3. KENTSEL MEKÂN 33
3.2 Kentsel Mekânı Pozitif ve Negatif Mekân Olarak Yorumlayan Çalışmalar 40
A implantação das propostas da Escola Plural significou grandes mudanças no cotidiano das escolas da RME-BH. Esse movimento levou as instituições educacionais do município a realizar uma discussão sistemática sobre os desafios de sua prática pedagógica considerando o contexto histórico, político e social em que estavam inseridas. O grupo docente da EMBRA procurou aderir às propostas da Escola Plural, mas foi necessário desenvolver estratégias específicas para que conseguissem trabalhar conforme as novas diretrizes.
Como diretora da escola, Virgínia reconhece pontos positivos na proposta da Escola Plural tais como a contratação de mais professores e funcionários. Também acha positiva a lógica de se trabalhar por ciclos, levando em consideração a idade do aluno. Mas ressalta que essa proposta deveria ter sido trabalhada em uma escola modelo para ser testada antes de sua implantação na rede de escolas do município. Em sua opinião, diversos equívocos foram cometidos com sérias consequências, pois muitos estudantes foram aprovados sem, na verdade, estarem devidamente capacitados. Não sendo permitida a reprovação do aluno que não conseguiu se desenvolver durante o ano letivo, esses estudantes saíam da escola sem saber ler e escrever corretamente.
Conforme, Virgínia, isso fez com que a Escola Plural ficasse rotulada como aquela em que qualquer aluno passa. “E a realidade foi essa, aluno saindo no final do 3º ciclo sem ler e sem escrever. Chegamos ao ponto de um supermercado colocar uma placa: “Não aceitamos alunos de escola plural para trabalhar!”E a gente fica sem chão.” (VIRGÍNIA).
Na prática, a proposta da escola plural nunca foi realmente implementada, conforme a opinião de algumas professoras da EMBRA. Estas preferiram continuar adotando as práticas pedagógicas da escola tradicional.
A Escola Plural foi implantada gradativamente nas escolas da rede municipal de ensino de Belo Horizonte entre os anos de 1995 e 1997. O principal objetivo dessa proposta era implementar uma escola inclusiva, que respeitasse a diversidade cultural dos alunos. Essa proposta baseava-se numa construção coletiva de políticas educacionais que fossem mais democráticas e igualitárias. Mas a reorganização do trabalho docente foi elaborada a partir da uma apropriação do saber e das experiências do professor em sala de aula, sem que este participasse efetivamente dessa elaboração.
Conforme o parecer de uma das professoras da EMBRA, a proposta da Escola Plural veio como uma imposição27 da Prefeitura, uma vez que foi criada por pessoas que não tinham a vivência da interação diária com os alunos em sala de aula. “Tem coisas
27 Conforme o Caderno 0 (zero) da Proposta Político-Pedagógica da RME, publicado em 1994, a Escola
Plural foi elaborada a partir das experiências em docência, que muitas vezes tinham um caráter transgressor, ainda que legítimo. A proposta consistiu em “recolher ricos materiais existentes nas escolas e construir coletivamente uma proposta da rede municipal, assumida e garantida pelo Governo” (p. 10). Desse modo, buscou-se a construção de uma “direção mais coletiva” para legitimar “essa pluralidade de experiências” que foram, então, “assumidas como propostas de Governo”. Assim, ressaltamos que as afirmações dos docentes a respeito da Escola Plural foram fielmente transcritas no presente estudo, revelando seus conceitos e opiniões particulares. Em respeito à experiência do docente, não nos cabe questionar sobre a veracidade ou adequação de suas opiniões, pois consideramos que é o trabalhador quem mais sabe e tem a dizer sobre a sua atividade.
que são meio fora da realidade... de quem está na academia e não trabalha com um grupo grande de alunos e com as diferenças que a gente tem dentro de sala...”, declarou.
Uma das principais inovações da Escola Plural diz respeito à reorganização dos tempos escolares na educação básica em três ciclos de três anos cada. O primeiro ciclo compreende os alunos com idades entre 6 e 9 anos. O segundo ciclo corresponde aos alunos que estão na faixa de idade de 9 até 12 anos e o terceiro ciclo diz respeito aos alunos que estão entre 12 e 15 anos de idade. Dentro desses ciclos de formação, considera-se que o aluno, estando junto com seus pares de idade, terá melhores oportunidades de alcançar uma formação social mais equilibrada. O objetivo é que o estudante, além da aquisição do conhecimento, tenha possibilidades de realizar com seus colegas trocas de experiências, de valores, de representações, de identidades de gênero, de classe social e de etnia, como indica a proposta político-pedagógica da Escola Plural.
