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ÖRGÜTSEL KARİYER YÖNETİMİ

1.2.3. Kariyer Yönetiminin İnsan Kaynakları Yönetimi Açısından Önem

Enunciador: responsável por projetar nos enunciados as formações ideológicas

Enunciatário: responsável por sancionar a eficiência discursiva do objeto-discurso

É importante insistir na tese de que esse esquema não representa uma complexificação ainda maior da análise semiótica. Ele apenas permite considerar o enunciado produto de certas formações ideológicas, e não apenas como projeção de uma instância pressuposta. Trata-se de uma possibilidade de determinar o estatuto do enunciador e do enunciatário, mostrando como eles se constituem como sujeitos sociais, o que funcionaria como uma espécie de precondição para a análise dos níveis enunciativos.

Essa proposta teórica ajuda a desfazer a impressão de que o modelo semiótico é inimigo da historicidade. Essa crítica, talvez nascida como uma resposta à base essencialmente estruturalista dos primórdios da pesquisa semiótica, se algum dia teve fundamentos, perdeu-os completamente quando os estudos enunciativos passaram a considerar que o enunciador, como uma instância produzida por um tipo de coerção psico-sócio-histórica, é sobretudo alguém que se pronuncia no “espetáculo do mundo”, para usar a bela expressão de Ricardo Reis.

Bertrand nota que, ao longo dos anos 70, a Semiótica afastava-se das discussões sobre a enunciação, porque “ela criava problema”, na medida em que representava “a entrada (...) do universo extralingüístico na imanência tão laboriosamente construída do objeto-linguagem”. Por isso, os semioticistas desconfiavam “de um sujeito da fala soberano”, temendo, com isso, “o retorno à ontologia do sujeito, que caracterizava particularmente os estudos literários”. Assim, se a Semiótica, num primeiro momento, em nome do rigor metodológico, suprimiu a enunciação de sua metalinguagem,

atualmente, com as adiantadas pesquisas sobre a enunciação, assistimos à “sua reintegração no corpo da teoria” (2003, p. 79-80).

Hoje em dia, diversos conceitos – como a intertextualidade, a interdiscursividade (que incluem as noções de heterogeneidade mostrada e constitutiva), o éthos, a argumentação, o pacto fiduciário entre enunciador e enunciatário, a polifonia, o dialogismo, o estilo, as formações discursivas, a cenografia, entre tantos outros – têm sido desenvolvidos por semioticistas, analistas do discurso e demais lingüistas para dar conta de explicar as múltiplas facetas da enunciação. A sugestão de que o sujeito da enunciação se constrói a partir de coerções psico-sócio-históricas é uma contribuição a essa discussão.

Claro que existe o risco de que o produtor e o receptor-interpretante sejam tomados como seres do mundo real, que ocupariam os lugares do enunciador e do enunciatário, mas vale, nesse caso, a ressalva de Barros:

Cabe esclarecer, porém, o modo como se concebe tal estudo [do produtor e do recpetor-interpretante]. Não se trata, como alguns poderiam supor, de analisar o ser ontológico. Pretende-se refazer os caminhos narrativos do destinador- manipulador e do destinador-julgador, assim como os percursos temáticos do produtor e do recpetor-interpretante, pelo recurso aos textos que formam o

contexto do discurso em questão. Revê-se o problema do contexto em termos

de relações intertextuais (1988, p. 142).

De fato, está-se diante de uma possibilidade de chegar às formações discursivas ou ao “contexto”, tomando-os como textos e, portanto, passíveis de serem analisados segundo o método semiótico.

O primeiro nível enunciativo está organizado a partir da relação entre o enunciador e o enunciatário. Esses dois papéis discursivos, sincretizados no sujeito da enunciação, são produtos de coerções históricas, e só é possível captá-los a partir das marcas textuais que funcionam como projeções ideológicas.

Essas coerções pressupõem um ponto de vista a partir do qual o destinador psico-sócio-histórico do discurso inicia o processo de axiologização dos conteúdos semânticos do texto. Esse sujeito coletivo, precondição para o /fazer enunciativo/, pode ser apreendido a partir dos discursos que circulam dentro de um determinado campo, que corresponde ao estado em que

um conjunto de formações discursivas estão em relação de concorrência em sentido amplo, delimitando-se reciprocamente (Charaudeau & Maingueneau, 2004, p. 91).

