o regime de previdência privada, de caráter complementar19, a qual vai ser

expandida na década de 1990, através das contrarreformas da Previdência Social que retiraram e diminuíram direitos conquistados pelas classes trabalhadoras20.

Assim, nos anos 1980 e início dos anos 1990 o sindicalismo passou por diversas mudanças que demonstraram o fortalecimento e ampliação do movimento sindical.

O sindicalismo expandiu-se bastante. Foram criados centenas de novos sindicatos oficiais no setor público, centenas de associações de caráter sindical. O sindicalismo diversificou-se. Difundiu-se pelo campo, juntamente com a difusão do trabalho assalariado na agricultura, e incorporou amplos setores das classes médias urbanas [...]. Ao longo dos anos 1990, outro traço marcante foi que o sindicalismo, manteve-se muito ativo. A incidência, a amplitude, a dimensão e a persistência da luta grevista de 1978 a 1991 fazem do Brasil, dentre os países mais populosos do planeta uma espécie de campeão em estatísticas de greve (BOITO JR., 2005, p. 79).

De fato, apesar da década de 1980, no sentido econômico, ser ―considerada por muitos como a década perdida, em função das baixas taxas de crescimento do PIB, da compressão dos salários e do aumento da concentração de riqueza‖ (MOTA, 2008, p. 62), por outro lado, principalmente a partir da segunda metade dessa década, constatou-se um novo processo político, cujo principal protagonista foi a ação organizada de expressivos setores da sociedade civil, o que caracterizou esse período como ruptura das bases de sustentação da ditadura militar, resultando no restabelecimento do Estado democrático. Inaugurando, também, uma redefinição das práticas sociopolíticas das classes, burguesas e trabalhadoras, através dos sindicatos, partidos e outros movimentos organizados (MOTA, 2008). As classes trabalhadoras foram os

Sujeitos das principais lutas políticas da última década – de que são exemplos, o fim da ditadura militar, a luta pela instauração da democracia, a elaboração de uma nova constituição e outros movimentos reivindicatórios que possuíam corte anticapitalista –, os trabalhadores, por meio da ação política, tiveram, nelas um papel fundamental (MOTA, 2008, p. 142).

De outro modo, essa autora salienta que as ações das classes trabalhadoras não foram suficientes para formar frentes políticas de peso, para vencer os efeitos posteriores da crise. Mota acredita ser provável, que é devido à ideia preconizada pela cultura da crise – de que tal crise afeta a todos igualmente, e que sendo assim,

20 Maiores detalhes sobre a política previdenciária e suas contrarreformas serão analisados no

a sociedade como um todo, independente da condição de classe dos sujeitos deve fazer sacrifícios – que a classe trabalhadora vem se destituindo do seu caráter de movimento organizado.

Apesar disso, não se pode desconsiderar a pressão e resistência que os trabalhadores impuseram à classe dominante para que direitos fossem reconhecidos e garantidos. Como reforça a ACO (1984, p. 116): ―mais uma vez podemos verificar que nada foi dado de graça ao proletariado: tudo o que existe, que dá um mínimo de garantia, um mínimo de melhoria para a vida do trabalhador foi conquistado a duras penas pela luta e coragem da própria classe operária‖.

O movimento operário e sindical historicamente se fez presente na luta e constituição de direitos sociais. Estes últimos, ainda que por vezes cooptados e funcionais ao Estado e às empresas – o que ainda hoje é presente – em diversos momentos conseguiram mobilizar os trabalhadores combativamente para a luta. A análise histórica do movimento operário mostra muito bem que a maioria das leis sociais foi sempre precedida por grandes ondas de movimentações e reivindicações.

2.4 AS CONTRIBUIÇÕES DA REORGANIZAÇÃO DO MOVIMENTO SINDICAL

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