A proposta da Escola Plural também inclui um processo de acompanhamento do desenvolvimento do aluno que deve ser constante dentro de cada ciclo de formação de modo que as dificuldades de aprendizagem possam ser percebidas e trabalhadas dentro de cada ciclo. Desse modo, o aluno deve continuar com o mesmo grupo de idade sem repetências e ficará retido ao final de cada ciclo, no caso de não conseguir um desenvolvimento equilibrado em todas as dimensões da formação ou por frequência insuficiente às aulas. A retenção ou permanência do aluno no ciclo de idade deve ser considerada como uma situação excepcional. Essa decisão não depende apenas da determinação de um professor. O parecer final sobre a necessidade de retenção do aluno deve ser uma decisão de toda a equipe de trabalho da escola.
Quando se trata de estabelecer critérios sobre a reprovação de um aluno, uma das professoras da EMBRA comenta que, conforme a proposta da Escola Plural, o professor que acompanha a turma tem o poder de decisão limitado. Para ela, a direção das escolas, de um modo geral, não tem interesse na retenção do aluno, mesmo nos casos mais necessários, pois para que a escola atinja uma pontuação satisfatória no IDEB, não é bom que haja um número grande de retenções.
Às vezes, a gente quer bancar, mas, às vezes, você é pressionado pela regional, pelas acompanhantes da regional, pela direção – dependendo da direção - porque não pode ter muita retenção. Então, não temos muita autonomia para reter não. (PROFESSORA).
Para a direção da EMBRA, as mudanças implementadas pela Escola plural em relação à retenção dos alunos foi um ponto negativo, pois o aluno, muitas vezes, é aprovado sem maturidade intelectual. Mesmo não se comprometendo com as atividades propostas pelo professor, o aluno deverá prosseguir juntamente com sua turma, pois não pode ficar distante dos colegas de mesma faixa etária. Conforme a opinião dos professores e da direção dessa escola, essa medida provoca o desinteresse do estudante, pois estando comprometido ou não, sendo responsável ou não, estudando e conseguindo um bom conceito ou não, será aprovado.
A implantação das propostas da Escola Plural nas escolas da Rede Municipal de Ensino de Belo Horizonte mobilizou os esforços da direção da EMBRA no sentido de contratar uma consultoria em políticas públicas com o objetivo de diagnosticar as impressões da comunidade escolar sobre as diretrizes da Escola Plural e auxiliar na construção do projeto político-pedagógico e do currículo da escola. Isso ocorreu no ano 2000, cinco anos depois que havia iniciado o processo de implantação da Escola Plural na rede de escolas de Belo Horizonte.
Mesmo cabendo a cada unidade escolar elaborar sua proposta curricular, a Secretaria Municipal de Educação apresentou uma referência curricular para toda a rede, que deveria nortear a elaboração do currículo de cada escola. Além disso, a partir de 2004, passou a exigir a descrição do projeto político-pedagógico como documentação obrigatória para aprovação das propostas de trabalho de todas as escolas da rede de ensino.
A direção e o corpo docente da EMBRA decidiram que seria importante a contratação de uma empresa de consultoria em políticas públicas para nortear os primeiros trabalhos da construção do projeto pedagógico da escola. A utilização da verba advinda do Plano Dinheiro Direto na Escola (PDDE) do governo federal foi utilizada para esse investimento, após concordância de todos os professores.
Essa pesquisa se iniciou em fevereiro de 2000 e a coleta das informações se deu a partir da aplicação de 264 questionários direcionados às famílias e 257 questionários direcionados aos alunos. Também foram realizados encontros técnicos com professores da escola para propor uma discussão sobre o desenvolvimento da pesquisa, coletar suas impressões sobre a implantação da Proposta da Escola Plural na EMBRA e aprofundar a compreensão do grupo docente a respeito dos conceitos norteadores da Escola Plural.
O principal problema diagnosticado a partir dessa pesquisa foi o desconhecimento e a rejeição ao sistema de avaliação adotado pela nova proposta, tanto pelos alunos e seus pais, quanto pelos professores. Na ocasião dessa pesquisa, os principais instrumentos de avaliação utilizados na escola ainda eram as provas. Isso revelou a existência de uma contradição no modelo pedagógico da escola em relação à proposta da Escola Plural, uma vez que as provas eram consideradas como métodos tradicionais. Os pais dos alunos demonstraram ser o grupo mais insatisfeito em relação ao novo sistema de avaliação. Para 40% dos responsáveis pelas crianças, a proposta foi considerada como péssima ou ruim, porque compreendiam que os alunos, na nova proposta pedagógica, eram aprovados, muitas vezes, sem estarem devidamente preparados e sem que a escola tenha conseguido motivá-los para o estudo. Além disso, conforme os resultados da pesquisa, para 87% dos familiares, o rendimento do aluno não melhorou após a implantação da Escola Plural.
Conforme o parecer dessa pesquisa, o modelo pedagógico da EMBRA estava muito pautado em práticas tradicionais e por esse motivo, proporcionava poucas situações de aprendizagem para além dos conteúdos clássicos.
Mesmo com a implantação da Escola Plural, alguns professores da EMBRA revelaram que continuaram utilizando métodos da escola tradicional na execução de seu trabalho em sala de aula, pois verificaram que a realidade diária mostrava que seria necessário fazer alguns ajustes a partir da nova proposta político-pedagógica, para que conseguissem atingir resultados satisfatórios com os alunos.
