BULGULAR VE YORUM
5.3. Deney ve Kontrol Gruplarının Kaufman Erken Akademik ve Dil Becerileri Araştırma Testi’ne İlişkin Bulguları
A educação nacional era um dos temas de debate na Escola Politécnica do Rio de Janeiro e no Club dos Bandeirantes do Brasil – uma agremiação singular que, “além de difundir os sports e o tourismo como signos de um modo de vida moderno, moldado em costumes norte-americanos, propunha-se a renovar a mentalidade brasileira elaborando um ‘estado de consciência para a nação brasileira’”240. Tanto a Escola Politécnica como o Club dos Bandeirantes acolhiam intelectuais que produziram uma campanha educacional impregnada de “metáforas energéticas” e de argumentos nacionalistas – alguns deles tendo Henri Ford como livro de cabeceira.241 Valorizar o homem pela educação significava a possibilidade de valorizar também a produção e a integração nacional, desafios que demandavam eficiência na realização do projeto. Eficiência e também ordem, progresso, maquinaria e instrução. No âmbito dos indivíduos, prescrições necessárias à “energização do caráter”. Signos que ora aparecem como meios, ora aparecem como fins. Tanto entre os civis quanto entre os militares, a educação pensada a partir da Escola Politécnica e do Club dos Bandeirantes impregnava-se daqueles mesmos códigos culturais que modelavam, à época, o esporte moderno, como as
238
CERTEAU, 1998, p. 92.
239
A idéia de “rigor flexível” proposta por Ginzburg (1989, p. 178-179) ajuda a compreender que esta “forma de saber” é mais coerente quando o que está em questão é a experiência humana cotidiana. “Ninguém aprende o ofício de conhecedor ou de diagnosticador limitando-se a pôr em prática regras pré-existentes. Nesse tipo de conhecimento entram em jogo (diz-se normalmente) elementos imponderáveis: faro, golpe de vista, intuição”.
240
CARVALHO, 2003, p. 17. 241
“metáforas maquínicas” em relação ao corpo e à idéia de progresso como produção cumulativa e linear.242 Também as “metáforas energéticas”: educação como o condutor capaz de “transformar, sem coação, a energia potencial do homem em energia cinética”.243
Entre julho de 1927 e junho de 1929, o Club dos Bandeirantes publicou uma revista intitulada A Bandeira.244 Nesse periódico, “evolução e educação” são considerados “ideais intimamente ligados”245 e os intelectuais são representados como aqueles que deveriam ocupar o lugar de “intérpretes da alma nacional”246 corroborando, assim, a premissa de que uma reforma de costumes que promovesse o desenvolvimento nacional deveria ser por eles orientada. Nos dezoito números que circularam, essa revista tratou de temas diversificados, como escotismo, cinema, automobilismo, aviação, divórcio, pesca, arte, ciência, teatro, intercâmbio comercial, carnaval, concurso de Miss Brasil, danças, dentre outros. Além de textos escritos por vários HB − “homens bandeirantes” −, como eles mesmos se denominavam, a revista acolhia informações e propagandas que expressavam uma “mentalidade moderna” de fortíssima influência norte-americana.
Em um anúncio relativo a um curso de aviação, Ferdinando Labouriau, “homem bandeirante”, que foi também presidente da ABE em 1926 e 1927, assim escreveu: “Se sois patriota – se sois forte – se tendes coragem – em uma palavra se sois HB (homem bandeirante) – inscreve-vos, desde já, no curso oficial de aviação, a se iniciar sob direção da Escola de Aviação Naval”.247 Por ironia, Labouriau foi um dos cinco dirigentes da ABE falecidos no desastre aéreo ocorrido em dezembro de
242
Cf. VAZ, 1999 e 2000.
243
CARVALHO, 2003, p. 19.
244
Por ocasião de meu exame de qualificação, Marta Carvalho sugeriu que eu conhecesse a revista
A Bandeira, pois tal ação em muito acrescentaria às informações que estavam disponíveis sobre
esta em sua própria produção. Agradeço-lhe por tal indicação. De fato, a análise que pude fazer dessa revista, tanto no que se refere à sua materialidade quanto aos conteúdos desenvolvidos em seus artigos, editoriais, propagandas, etc., muito contribuiu para a compreensão dos sentidos e significados constituintes do Club dos Bandeirantes. Creio mesmo que a maneira como essa publicação aborda a temática do esporte merece estudo mais pormenorizado, para além do que considerei pertinente abordar nesta tese.
