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1.3. KARİYER PLANLAMA

1.3.1. Kariyer Planlama Tanımı ve Kapsamı

A enunciação supõe a conversão individual da língua em discurso. Aqui a questão – muito difícil e pouco estudada ainda – é ver como o “sentido” se forma em “palavras”, em que medida se pode distinguir entre as duas noções e em que termos descrever sua interação. É a semantização da língua que está no centro desse aspecto da enunciação, e ela conduz à teoria do signo e à análise da significância.

(Émile Benveniste, Problemas de Lingüística Geral II)

Possenti, num provocativo artigo, discute as origens do conceito de enunciação, passando por Benveniste, Pêcheux, Fuchs, Bakthin e Maingueneau. Num dado momento, ele faz a seguinte afirmação:

a interpretação corrente (mais encontrável talvez nos corredores e nos cafés – lugares em que se sedimentam mentalidades e filiações – do que nos livros) do enunciado “o sentido depende da enunciação” não faz sentido nenhum (2001, p. 188).

Para ele, essa crença, análoga à de que “o sujeito é a fonte do sentido”, teria como corolário uma concepção de enunciação como ato individual, o que seria um absurdo teórico.

Com efeito, desde que o conceito de enunciação começou a aparecer mais sistematicamente nos trabalhos de Semiótica e Análise do Discurso, ele passou a ser empregado imprecisamente, muitas vezes negando a monorreferencialidade e a monossemia que se exigem dos termos científicos. Por isso, o conceito passou a dar origem a toda sorte de especulações, das mais finas às mais grosseiras, como se essa etérea enunciação fosse capaz de explicar, num passe de mágica, todas as sutilezas de significância de um texto. Provavelmente, Possenti dirige sua provocação a esse uso pouco criterioso do conceito de enunciação, que implicaria uma visão particularizada dos atos enunciativos e, como tal, sem interesse para as pesquisas discursivas.

Ao analisar o estatuto do enunciador, já dissemos que um enunciado, antes de ser produto de um ato individual, sofre coerções psico-sócio-históricas de um sistema de

individuação, mas não porque a enunciação seja sempre individual, e sim porque a discursivização da relação entre o enunciador e as formações ideológicas em circulação é particular, uma vez que se baseia numa consciência formada dialogicamente no confronto entre discursos de autoridade e discursos internamente persuasivos. Se a enunciação fosse tomada simplesmente como ato individual, seria impossível conceder- lhe o estatuto de termo técnico, o que invalidaria seu aproveitamento na teoria lingüística. Essa é a tese de Possenti, que, após satirizar a idéia de que “o sentido depende da enunciação”, reconhece:

(...) defenderei também a hipótese de que faz muito sentido outra interpretação do “mesmo” enunciado, e essa outra interpretação faz sentido exatamente por considerar outra concepção de enunciação, que não a toma como ato individual, mas sim como acontecimento histórico, por um lado, e regrado, por outro (2001, p. 188).

Tentaremos, neste item, apresentar algumas das “regras” que regem os atos enunciativos, sem desprezar sua dimensão não apenas histórica, mas, mais do que isso, psico-sócio-histórica. Tratemos então de mostrar como o conceito de enunciação, que hoje recebe tanta atenção dos estudos discursivos, ingressou no corpo da teoria semiótica16.

A simples existência de um enunciado pressupõe uma instância anterior que o produziu, a partir da qual os componentes sintáxicos e principalmente semânticos (e, como tais, ideológicos) se projetaram no discurso. O problema é que a assunção da existência de uma instância pré-textual poderia ser tomada como uma remissão a um contexto não-lingüístico, referencial somente, que nada interessa à Semiótica. Nesse caso, a enunciação se confundiria com a situação concreta de comunicação, entendida como “o contexto efetivo de um discurso” (Charaudeau & Maingueneau, 2004, p. 194), e, por isso, não teria importância nenhuma para uma teoria que parte do texto para chegar às formações discursivas, e nunca o contrário.

Quando Benveniste afirma que a enunciação coloca a língua em funcionamento “por um ato individual de utilização”, tomando-a como “o ato mesmo de produzir um enunciado”, estamos diante de uma concepção de enunciação eminentemente

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Courtés, por exemplo, reconhece que, embora a enunciação não seja “um conceito propriamente lingüístico ou semiótico”, “existe uma concepção lingüística ou semiótica da enunciação” (1991, p. 245).

lingüística: seu objetivo era estudar fatos de língua; seu objeto era o enunciado, e não essa enunciação (1989, p. 82). Ao defender que a enunciação medeia a relação entre a língua e fala saussuriana, ele acabou por mostrar que, entre o sistema lingüístico e as realizações individuais dos falantes, deve haver estruturas de mediação que permitem discursivizar a língua. Dessa forma, se

se concebe a enunciação como uma instância de mediação que produz o discurso, não se pode deixar de perguntar sobre o que é mediado por essa instância, sobre as estruturas virtuais que estão a montante da enunciação (Greimas & Courtés, 1983, p. 146).