A atual diretora da EMBRA, comentando sobre a implantação das diretrizes da Escola Plural, ressaltou “[...] o que a gente viu que foi pior na Escola Plural... Primeiro é que a nossa escola ainda continuou no tradicional. Porque toda instituição tem que ser avaliada para melhorar, avaliação é para nortear mesmo o nosso trabalho”.
A atual coordenadora pedagógica da escola e que na ocasião da referida pesquisa ocupava o cargo de diretora na EMBRA afirma que, com a implantação da Escola Plural, percebeu-se uma tensão entre o corpo docente da escola, que se traduziu em certo desequilíbrio entre a utilização dos procedimentos tradicionais e os métodos inovadores.
Em 2003, os profissionais dos três turnos da EMBRA voltaram a discutir se ocorreram mudanças significativas em relação à utilização dos métodos da escola tradicional e concluíram que as principais dificuldades da comunidade escolar em
relação às propostas da Escola Plural continuavam presentes no cotidiano da escola. Em abril de 2004, os professores da EMBRA apresentaram suas sugestões para diminuir esses conflitos tais como a ênfase no trabalho com esportes, o uso frequente da biblioteca, a reativação do laboratório de ciências, a retomada dos cursos de capacitação dos docentes em forma de oficinas e a elaboração coletiva do projeto político- pedagógico da escola, uma vez que se tratava de uma exigência da Secretaria Municipal e Educação.
No projeto pedagógico da Escola Plural, a organização das aulas e atividades deve ser discutida e planejada por um conjunto de profissionais que trabalham com um grupo de alunos, mas a figura do professor referência da turma é fundamental, pois é com ele que o aluno poderá estabelecer maiores vínculos. Atualmente, na EMBRA, as turmas são acompanhadas por uma professora durante todo o ano letivo, e além dela, pela professora de educação física e pela professora de espaço e formas, disciplina que trabalha os aspectos ligados à geometria espacial, promovendo também a formação do aluno em educação artística.
Na proposta plural de educação, o currículo deve ser construído a partir da definição coletiva dos temas da atualidade perpassando as disciplinas tradicionais e não paralelos a elas, havendo uma integração entre temas que dizem respeito à relação com o meio ambiente, a diversidade cultural, à sexualidade, ao mercado de consumo e as disciplinas curriculares – língua portuguesa, matemática, ciências, história, artes e educação física. A adição dos temas atuais ao conteúdo do currículo proporciona, conforme o projeto da Escola Plural, que as disciplinas estejam relacionadas com a realidade contemporânea, agregando a elas um valor social. Desse modo, o processo de ensino-aprendizagem visa à formação do aluno a partir de seus sistemas de valores. Conforme a proposta da Rede Municipal de Ensino (RME) de Belo Horizonte, os alunos quando entram na escola já trazem hipóteses explicativas e concepções sobre o mundo que conhece. Desse modo, o conhecimento deve ser produzido coletivamente, na interação entre alunos, suas famílias e professores, considerando a experiência vivida e a produção cultural de toda a comunidade escolar e dando significado às aprendizagens construídas.
O trabalho do professor não deve ficar restrito a apenas repassar os conteúdos prontos. É preciso que o professor considere, em o todo processo de ensino- aprendizagem, a prática social dos sujeitos nele envolvidos, pois ele não se resume a
uma atividade puramente intelectual. O trabalho do professor por depender da interação e convivência com o aluno, não permite que o docente fique alheio aos problemas pessoais da criança, para se dedicar apenas ao ensino das disciplinas curriculares. A coordenadora pedagógica da EMBRA nos explica essa dimensão do trabalho docente:
Então, na escola, o professor hoje gasta muito tempo conversando, muito tempo vendo postura, a atitude que o menino tem na escola. Ele não vai à escola só para aprender. Ele vai para merendar, ter inserção social, ele vai pra fugir de trabalhos de casa. Então, é complicado... Num dia, o professor perde tempo de toda hora estar parando a aula, toda hora estar conversando. É um desgaste enorme para ele e para a turma também. (COORDENADORA PEDAGÓGICA)
Os temas da atualidade assim como os hábitos adequados de convivência em grupo são trabalhados na EMBRA por meio de recursos como música, dança, poesia e teatro a partir da proposta de um grupo teatral que foi criado em 1999 e persiste até hoje. Considerando que o processo educativo envolve muitas dimensões do desenvolvimento humano, a escola ao invés de tratar assuntos como violência, miséria, drogas, exclusão social apenas por meio de palestras, prefere abordá-los por meio de textos teatrais construídos, na maioria das vezes, na própria escola.
A professora de português, por exemplo, desenvolve com as crianças dramatizações que facilitam a aprendizagem a partir do desenvolvimento da oralidade no aluno. O grupo teatral da escola é constituído por alunos dos três turnos e por membros da comunidade como figurantes. Ela trabalha na educação há mais de 30 anos e além lecionar no ensino fundamental no turno da manhã é também professora referência de uma turma de adolescentes no turno da noite.