Dessa forma, será preciso também aceitar que o enunciador, como produtor implícito do discurso,

pode ser considerado (com mais ou menos pertinência, conforme o tipo de enunciado de que se trata) como o representante e o porta-voz de um grupo social, de uma instância ideológico-institucional (Kerbrat-Orecchioni, 2002, p. 203).

Considerar que a ideologia5 do enunciador é influenciada por um sujeito coletivo que está sempre a montante da produção discursiva pode levar à falsa conclusão de que, dentro de um mesmo campo discursivo, a enunciação – por estar sempre sob a influência basicamente das mesmas coerções – seja exatamente a mesma, acabando com o efeito de individuação que, no final das contas, costuma caracterizá-la. Mas não é isso que ocorre. O fato de vários sujeitos da enunciação serem construídos a partir de uma determinada formação ideológica não significa que os enunciados produzidos por eles sejam idênticos do ponto de vista da visão de mundo. O sujeito da enunciação não é apenas assujeitado. Na verdade, a relação entre ele e os discursos circulantes pode ser extremamente variável, e é o enunciado que vai indicar como se organiza essa relação. Com efeito, o

enunciado existente, surgido de maneira significativa num determinado momento social e histórico, não pode deixar de tocar os milhares de fios dialógicos existentes, tecidos pela consciência ideológica em torno de um dado objeto de enunciação, não pode deixar de ser participante ativo do diálogo social. Ele também surge desse diálogo como seu prolongamento, como sua réplica, e não sabe de que lado ele se aproxima desse objeto (Bakhtin, 2002, p. 86).

Esse dialogismo, constitutivo da atividade discursiva, sugere um dos modos de incorporar no enunciado as formações ideológicas, seja para confirmá-las, seja para negá-las. Bakhtin mostra que, antes de discutir as “representações literárias” dessas formações6, é preciso analisar a relação entre o enunciador e a “esfera extraliterária da vida e da ideologia” (2002, p. 139).7

Para proceder a essa análise, o próprio Bakhtin tem uma sugestão teórica que explica como o sujeito da enunciação se relaciona com as formações discursivas, com os discursos circulantes e, portanto, como enunciador e enunciatário se constituem como sujeitos que manifestam ideologias:

O objetivo da assimilação da palavra de outrem adquire um sentido ainda mais profundo e mais importante no processo de formação ideológica do homem, no sentido exato do termo. Aqui, a palavra de outrem se apresenta não mais na qualidade de informações, indicações, regras, modelos, etc., – ela procura definir as próprias bases de nossa atitude ideológica em relação ao mundo e de nosso comportamento, ela surge aqui como a palavra autoritária e como a palavra

interiormente persuasiva (2002, p. 86).

Apesar das diferenças entre as vozes de autoridade e as vozes internamente persuasivas, Bakhtin reconhece que o

conflito e as inter-relações dialógicas destas duas categorias da palavra determinam freqüentemente a história da consciência ideológica individual (2002, p. 143).

Isso ajuda a compreender como o sujeito da enunciação opera com as formações ideológicas em voga num dado momento histórico, numa determinada região, no seio de uma cultura.

Antes de qualquer coisa, o sujeito da enunciação se sente influenciado pelas vozes da autoridade. Isso porque a

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Formações discursivas que Bakhtin chama de “discurso de outrem” (2002, p. 139).

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Essa noção corresponde ao que Fiorin (2006b, p. 55-58) chama “terceiro conceito de dialogismo” no pensamento bakhtiniano.

palavra autoritária exige de nós o reconhecimento e a assimilação, ela se impõe a nós independentemente do grau de sua persuasão interior no que nos diz respeito; nós já encontramos unida à autoridade. A palavra autoritária, numa zona mais remota, é organicamente ligada ao passado hierárquico (Bakhtin, 2002, p. 143).

É claro que o sujeito da enunciação pode renunciar a concordar com essa autoridade, mas ele não pode deixar de reconhecer sua existência. Ainda de acordo com Bakhtin (2002, p. 144), a palavra autoritária “não pode ser essencialmente bivocal” e, por isso, não pode ser representada artisticamente. Mas isso não significa que os romances não possam transmiti-la: se, por um lado, as vozes de autoridade não admitem uma “livre estilização”, por outro, é impossível supor que, mesmo “como um corpo heterogêneo”, elas não estejam presentes em todo tipo de discurso.