Saindo então da definição stricto sensu de Benveniste e admitindo a enunciação como um fenômeno discursivo, presente num enunciado não somente sob a influência das coerções do sistema lingüístico, mas também sob a atuação de coerções – digamos – semióticas, seria possível tomar a enunciação como a responsável pela atualização do “espaço das virtualidades semióticas”, consideradas como

o lugar de residência das estruturas sêmio-narrativas, formas que, ao se atualizarem como operações, constituem a competência semiótica do sujeito da enunciação (Greimas & Courtés, 1983, p. 146).

Desse modo, a definição de enunciação “como uma instância lingüística, logicamente pressuposta pela própria existência do enunciado” (Greimas & Courtés, 1983, p. 145), toma-a, à maneira de Benveniste, como ato que medeia a relação entre um espaço virtual – as estruturas fundamentais e narrativas – e seu produto, o discurso, espaço realizado. Mais do que isso, as diferenças entre enunciação e enunciado se explicariam pelas distinções entre um “processo dinâmico” e um “resultado estático” (Kerbrat-Orecchioni, 2002, p. 33). Assim, a enunciação, por seu caráter dinâmico e pressuposto, é difícil de ser apreendida em seus múltiplos aspectos, já que a única maneira de refazer o caminho da produção discursiva – para, dessa forma, (re)constituir a estrutura da enunciação – é partir do enunciado, que, por seu caráter estático e completo, nem sempre permite plenamente essa (re)construção. Mas isso não significa que se possa abrir mão do conceito de enunciação, considerando-o como dispensável

admissão de que o enunciado, longe de ser soberano, é uma projeção da instância da enunciação.

Já que assumimos o fato de que, em toda relação predicativa, a presença de um actante-objeto implica a de um actante-sujeito e vice-versa, basta conhecer um dos dois actantes para poder deduzir a existência do outro: nesse caso, conhecemos “o objeto-enunciado”, que é o texto, podemos pois inferir a partir dele a existência do actante-sujeito. A operação certamente é complexa, mas ilustra bem a exigência formal do método. Ela permite localizar, stricto sensu, o sujeito enunciador: antes de tudo sujeito lógico, ele é uma posição pura e simples. Instância teórica de que nada se sabe no início, esse sujeito constrói pouco a pouco, ao longo do discurso, sua espessura semântica (Bertrand, 2003, p. 82).

Essa operação, “certamente complexa”, de reconstruir a enunciação por meio do enunciado constitui o principal desafio de qualquer análise discursiva. A primeira tentação, nesse caso, seria a de imaginar que a situação de comunicação “concreta”, “real”, projeta-se no enunciado, que funcionaria apenas como reprodutor de um universo não-lingüístico. Essa perspectiva, muitas vezes adotada pelo ramo da Teoria Literária que se interessou pelas interpretações textuais de fundo biográfico, não é a da Semiótica, que não considera a ordem da linguagem um decalque da ordem do mundo ou do psiquismo individual. Para fugir do extralingüístico, alguns pesquisadores já propuseram conceitos como situação de enunciação e situação de discurso:

(...) poderíamos propor distinguir (...) a situação de enunciação, quando nos referimos mesmo ao processo da discursivização que se caracteriza por marcas linguageiras de valor dêitico, anafórico ou ilocutório, e a situação de discurso, quando nos referimos aos dados de saber que circulam interdiscursivamente e que sobredeterminam os sujeitos da troca verbal (Charaudeau & Maingueneau, 2004, p. 452).

Na realidade, os conceitos de situação de enunciação e situação de discurso incluem várias noções úteis para mapear a enunciação, a saber, a discursivização, as debreagens (“marcas linguageiras de valor dêitico”), formas de enunciação enunciada (“marcas linguageiras de valor [...] ilocutório”), a interdiscursividade ou a influência

que o sujeito da enunciação recebe das formações discursivas. Mas, semioticamente, quando se pensa em diferenciar a comunicação da enunciação e, por extensão, a situação de comunicação da situação de enunciação – embora haja, como já insistimos no item anterior, um percurso de comunicação da enunciação –, ainda é preciso ir mais longe:

(...) do ponto de vista da enunciação, não se trata [como no ponto de vista da comunicação] da questão da circulação das mensagens num contexto extra- semiótico de tipo sócio-psicológico. Tudo se ordena em torno da posição da instância de discurso, e é sempre questão de construir e de propor esta posição, mas também de aceitá-la, de adotá-la, de recusá-la, de negá-la e de deslocá-la. Tanto para o enunciatário como para o enunciador, não se trata de fazer circular as mensagens, mas de delimitar o lugar para reportar os discursos e deles construir a significação (Fontanille, 1998, p. 259).