245 A BANDEIRA, Ano I, n. 1. 246 A BANDEIRA, Ano I, n. 3-4, p. 4. 247 A BANDEIRA, Ano I, n. 3-4, p. 44.
1928, por ocasião de uma homenagem a Santos Dumont. A tragédia foi noticiada no n. 13 da revista com um tributo ao “saudoso companheiro”.248
Junto com os editoriais, artigos e reportagens organizadas pelos homens bandeirantes, a revista A Bandeira anunciava também uma série de produtos modernos. Destacam-se, por exemplo, o carro Ford Typo Sport, o trator Fordson e o ferro elétrico da marca General Eletric, apresentados em fotografias ou desenhos futuristas e acompanhados de chamadas do tipo: “A mecânica em apoio à indústria” ou “enfim a alavanca do progresso”.249 Também outros tantos desenhos e fotografias tematizando carros, aviões, dirigíveis, enxadristas, mulheres com fantasias de carnaval, etc. Todos esses signos ordenadores de um ethos moderno compunham a forma como o Club dos Bandeirantes se apresentava aos seus leitores:
Com estatutos claros e mandamentos definidos, o Club dos Bandeirantes tem, traçadas, as suas diretivas:
– congregar pessoas nutridas de espírito e audácia esportiva, que se interessem vivamente pelos assuntos brasileiros, estimulando viagens e explorações pelo interior do país, organizadas de molde a assegurar perfeito conhecimento das nossas belezas e riquezas materiais, e real proveito para as nossas ciências, letras e artes.250
Este “espírito e audácia esportiva”, quase como sinônimo de “espírito e audácia modernos” fazia incluir na Revista artigos e reportagens sobre várias práticas, como o futebol, a pesca, o arco e flecha, o xadrez, os rallyes automobilísticos, a peteca, o tênis. Em geral, os grandes feitos, as classificações e vitórias, bem como os modelos estrangeiros a serem seguidos − quase sempre norte-americanos. Mas na revista A Bandeira o esporte foi também produzido como
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Ferdinando Labouriau foi professor da Escola Politécnica onde se envolvia prioritariamente com estudos relativos à metalurgia e à siderurgia. Sócio fundador da ABE, com atuação destacada nos assuntos relativos à Seção de Ensino Técnico e Superior. Suas posições políticas foram ponto de polêmica da associação. Como comenta Rocha (2002, p. 341), “a discussão que ali ocorreu no ano de 1927, sobre ordem e progresso, é sugestiva para a percepção de divergências que, no limite, apontavam para concepções distintas da relação sociedade e Estado. O grupo católico, com Fernando de Magalhães à frente, privilegiava a ordem como o meio mais eficaz de garantir o progresso. Labouriau e seu grupo invertiam o sentido. A rigor, a própria noção de ordem nas duas formulações é distinta. Magalhães a via como algo estático, portanto, como exaltação da questão do controle. Já para Labouriau a ordem era dinâmica, em construção, movida pela ação política e cultural.” No acidente com o hidroavião, além de Labouriau, faleceram também Paulo Ottoni de Castro Maya, Amoroso Costa, Tobias Moscoso e Amaury de Medeiros.
249
A BANDEIRA, Ano I, n. 2.
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metáfora exemplar da pujança e da tecnologia necessárias ao alicerce nacional. Um dispositivo disciplinar impregnado de “tecnologias” e de códigos produtores de “engenharias”. Esporte dado a ver como signos de um projeto cultural que pretendia regenerar o País por meio de uma lógica industrial e de uma fabricação em série. Isso combinado com intencionalidades de ordem cívica e moral.
