1.1.3 Kayıt Dışı Ekonominin Sınıflandırılması
1.1.3.1 Gri Ekonomi
1.1.3.1.4 Kayıt Dışı İstihdam (Kayıt Dışı Çalışma – Çalıştırma)
Simultaneamente às mudanças ocorridas nos modelos de produção iniciados a partir da Segunda Guerra Mundial, verificou-se uma intensificação dos processos produtivos em escala global. Mediada pelos avanços tecnológicos, esta intensificação configurou-se como uma nova, ou renovada, faceta do processo de mundialização do capital (MARX e ENGELS, 1985), amplamente difundida na atualidade como globalização.
O apelo de modernização das nações, conduzida pela burguesa ocidental em consonância com a expansão das relações comerciais retomadas no período pós-guerra, permitiu o estabelecimento de uma renovada cultural mundial orientada pelo consumo.
Entretanto, tal como citado por Marx e Engels ao referir-se à mundialização do capital na lógica do pensamento burguês, a globalização continuou materializando-se dentro de princípios que arrastaram
para a torrente da civilização mesmo as nações mais bárbaras. Os baixos preços de seus produtos são a artilharia pesada que destrói todas as muralhas da China e obriga a capitularem os bárbaros mais tenazmente hostis aos estrangeiros. Sob pena de morte, ela obriga todas as nações a adotarem o modo burguês de produção, constrange-as a abraçar o que ela chama civilização, isto é, a se tornarem burguesas. Em uma palavra, cria um mundo à sua imagem e semelhança (MARX e ENGELS, 1985, p. 25).
Em cenários aparentemente diferenciados, a recente abertura econômica da China, os processos de padronização dos mercados mundiais e a difusão da cultura americanizada de massa tornaram-se significativos reflexos do potencial de ação do capitalismo contemporâneo, em que conceitos, princípios e práticas passaram a ser constantemente re- significados e alinhados às demandas de produção e consumo ditados pelo mercado global.
As condições aceleradas, dinâmicas e interligadas de produção e exploração da mais-valia, no contexto da globalização, levaram a burguesia a contestar e desafiar as “fundações e princípios políticos do Estado-nação firmados durante a ordem de Vestfália, e, por extensão, da própria democracia e cidadania” constituídas (GÓMEZ, 2000, p. 53). A noção de soberania antes defendida pela classe burguesa passou a ser questionada e relativizada, diante da necessidade hegemônica de justificar a importância e o valor da abertura dos capitais e dos mercados nacionais. Nesse sentido a própria globalização foi
redimensionada, e desde algum tempo “significa os processos, em cujo andamento os Estados nacionais vêem a sua soberania, sua identidade, suas redes de comunicação, suas chances de poder e suas orientações sofrerem a interferência cruzada de atores transnacionais” (WANDERLEI, 2006, p. 179).
A atuação da classe burguesa no delineamento dos processos decisórios dos Estados nacionais incidiu para que as condições de acesso e exercício da soberania, da democracia e da cidadania, fundados em princípios nacionalistas, fossem mantidas historicamente a serviço e sob o controle dos próprios interesses da burguesia. Dessa forma, tais princípios refletiram variadas condições entre as diferentes classes sociais, entre outros aspectos pelas permanentes contradições decorrentes das profundas desigualdades e injustiças sociais vinculadas estruturalmente ao modo de produção capitalista (MÉSZÁROS, 2002).
O movimento histórico de expansão do capitalismo, já anunciado no Manifesto do Partido Comunista (MARX & ENGELS, 1985)9, materializado na lógica da globalização, intensificou as contradições entre a produção de riqueza e o seu acesso pela população.
À apropriação de grande parte do capital mundial por poucos grupos transnacionalizados continuou associada à exploração da classe trabalhadora e sua decorrente privação dos bens sociais produzidos. Essas transformações têm sido compreendidas e relacionadas para além dos aspectos estritamente econômicos, tendo em vista suas implicações nas subjetividades e práticas sociais historicamente constituídas.
Longe de figurar como instrumento nivelador das diferentes condições humanas social, histórica, cultural e economicamente constituídas, a globalização passou a refletir redefinições e reordenamentos nas relações entre os países do capitalismo central e aqueles tidos como periféricos, com a respectiva acentuação das diferenciações, conflitos e estabelecimento de novos consensos entre as classes sociais, mediados pelos interesses da classe dominante.