O fato é que a transformação ideológica da consciência individual depende menos das vozes de autoridade – “da fonte geral indeterminada: ‘ouvi dizer’, ‘consideram’, ‘pensam’, etc.” (p. 140) – do que das vozes internamente persuasivas, essas sim capazes de produzir um efeito de individuação discursiva. Com efeito,

a palavra persuasiva interior é comumente metade nossa, metade de outrem. Sua produtividade criativa consiste precisamente em que ela desperta nosso pensamento e nossa palavra autônoma, em que ela organiza do interior as massas de nossas palavras, em vez de permanecer numa situação de isolamento e imobilidade. Ela não é tanto interpretada por nós, como continua a se desenvolver livremente, adaptando-se ao novo material, às novas circunstâncias, a se esclarecer mutuamente, com os novos contextos (Bakhtin, 2002, p. 146).

A relação entre o sujeito da enunciação e as formações discursivas, mais do que um problema de ideologia, encerra um princípio dialógico que coloca o sujeito produtor do discurso diante de palavras já reconhecidas como de autoridade e de palavras que, por não possuir esse reconhecimento, são internamente persuasivas. Dessa maneira, o efeito de individuação discursiva nasceria da tentativa do sujeito da enunciação em encontrar a “sua” ideologia.

Esse processo de luta contra a palavra de outrem e sua influência é imensa na história da formação da consciência individual. Uma palavra, uma voz que é

ou mais tarde começará a se libertar do domínio da palavra do outro. Esse processo se complica com o fato de que diversas vozes alheias lutam pela sua influência sobre a consciência do indivíduo (Bakhtin, 2002, p. 147-8).

A enunciação, nessa perspectiva, adquire uma dimensão coletiva – estruturada nas coerções psico-sócio-históricas que se manifestam sobretudo pelas vozes de autoridade – e outra particular – nascida da busca por uma voz capaz de produzir o efeito de individuação discursiva. Após enunciador e enunciatário se constituírem como sujeitos semanticamente competentes para produzir o discurso, esses valores se realizam e, posteriormente, são projetados no enunciado.

Essa instância, pressuposta, que corresponde ao que chamamos primeiro nível enunciativo, em princípio, não tem voz no texto8. Na verdade, como já se disse, esse nível é justamente o do início do processo de delegação de voz: é o enunciador que comanda quem fala no texto.

O segundo nível enunciativo engloba o narrador e o narratário, isto é, o destinador do discurso instalado no enunciado e o destinatário inscrito no texto. É possível reconhecê-los por meio das operações de debreagem, principalmente actancial. Há um “eu” que fala e um “tu” ou “você” que ouvem, mesmo que pressupostos por debreagens enuncivas. É isso que leva Fiorin a dizer:

Na medida em que o narrador pode intervir a todo instante (...) na narrativa, toda narração é virtualmente feita em primeira pessoa (1999, p. 104).

Assim, em qualquer texto existe um “eu”, que corresponde ao narrador; da mesma forma, mesmo que implícito, existe um “tu”, que identifica o narratário.

Mas vale constatar que a já mencionada competência de conduzir a narrativa não deve transmitir a impressão de que o narrador possui uma voz autônoma, soberana. Aliás, para descartar essa hipótese, basta lembrar que ele se origina de uma projeção da enunciação e que o enunciador é que lhe delega essa voz e essa competência.

O terceiro nível enunciativo organiza-se na relação entre o interlocutor e o interlocutário e está sempre inscrito no enunciado. Interlocutor e interlocutário – que, por inverterem continuamente suas posições, são chamados simplesmente de

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Fizemos questão de relativizar essa proposição pelo fato de, em algumas situações específicas, ser possível que o enunciador “fale”. É raro, mas acontece. Fiorin (1999, p. 122) dá exemplos dessa “subversão”, que ele chama de “metalepse”. Em outros momentos desta tese, trataremos desse problema.

interlocutores (Greimas & Courtés, 1983, p. 239) – são actantes do enunciado e, por isso, quem lhes delega voz é sempre o narrador, por operações de debreagem de 2º grau.