Em um artigo intitulado “A Educação Física: alicerce do engrandecimento nacional” seu autor, Illydio Rômulo Colônia, afirmou que o “moderno” método francês de ginástica não deveria ser fundamento apenas para o exército. Como membro da corporação militar, e “único oficial brasileiro com curso da Escola de Joinville-le-Pont da França”,251 ressaltou também que alguns autores que tratam desse assunto no Brasil são “pouco divulgados”: Newton Cavalcante, Fernando de Azevedo, Frota Pessoa e Artur Higgins.252 Nesse mesmo artigo, ao tratar do esporte, Illydio Colônia relaciona-o às batalhas militares, além de ressaltar sua contribuição ao desenvolvimento da nacionalidade. Sobre a Primeira Guerra, assim afirma:
É que os jovens americanos e ingleses, fortes, resistentes, virilizados pela educação física, postos quase subitamente nos campos de batalha, imaginavam-se num vasto campo de ‘rugby’ habituados como estavam com a disciplina esportiva, ao prazer da competição. Para eles os combates sangrentos não passavam de uma luta esportiva, ao ribombar do canhão, o taque-taque sinistro das metralhadoras e a cintilação atordoante da baioneta. Transportar as linhas de trincheira inimiga, eram um ‘goal’ marcado [...] os desportos, racionalmente praticados, são um fator extremamente valioso da pujança da nacionalidade, eles exigem hábitos sãos e perfeita higiene, afastam a mocidade dos cabarés; são naturais inimigos do alcoolismo e da tuberculose, criam o espírito de luta, de iniciativa, dão o hábito de trabalhar como que por desporto. Convém incentiva-los, dentro dos preceitos e exigências da educação física.253
Disciplina esportiva, prática racional e prazer em competir são ingredientes ingleses e norte-americanos apropriados na produção do homem bandeirante. Refletem a aposta na idéia de que o processo de racionalização das práticas sociais
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FERREIRA NETO, 1999, p. 49-50.
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Newton Cavalcante, Frota Pessoa e Illydio Rômulo Colônia eram oficiais do exército, Fernando de Azevedo havia enviado 28 professores para fazer curso de Educação Física no Centro Militar de Educação Física durante sua gestão como Diretor de Instrução Pública do Distrito Federale Arthur Higgins foi professor do Colégio Pedro II e publicou em 1896 um compêndio sobre ginástica escolar.
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produziria uma espécie de “consciência feliz”. Note-se a idéia contida no argumento “trabalhar como que por desporto”, ou seja, com energia, competitividade, prazer e ordem. Ao tratar de questões similares a essas em seus estudos sobre a produção moderna do “homem unidimensional”, Hebert Marcuse argumenta que “as pessoas são levadas a ver no aparato produtivo o agente eficaz de pensamento e ação ao qual se devem render seu pensamento e ações pessoais. E, nessa transferência, o aparato também assume o papel de agente moral”.254 Na Revista do Club dos Bandeirantes, o ethos esportivo parece disseminado em cada página, como forma e como conteúdo, amalgamado ao desenvolvimento industrial, ao reordenamento tecnológico proposto para o mundo do trabalho, às notícias sobre o mundo das artes e dos lazeres e também às prescrições relativas à educação das novas gerações.
Reforçando sempre a idéia de que o esporte “racionalmente praticado” é fator de desenvolvimento para homens e mulheres e de eficiência para a nação, os “homens bandeirantes” apostam na premissa de que tais práticas “não conhecem limites” e, assim sendo, poderiam ser ferramentas úteis ao propósito de afirmar que o “brasileiro não é indolente”, o que lhe falta é o espírito patriota, forte e corajoso, que poderá ser adquirido pela educação.255 Combinando as referências norte- americanas de progresso e desenvolvimento industrial com a idéia de que o brasileiro não é naturalmente indolente, o que falta é educação, alguns artigos da revista anunciam a produção de um esporte ajustado às características consideradas brasileiras ou tipicamente nacionais. Em uma seção intitulada “Educação Física”, o Capitão Francisco Fonseca apresenta em pormenores as regras do jogo de peteca.256 Em outras matérias, a revista noticia campeonatos de laço e de arco e flecha realizados nos Estados Unidos, alegando que entre nós tais competições deveriam ser estimuladas, pois, no caso do laço, agregaria “habilidades que tantos e tantos bravos patrícios tem nas nossas regiões pastoris”.257 Quanto ao arco e flecha, esta poderia ser “uma prática esportiva que, além de sua manifesta
254
Cf. MARCUSE, 1973, especialmente o capítulo 3: “A conquista da consciência feliz: dessublimação repressiva.”
255
Cf. na revista A Bandeira, n. 1, o artigo de Ferdinando Labouriau sobre os homens bandeirantes e a aviação, no n. 6, o editorial que afirma que “O brasileiro não é indolente”, assinado por Alberto Torres e no n. 7-8 um artigo de Frederico Duarte sobre educação intitulado “O único problema nacional”.