9 Concorda-se com a prerrogativa apontada por Marx e Engels, que pela sua densidade é reproduzida a seguir, demonstrando que “pela necessidade de mercados sempre novos, a burguesia invade todo o globo. Necessita estabelecer-se em toda parte, explorar em toda parte, criar vínculos em toda parte. Pela exploração do mercado mundial a burguesia imprime um caráter cosmopolita à produção e ao consumo em todos os países (...). As velhas indústrias nacionais foram destruídas e continuam a sê-lo diariamente (...). Em lugar das antigas necessidades, satisfeitas pelos produtos nacionais, nascem novas necessidades, que reclamam para a sua satisfação os produtos das regiões mais longínquas e dos climas os mais diversos. Em lugar do antigo isolamento de regiões e nações que se bastavam a si próprias, desenvolvem-se um intercâmbio universal uma universal interdependência das nações. E isto se refere tanto à produção material como à produção intelectual” (MARX & ENGELS, 1985, p. 24-25).
A verdade é que a globalização não é jamais um processo histórico-social de homogeneização, embora sempre estejam presentes forças empenhadas na busca de tal fim; ou que buscam equalizar interesses, acomodar alianças, criar e reforçar estruturas de apropriação econômica e dominação política (IANNI, 1993, p. 127).
As alianças, os vínculos e a interdependência estabelecida entre as nações potencializaram a aceleração da produção, consumo e, inclusive, da destruição material e cultural, seja pela redução da vida útil das mercadorias, volatilidade das inovações tecnológicas e consumismo desordenado, seja pelo cerceamento de culturas, raças, etnias e das condições naturais, todos esses aspectos alinhados direta ou indiretamente aos interesses e demandas da dimensão produtiva (MÉSZÁROS, 2005). Estas proposições consubstanciam-se pela compreensão de que
a burguesia só pode existir com a condição de revolucionar incessantemente os instrumentos de produção, por conseguinte, as relações de produção e, com isso, todas as relações sociais. (...) Tudo que era sólido e estável se esfuma, tudo o que era sagrado é profanado, e os homens são obrigados finalmente a encarar com serenidade suas condições de existência e suas relações recíprocas. Impelida pela necessidade de mercados sempre novos, a burguesia invade todo o globo. Necessita estabelecer-se em toda parte, explorar toda parte, criar vínculos em toda parte (MARX e ENGELS, 1985, p. 24).
Com uma história de forte ascensão, o processo de globalização tem sido analisado por uma grande variedade de estudos e pesquisas em diversas áreas do conhecimento, entre as quais se insere a de políticas públicas e gestão. Ainda que não seja consensual uma única definição, depreende-se que, de maneira geral que,
[...] em primeiro lugar, a globalização implica uma mudança histórica fundamental na escala das organizações econômicas e sociais contemporâneas. Em segundo lugar, que ela não se constituiu em uma condição singular, mas em um processo multidimensional em que o crescimento dos padrões de interconexão global alcança todos os domínios institucionais-chave da vida social moderna (...). Por último, a globalização envolve, necessariamente, organização e exercício de poder social em escala transnacional e intercontinental (GÓMEZ, 2000, p. 58).
A globalização não representa um fato novo ou sequer recente. O cenário atual situa-se na história como reflexo do processo de globalização das economias iniciado há mais de cinco séculos.
Os períodos da globalização, constituídos de formas diferenciadas nos blocos econômicos mundiais, podem ser didaticamente organizados em três grandes etapas históricas: a primeira, dominada pela expansão mercantilista da economia-mundo européia; a segunda, caracterizada pelo expansionismo industrial-imperialista e colonialista e a terceira relacionada à globalização tal como conhecida na atualidade ou globalização recente, acelerada a partir do colapso da União Soviética e a queda do muro de Berlim, dos anos 1980 até o presente (SCHILLING, 2006).
Quadro 1. Períodos da Globalização
Data Período Caracterização
1450-1850 Primeira fase Expansionismo mercantilista
1850-1950 Segunda fase Industrial-imperialista-colonialista
Pós anos 1980 Globalização recente Cibernética-tecnológica-associativa
Importa frisar que as mudanças relacionadas principalmente ao terceiro período da globalização recente tiveram várias implicações nas dimensões produtiva, social e simbólica da sociabilidade humana tanto no âmbito local, nacional e mundial, principalmente porque diferentes cenários e organizações sociais tornaram-se progressivamente mais interdependentes (IANNI, 1996). Neste cenário, o percurso realizado pelos processos de globalização foi relacionado com a “internacionalização de um capital apropriado de forma cada vez mais privada, diante de um trabalho cada vez mais socializado” (SADER, 1999, p. 127).