Esses três níveis enunciativos se homologam perfeitamente com as propostas teóricas de Genette (1995, p. 226), que fala explicitamente em “níveis narrativos”. O primeiro desses níveis seria o extradiegético, que corresponderia a “um ato (literário)”, isto é, à própria ação de narrar.

A expressão nível extradiegético refere-se, no quadro da narratologia genettiana, a um aspecto particular do domínio da voz, ou seja, às circunstâncias que condicionam a enunciação narrativa e às entidades que nela intervêm, compreendendo-se nessa intervenção a instituição no nível narrativo, em que se situa o narrador (Reis & Lopes, 2002, p. 290).

Assim, o nível extradiegético seria a instância da delegação de voz, de instauração da diegese9, de instalação do narrador no enunciado. Trata-se de um nível ao qual o nível narrativo se subordina. Dessa maneira,

nível extradiegético será o primordial10, aquele a partir do qual pode constituir- se outro (ou outros) nível(is) narrativo(s) (Reis & Lopes, 2002, p. 290).

Essa proposição tem como decorrência que toda narrativa (diegese) pressupõe uma instância (nível extradiegético) que a produziu. Ou semioticamente: todo enunciado pressupõe uma enunciação.

Quando, a partir da extradiegese, institui-se o narrador no texto, tem-se aí o nível diegético ou intradiegético, que corresponderia ao segundo nível enunciativo; quando, dentro da diegese, há uma outra narrativa, considera-se que ela pertence ao nível metadiegético ou hipodiegético, que remeteria ao terceiro nível enunciativo. Para distinguir esses dois níveis, é preciso perceber que há uma

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Entendida como “o universo espaciotemporal designado pela narrativa” (Genette, 1995, p. 273). Cunhado do grego, Genette aproveitou esse termo como sinônimo de narrativa, constituindo-se em “um dos dois modos de imitação poética”, na acepção aristotélica, ou em “tudo que o poeta conta falando em seu próprio nome, sem tentar nos fazer crer que é um outro que fala”, na acepção platônica (Genette, 1969, p. 50).

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diferença de estatuto narrativo entre a história diretamente contada pelo narrador e a história contada por um de seus participantes (...). Convencionamos marcar essa oposição formal chamando de diegético o primeiro nível e metadiegético o segundo (Genette, 1969, p. 202).

Genette fala, nos dois casos, em “história” (em diegese, portanto), o que implica a instalação no enunciado de sujeitos a quem se delegou voz. Como esse processo só pode dar-se por meio as operações de debreagem, tem-se que a debreagem de 1º grau instaura o nível diegético ou intradiegético, enquanto a de 2º grau, o nível metadiegético ou hipodiegético.

Eis então numa complementação à tabela que propusemos anteriormente:

1º nível enunciativo (pressuposto) NÍVEL EXTRADIEGÉTICO

Enunciador Enunciatário

2º nível enunciativo (manifestado)

NÍVEL DIEGÉTICO Narrador Narratário

3º nível enunciativo (manifestado)

NÍVEL METADIEGÉTICO Interlocutor Interlocutário

As observações genettianas apenas contribuem para confirmar que há três papéis discursivos, três níveis a serem analisados num enunciado. A questão é que, muitas vezes, um único sujeito pode exercer dois desses papéis, o que faz com que seja difícil, principalmente em enunciados mais complexos, como é o caso do texto de natureza literária, precisar como esses papéis se articulam.

Mas essas observações sobre os níveis enunciativos não podem incorrer no equívoco de supor que todos os recursos discursivos envolvendo enunciação e enunciado nasçam de um problema de delegação de voz. Na verdade, os valores expressos num enunciado, a ideologia que subjaz a ele não depende apenas de quem fala. Por isso, torna-se necessário tocar também no problema de quem observa num texto.

A Teoria Literária mais tradicional (...) hipertrofiou o papel do narrador, confundindo, como nota Genette, duas instâncias bem distintas, quem fala e quem vê (Fiorin, 1999, p. 104).

