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3.   KENTSEL MEKÂN 33

3.1   Kentsel Mekân Kavramı ve Tanımı 33

Virgínia, diretora da EMBRA, trabalha em educação há 27 anos e está nessa escola há 21 anos. É responsável tanto pela gestão pedagógica quanto pela administração dos recursos financeiros, da estrutura operacional e pelo funcionamento geral da escola. Conta com o auxílio de uma vice-diretora, mas considera que o acúmulo de atribuições ao gestor escolar é muito desgastante. Gostaria de ter mais tempo para acompanhar de um modo mais próximo o processo de ensino-aprendizagem na escola, mas isso é dificultado pelas suas inúmeras atribuições. Frequentemente sua mesa está

repleta de relatórios, orçamentos, projetos, entre outros documentos da escola. Conta com a ajuda de uma funcionária que exerce a função de auxiliar de caixa escolar e com os serviços de um escritório de contabilidade, contratado pela Prefeitura, para cuidar da folha de pagamento dos funcionários. Mas é ela quem cuida da movimentação bancária e administra as contas e verbas da escola. Também deve acompanhar o funcionamento operacional da escola, a aplicação das avaliações externas sobre o desenvolvimento dos alunos, monitorar a execução do projeto pedagógico, promover reuniões com os professores e funcionários e conversar com os pais dos alunos quando necessário.

Virgínia ingressou na EMBRA como professora, trazendo sua experiência de sete anos que obteve lecionando em uma escola estadual. Já exerceu a função de coordenadora de turno, de coordenadora pedagógica e também foi diretora em mandato anterior nessa escola.

Com apenas cinco anos de exercício profissional na EMBRA foi convidada a se candidatar ao cargo de diretora. Eleita, permaneceu nessa função por 3 anos. Em 2007, um grupo de professores pediu que se candidatasse novamente. Então decidiu que só ficaria por dois anos na direção da escola. Entretanto, ao final desse período, o mesmo grupo solicitou que ficasse mais tempo e, atendendo aos pedidos do corpo docente, voltou a se candidatar.

Afirma que gosta do que faz, se envolve muito em seu trabalho e considera que a principal função do diretor é acompanhar o processo de aprendizagem do aluno. Considera que, se tivesse mais tempo, gostaria de se dedicar mais à gestão pedagógica, sem se preocupar tanto com questões de ordem operacional.

Ela diz sentir falta de exercer a regência de turma. Pretende voltar para sala de aula antes de se aposentar, mas os professores já têm se manifestado solicitando a sua permanência na direção.

Para ela, os professores mais experientes são os que têm conseguido melhores resultados com os alunos quando comparados aos docentes novatos. Também avalia que a indisciplina e a falta de comprometimento de uma considerável parcela de alunos seja um dos principais motivos do desgaste mental de muitos professores.

Na EMBRA, a direção é rigorosa quando se trata de garantir que o aluno respeite o professor e as regras de boa convivência em grupo. Quando os coordenadores não podem cuidar pessoalmente dos conflitos entre professor e aluno, a diretora faz questão de se inteirar do assunto para assumir um posicionamento coerente em relação ao fato

ocorrido. Procura auxiliar aos professores na resolução de problemas de indisciplina dos alunos. Com bastante frequência podemos encontrar crianças que são levadas à sua sala para conversar a respeito de suas atitudes não condizentes com o ambiente escolar. Fica claro que ela não admite que o professor seja desrespeitado pelos alunos ou mesmo por seus familiares. “Ou vai sair da escola ou vai consertar porque tem que ter limites. Tem pais também que não têm limites não... e nós colocamos isso para os pais também”, diz.

Como gestora, Virgínia também se preocupa em garantir que o tempo de planejamento do professor seja respeitado, ou seja, ela providencia para que o período de 4 horas semanais, para desenvolvimento de projetos e atividades, seja preservado. Além disso, não permite que o docente passe mais de 16 horas na regência. Caso algum professor falte, não admite que outro docente utilize seu tempo de planejamento para cobrir a ausência do colega em sala de aula. Nessa situação, os alunos são distribuídos em outras turmas, ou, no último caso, o coordenador assume a turma que está sem professor.

Eu não concordo com isso. Aqui, enquanto eu tiver na direção, nós não vamos tirar o tempo de projeto do professor, não. (...) Porque se a gente começa a abrir mão dos nossos direitos... Se eu como gestora começo a deixar que esses direitos vão se perdendo... O professor trabalha o dia inteiro; qual o momento que ele vai poder se sentar para fazer o seu planejamento, qual o momento ele vai poder se sentar comigo ou com o coordenador para conversamos sobre seu trabalho, se ele tem que ficar o tempo todo em sala de aula? Então, aqui a gente não deixa não. (VIRGÍNIA).

A direção procura também convidar o grupo docente a participar do planejamento das ações pedagógicas e das decisões a respeito dos gastos de verbas disponibilizadas pelo governo. Acompanhamos reuniões entre direção e professores em que estes puderam sugerir como seriam utilizadas as verbas disponíveis para o desenvolvimento de projetos pedagógicos. As reuniões eram realizadas com todos os professores, em grupos de quatro, além da coordenadora pedagógica e a diretora.

Acompanhamos uma das reuniões em que um grupo de professoras discutiu como deviam utilizar uma verba que a escola havia recebido. A Prefeitura havia disponibilizado um determinado valor para o desenvolvimento de atividades promotoras do processo de ensino-aprendizagem. A diretora achou estranha a quantia disponibilizada para a escola e consultou a Secretaria de Educação para se certificar se não haviam se equivocado em relação a isso. Ficou confirmado, entretanto, que esse montante era mesmo para a EMBRA. Uma das professoras presentes destacou que os

projetos desenvolvidos pela escola nos últimos anos tinham sido bem-sucedidos e talvez por esse motivo estivessem merecendo esse recurso para que pudessem dar continuidade ao trabalho.

Durante esses encontros, a direção indagou sobre a necessidade de contratação de especialistas para a capacitação dos professores e solicitou que os professores sugerissem nomes de profissionais especializados para esse treinamento. Elas solicitaram o desenvolvimento de oficinas de ação pedagógica principalmente em português, matemática e ciências, argumentando que essas capacitações deveriam ser mais objetivas e que tinham interesse em aprender novas técnicas e práticas de ensino. Desse modo, os cursos de capacitação não deviam se restringir a discussões teóricas e todos concordaram que deveriam cobrar essa postura do especialista que seria contratado para o treinamento. O grupo de docentes também reivindicou a compra de novos livros para a biblioteca de sala de aula. Além disso, falou sobre as dificuldades que encontrava para executar seu trabalho, especialmente sobre os problemas de aprendizagem e a indisciplina de alguns alunos. Foi possível perceber que as crianças que apresentavam maiores problemas na escola eram velhas conhecidas do grupo de professores.

Durante essa reunião também conversaram sobre os projetos que estavam desenvolvendo com seus alunos e sobre as excursões e passeios que realizariam durante semestre. Os locais a ser visitados poderiam ser escolhidos conforme o assunto que o professor estivesse trabalhando com sua turma, para ilustrar o conteúdo estudado. Foi sugerido que organizassem visitas a museus, ao zoológico, a empresas e associações de catadores de material reciclável.