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A escolha pela escala municipal como base de análise para a compreensão do avanço dos investimentos no segmento turístico no município de Beberibe/CE, está relacionada à tentativa de mapear todos os núcleos costeiros do município onde se verificam equipamentos turísticos estabelecidos33, ou ainda, áreas com projetos em andamento ou em fase de implantação que farão parte da oferta turística.

Chegamos, portanto, a um recorte que abrange uma área retangular composta por toda a linha de Costa34 de Beberibe, limitando-se ao sul com a CE- 040. A referida área, pelo conjunto e diversidade de paisagens que possui, constitui- se em um dos territórios mais procurados do município e, consequentemente, um dos mais impactados pelas transformações urbanas carreadas pela necessidade de implantação de infraestrutura básica e turística, afim de atender a demanda crescente de visitantes na porção leste do litoral cearense.

Relevante também se torna a compreensão da lógica de ocupação diferenciada da zona costeira em relação ao interior do Estado, haja vista que a porção territorial do litoral cearense corresponde apenas a uma estreita faixa de terra de aproximadamente 10% do território. Enquanto o sertão, porção semi-árida, desprovida de investimentos para o setor turístico, representa mais de 90% do território cearense.

Além da assimetria de investimentos turísticos entre o interior e litoral, característica marcante de uso e ocupação do território cearense, no município de Beberibe, em especial, observa-se uma alta concentração de investimentos turísticos em apenas uma estreita faixa de costa, que corresponde aproximadamente 10 km, compreendidos entre as praias de Morro Branco e Praia das Fontes.

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Considera-se núcleo turístico estabelecido às regiões possuidoras de infraestrutura básica e principalmente turística, tais como sinalização turística, meios de hospedagem, restaurantes e

estrutura para execução de atividades turísticas, como passeios e área com capacidade para receber número expressivo de visitantes.

34 Costa: Zona de largura indeterminada, que se estende para o interior a partir da linha de contorno,

e sobre a qual se faz sentir, de algum modo, a ação do mar (Vocabulário de recursos naturais e meio ambiente – IBGE, 2004).

O recorte da área de estudo se enquadra essencialmente numa área caracterizada como Zona Costeira, de acordo com a definição do Plano Nacional de Gerenciamento Costeiro II (Brasil/CIRM, 1997), que considera os municípios litorâneos aqueles que ficam próximos até 50km da linha da costa, que aloquem em seu território, atividades ou infraestrutura de grande impacto ambiental sobre a Zona Costeira, ou ecossistemas costeiros de alta relevância.

A Zona Costeira, do ponto de vista espacial, é a estreita faixa de transição entre o continente e o oceano. Do ponto de vista da gestão, é o palco onde se acentuam os conflitos de uso, se aceleram as perdas de recursos e se verificam os maiores impactos ambientais devido, basicamente, à grande concentração demográfica e aos crescentes interesses econômicos e pressões antrópicas. (AQUASIS 2003, p. 12).

No Município de Beberibe, verificam-se formas diferenciadas de uso e ocupação do espaço ao longo da faixa litorânea, caracterizadas por segundas residências e, em menor escala, aos empreendimentos que se destinam exclusivamente para o segmento turístico, possibilitando comparações e diagnósticos diferenciados dos impactos gerados por cada perfil de uso.

O trabalho volta-se, mais especificamente, para a análise dos empreendimentos turísticos da costa de Beberibe, cuja exploração intensificou-se a partir da expansão do turismo nos litorais cearenses no início da década de 1980. A combinação entre investimentos pontuais em infraestrutura turística, campanhas de marketing e atrativos naturais configuram o conjunto de fatores essenciais à compreensão do que representa Beberibe na atualidade, entre os produtos turísticos ofertados pelo Estado à demanda externa.

Um dos esforços investigativos da pesquisa se configurou em entender os valores, políticas e ajustes econômicos que garantiram a visibilidade de apenas algumas áreas do litoral de Beberibe. Nesse aspecto, observa-se uma disparidade entre os distritos do município em relação à visibilidade turística, onde em alguns momentos encontramos territórios dominados exclusivamente pela economia primária e, outras áreas, expoentes do turismo cearense, exploradas e vendidas como territórios paradisíacos e possuidora de infraestrutura capaz de atender as exigências impostas pelos mercados emissores.

