5. MEKÂNSAL KALİTE BAĞLAMINDA KENTSEL MEKÂNLARIN
5.2 Önerilen Mekânsal Kalite Prensipleri 167
5.2.1 Önerilen Mekânsal Kalite Prensipleri ve Parametreleri 167
5.2.1.1 Önerilen Mekânsal Kalite Parametreleri 170
Mesmo gostando de seu trabalho, Cristina percebe que algumas propostas do Sistema Educacional ao invés de servir de apoio para o trabalho docente, são prejudiciais, pois não levam em conta a realidade objetiva dos alunos e suas famílias. As normas e diretrizes da educação muitas vezes são discrepantes em relação às condições objetivas do trabalho nas escolas, gerando para o professor o ônus do conflito entre o que é esperado e o que realmente ocorre na prática.
Ela considera que a má qualidade do ensino nas escolas públicas do Brasil não é culpa dos professores e ressalta que também nas instituições de ensino particulares, os professores estão encontrando muitas dificuldades para realizar seu trabalho.
A escola particular ainda tem a retenção, mas também tem o sistema de dependência, quer dizer, pode ir para frente quem faz a dependência, o menino não fica totalmente retido. E tem escola particular em que o menino fica retido, mas os pais exigem e a escola tem a obrigação de aprovar. [...] A gente sabe de uma escola grande, aqui em Belo Horizonte, que os alunos do ensino médio aprontaram e a escola tinha que expulsar, né? Aí, os pais vieram e os alunos voltaram para a escola. Aí, fica aquela coisa... Nós não temos muito jeito.
Ela se recorda também que, quando ainda era estudante, os professores gozavam de reconhecimento e de um status que não corresponde mais à realidade dos dias de hoje. Os alunos ficavam de pé quando a professora entrava em sala de aula. Apesar de gostar de sua profissão e de investir em sua carreira, percebe que o trabalho em docência não garante uma boa posição social para o professor, atualmente.
Hoje é: “ah, você é professora? “Qual a sua profissão? Professora? Professor ganha mal, não é?” Falam assim, desse jeito. Porque o que fica aí é que a escola está mal e o professor ganha mal. Não tem mais aquele respeito, aquele status em ser professora, não.
Cristina critica severamente as medidas adotadas pela Prefeitura com o objetivo de padronizar o trabalho do professor, desconsiderando sua experiência e o modo de vida da clientela. Considera também contraditório que, atualmente, a Prefeitura esteja retomando as avaliações externas e o boletim, mas, para ela, trata-se de um equívoco quando se pretende que esse boletim apresente apenas conceitos sobre o desempenho do aluno ao invés de notas, pois para as famílias fica mais difícil compreender se a criança está se desenvolvendo ou não.
As tentativas de se recuperar o que, em sua visão, ficou perdido em termos de desenvolvimento dos métodos de ensino, vêm novamente como imposições da Secretaria Municipal de Educação, disfarçadas de inovações, ou seja, não passam de “novas” velhas propostas.
Agora, com essa retomada... Só que vem de novo imposta. As avaliações externas. E avaliação... agora é nota, conceito, boletim... Como se nunca tivéssemos trabalhado com boletim. Muitas coisas se perderam e está se tentando retomar, mas novamente – eu acho – que de uma forma errada, muito imposta [...] Aí voltou o boletim e até a própria forma da Prefeitura classificar. [...] Aí, colocam conceito A, B, C, D e E. Por que que não volta a nota que fica muito mais fácil do pai entender? Os pais estão sem parâmetro. Eu acho que se fosse nota seria muito mais fácil. Querem voltar tudo? Então volta a nota... fica mais fácil para nós e para os pais.
Percebe, portanto, em seu trabalho algumas contradições entre o que é investido pelo professor e o que este recebe em contrapartida. Um desses problemas está na autonomia, já que o professor não pode decidir a respeito das reprovações dos alunos, pois o governo não tem interesse em manter os alunos na escola por um longo período de tempo. A lógica da quantidade tem sido mais forte do que os critérios baseados na qualidade do aprendizado do aluno. Quando o professor avalia que um determinado número de alunos deverá ficar retido e repetir o 3º ano do ciclo, a regional interfere, pois não é bom para a escola que haja muitos casos de retenção. Entretanto, na EMBRA, a direção dá aval para a decisão do professor, pois considera que é ele quem conhece os seus alunos.
Se a regional perceber que você deixou uma turma inteira retida, ela vem aqui. Tem um número X que ela aceita de retenção. A não ser que a escola banque. Aqui na escola a diretora costuma bancar: “tem que reter, vamos reter, não quero um número falso.” Mas tem escola que não: “Nosso IDEB32 tem que aumentar.” Porque, quanto mais retenção, pior, né?
A restrição do poder de decisão do professor é percebida por ela como uma desvalorização do seu trabalho e da sua experiência. Embora não seja esse o seu caso, ilustra sua crítica com uma situação em que a família do aluno acionou a justiça para exigir que ele fosse aprovado. A escola foi obrigada a aceitar a aprovação do aluno, independentemente do parecer contrário da professora.
Assim, os critérios de avaliação do trabalho docente pela Secretaria Municipal de Educação lhe parecem contraditórios: as maiores verbas para desenvolvimento de
projetos são destinadas justamente para as escolas que não conseguem atingir as metas de pontuação satisfatória no IDEB. As escolas e os professores que mais se esforçam e que, por esse motivo, atingem as metas de alfabetização dos alunos, não recebem incentivos ou premiações. Além disso, os critérios de avaliação do trabalho docente adotados pelo governo dão ênfase apenas aos resultados obtidos pelo estudante. Desse, modo os esforços do professor nem sempre ficam evidentes.
Para ela, a satisfação com o trabalho não depende apenas da remuneração do professor. O salário não tem sido fator de insatisfação para ela: “Não reclamo do meu salário: “Ah, não vai dar para nada. Mas acaba dando. No final sempre dá. Você não sente falta de nada. Você consegue levar a vida assim tranquilamente...”
No entanto, sente-se desrespeitada ao pensar nas incoerências presentes também nesse campo. A Prefeitura procura incentivar ao professor com benefícios financeiros que lhe parecem contraditórios. No início de 2010, instituiu um abono com o objetivo de estimular a fixação profissional. No final do semestre, ele será pago ao professor que não precisou faltar, mesmo por motivo justificado, com o objetivo de recompensá-lo. Para Cristina, com essa gratificação, a Prefeitura demonstra que desconsidera os esforços dos profissionais que precisaram se ausentar o trabalho porque adoeceram, muitas vezes, em decorrência das dificuldades da própria profissão.
Além disso, há uma proposta da Prefeitura de pagar um prêmio por comparecimento em cada reunião pedagógica que o professor participe, mas não é permitida nenhuma falta durante o semestre. Para Cristina, isso também penaliza o professor que está doente ou que precisou faltar por algum motivo justificado. Também o aumento de salário que a categoria conquistou por meio de uma greve realizada em março de 2010, ainda não havia sido pago aos professores. Tudo isso fez com que concluísse que permanecer na carreira docente depende de gostar da profissão mais do que da remuneração: “[...] A gente trabalha na marra. A gente está fazendo porque a gente gosta mesmo, porque senão se você for olhar esse lado, você para de trabalhar...”