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1.4 Yöntem

1.4.1 Karar verme kriter seçimi

Sobre Sarah Kalley encontramos uma tese,241 com posterior publicação,242 na tese Sarah é apresentada como professora, missionária e poetisa. Porém, no livro é apresentada como a missionária pioneira na evangelização do Brasil. Entendemos que o primeiro trabalho responde a demanda acadêmica e o segundo a demanda eclesiástica.

O autor apresenta em ambas as obras uma breve biografia sobre Sarah Poulton Kalley (1825 a 1907), segundo ele “Sarah descende tanto do lado materno como do lado paterno de famílias inglesas não conformistas que possuíam forte vinculação com o movimento puritano inglês.”243 Ela também possuía influência da tradição huguenote e a maioria de sua família era formada por pessoas vinculadas à indústria têxtil. Sobre sua vida há que se destacar o seguinte:

Sarah Poulton Kalley nasceu em 25 de maio de 1825, na rua St. James, uma estrada que unia o antigo castelo de Nottingham à região do mercado, na região leste da cidade de Nottingham, Inglaterra. Era filha de William Wilson (1801) e Sarah Poulton Morley (1802 – 1825).244

240 Documento da Proclamação da autonomia da Igreja Metodista do Brasil, In: REILY, Duncan A.

História Documental do Protestantismo no Brasil. São Paulo, Aste, 1933. p. 192.

241 CARDOSO, Douglas Nassif. Sarah Poulton Kalley (1825-1907): professora, missionária e poetisa.

2004. 487f. Tese (Doutorado em Ciências da Religião) - Curso de Pós-Graduação, Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2004.

242

CARDOSO, Douglas Nassif. Sarah Kalley: missionária pioneira na evangelização do Brasil. São Bernardo do Campo: Ed. do Autor, 2005.

243 Id. Ibid. p. 40.

Em diversas obras Sarah Kalley é citada como a esposa do Dr. Robert Reid Kalley, considerado por muitos autores como o sujeito principal da história. Ela é reconhecida também como a autora de hinos e pela organização do hinário “Salmos e Hinos”.245 No entanto, Sarah Kalley possuía uma personalidade notável, decisiva e independente, por exemplo:

em diversas ocasiões, em todos os lugares em que estava com Kalley, ela escolhia onde queria ir ou não. Caso não gostasse do sermão do pregador evitava ouvi-lo em outra ocasião. Em seu diário, por exemplo, no dia 19 de dezembro 1852, após terem estado juntos pela manhã na Igreja Batista, Kalley foi convidado pelo Sr. Brace, ministro da Capela Independente para o culto noturno. Sarah optou por ficar em casa”.246

Sob o ponto de vista eclesiástico, consta que o ministério dos Kalley começou efetivamente na cidade de Springfield, segundo Cardoso:

Kalley iniciou uma classe de estudos Bíblicos que se reunia duas vezes por semana. Sarah, em paralelo, iniciou uma classe de música, se reunia também durante a semana. Além da classe de música, Sarah começou a dar aulas de piano e ensaiar hinos cantados nos cultos. Como resultado desta ação conjunta de Sarah e Kalley, houve aumento significativo na freqüência dos cultos e do número de membros da Igreja, a ponto de no ano seguinte, 1824, ser necessário ordenarem mais quatro presbíteros e quatro diáconos para fazerem frente às exigências decorrentes do crescimento da igreja.247

Posteriormente, encontramos o casal entre os madeirenses de Ilinóis, e destacamos o protagonismo de Sarah Kalley que não se limitou meramente ao desenvolvimento do ministério da área da música, mas iniciou diversas classes, especialmente de alfabetização, Cardoso citando Sarah Kalley descreve o seguinte: “Tenho uma classes de homens, de mais ou menos quarenta anos de idade, e os ensino a ler, ... uma classe de garotas,... uma classes de senhoras,... Aos domingos após os cultos matinais e noturno... uma classe grande de jovens senhores, alguns com mais de trinta anos de idade e... aulas bíblicas em inglês”.248 Sarah Kalley certamente enfrentou dificuldades, mas evidenciamos a iniciativa desta mulher que ao capacitar pessoas

245

“O valor de ‘Salmos e Hinos’ é inegável; e o seu passado histórico e atuante através dos anos (...) foi o primeiro hinário evangélico brasileiro no vernáculo, tendo servido a todas as denominações, indistintamente, até que organizassem seus próprios hinários”. BRAGA, Henriquieta Rosa Fernandes. “Salmos e hinos: sua origem e desenvolvimento”, citado por CARDOSO, Douglas Nassif. Sarah Kalley:

missionária pioneira na evangelização do Brasil. p. 62.

246 Id. Ibid. p. 99-100. 247 Id. Ibid. p. 117.

independente da idade, sexo ou quaisquer outras distinções, demonstra a atuação de mulheres no processo educacional no Brasil.