Nesse contexto, existe uma ordem de construção simbólica atribuída a algumas áreas litorâneas da zona costeira do Ceará, fomentada pela mídia, o que torna alguns espaços expoentes e outros territórios ditos “sem vocação” para a

atividade turística. A busca incessante pela visibilidade através da suposta construção de uma pretensa identidade local, torna-se relevante para o que Néri apud Pross (1980) analisa como hierarquização simbólica.

Ordens simbólicas, segundo Pross, são sistemas hierarquizados de símbolos a que se atribui valor; são também códigos de comunicação. O valor atribuído nesse processo pode variar com o contexto e na relação com os outros signos. Quando um código temporal é aceito por uma coletividade, torna-se dominante, o grupo a ele se vincula por adotar seus símbolos. Há uma comunhão ou “apropriação simbólica”. (Néri, 2003, p,211).

A escolha pela análise integrativa, reflexiva e crítica delineou as técnicas investigativas da pesquisa, cuja intenção foi buscar traços da inter-relação entre o meio físico e da ação antrópica na área de estudo, contribuindo para uma compreensão mais abrangente e que sirva de modelo de análise empregável em outros municípios litorâneos com ocupação fisionômica semelhantes.

Outras razões também que motivaram a escolha deste recorte foram: o fato de ter sido o litoral de Beberibe uma área visivelmente modificada a partir da década de 1980, pela importância do estudo para desenvolver formas sustentáveis para uma área de beleza cênica ímpar na costa cearense, pelo notório avanço da especulação imobiliária na região, por ser considerada um dos cenários mais trabalhados pelas peças de marketing contidas no planejamento turístico governamental. Finalmente, o fato de percebermos mudanças fisionômicas e sociais no município de Beberibe, durante o desenvolvimento da atividade como guia de turismo, nos inquieta e nos motiva buscar compreender a origem e as projeções das possíveis mudanças nas próximas décadas.

Pretendemos, através da compreensão integrada dos componentes sócio-ambientais da área, sugerir formas mais sustentáveis para o desenvolvimento da atividade turística e imobiliária para o município. Tendo em vista que nas últimas décadas houve um avanço expressivo de ocupação nessa área, e ainda por ser o município um dos litorais cearenses onde mais se projeta grandes investimentos em equipamentos turísticos.

Sendo assim, o panorama de expansão traçado para Beberibe demanda uma atenção especial no sentido de reavaliar a intensidade e a pressão da atividade turística sobre esse espaço. A pontualidade dessa pressão é favorecida pela espacialização desigual do segmento turístico no município, o que favorece a

excessiva utilização de algumas áreas de costa, intensificada pelas imagens, desejos e projeções do Ceará simbólico das águas mornas e cenários inexplorados.

Na mesma direção, Benevides (1998) analisa a depuração das imagens constituídas dos destinos turísticos: “Por conseguinte, a depuração consiste num processo de procurar realçar alguns espaços, práticas sociais e traços culturais considerados positivos, consonantes com desejos, necessidades e expectativas de turistas potenciais”.

A combinação entre o interesse do visitante e a imagem simbólica traçada para o município de Beberibe, cujas áreas foram identificadas na pesquisa como territórios prioritários da oferta turística, determinam a disparidade de investimentos e ações de marketing em algumas áreas como de Morro Banco e Praia das Fontes.

Essa pontualidade de investimento e interesse cria, também, a disparidade em infraestrutura básica e turística, onde as localidades com núcleos constituídos de turismo, como os já citados, recebem volumes bem mais expressivos de investimentos e de toda ordem, enquanto outras áreas mantêm sua base econômica pautada exclusivamente na atividade pesqueira configurando um perfil socioeconômico diferenciado nos distritos pelo não avanço da atividade turística em algumas localidades.

2.2 O município de Beberibe e Seu Contexto