256
A BANDEIRA, Ano I, n. 2.
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utilidade, teria, entre nós, um perfume indefinível de tradição, de amor e de admiração pelos primeiros brasileiros”.258
Ao explorar a dimensão utilitária agregada a essas práticas corporais e ao noticiá-las como esportes, torna-se manifesto o caráter prescritivo vinculado à constituição cívica da nacionalidade. Isso fica ainda mais explícito em um número da revista que trata da pesca: “Na pesca terá o Brasil um dia, das maiores fontes de riqueza. E é um desporto utilíssimo, em que os seus dedicados tem de aprimorar-se no remo e na natação – os exercícios físicos mais racionais e adequados ao nosso meio”.259 Nessa matéria, no entanto, os citados praticantes da pesca são homens bandeirantes da elite carioca – Arnaldo Guinle, Maro Polo, Waldemir Bernardes, Porto d’Ave, Jorge Santos e Afonso de Castro – que, por certo, a praticavam por amadorismo, diletantismo, e não por sua “utilidade”. Na estrutura do comentário esportivo, um indício do modelo de sociedade em construção pelos homens bandeirantes, no qual uma elite que pratica esporte por amadorismo prescreve-o para as populações pobres como estratégia e como técnica para a consolidação de uma identidade nacional, para um disciplinamento corporal racional e para a produção eficiente de riquezas.
Com apelo moralizador, o debate sobre o esporte se intensificou nos números 11 e 12 do periódico, ambos de 1928. Neles a revista incluiu uma nova sessão intitulada “A Bandeira Esportiva”. Além de noticiar campeonatos de atletismo, futebol, turfe, remo, pólo, tênis, etc., essa Seção continha matérias de reflexão sobre as práticas esportivas. Em uma delas, ao tratar da relação entre amadores e profissionais, afirma que “a eficiência dos primeiros dependerá da organização dos segundos”.260 Esse será, na década seguinte, um argumento de relevo nos projetos de normatização e controle da educação física e do esporte.261
Além de sua própria estrutura editorial, a revista A Bandeira incluía também como encartes o periódico militar intitulado “A Defesa Nacional”, o “Boletim da Associação Brasileira de Educação”, elaborado pelo Departamento Carioca da ABE,
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A BANDEIRA, Ano I, n. 5.
259
A BANDEIRA, Ano I, n. 6.
260
A BANDEIRA, Ano II, n. 12.
261
A polêmica entre amadorismo e profissionalismo foi tomada como uma das principais justificativas para a ação centralizadora de Estado no setor esportivo, no pós-1930. Essa, entre outras manifestações de interesses divergentes, foi tomada como “indisciplina” e “desordem”, esportiva e social. Sobre esse assunto, cf. Manhães (1986); Lopes (1994) e Linhales (1996).
e o “Electron”, veículo de divulgação da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro.262 No número 5, de 1927, o Boletim da ABE é divulgado com o nome de “A Bandeira Educativa”. Essas parcerias indiciam a rede de sociabilidade e os múltiplos contextos, por meio dos quais o projeto moderno e racionalmente estabelecido foi desenhado por intelectuais civis e também por militares. Belisário Pena, Celso Kelly, Monteiro Lobato, Ferdinando Labouriau, Francisco Duarte, Manoel Bonfim, Arnaldo Guinle, Vicente Licínio Cardoso, dentre outros, são nomes em circulação na ABE que freqüentaram a revista A Bandeira como notícia ou tratando de assuntos variados, tais como escotismo, educação higiênica ou artes.
Ao espírito industrialista do “Club dos Bandeirantes” – de “real proveito para as nossas ciências, letras e artes”263 – agregava-se um projeto de hierarquização das relações sociais e, consequentemente, de centralismo. Ambos anunciados como fatores de coesão “sem coação”, recursos educativos e “essência da nacionalidade” eficaz. Esses eram valores também compartilhados por alguns segmentos militares que pretendiam estender sua atuação a “todos os aspectos relevantes” da vida do País.264 Além das estreitas relações que, a partir da Escola Politécnica, foram estabelecidas entre o grupo dos “jovens turcos” e o grupo de industrialistas do Club dos Bandeirantes, outros vínculos foram também mobilizados para que projetos militares circulassem para além da caserna.