Quanto à trajetória em direção ao Brasil, consta que o casal Kalley teve acesso ao livro escrito pelo missionário metodista Daniel Parish Kidder,249 e ficou impressionado com as experiências e os desafios relatados pelo missionário. No dia 10 de maio de 1855, o casal aportou na cidade do Rio de Janeiro, com a missão de estabelecer uma Igreja Protestante na capital brasileira. No entanto, o desencantamento com a situação sanitária, as epidemias e outras situações quase abortaram o projeto.

Diante deste contexto, o casal se mudou para Petrópolis. Nesta localidade Kalley iniciou o seu processo de inserção colaborando com as autoridades locais como médico e farmacêutico. No caso de Sarah Kalley “a precariedade do ensino religioso para as crianças em Petrópolis, estimulou-a a desenvolver de forma marginal ao projeto da educação pública, o seu ministério de Escola Dominical, e a música era a atração simbólica, pois os encontros eram chamados de ‘classes musicais”.250

Kalley foi acusado diversas vezes por exercer atividades consideradas ilegais. No entanto, “Sarah agia conscientemente, tomando decisões e correndo riscos, pois seu papel não era o de mera coadjuvante, mas sim parceira, líder também do projeto missionário dos dois”.251 Nesse período, o casal recebeu a visita inesperada do imperador D. Pedro II, mas Kalley não pode recebê-lo, pois estava adoentado. Coube então a Sarah Kalley estabelecer o diálogo com o imperador.

A visita do Imperador o D. Pedro II e o convite para Kalley apresentar-se à família Imperial no Palácio de Verão de Petrópolis, foram a chancela da aprovação do Imperador ao seu ministério e estada no Brasil. Por meio deste episódio o Protestantismo de missão obteve a autorização pessoal de D. Pedro II – abriram-se as portas do Brasil Império para as diversas denominações que depois chegariam.252

Devido a problemas de saúde, especialmente do esposo, o casal ausentou-se do Brasil algumas vezes, mas Sarah Kalley, mesmo à distância continuava acompanhando,

249 “Daniel Parish Kidder escreveu em seu livro sobre o Brasil em 10 de maio de 1845, dez anos antes de

Sarah e Kalley chegarem ao Brasil”. CARDOSO, Douglas Nassif. Sarah Kalley: missionária pioneira na

evangelização do Brasil. p. 123.

250 Id. Ibid. p. 147-8. 251 Id. Ibid. p. 168. 252 Id. Ibid. p. 173.

por meio de cartas, os alunos e alunas da Escola Dominical, deixando na direção deste trabalho mulheres como Carlota da Gama.253

O casal retornou para o Rio de Janeiro em 1864. Sarah Kalley também assumiu o trabalho de colportagem, e assim recebia os colpoltores que prestavam relatório das atividades realizadas, “desta forma, participava de todos os problemas da Igreja e supervisionava o trabalho de campo de seus presbíteros”.254 Sarah tinha autonomia no

exercício deste trabalho, e era muito exigente, pois mesmo à distância cobrava as informações, por exemplo, dizia que: “ainda não recebemos suas cartas no mês passado e provavelmente será preciso mandar-lhe esta, sem sabermos o que nos informam do Brasil. Oxalá que recebamos boas notícias de todos que amamos aí”.255 Provavelmente nesta atividade, devido a sua bagagem cultural e religiosa, e especialmente a sensibilidade com que tratava as diversas situações, ela se tornou conselheira de muitas pessoas.

Ainda nos surpreendemos com Sarah Kalley, pois num período em que a questão financeira era entendida como função exclusivamente do homem, há registros de que ela exerceu esta tarefa, como descreve Rocha, “inclusive a compra e envio de dinheiro ou das passagens para as viagens dos colportores era administrado pela missionária inglesa”.256

Quanto à pregação, Sarah Kalley não chegou a ocupar o púlpito devido ao seu entendimento sobre esta questão, ou seja, a sua formação cultural no que tange à mulher e o púlpito. No entanto escreveu vários sermões para o seu esposo, especialmente quando ele estava doente, neste caso outra pessoa era designada para proceder à leitura do mesmo durante os cultos, ela também preparava sermões para outros pastores.

Quanto à literatura, “Sarah também preparava textos que eram utilizados como folhetos evangelísticos, escrevendo-os ou traduzindo-os.”257 Sarah escreveu o livro; “A

alegria da casa,”258 e elaborou a edição brasileira de “Salmos e Hinos”, esta obra é bem conhecida não somente no contexto do protestantismo, mas também é considerada entre as obras da hinódia brasileira.

253 Sarah designou sua discípula predileta Carlota da Gama para assumir a classe de Escola Dominical

CARDOSO, Douglas Nassif. Sarah Kalley: missionária pioneira na evangelização do Brasil. p. 192.

254 Id. Ibid. p. 199. 255

ROCHA, J.G. Lembrança do Passado, Vol. III. p. 83. Ibidem. p. 201.