Tais processos possibilitaram um renovado e dinâmico mecanismo de transnacionalização dos capitais, relacionado à produção em massa e às demandas de ampliação dos mercados, que originaram e aperfeiçoaram, por um lado, a supra- nacionalização das indústrias, e por outro, a flexibilização das legislações nacionais pertinentes ao ingresso de capitais estrangeiros para garantir a aplicação em investimentos locais, inclusive em áreas consideradas estratégicas das nações. Entretanto, a adoção de políticas relacionadas com a transnacionalização de capitais, no âmbito da globalização recente, não significa, necessariamente, que as empresas transnacionais tenham que dissolver ou descentralizar seus núcleos centrais de poder, conforme se pode verificar, por
exemplo, com as empresas norte-americanas, européias e japonesas (BATISTA JÚNIOR, 1998).
A abordagem acerca da transnacionalização do capital no contexto da globalização recente demonstra que o pretendido discurso da democratização, ou ampliação do acesso aos produtos consumidos internacionalmente, e da descentralização administrativa e financeira no setor produtivo, decorrente da flexibilização na gestão produtiva, não contribuíram efetivamente (ou o fizeram apenas parcialmente, em atendimento a determinados interesses) para estabelecer condições de exercício efetivo de princípios participativos ou democráticos nas dimensões produtiva e social da existência humana. Infelizmente, a prática social demonstrou que grande parte dos investimentos transnacionais associados à instalação de indústrias estrangeiras nos países em desenvolvimento, não se vincularam diretamente à garantia do desenvolvimento econômico e social, à promoção da defesa de interesses nacionais ou sequer ao fortalecimento das comunidades locais, principalmente no caso dos países periféricos.
Em resumo, a transnacionalização do capital no contexto da globalização recente opera, prioritariamente, para manter e garantir a sustentação das hegemonias ideológica e econômica dos países do denominado primeiro mundo.
É assim que emerge, desse gênero de constituintes fundamentalmente incontroláveis e geradores de fetichismo, um modo específico de controle sociometabólico. É um modo que não pode reconhecer fronteiras (nem sequer em seus próprios limites estruturais insuperáveis), apesar das conseqüências devastadoras quando forem atingidos os limites mais externos das potencialidades produtivas do sistema. Isso acontece porque – na maior oposição possível a formas anteriores de “microcosmos” reprodutivos socioeconômicos altamente alto-suficientes – as unidades econômicas do sistema do capital não necessitam nem são capazes de auto-suficiência. É por isso que, pela primeira vez na história, os seres humanos têm que enfrentar, na forma de capital, um modo de controle sociometabólico que pode e deve se constituir – para atingir sua forma plenamente desenvolvida – num sistema
global, demolindo todos os obstáculos que estiverem no caminho (MÉSZÁROS,
2002, p. 102) (grifos do autor).
Acerca do papel dos Estados Nacionais no contexto da globalização recente, autores como Mészáros afirmam que estas estruturas de poder assumiram um papel associado ao exercício do “controle abrangente sobre as forças centrífugas insubmissas que emanam de unidades produtivas isoladas do capital, um sistema reprodutivo social
antagonicamente estruturado” (2002, p. 107). O autor afirma ainda que, nessa lógica, o Estado necessita se transformar constantemente,
deve sempre ajustar suas funções reguladoras em sintonia com a dinâmica variável do processo de reprodução socioeconômico, complementando politicamente e reforçando a dominação do capital contra as forças que poderiam desafiar as imensas desigualdades na distribuição e no consumo. (...) Assim, a “globalização” (tendência que emana da natureza do capital desde o seu início), muito idealizada em nossos dias, na realidade significa: o desenvolvimento necessário de um sistema internacional de dominação e subordinação. No plano da política totalizadora, corresponde ao estabelecimento de uma hierarquia de Estados nacionais mais, ou menos, poderosos que gozem – ou padeçam – da posição a eles atribuída pela relação de forças em vigor (mas de vez em quando, é inevitável, violentamente contestada) na ordem de poder do capital global (MÉSZÁROS, 2002, p. 107-111).