Temos aí uma questão, portanto, de ponto de vista teórico. Considerar a situação de enunciação e desprezar a situação de comunicação é uma exigência metodológica, pois o que nos interessa é, dentro do “processo dinâmico” que caracteriza a enunciação, compreender como se produzem os sentidos veiculados por um enunciado. Para cumprir esse objetivo, uma saída é entender que o mecanismo da enunciação suscita o conceito de intencionalidade, definido

como uma “visada do mundo”, como uma relação orientada, transitiva, graças à qual o sujeito constrói o mundo enquanto objeto ao mesmo tempo em que se constrói a si próprio (Greimas & Courtés, 1983, p. 147).

É a intencionalidade que faz com que o discurso seja direcionado da enunciação para o enunciado ou, falando em termos de existência semiótica, da virtualidade para a realização. Essa passagem, que Greimas e Courtés consideram uma “tensão” (1983, p. 238), pode começar a ser compreendida pelas maneiras mais “tradicionais” de projeção da enunciação no enunciado.

O desenvolvimento do aparelho formal da enunciação, iniciado por Benveniste, mostrou que os enunciados se constroem em relação à “rede de ‘indivíduos’ que a enunciação cria e em relação ao ‘aqui-agora’ do locutor” (1989, p. 86). Por isso, antes

(categoria actancial), que funcionará como ponto de referência a partir do qual se organizarão as marcas do “aqui” (categoria espacial) e do “agora” (categoria temporal). Daí que, como sugeriu Benveniste (1989, p. 81-90), a enunciação seja considerada “o lugar do ego, hic et nunc” (Fiorin, 1999, p. 42).

Nesse sentido, as categorias de pessoa, tempo e espaço existem, virtualmente, na enunciação e são projetadas pelo enunciador no enunciado, que as realiza. A forma mais simples dessa projeção é a debreagem. Aproveitando as formulações de Greimas e Courtés (1983, p. 95), Fiorin a define como

a operação em que a instância da enunciação disjunge de si e projeta para fora de si, no momento da discursivização, certos termos ligados a sua estrutura de base, com vistas à constituição dos elementos fundadores do enunciado, isto é, pessoa, tempo e espaço (1999, p. 43).

A outra forma de projeção é a embreagem, que é

“o efeito de retorno à enunciação”, produzido pela neutralização das categorias de pessoa e/ou espaço e/ou tempo, assim como pela denegação da instância do enunciado (Fiorin, 1999, p. 48),

mas sempre pressupõe uma “debreagem que lhe é logicamente anterior” (Greimas & Courtés, 1983, p. 140). Por isso, a forma mais simples de encontrar, num enunciado, as marcas da enunciação é justamente procurando as debreagens actanciais, temporais e espaciais. Tanto as debreagens enunciativas (instalação do eu/tu no enunciado), pelo efeito de subjetividade que lhes subjaz, quanto as debreagens enuncivas (ocultação da instância da narração), pela negação desse mesmo efeito, são operações que nascem de uma disjunção enunciativa, que projeta as marcas de pessoa, tempo e espaço no enunciado. No primeiro caso, há enunciação enunciada; no segundo, enunciado enunciado17 (Fiorin, 1999, p. 36). Por isso, toda debreagem e, por extensão, toda embreagem são indícios textuais da existência e, mais do que isso, dos traços característicos da enunciação.

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Dizer “enunciado enunciado” é uma maneira de mostrar que ele é sempre produto da enunciação. Ainda voltaremos a discutir essa questão ainda neste item.

Essas três categorias – pessoa, tempo e espaço – são largamente utilizadas em análises enunciativas, como acontece com o conceito de cenografia18, que consiste numa situação de enunciação já investida semanticamente, já discursivizada. É por isso que a cenografia é uma instituição discursiva em que a enunciação

“esforça-se para justificar seu próprio dispositivo de fala” (...). [Para tal] além de uma figura de enunciador e uma figura correlativa de co-enunciador, a cenografia implica uma cronografia (um momento) e uma topografia (um lugar) das quais o discurso pretende surgir. São três pólos indissociáveis (...) (Charaudeau & Maingueneau, 2004, p. 96).