Identificar o narrador de um texto é, pois, reconhecer quem fala. Mas, além dessa questão de voz, existe sempre um ponto de vista a partir do qual os objetos da narrativa são considerados. Esse ponto de vista – que implica sempre uma avaliação – pode ser de qualquer ator do enunciado. Quem está por trás dele não é o narrador, mas o observador, conceito proposto por Greimas e Courtés e definido por Fiorin como

o sujeito cognitivo delegado pelo enunciador e instalado por ele no enunciado, onde é encarregado de um fazer receptivo e, eventualmente, de um fazer interpretativo, que incidem sobre os actantes da narrativa e os programas narrativos de que participam (1999, p. 104).

Ao diferenciar o papel de quem fala do de quem observa, principalmente nas narrativas literárias, consegue-se ordenar mais cuidadosamente as funções do narrador ou, pelo menos, diminuir a impressão de que elas são ilimitadas.

Segundo Genette, a partir das funções da linguagem produzidas por Jakobson, pode-se dizer que o narrador tem cinco funções: a narrativa propriamente dita, a de direção, a de comunicação, a de atestação e a ideológica (Fiorin, 1999, p. 105).

Essas cinco funções do narrador propostas por Genette (1995, p. 253-255) poderiam ser resumidas – por questões de simplificação – na idéia já referida da competência de condução. Mas, de alguma forma, elas já remetem à necessidade que temos de diferenciar o papel do narrador do papel do observador. Tudo isso para evitar a tal hipertrofia do narrador.

Bertrand tem uma observação interessante sobre isso:

A assunção do discurso, no âmbito da análise literária, é geralmente colocada sob a égide do narrador, figura delegada do enunciador nesse contexto. Mas o narrador tem uma função tão englobante que é suscetível de abranger todos os

atribuições. É, portanto, necessário especificar os papéis, manter o narrador no campo do narrativo e identificar mais nitidamente as posições enunciativas que ele tende a ocultar. É o que nos propomos a fazer aqui (...), rediscutindo a noção de ponto de vista (2003, p. 111).

Essa noção é uma decorrência do conceito de observador. Se há no texto um sujeito responsável pela percepção dos fenômenos narrativos ou discursivos, é porque há um ponto de vista em questão. O problema é a polissemia que caracteriza o conceito de ponto de vista, que

se desdobra e dá origem a uma grande variedade de conceitos: “focalização” (G. Genette), “perspectiva” (A. J. Greimas, J. Courtés), “centro de orientação” (J. Lintvelt), “observador” (Fontanille) no campo da narratologia, e “modalização” da enunciação, “transformação ativa/passiva” ou “dêixis”, no âmbito da lingüística (Bertrand, 2003, p. 112).

Discursivamente, o ponto de vista é como o ponto de referência a partir do qual os conteúdos semânticos do texto são atualizados. Nessa atualização, o ponto de vista “não se constrói no sujeito, mas sim na relação entre sujeito e objeto” (Fontanille, 1999, p. 60). É por isso que o ponto de vista tem a capacidade de dar direcionalidade aos enunciados, explicitando assim as intencionalidades da enunciação e revelando a existência de um enunciador que, ao optar por um observador, opta, na verdade, por um valor, por uma ideologia. Esse ponto de vista enunciativo

participa da sintaxe do discurso não somente porque orienta o processo e as progressões temáticas, mas também porque ele representa transformações potenciais: actanciais, modais, passionais e axiológicas, que interessam tanto ao plano do conteúdo quanto ao da expressão (Fontanille, 1999, p. 61).

Essa valorização do observador e do ponto de vista pode sugerir, equivocadamente, que é muito fácil perceber essa intencionalidade discursiva nos enunciados. Não é, embora ela esteja sempre presente, pois

não há enunciado, qualquer que seja sua dimensão, que não esteja submetido à orientação de um ponto de vista. A mais objetivante neutralidade a implica inevitavelmente, ainda que por omissão (Bertrand, 2003, p. 113).

Em lugar de ser um entrave à análise enunciativa, a noção de ponto de vista permite começar a analisar as eventuais sobreposições de quem fala e quem observa11 nos discursos. Por isso, é preciso fazer as distinções entre o enunciador e o observador que ele cria, entre o narrador e o observador que o enunciador cria para ele, entre os interlocutores e os observadores que lhes determinam a percepção da realidade. Poderíamos então desenvolver mais ainda nossa tabela, acrescentando-lhe uma coluna:

Quem fala? Quem observa? Quem ouve? 1º nível enunciativo (pressuposto)