No que diz respeito às resultantes da globalização recente como estratégia de desenvolvimento econômico, político e social, pode-se afirmar que esta não implicou, em termos gerais, na distribuição e maior acesso pela maioria da população aos benefícios sociais, ao consumo e ao aproveitamento adequado do desenvolvimento científico e tecnológico, permanecendo negados tais benefícios, em grande parte, àqueles que diretamente envolvidos na produção. Em outras palavras, não se confirmou até hoje,
que o global atinja a cada pessoa, lugar e esfera da atividade da mesma maneira; que o lugar, a distância e o limite territorial cessaram de ser importantes; que a ascensão dos fenômenos de supraterritorialidade anunciem o fim do Estado- nação; ou, menos ainda, que a globalização esteja encaminhando-se na direção de uma comunidade mundial com prosperidade, democracia e paz perpétua (GÓMEZ, 2000, p. 57).
Além disso, a globalização recente, além de continuar atendendo prioritariamente aos interesses e necessidades das camadas privilegiadas da sociedade, não demonstrou grande solidariedade para com os danos causados às populações dos países em desenvolvimento, nem com a preservação do meio ambiente. Nessas condições, pode-se dizer que a globalização
certamente funciona, por enquanto (mas não tão bem), [principalmente] para os tomadores de decisão do capital transnacional, mas não para a maioria da humanidade, que tem de sofrer as conseqüências. [...] Na realidade, a globalização do capital não funciona nem pode funcionar. Pois não consegue superar as contradições irreconciliáveis e os antagonismos que se manifestam na crise estrutural global do sistema (MÉSZÁROS, 2005, p. 75-76).
Por sua vez, os países da América Latina, na ânsia de incorporar-se ao bloco dos países globalizados têm procurado implantar, mesmo sem projetos de longo prazo, transformações sociais, políticas, econômicas e culturais tidas como necessárias ao alinhamento internacional, optando pela via do capitalismo dependente, adaptando-se a ideais democráticos republicanos, nacionais e constitucionalistas que dominam grande parte das sociedades capitalistas desenvolvidas (MARTINS, 2001, p. 37).
Pela constituição de blocos econômicos, tais como o MERCOSUL no caso do Brasil, consolidaram-se redutos de exploração comercial e cultural adequados aos interesses multinacionais10, porém, em grande parte alinhados às demandas estadunidenses (OLIVEIRA, 2004).
Nessa conjuntura, o capital não se exime de conflitos e disputas internacionais, principalmente quando nos processos de negociação se contrariam interesses de blocos econômicos ou, simplesmente de corporações concorrentes, de forma que as investidas econômicas e políticas pelo controle comercial, político e cultural em determinadas áreas geográficas do planeta, tornaram-se, no contexto da globalização recente, constante objeto de crises internacionais e de grandes negociações com implicações nos vários cenários econômicos internacionais. Isso pode ser observado, por exemplo, nas questões relacionadas com o petróleo iraquiano e a investida dos EUA na região do golfo, bem como a recente luta da Bolívia pela nacionalização da indústria de gás natural, que afetou diretamente ao Brasil e ao mercado correspondente em toda América Latina. Veja-se que
não é difícil concluir que os princípios da ordem de Westphalia têm sofrido concretas concessões e modificações no âmbito das relações internacionais. Do mesmo modo, os princípios e práticas fundamentais à democracia liberal, como a representação e a cidadania (que estão associados a instituições do Estado- nação territorial soberano) têm encontrado exceções. Nesse contexto, tornaram- se problemáticas categorias como legitimidade, consenso e demais idéias básicas das teorias democráticas – como a ampla participação política, a identificação da natureza da base político-territorial do processo político (constituency), a necessidade da responsabilidade e do controle das decisões políticas (accountability) etc. (VILLA e TOSTES, 2006, p. 92-93) (grifos do autor).
10 As empresas multinacionais se confirmaram na atualidade pela formação de oligopólios internacionais, sob formas de cartéis, trustes e monopólios industriais e financeiros. Expressão do potencial adaptativo do capitalismo, tais empresas renovaram a organização e a gestão das relações de trabalho com vistas à superação das contradições decorrentes das disputas de mercados e matérias primas no âmbito das empresas nacionais. Tal qual demonstrado por Oliveira (2004, p. 10-11), “o domínio e expansão das empresas multinacionais, dessa forma, envolvem, simultaneamente, três processos relacionados: necessidade de movimentos internacionais de capitais, produção capitalista internacional e existência de ações de governos em nível internacional”.
Como resultado das crises e dos reincidentes conflitos gerados pelos interesses, privilégios, distorções econômicas e desigualdades sociais do mundo globalizado recente, o capitalismo administra as próprias crises estruturais por meio de estratégias de promoção do consenso social, assentados em mecanismos de coerção e cooptação devidamente consoantes aos preceitos e interesses do projeto social da classe dominante (GENTILI, 1998), esteja esta situada local, nacional ou internacionalmente.