O eu-aqui-agora da enunciação, quando se projeta no enunciado – enunciva ou enunciativamente –, indica simultaneamente “aquilo de onde vem o discurso e aquilo que esse discurso engendra” (Charaudeau & Maingueneau, 2004, p. 96). Por isso, ao analisar um enunciado, encontram-se sempre marcas da enunciação, e poderíamos justificar essa idéia apenas pelas categorias de pessoa, tempo e espaço debreadas e embreadas.

Acontece que as debreagens e embreagens não são a única forma de projeção da enunciação sobre o enunciado. Fiorin reconhece isso, afirmando que “adjetivos e advérbios apreciativos”, bem como “verbos e substantivos carregados de subjetividade” também são pistas para mapear essa projeção (1999, p. 37). Isso acaba gerando uma necessidade de ampliação das noções de enunciação enunciada.

O enunciado enunciado nasce das debreagens enuncivas, enquanto a enunciação enunciada, das enunciativas: o primeiro corresponde a um efeito de objetividade; a segunda, ao de subjetividade. Na formulação de Courtés, temos respectivamente o “narrado” e a “maneira de apresentar esse narrado” (1991, p. 247). Isso poderia levar à conclusão, equivocada, de que, quando há enunciado enunciado, é impossível delimitar os traços da enunciação. Não é isso que ocorre: a ausência de marcas enunciativas remete à enunciação, de modo que as debreagens enuncivas funcionam como um efeito de sentido para deixar implícita a enunciação, o que não significa que não seja possível mapeá-la. Dessa forma, dizer que o texto enuncivo é “desprovido das marcas da enunciação” (Greimas & Courtés, 1983, p. 148) significa tomá-lo como um discurso

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que, por esconder essas marcas no enunciado, procura remeter à enunciação de outra maneira. Também seria precipitado concluir que a enunciação enunciada é a única forma de encontrar indícios da enunciação no enunciado. Não é. A diferença entre ela e o enunciado enunciado é que, naquele caso, esses indícios são explícitos, estabelecem relações in praesentia, e, neste, o apagamento desses indícios suscita relações in absentia, o que não deixa – repita-se – de reportar à enunciação.

Mas não se deve reduzir a enunciação enunciada ao processo de instalação do eu-aqui-agora no enunciado. As debreagens e as embreagens enunciativas configuram um problema de sintaxe discursiva, mas as palavras valorativas citadas por Fiorin (1999, p. 37) ou os “verbos performativos” (Greimas & Courtés, 1983, p. 148), por exemplo, também indicam a presença do enunciador do enunciado, o que significa que existe também uma enunciação enunciada marcada semanticamente.

A escolha lexical, por exemplo, constitui um problema de semântica discursiva. Quando o enunciador opta por uma palavra e não por outra, opera-se uma seleção de natureza ideológica, confirmando o aforismo de que a “palavra é o fenômeno ideológico por excelência” (Bakhtin, 1997c, p. 36). Não existem palavras neutras. A própria arbitrariedade do signo lingüístico, a idéia de que a linguagem não é cópia da realidade, os valores sociais que impregnam as palavras, as impressões que elas suscitam pela conotação confirmam que as múltiplas possibilidades oferecidas pelo sistema lingüístico estão longe de ser equivalentes. Toda escolha encerra, pois, uma intencionalidade, que, como tal, remete à enunciação. Por isso, as situações em que

o sujeito da enunciação se encontra diante do problema da verbalização de um objeto referencial, real ou imaginário (Kerbrat-Orecchioni, 2002, p. 80),

interessam à análise enunciativa, como forma de mostrar que a enunciação também se manifesta pela semântica discursiva.

Se se considera a dimensão denotativa das palavras, poderíamos até aceitar que elas têm “contornos relativamente estáveis”. Mas o fato é que sua dimensão conotativa as faz “um conjunto etéreo” (Kerbrat-Orecchioni, 2002, p. 80). No primeiro caso, seria mais fácil admitir uma certa “objetividade” das palavras, embora isso remeta necessariamente à enunciação enunciada, mas, no segundo, essa hipótese se desfaz, na medida em que fica muito clara a tese de que o uso das palavras implica valores e que, por isso, elas são um fenômeno ideológico.