256 ROCHA, J.G. Manuscritos não editados. p. 524. Id. Ibid. p. 204. 257 ROCHA, J.G. Id. Ibid. p. 213

Quanto à obra “Alegria da Casa” que é pouco conhecida, possui 59 páginas e aborda temas relacionados à casa. O texto começa pela cozinha, dizendo ser este o lugar mais utilizado de toda a casa, pois a família se encontra constantemente para realizar as refeições. Esta questão nos faz recordar de uma temática muito atual, a comensalidade,259 comer e beber juntos, a convivência ao redor da mesa, espaço de socialização. Ainda sobre a cozinha, é importante ressaltar que Sarah preocupa-se em descrever os utensílios domésticos, como devem ser conservadas, as limpezas, o zelo, ela diz que “um lugar certo para cada cousa, e cada cousa no lugar certo”,260 e ainda

desafia as leitoras dizendo, que “não será, talvez, fora de propósito lembrar aqui, minhas leitoras, que o hábito de ordem exterior nos ajuda muito em adquirir hábitos de ordem no regulamento de nossas idéias, pensamentos e costumes”.261 A autora apresenta os passos que se deve ter no cuidado com os quartos, as salas, e o exterior da casa, todos com muitos detalhes. Ela orienta as mulheres não meramente nas questões consideradas domésticas, mas também como estruturar os pensamentos metodicamente, um aspecto recorrente ao longo do texto.

Kalley também alerta para cuidados com a saúde, como por exemplo, “quem deseja gozar de boa saúde nunca deixará ajuntar-se água em pequenos charcos perto de sua casa. A água estagnada é um verdadeiro foco de moléstias, e tem tanto de feio, como de pernicioso”.262 A autora também alerta para o cuidado com as despesas da casa, e o não desperdício especialmente de alimentos, o cuidado com o corpo, pois este deve ser considerado templo do Espírito Santo, além do zelo com o vestuário.

No que diz respeito ao tratamento para com os doentes, Kalley valoriza o trabalho exercido pelas enfermeiras, segundo ela, “uma boa enfermeira é tão necessária a um doente, como um médico perito; talvez possamos dizer que a enfermeira é mais indispensável do que o próprio médico”.263 Ela descreve detalhadamente os cuidados

que se deve ter com as pessoas enfermas, e condena o charlatanismo no tratamento de doenças psíquicas: “E se o charlatanismo, no tratamento de doenças psíquicas, produz resultados funestos, ainda mais indispensável é achar médico competente para tratar as doenças do espírito humano!”264 A autora aproveita esta metáfora para introduzir

259 Sobre a comensalidade posteriormente iremos aprofundar esta temática. 260 KALLEY, Sarah Poulton. op. cit. p. 7

261

Id. Ibid. p. 7.

262 Id. Ibid. p. 20. 263 Id. Ibid. p. 38. 264 Id. Ibid. p. 42.

explicitamente os objetivos religiosos, de resto subjacentes a toda à obra. Este médico, segundo ela, é Jesus Cristo.

Quanto aos filhos, ela recomenda primeiramente que os pais tratem de si mesmos, e posteriormente descreve o cuidado com o bem-estar da criança, a alimentação, a higiene, a educação e os hábitos que devem ser adquiridos, por exemplo, dormir em horas certas. Kalley recomenda não gritar com as crianças, pois “uma palavra suave fará calar mais depressa e melhor do que a gritaria, que é mais própria para assustar, que para aclamar qualquer criatura”.265 A autora apresenta uma breve reflexão sobre a obediência, e aproveita a oportunidade e enfatiza a obediência a Deus.

Quanto ao relacionamento entre marido e mulher, Kalley recomenda que nos momentos de irritação e queixas, em que o marido pensar consigo mesmo: “minha mulher deve compreender que eu a amo; quando não, não a teria desposado; amo-a, e sempre, sem dúvida alguma; todavia isso não é razão para lho estar a repetir cem vezes, pois não vale a pena dizer-se a mesma cousa a todas as horas (Sarah acrescenta dizendo) Meu amigo fica bem ciente de que não satisfaz ao seu coração somente o compreender que é assim amada; gosto, sobretudo de ouví-lo e de ver as provas do vosso amor”. Pressupõe-se que não sejam somente leitoras, mas também leitores tiveram acesso a este conteúdo. Sara apresenta-se aqui como conselheira de casais, destacando também textos bíblicos que dizem respeito ao relacionamento entre marido e mulher, no caso dela ser dedicada, submissa e alegre, sobre esta questão, Sarah certamente corresponde ao contexto em que está inserida.

Entretanto, Sarah colaborou na formação de diversas sociedades de mulheres, capacitando-as e incentivando-as diante dos desafios do cotidiano. Algumas de suas atividades desenvolvidas na Igreja Evangélica Fluminense – IEF266 como lecionar a homens, liderar os presbíteros da Igreja, estabelecer aulas noturnas para trabalhadores braçais. Como missionária pioneira enfrentava constantemente situações novas, que permitiam alterações nos papéis sociais tradicionais.267 Sarah certamente deixou marcas na história do protestantismo brasileiro, atuando não meramente como coadjuvante, mas como protagonista nesta história.

265

KALLEY, Sarah Poulton. op. cit. p. 45.

266 Para maiores esclarecimentos ver: www.strategicnetwork.org/pdf/kb17012.pdf. Acesso em 14 de

junho de 2008.