O que se pode dizer é que há palavras em que a denotação está em primeiro plano, o que cria uma impressão de neutralidade referencial, na medida em que há um esforço para “esconder todos os traços de um enunciador individualizado” (p. 80). Esse discurso “objetivo” estaria em oposição a um discurso “subjetivo”, em que a presença do enunciador no enunciado seria percebida com mais facilidade, sobretudo pelo uso de palavras carregadas de valores conotativos.

É preciso salientar, porém, que denotação e conotação, objetividade e subjetividade encerram uma oposição que “não é dicotômica, mas gradual” (p. 81). Os adjetivos são a classe morfológica que permite, com mais rapidez, notar essa graduação. Kerbrat-Orecchioni dá uma seqüência de exemplos (“solteiro ! jovem ! pequeno ! bom” [p. 81]), mostrando uma progressão do pólo da objetividade para o da subjetividade, em que cada palavra vai indicando um aumento do grau de avaliação subjetiva do enunciador. Isso não significa que apenas as palavras de valor conotativo mais acentuado – que constituem, pois, marcas semânticas da enunciação enunciada – possam ser tomadas como garantia da presença do enunciador no enunciado. Na verdade, a opção por termos menos conotativos, à guisa dos casos de enunciado enunciado já referidos, produz também um efeito de objetividade, que remete à enunciação in absentia, na medida em que, ao se esconder no enunciado, o enunciador não deixa de comprovar sua existência, pois é ele o responsável por essas escolhas lexicais.

Aqui vale a pena retomar as duas abordagens de enunciação propostas por Kerbrat-Orecchioni (p. 34-36) e retomadas por Fiorin (1999, p. 38). Segundo elas, os fatos enunciativos podem ser entendidos como

todos os traços lingüísticos da presença do locutor no seio de seu enunciado, mostrando o que Benveniste chamava subjetividade na linguagem (Fiorin, 1999, p. 38),

ou como

as projeções da enunciação (pessoa, espaço e tempo) no enunciado, recobrindo o que Benveniste chamava o “aparelho formal da enunciação” (1999, p. 38).

No primeiro caso, teríamos um problema de semântica discursiva; no segundo, um de sintaxe discursiva. No primeiro, pode-se falar, pois, em enunciação enunciada manifestada pela semântica; no segundo, em enunciação enunciada assinalada pela sintaxe. Seriam as duas abordagens mais comuns dos fatos enunciativos. Kerbrat- Orecchioni, adepta da primeira abordagem, afirma:

Nossa hipótese de trabalho será que certos fatos lingüísticos são, desse ponto de vista, mais pertinentes do que outros; nosso alvo será localizar e circunscrever esses pontos de ancoragem mais patentes da subjetividade linguageira (2002, p. 36).

Já Fiorin, que se dedica sobretudo à segunda abordagem, afirma:

Como a pessoa enuncia num dado espaço e num determinado tempo, todo espaço e todo tempo organizam-se em torno do “sujeito”, tomado como ponto de referência. Assim, espaço e tempo estão na dependência do eu, que neles se enuncia. O aqui é o espaço do eu e o presente é o tempo em que coincidem o momento do evento descrito e o ato de enunciação que o descreve. A partir desses dois elementos, organizam-se todas as relações espaciais e temporais (1999, p. 42).

Essas duas abordagens engendram duas perspectivas teóricas complementares. A Semiótica interessou-se inicialmente pela segunda, deixando inicialmente as marcas semânticas da enunciação enunciada um pouco de lado. Com efeito, delimitar a presença do enunciador no enunciado por meio de debreagens e embreagens enunciativas é mais simples, do ponto de vista da análise, do que encontrar pistas semânticas dessa presença. O terreno da semântica – pela polissemia, pelas sutilezas conotativas, pelo problema da ampliação e da restrição de sentido – é bem menos firme do que o da sintaxe. Daí que os estudos enunciativos, dentro do rigor que caracteriza o modelo semiótico, tenham se interessado primeiro pelo “aparelho formal da enunciação”, para depois se debruçar sobre as variadas facetas da “subjetividade linguageira”.

Para analisar mais cuidadosamente as questões de semântica discursiva, é preciso ir além das escolhas lexicais do enunciador. Também poderiam ser tomadas como marcas semânticas de enunciação enunciada as situações em que o discurso

inclui, à semelhança da estrutura da modalização autonímica19, referências à própria produção discursiva. Trata-se, de uma certa maneira, de uma volta ao conceito de enunciação como ato, só que agora como um ato que se projeta no enunciado-produto, que se torna, por meio de “enunciados metadiscursivos”, um verdadeiro “desdobramento da enunciação” (Charaudeau & Maingueneau, 2204, p. 84).